Capítulo 8 – Fred Conhece a Verdade e Inicia a Caçada
Parte 1 – A Investigação Reveladora e a Culpa
Helena conduziu Jonathan até um escritório discreto no centro de Brasília. O prédio, antigo e sem qualquer traço de ostentação, parecia escolhido justamente para não chamar atenção. No corredor estreito, o silêncio era quebrado apenas pelo ruído fraco do ar-condicionado e pelo eco dos passos dos dois sobre o piso frio. O aroma de café velho e papel arquivado impregnava o ambiente, típico de repartições públicas que operavam à margem dos holofotes. O zumbido de um reator de luz fluorescente no teto dava ao local uma atmosfera fria e pesada.
Antes mesmo que Jonathan pudesse sentar-se na cadeira de metal, Helena cruzou os braços e o encarou com um olhar firme, antecipando a pergunta que o rapaz faria.
Ela revelou que, pouco antes de encontrá-lo, recebera uma transmissão prioritária de Charlottenburg. Os supercomputadores da Força-Tarefa internacional na Alemanha haviam finalmente quebrado o vetor de inicialização da carga de dados enviada para Beatriz.
Eles haviam visto tudo: as fotos estáticas, os vídeos e a clonagem de áudio digital. Viram que os arquivos retratavam um suposto romance entre Fred e a própria Helena Costa, incluindo falas simuladas onde Fred afirmava textualmente que abandonaria a família inteira na América do Sul para viver com ela na Europa.
Por isso, a agente explicou que não ficou nem um pouco surpresa quando Jonathan apontou o dedo para ela e afirmou que ela era a mulher das fotos.
Jonathan, chocado, deu um passo à frente com a respiração suspensa:
— Se vocês quebraram a transmissão e sabiam o que o meu tio estava orquestrando, por que não impediram o recebimento desses arquivos? Por que não avisaram a minha mãe antes que esse lixo tecnológico destruísse o psicológico dela?
Helena sustentou o olhar dele, a rigidez operacional evidente em sua voz:
— Nós só conseguimos o acesso depois que Beatriz recebeu os arquivos e porque o plano do Renato foi totalmente analógico e offline no envio, Jonathan. Se nós interceptássemos o tráfego de dados para bloqueá-lo ou se fizéssemos um alerta precoce para a sua família sem expor as provas judiciais estruturadas, nós quebraríamos a segurança operacional. Renato saberia instantaneamente que estava sendo monitorado por uma agência federal. Isso colocaria a vida do seu pai no continente europeu e a segurança de todos vocês em perigo iminente perante as máfias que ele está tentando infiltrar no Grupo Alves. Nós precisávamos rastrear a origem da transmissão e capturar os hashes forenses sem disparar os alertas de paranoia do seu tio.
Jonathan apertou os olhos, apontando para as linhas de análise espectral do seu notebook:
— Tem uma coisa que o meu algoritmo indicou que não fecha, Helena. O 'Olho' detectou que a assinatura de ruído térmico e os metadados Exif de várias fotos suas ao lado do meu pai em eventos internacionais na Europa não são falsificados. Elas são autênticas. Como você explica o fato de estar fisicamente tão perto dele nessas viagens?
Helena descruzou os braços, respirando fundo antes de soltar a verdade de campo:
— Porque aquelas fotografias específicas são reais, Jonathan. Eu me fazia passar por uma consultora sênior de logística de mercado para monitorar discretamente a retaguarda do seu pai em algumas daquelas viagens internacionais de alta periculosidade. O Renato, investigando os passos do irmão no exterior, acabou me localizando nesses mesmos saguões e eventos de tecnologia. Achando que eu era apenas uma executiva influente do setor, ele tentou se aproximar de mim, me convidando para sair algumas vezes para colher informações corporativas. Eu recusei, mas foi exatamente nesses encontros que o profissional de campo que ele contratou conseguiu capturar as gravações brutas da minha voz, o contorno do meu rosto e a minha biometria corporal. Foi esse material real que o fraudador usou como banco de dados limpo para alimentar a IA e criar os vídeos e áudios falsos.
