Minha semana começou tranquila, sem preocupações importantes. Meus pais aceitaram se mudar, e Manu estava muito bem, graças a Deus. Tirando a saúde do seu Geraldo, as coisas estavam bem.
Tomei meu café da manhã com Manu e passei um tempo brincando com ela até a hora de ir trabalhar. Eu adorava aqueles momentos tranquilos com minha sobrinha. Me divertia com ela, e meus sorrisos eram verdadeiros.
Deixei Manu com Tamires e fui trabalhar. O dia foi tranquilo, mas senti falta da Laura; já estava acostumada a vê-la todos os dias às três da tarde. Sinceramente, eu deveria ter saído com ela pelo menos uma vez. Não precisava virar algo sério, até porque acho que ela também não estava em busca disso. Mas eu poderia ter ficado com ela; teria sido interessante. Bom, perdi a chance e agora tudo parecia meio estranho depois da proposta dela. Já foi, não adiantava chorar sobre o leite derramado.
Os dias foram passando e a semana voou. No sábado à noite, Pedro apareceu e conversamos bastante. Ele aproveitou para matar as saudades da Manu, que, por sua vez, adorava brincar com o tio.
No domingo, ao sair para ver meus pais, Helena me parou na saída. Ela disse que Tânia e Rogério iriam visitar seu Geraldo e perguntou se eu poderia deixar Manu na casa para que eles passassem um tempo com ela. Expliquei a Helena que não poderia, já que não a levei para ver os avós no final de semana passado. Meus pais estavam com saudades da neta e pediram para eu levá-la. Não consegui negar um pedido deles. Helena concordou, disse que eu estava certa e deu um beijo em Manu antes de nos despedirmos.
Manu ficou na casa da Helena a semana inteira; se Tânia e Rogério quisessem vê-la, era só visitá-la. Eu não me importava, pois eles tratavam Manu muito bem e ela gostava deles.
Fui ver meus pais e tive novidades: aquela seria minha última visita a eles no sobradinho. Meu pai me contou que já havia três pessoas interessadas em comprar o lugar, e uma delas queria comprar com todas as mercadorias e móveis da mercearia. Se chegassem a um acordo, provavelmente o negócio seria fechado na próxima semana, e meus pais iriam se mudar. Ofereci ajuda para a mudança; era só avisar o dia que eu pediria folga à Helena.
Voltei para casa cansada, pois Manu se cansou de brincar na casa dos avós e dormiu no caminho. No ônibus, tudo bem, mas tive que carregá-la depois que desci. Não era longe, mas Manu já estava grandinha, e meus braços e coluna reclamaram.
Na segunda, tive uma surpresa ao chegar no trabalho: Tânia estava lá, de uniforme, atendendo mesas. Eu não entendia nada; por que Tânia estava ali? Ela se casou com o homem rico que sempre quis, e um dos motivos para o casamento era parar de trabalhar. Fui para o meu local, atrás do balcão, e tentei focar no trabalho, mas foi difícil. Ver Tânia ali era inesperado.
O mais estranho foi que ela ficou até fechar, e quando encerramos, Rogério a estava esperando para irem para casa. Aquela cena arrancou um sorriso meu; parece que algo havia dado errado nos planos de Tânia.
Fui buscar Manu e comentei com Tamires sobre o ocorrido. Tamires disse que foi a própria Tânia quem pediu à mãe dela para continuar trabalhando na padaria, e a mãe deixou, cheia de orgulho da filha. Porém, Tamires achou que tinha algo errado, pois Tânia estava muito boazinha com todos novamente, e ela sempre fica assim quando está armando algo. Perguntei se ela desconfiava de algo, e Tamires disse que a única coisa que lhe veio à cabeça era que Tânia queria algo, talvez eu. Comecei a rir e disse a Tamires que, mesmo se Tânia estivesse solteira, não teria interesse, e nem amizade eu queria, ainda mais casada com um cara homofóbico que não gosta de mim. Tamires me alertou para ficar esperta, pois algo estava acontecendo e poderia ter a ver comigo.
Peguei Manu e fui embora, pensando na conversa com Tamires. Se Tânia estava querendo se aproximar de mim novamente, ela iria se decepcionar. Eu não queria papo com ela, de preferência, queria distância, algo que seria difícil agora.
No dia seguinte, subi mais cedo, passei pela padaria e vi que Tânia estava lá novamente; parecia que ela realmente iria ser uma presença constante. Fui para o segundo andar, queria conversar um pouco com seu Geraldo e ver como ele estava. Já fazia dias que não falava com ele mais tempo. Eu o via quase todo dia ao buscar Manu, mas era uma conversa rápida. Ele é uma pessoa muito importante para mim, e eu precisava dar mais atenção a quem me ajudou tanto quando cheguei para morar ali.
Fiquei com ele durante um bom tempo. Seu Geraldo é incrível, e eu queria muito que ele ficasse bem logo. No início, não conversamos muito, já que Manu estava agitada e tomou toda a atenção do tio. Mas quando Tamires chegou, Manu foi atrás dela para o quarto, e então pude conversar melhor com seu Geraldo. Ele disse que estava se sentindo melhor e que os remédios estavam dando resultado. Saber disso me deixou feliz; a aparência dele estava melhor.
Saí dali animada; seu Geraldo estava melhorando, e isso era ótimo. Mas minha animação durou pouco. Ao entrar no trabalho, vi Tânia me encarando, e já fechei a cara, desviando o olhar. Será que Tamires tinha razão? Se fosse verdade, era muita cara de pau da parte de Tânia. Evitei olhar para ela o resto do dia e assim fiz durante o restante da semana. No sábado, Tânia só trabalhou até a hora que cheguei. Foi um alívio, mas logo Helena chegou e disse que Tânia queria passear com Manu e pediu minha autorização. Eu disse que tudo bem, que para mim não havia problema algum.
Quase me arrependi de ter autorizado quando vi Rogério parando o carro em frente à padaria e logo Tânia aparecendo ao seu lado com Manu. Sinceramente, não iria impedir que Manu tivesse contato com Tânia, mas não queria que ela ficasse com Rogério. Minha sobrinha estava crescendo, e eu tinha medo de que Rogério colocasse alguma ideia ruim na cabeça dela. Mas como já havia autorizado, não iria voltar atrás; mas seria a última vez se dependesse de mim.
Manu, com toda a sua inocência, veio se despedir de mim, animada para o passeio. Despedindo-me dela, não olhei para Tânia. Elas saíram e fui cuidar do meu trabalho. Porém, fiquei com isso na cabeça e depois iria conversar com Helena. Se Tânia quisesse brincar ou sair com ela, tudo bem, mas não queria minha sobrinha sozinha com os dois. Sinceramente, achava que Helena me entenderia e apoiaria essa decisão. Ninguém na casa era muito fã de Rogério; eles apenas o toleravam.
Como eu pensava, Helena disse que iria falar com Tânia e também não achava bom deixar Manu sozinha com os dois. Disse a Helena que ela podia contar o motivo pelo qual eu não queria Manu com os dois e que deixasse claro que meu problema não era com Tânia, mas sim com Rogério.
Tânia trouxe Manu no início da noite, e junto com elas, várias sacolas. Manu estava toda feliz, e ver minha sobrinha assim me fazia feliz também. Mas a decisão estava tomada e provavelmente Helena iria falar com Tânia. Fiquei no meu canto, e logo Tânia passou com uma cara de poucos amigos. Antes que ela olhasse para mim, virei de costas e fiz de conta que nem a vi. Provavelmente Rogério também acharia ruim, mas sinceramente, não ligava.
Após aquele sábado, Tânia nunca mais pediu para sair com Manu, mas ela e Rogério ainda tinham contato com minha sobrinha na casa da Helena. Isso eu nunca proibi, porque sabia que Tamires e Helena ficavam de olho quando Rogério estava lá. Quando era só Tânia, eu não me importava dela ficar perto ou sozinha com Manu. Algumas coisas não mudaram: Tânia sempre dava presentes ou guloseimas para Manu, que adorava, claro. Eu não achava ruim, mas os presentes começaram a passar do limite. Era muita coisa e coisas caras. Isso começou a me incomodar, mas resolvi deixar pra lá, já que minha sobrinha estava no lucro.
O tempo passou, e ainda achava estranho Tânia trabalhar na padaria. Os presentes e doces que ela dava a Manu não diminuíram, e todo sábado Rogério aparecia na hora do almoço, levando Tânia para a casa da mãe. Tamires dizia que tanto Rogério quanto Tânia passavam bastante tempo brincando com minha sobrinha, mas Tamires nunca saía de perto quando Rogério estava. Sabia que isso incomodava Tamires, que não gostava nem um pouco do cunhado. Porém, eu não podia fazer muito, já que tinha que trabalhar e não havia como cuidar de minha sobrinha. Até me desculpei com Tamires pela situação, mas ela disse que não havia problema é que eu podia contar com ela sempre.
Certa vez, já quase no fim do meu horário de trabalho, não havia nenhum cliente há alguns minutos, e Helena pediu para um dos funcionários fechar uma das portas de entrada. Eu já estava me preparando para sair quando vi Tamires entrando pela porta dos fundos. Ela estava toda arrumada, provavelmente para sair. Contudo, Manu não estava com ela, algo raro de acontecer. Tamires se aproximou e perguntou se eu já estava parando de trabalhar. Respondi que sim. Ela disse que iria ao cinema com algumas amigas do colégio e que Manu estava dormindo no quarto dela, que era só eu subir e pegar a menina ou pedir a Helena para buscar, se não quisesse dar de cara com Tânia e Rogério. Concordei que poderia ir buscar Manu.
Helena avisou que iria demorar um pouco para fechar o caixa e esperar os funcionários saírem. Se eu quisesse, poderia ir buscar Manu e ir para casa. Quase pedi para ela buscar Manu para mim, mas isso atrasaria ainda mais Helena. Resolvi que iria eu mesma buscá-la; seria rápido e talvez eu nem visse o casal.