— Que lugar é esse? — perguntou Jonathan, olhando para as portas numeradas e para as placas genéricas de consultoria.
Helena não respondeu de imediato. Abriu a última porta do corredor, esperou que ele entrasse e a trancou por dentro. O espaço parecia, à primeira vista, um escritório comum: mesa de madeira, duas poltronas, uma estante de livros jurídicos e uma cafeteira ao fundo. Mas Helena tocou um ponto específico na lateral da estante, e uma parte do móvel deslizou, revelando monitores, equipamentos de escuta, arquivos lacrados, mapas, fotografias e uma linha do tempo presa a um painel.
Jonathan deu um passo para trás.
— Isso definitivamente não é só consultoria.
— Não — respondeu Helena. — É onde eu guardo o que não pode existir oficialmente.
Enquanto Jonathan preparava seu notebook para rodar o algoritmo 'Olho' e cruzar os dados de Gustavo Nogueira com o espelhamento da PF, a cena se dividia em um paralelismo tenso com a residência no Lago Sul.
Minutos antes de sair com Helena, Jonathan entrara rapidamente na biblioteca da casa e avisara Beatriz com um tom de voz controlado:
— Mãe, eu preciso dar uma saída rápida para resolver uma pendência da faculdade sobre a validação daquele código. Volto logo. Por favor, fique bem.
Beatriz apenas assentira de forma mecânica, com o olhar perdido nas próprias mãos.
Logo após a saída do filho, Cláudia, que presenciara a revelação da armação da qual Beatriz foi vítima, foi puxada por ela para uma outra sala, mais íntima, trancando a porta de madeira maciça.
O impacto das revelações de Jonathan de que os arquivos digitais eram falsificações quase perfeitas por IA gerou um curto-circuito em sua mente. Ela desabou no sofá, iniciando um desabafo que misturava lucidez tardia e uma culpa corrosiva. As mãos de Beatriz tremiam tanto que ela mal conseguia segurar o próprio rosto.
— As imagens eram falsas, Cláudia... Meu filho provou matematicamente — começou Beatriz, as lágrimas escorrendo sem o controle de antes.
— Mas o estrago que tudo que eu vinha sofrendo causou no meu psicológico foi real. Eu me lembro perfeitamente de como eu estava me sentindo naquela semana... As ausências constantes do Fred para o exterior e aquela recusa maldita dele em me responder de maneira direta, em abrir o jogo sobre o que realmente fazia nessas viagens, foram minando as minhas defesas dia a dia. As conversas com Renato, quase diárias... agora vejo claramente. Eu achava que era por conta da inveja dele, da ambição em crescer na empresa, mas não. Ele vinha alimentando as minhas inseguranças, meus medos... Quem teria enviado essas fotos, Cláudia? Quem teria interesse em destruir a minha vida dessa forma? Será que foi o próprio Renato quem mandou esse lixo para o Fred no dia seguinte? Ele sabia de tudo, ele estava na empresa o tempo todo... Ele alimentou minhas dúvidas para me empurrar para o abismo, e agora essas fotos aparecem. Os motivos dele... meu Deus, se foi ele, ele queria me isolar? Acabar com meu casamento? Queria o meu lugar e do Fred na empresa?
Cláudia tentou intervir, visivelmente tensa por ter ajudado a trazer Rafael de volta, mas sem fazer a menor ideia de que Renato estava fabricando mídias falsas. Beatriz levantou a mão, a voz embargada:
— Não, ouça! O Renato foi cirúrgico. Agora eu vejo que ele deve ter planejado tudo com detalhes. Cada palavra que ele dizia na empresa sobre a dispersão geográfica do Fred, cada insinuação disfarçada de apoio familiar funcionou como um veneno na minha mente. E então, no pior momento de isolamento emocional, ele viu que ele não teria chance comigo e injetou o Rafael no circuito. O Rafael foi o meu grande amor do passado, a minha primeira ancoragem afetiva forte antes de construir a minha vida com o Fred. Eu estava completamente vulnerável, Cláudia. Eu não estava plenamente consciente do que estava fazendo... aqueles áudios simulados do Fred dizendo que ia me descartar, que ia me abandonar para sempre na Europa com outra mulher, quebraram o resto do meu equilíbrio estrutural.
Beatriz cobriu o rosto com as mãos, soluçando alto, enquanto, longe dali, o terminal de Jonathan estava cruzando os dados de Gustavo no escritório de Helena.
De volta à sala, Beatriz continuou com os olhos vermelhos fixos na amiga:
— E o pior de tudo é o peso do que aconteceu naquele hotel. Eu me recordo com uma clareza dolorosa de quase tudo... durante o sexo com o Rafael, a minha mente não parava de fazer comparações. Eu comparava o Fred com o Rafael em todos os sentidos possíveis, na pegada, no toque, na presença. E, no meio daquela intimidade forçada pela raiva, pela mentira em que fui levada a acreditar, eu me questionava o tempo todo do porquê de estar fazendo aquilo. Eu chorava na cama, Cláudia! Um choro compulsivo que o Rafael, a princípio, não percebeu o real motivo. Ele achou que era a intensidade do momento ou o prazer da nossa nostalgia, mas a verdade era a vergonha... a vergonha devastadora de estar ali com ele sabendo que o meu corpo pertencia ao Fred. No final, eu simplesmente apaguei. Não tinha forças para ir para casa.
Cláudia, com as mãos trêmulas, tentou consolá-la:
— Beatriz, o Rafael me ligou... eu te disse que ele está profundamente arrependido. Ele se sentiu usado pelo destino e pela situação, ele sabe que você foi empurrada para aquele quarto.
— Eu sei, agora, que fui manipulada — concluiu Beatriz, a voz agora caindo em um tom de aceitação sombria. — Mas a escolha final de entrar naquele quarto foi minha. Eu assumo a minha parcela de culpa na destruição do meu casamento. Eu vou entender perfeitamente se o Fred jamais vier a me perdoar quando descobrir toda a verdade sobre o que aconteceu com Rafael. Ele tem todo o direito de me odiar, de não confiar mais em mim. Mas eu juro por Deus, Cláudia... eu vou tentar de tudo, vou lutar com todas as forças que me restam para conseguir o perdão do único homem que eu realmente amo nesta vida.
Longe dali, Helena sentou-se à mesa, diante de Jonathan, com um olhar sério. Jonathan percebeu que a postura dela havia mudado. A mulher elegante e controlada que conhecera dera lugar à agente experiente, precisa, quase cirúrgica.
— Há meses venho investigando Renato — começou ela — devido aos contatos frequentes dele com pessoas presentes em listas da Polícia Federal e da Interpol.
Jonathan franziu o cenho.
— E o que isso tem a ver com as imagens que minha mãe recebeu?
Helena abriu uma pasta vermelha e espalhou algumas fotografias sobre a mesa.
— Tudo. Durante essas investigações, Renato demonstrou um interesse crescente e incomum por manipulação de imagens e áudios com uso de inteligência artificial. No início, não havia crime para justificar uma medida mais invasiva. Mas havia indícios claros de atos preparatórios.
— Preparatórios para quê?
— No início, não sabíamos para que, mas depois deduzimos e obtivemos provas de que era para destruir seu pai sem encostar nele.
A frase ficou suspensa entre os dois. Jonathan engoliu em seco. Ele passou as mãos pelos cabelos, tentando organizar a raiva.
— Minha mãe chorou por causa dessas imagens.
— Eu sei.
— Meu pai deve ter se sentido traído.
— Jonathan... seu pai foi atingido exatamente onde Renato sabia que doeria mais.
Helena continuou:
— As investigações mostraram também uma obsessão estranha de Renato por Fred. Ele monitorava as viagens, os contatos, os contratos internacionais, a rotina familiar. Não havia ainda um crime consumado, mas havia comportamento de preparação. E foi isso que me preocupou.
— Você achou que meu pai estava em risco?
— Ele e toda a sua família. Por isso, usando o fato de Renato manter contato com pessoas investigadas no Brasil e no exterior, pedi autorização judicial para quebrar os sigilos telefônico e telemático dele.