Respirei fundo e subi as escadas até a área de entrada. Em vez de entrar pela copa, fui até a porta da cozinha. Tentei abrir e estava destrancada. Passei rapidamente pela cozinha e, ao chegar na sala, vi seu Geraldo cochilando no sofá, com a TV ligada, mas não reparei no que estava passando. Segui pelo corredor que levava aos quartos e torci para que Tânia e Rogério estivessem no antigo quarto dela ou na varanda da frente. Quando me aproximei do quarto de Tamires, percebi que a sorte não estava do meu lado. Ouvi vozes vindo do quarto de Tamires. Provavelmente, Tânia e Rogério estavam lá dentro.
Quando cheguei perto da porta, hesitei entre entrar ou esperar Helena para ela pegar Manu, que provavelmente ainda estava dormindo. Foi quando ouvi meu nome saindo da boca de Rogério. Não entendi o início, mas reconheci meu nome no final da frase. Fui me aproximando mais e comecei a ouvir a conversa deles.
Tânia— Eu já te falei, não adianta. Ela nem olha na minha cara e, quando olha, é com um olhar de raiva. Já te disse que brigamos feio; ela não quer papo comigo, nem adianta tentar.
Rogério— Mas você veio trabalhar para resolver isso. Não é certo deixar uma criança como a Manu ser criada por esse tipo de gente.
Tânia— Mas não adianta. Tentar me aproximar dela não vai dar certo. O que eu poderia fazer? Ela não tem contato com o caixa, nunca teve, e tem câmeras na padaria. Já te expliquei, é impossível forjar um roubo. Só se for dos produtos da padaria; mesmo assim, é quase impossível.
Rogério— Então vamos para o plano B. Tenho certeza que dá certo. Meu pai tem muito dinheiro e influência com a polícia; é só você fazer sua parte.
Tânia— Rogério, se isso der certo, ela vai ser presa. Isso já é demais e duvido que seu pai ajude você nisso.
Rogério— Meu pai adorou a Manu; você mesma viu. E eu não preciso contar toda a verdade para ele. Vou dizer que a tia dela é uma ex-favelada que está trazendo drogas da favela para usar dentro de casa com a Manu lá dentro. Tenho certeza de que meu pai ajudar. Com a ajuda dele, um mandado de busca é fácil de conseguir.
Tânia— Não sei, acho isso exagerado. Manu vai sofrer muito com isso, minha família também. Fora que Camila vai ser presa; não sei se consigo fazer isso.
Rogério— É o único jeito de conseguirmos a guarda dela. Quero muito criar essa menina como nossa filha. Com Camila presa e sua mãe ocupada com a saúde do seu pai, a gente consegue. Consigo os melhores advogados; se for preciso, uso o dinheiro que minha família tem. Meu pai vai apoiar. Não há como perder, mas primeiro temos que tirar Camila de cena.
Tânia— O que você está pedindo já é demais, amor. Mesmo eu querendo muito ter Manu com a gente, não sei se tenho coragem de fazer isso.
Rogério— Vou ser bem direto com você: se você quiser parar de ter que trabalhar aqui e quiser continuar casada comigo, fará o que eu mandar ou nosso casamento já era.
Tânia— Calma, também não é assim. Só me dá tempo para criar coragem.
Rogério— Você tem uma semana. Quando criar coragem e arrumar um jeito de chegar até a casa dela, me avisa que eu arrumo as drogas.
Tânia— Tudo bem, vou dar um jeito. Olha, ela acordou.
Eu estava tão cheia de raiva que meu primeiro pensamento foi entrar no quarto e xingar aqueles dois com tudo que eu sabia. Mas o choro de Manu me fez repensar. Afastei-me um pouco, respirei fundo e tentei me acalmar. Foi difícil, muito difícil, mas eu precisava me conter por causa da Manu. Não iria arrumar uma confusão ali na frente dela. Lembrei-me de seu Geraldo na sala. Realmente não era o momento para brigas. Notei que a voz de Rogério sumiu, mas ainda ouvia Tânia falando algo, provavelmente com Manu. Não podia ficar ali parada. Pensei em sair, mas não deixaria Manu com eles nem mais um minuto. Pedi ajuda a Deus e voltei para perto da porta, entrando no quarto. Manu estava sentada na cama e Tânia, ajoelhada ao lado, falava algo para ela. Fui direto até a cama, sem olhar para os lados, aproximei-me e pedi para Manu vir, já com os braços abertos. Manu levantou os olhos e, ao me ver, veio engatinhando até mim. Não olhei para Tânia; não sei se ela me olhou ou não. Peguei Manu nos braços, virei as costas e saí do quarto.
Desci as escadas e segui pelo lado de fora da padaria, saindo pelo portão e indo em direção à minha casa. Meu coração estava acelerado, minhas mãos tremiam de raiva. Acabara de descobrir que Rogério queria tirar minha sobrinha de mim, e até então, não tinha percebido o tamanho do problema que eu tinha pela frente.
Continua...
Criação; Forrest_Gump
Revisão; Whisper