Jonathan ficou imóvel.
— E conseguiram?
— Conseguimos.
Helena acionou um dos monitores. As linhas gráficas geradas pelas interceptações revelavam os saltos de IP periféricos usados no processamento.
— A partir daí, passamos a ouvir as conversas dele com especialistas em adulteração de imagens, operadores financeiros, traficantes internacionais e pessoas ligadas a esquemas de lavagem de dinheiro. Foi quando entendemos o plano. Só que depois ele entrou em uma paranoia e passou a se precaver no envio de e-mails e contatos telefônicos, mas já sabíamos para quem ele ligava e quando ele fazia ligações de outras linhas que não a dele, pegávamos o contato pela outra ponta da conversa, cujos números já estavam vinculados à escuta.
Jonathan apertou os punhos.
— Que plano dele?
Helena respirou fundo.
— Primeiro, afastar Fred de Beatriz. Fazer sua mãe acreditar que havia sido traída. Usar a dor dela, a carência, a sensação de abandono, para tentar se aproximar. Se ela aceitasse Renato, ele teria Beatriz. Se não aceitasse, pelo menos imaginava que conseguiria atacar Fred emocionalmente, desestabilizar a família e criar condições para assumir mais espaço dentro da empresa.
— E a empresa?
— Era a segunda parte. Renato pretendia usar os contratos internacionais fechados por Fred para transportar entorpecentes e armas para países da Europa. Depois, lavaria o dinheiro por meio do Grupo Alves.
Jonathan levou as mãos aos cabelos.
— Meu Deus...
— Não acabou.
Helena abriu outro arquivo.
— Descobrimos também que foi Renato quem produziu e enviou as imagens recebidas por Beatriz. Ele forçou o encontro entre Beatriz e Rafael. Ao que parece incentivou Rafael a assediá-la, colocou uma pessoa para seguir sua mãe e Rafael até o restaurante, depois até o hotel. Na manhã seguinte, foi informado por essa pessoa sobre a chegada de Beatriz e Fred em casa. Foi então que enviou as mensagens para seu pai.
Jonathan ficou pálido.
— Ele estudou minha família como se fosse um alvo.
— Foi exatamente isso que ele fez.
Helena colocou um áudio para tocar. A voz de Renato ecoou pela sala, fria, medida, quase satisfeita.
— “Eu não preciso que ela me ame agora. Preciso que deixe de confiar nele. Depois, o resto acontece.”
Jonathan fechou os olhos.
— Toca de novo.
— Tem certeza?
— Eu preciso ouvir.
Helena repetiu o áudio. Dessa vez, Jonathan prestou atenção não apenas nas palavras, mas no prazer contido na voz do tio.
— Filho da puta...
Helena abriu uma nova transcrição.
— Há outro trecho.
A voz de Renato surgiu novamente:
— “Fred sempre teve tudo. A empresa, o respeito e admiração de todos, Beatriz. Mas ninguém segura tudo para sempre. Quando ele desmoronar, eu entro.”
Jonathan se levantou, incapaz de permanecer sentado. A cadeira raspou seca contra o piso industrial de alta resistência.
— Meu pai precisa saber.
— Vai saber. Hoje. – Ela disse.
Ele encarou Helena.
— Por que me trouxe aqui?
Ela hesitou por um segundo. Sabia que Fred não concordaria com aquilo, mas preferia se precaver.
— Porque você descobriu parte da verdade antes de todos. Porque seu programa confirmou a adulteração dos arquivos. E porque, neste momento, você pode ser útil para localizar Renato se ele tentar agir contra sua mãe e ainda estar ciente para poder protegê-la.
Jonathan estreitou os olhos.
— Você acha que ele vai tentar alguma coisa?
Helena não desviou o olhar.
— Acho que Renato está encurralado. E pessoas encurraladas deixam de agir com lógica.
Ela abriu uma gaveta e retirou um pequeno chaveiro.
— Isto tem um gps, como um Airtag. Um localizador discreto.
Jonathan pegou o objeto.
— Quer que eu volte para casa com isso?
— Sim. Vá para casa como se nada tivesse acontecido. Se Renato tentar se aproximar de Beatriz, nós saberemos onde você está.
— E se ele já estiver lá?
Helena sustentou o olhar dele.
— Então não tente bancar o herói. Ganhe tempo. Só isso. Fred será avisado. A Polícia Federal estará acompanhando seus movimentos.
Jonathan prendeu o chaveiro no bolso da calça.
— Se ele encostar na minha mãe...
— Jonathan.
A voz de Helena ficou dura.
— Sua função é sobreviver. E ajudar Beatriz a sobreviver. O resto é conosco.
Ele assentiu, embora a raiva em seu rosto dissesse outra coisa.
— Então vamos acabar com isso.
Parte 2 – O Relatório e o Choque de Fred
Enquanto isso, Fred chegou à superintendência da Polícia Federal em Brasília com o rosto cansado, mas determinado.
A mensagem de Mauro fora curta: “Venha agora. Assunto familiar. Urgente.”
O imponente edifício da Polícia Federal, no Setor Policial Sul, operava sob uma calmaria tensa àquela hora da tarde. No teto do corredor restrito, as lâmpadas fluorescentes emitiam um zumbido eletrônico constante e uma luz estéril, que banhava o piso de granito cinza e dava ao ambiente uma atmosfera fria, quase cirúrgica.
Fred não fizera perguntas por telefone.
Aprendera, ao longo dos anos, que algumas urgências não deviam ser explicadas em linha aberta.
Mauro o esperava no corredor reservado.
O semblante do amigo denunciava que alguma coisa grave já havia acontecido antes mesmo de qualquer palavra. Os nós dos dedos de Mauro estavam brancos enquanto ele segurava um copo plástico de café amassado, e o ritmo travado de sua mandíbula indicava que o limite operacional havia sido cruzado.
— Helena saiu — disse Mauro.
Fred franziu o cenho. Seus olhos castanhos, acostumados a ler ameaças em frações de segundo, fixaram-se no parceiro.
— Saiu para onde?
— Com Jonathan.
O nome do filho atravessou Fred como uma lâmina. A postura dele enrijeceu instantaneamente, os instintos de proteção obliterando o cansaço do voo.
— Jonathan? O que ela está fazendo com o meu filho?
— Ela vai te explicar. Antes, você precisa ver uma coisa.
Mauro o conduziu até a mesa de Helena. Sobre ela havia uma pasta grossa, lacrada, com um post-it amarelo colado na capa. As letras garrafais pareciam quase uma ordem:
“ENTREGAR PARA O FRED. URGENTE!”
Mauro pegou a pasta e entregou ao amigo.
— Helena está há meses montando esse relatório.
Fred rompeu o lacre.
O som do plástico e do papel rasgando ecoou alto na sala silenciosa, quebrando a quietude artificial do departamento como um aviso de estalo.
A primeira página trazia um resumo executivo.
A segunda, uma linha do tempo.
A terceira, transcrições de áudio.
Depois vieram imagens, mensagens, registros telefônicos, nomes, datas, pagamentos e relatórios técnicos.
Ele leu em silêncio.
A cada página, a expressão dele mudava menos, mas o corpo parecia perder calor. Seu olhar escaneou minuciosamente os dados analíticos: os metadados Exif forjados por Gustavo, os carimbos de data e hora que batiam com suas próprias missões e as planilhas financeiras secretas obtidas por quebra de sigilo.
Renato.
As imagens falsas.
Beatriz fotografada.
Jonathan analisando os arquivos.
Mensagens anônimas.
Manipulação por IA.
Operadores financeiros.
Políticos corruptos.
Traficantes internacionais.
Plano para afastá-lo de Beatriz.
Plano para tomar a empresa.
Plano para usar os contratos da Alves Participações no transporte de drogas e armas para a Europa.
Fred abriu um áudio.
A voz de Renato ecoou no ambiente.
— “Fred sempre teve tudo. A empresa, o respeito, Beatriz. Mas ninguém segura tudo para sempre.”
Fred fechou os olhos. O maxilar travou com tanta força que os músculos da face desenharam uma linha rígida sob a pele.
O áudio continuou:
— “Se ela acreditar que foi traída, ele desmorona. E quando Fred desmoronar, eu entro.”
A pasta escorregou parcialmente de suas mãos.
De repente, perdeu a força nas pernas. Mauro o segurou antes que caísse.
— Respira, Fred.
Fred apoiou a mão na mesa, mas não conseguia falar. O ar parecia ter se transformado em chumbo dentro de seus pulmões. A dor de descobrir que a destruição de sua casa fora projetada pelo próprio sangue subiu por sua espinha.
Mauro, com a mandíbula travada, disse baixo:
— Descobriu quem é o filho da puta, né? Sei que é seu parente, mas eu encheria ele de porrada e, se bobear, encheria a cara dele de tiros.
Fred assentiu, sem forças para responder.
O ódio começou a crescer em seu peito.
Não era apenas raiva.
Era uma sensação física, densa, escura, subindo pelo corpo com a precisão de uma febre.
Ele voltou aos áudios.
Renato confessava em fragmentos que havia armado tudo para destruir o casamento de Fred, afastá-lo de Beatriz e criar espaço para assumir o comando da empresa. Em outro trecho, falava com um dos especialistas em adulteração digital:
— “Não precisa ser perfeito para o mundo inteiro. Precisa ser perfeito para uma mulher ferida.”
Fred apertou tanto a folha que o papel amassou entre seus dedos.
O som do papel sendo esmagado quebrou o silêncio fúnebre da mesa. O choque do agente dava lugar à frieza cirúrgica de um homem que entrava em modo de caça.
Mauro observou o amigo. Conhecia Fred havia anos. Já o vira em operações arriscadas, em confrontos, em situações de morte iminente. Mas nunca o vira daquele jeito.
A dor de Fred era silenciosa demais.
E isso o tornava mais perigoso.
— Fred...
Ele ergueu os olhos. O cansaço desaparecera completamente, substituído por um foco gélido, letal.
— Ele tocou na minha família.
— Sim.
— Fez Beatriz sofrer. Criou uma situação para ela me trair.
— Sim.
— Colocou em risco o meu filho.
Mauro não respondeu.
Fred recolheu as folhas da pasta com uma calma assustadora.
— Onde está Helena agora?
— Monitorando Jonathan. Ela colocou um localizador nele antes de mandá-lo para casa.
Fred ficou imóvel.
— Mandou meu filho para casa?
— Como isca controlada, Fred. Ele teria que voltar para casa de qualquer forma. Ela tinha equipe acompanhando.
O telefone de Mauro vibrou sobre a mesa. O sinal sonoro cortou o ambiente como uma descarga elétrica.
Ele leu a mensagem.
Sua expressão mudou.
— Temos movimento.
Fred deu um passo à frente. Seu corpo inclinou-se na direção de Mauro, cada músculo tencionado para o combate.
— O quê?
— Jonathan chegou em casa. O sinal parou por alguns minutos. Depois voltou a se deslocar.
Fred sentiu o sangue gelar.
— Beatriz?
Mauro não respondeu de imediato.
Outra mensagem chegou. O visor do celular refletiu nos olhos de Mauro, que se arregalaram.
— Helena está pedindo reforço. Suspeita de sequestro.
Fred fechou a pasta. O estrondo do arquivo batendo contra a madeira da mesa soou definitivo, como o engatilhamento de um fuzil.
Quando falou, sua voz parecia não conter mais nenhuma hesitação.
— Me leva até lá.
— Fred, a operação é da Polícia Federal. Sei que você é um agente, mas sua “designação” é específica.
Fred encarou Mauro. Havia em seu olhar uma autoridade operacional tão esmagadora que nenhum regulamento ou burocracia institucional seria capaz de frear.
— É minha família. Não ouse tentar me impedir!
Mauro sustentou o olhar dele por um segundo. Pensou nas consequências legais da participação de Fred na operação.
Olhou para o distintivo preso ao cinto, respirou fundo e tomou sua decisão de campo.
Depois pegou a arma e o rádio.
— Foda-se! Vamos salvar sua família!