A expressão sempre racional de Chuck foi substituída por uma genuína demonstração de surpresa. Um silêncio se instalou no corredor do apartamento de forma imediata e absoluta. Chuck ficou parado, a mão ainda na maçaneta, o corpo inteiro imóvel. Atrás dele, sobre uma caixa na mesa de centro, Wilson parecia olhar na direção da porta, como se também tivesse ouvido:
Jerry não ofereceu mais nada. Apenas ficou ali, de pé, esperando que o outro homem digerisse a informação que acabara de mudar o peso de tudo outra vez.
Chuck abriu a boca. Fechou. Depois conseguiu apenas dizer:
- É melhor você entrar. Acho que temos que conversar novamente.
[CONTINUANDO]
- Não! O que eu tinha para te falar, eu já falei. Ainda continuo achando que a melhor forma de eu continuar com a Kelly seja você sumindo, mas isso não seria justo com você se você for o pai daquele bebê.
- Mas... como eu posso sumir se eu posso ser o pai dele?
- Não sei. Só sei que se você não tivesse voltado, ou não tivesse transado com ela, nada disso estaria acontecendo.
Chuck o observou em silêncio por um instante. Estava confuso, muito mais do que antes. Jerry também o olhava, mas logo desviou o olhar e se preparou para sair:
- Bem, é isso. Vou indo então.
- Jerry, a Kelly sabe que você veio me procurar?
- Não. Foi uma decisão minha.
- Cara, olha só... Vocês parecem ter um problema sério de comunicação. Primeiro, ela me procura sem você saber. Agora, você faz o mesmo. Tudo bem que se eu não tivesse voltado, nada disso estaria acontecendo. Mas vocês precisam se entender...
- Nosso casamento é um problema nosso, Chuck. Não te dou o direito de opinar sobre.
- Ok. Desculpa. Mas você entende que eu terei que procurá-la, não é? Preciso entender como participar desse momento sem prejudicá-los ainda mais.
- Faça o que acha que tem que fazer. Eu fiz o que achei que eu tinha que fazer.
Jerry então fez um rápido meneio de cabeça, se virou e saiu, deixando Chuck para trás com mais dúvidas do que respostas. Assim que fechou a porta, encarou Wilson sobre a mesa e falou:
- Um filho, Wilson, ou filha, não sei ainda. – Deu um sorriso bobo para ninguém: - Eu vou ser pai! Já imaginou isso? Eu, pai de um filho, ou filha, e com a Kelly!
A felicidade foi tanta que ele deu dois ou três pulos de felicidade. A movimentação no piso do apartamento fez a mesa balançar e Wilson rolou, até cair ao chão, chamando a atenção de Chuck:
- Espera aí, amigo. Volta aqui. A conversa de hoje será longa.
Mas Wilson não esperou. Rolou... Rolou... Rolou... até desaparecer no corredor em direção aos quartos. Chuck ainda com o sorriso bobo no rosto continuou olhando o paradeiro de seu “falso amigo”:
- Sacana! Pensei que fôssemos comemorar...
Enquanto isso, Jerry já havia entrado em seu carro e se dirigia para sua casa, ainda sem saber se havia feito a coisa certa. Na sua concepção, honestidade era primordial e Chuck merecia saber. Mas também havia uma motivação menos nobre, afinal, se Chuck havia causado aquele tumulto em sua vida, era justo que ele participação da decepção caso não fosse o pai. E esse pensamento o desagradou, pois não era algo de que ele pudesse se orgulhar.
Meia hora depois, Jerry estacionava na garagem de sua casa. Desligou o carro e ficou observando o portão automático se fechar atrás de si. Ali, dentro da garagem escura, recostou a cabeça no encosto do banco e deixou duas lágrimas descerem. “Eu tenho que ser o pai. Tem que ser eu.”, pensou enquanto enxugava o rosto. Respirou fundo e entrou em casa, disposto a ter uma conversa com Kelly.
Mas novamente o destino conspirava contra. Na sala, Katie e mais 5 amigas faziam um campeonato de desenhos, orientadas por uma sorridente Kelly. Jerry lamentou, mas também se alegrou com as risadas estridentes. Kelly viu o marido parado a poucos passos, observando, e sorriu para ele. Mas ele não sorriu para ela:
- Muito bem... Vão desenhando que eu já volto.
Ela se levantou e foi na direção de Jerry. Ele estava sério, muito mais do que o normal. De imediato, ela entendeu que algo estava havia acontecido e o puxou pelo braço até a bancada que separava a cozinha da sala, cochichando:
- O que acontece, Jerry?
- Nada. Eu... – Ele respirou fundo e olhou rapidamente para as crianças: - Melhor conversarmos depois.
- Amor... – Ela segurou a sua mão: - Fala comigo.
- Depois.
- Jerry, você está vermelho, nervoso... Fala comigo.
Ele suspirou profundamente, de olhos fechados, reunindo forças, criando coragens, enfim, preparando-se para mais uma tormenta anunciada:
- Fui ver o Chuck... – Ele abriu os olhos e viu que ela o encarava, de olhos arregalados: - E contei que você está grávida.
- Você o quê!? – Kelly elevou o tom de voz, mas se controlou em seguida: - Por que fez isso?
- E falei que há uma chance dele ser o pai...
Kelly ficou branca, e boquiaberta. Por segundos, que mais pareceram séculos, ficou em silêncio, apenas encarando o marido. Então, continuou:
- Por quê?
- Porque eu não sei se consigo ser pai de um filho dele. – Chuck se esforçou para falar baixo, quase mordendo as palavras enquanto saíam de sua boca: - E se for dele, ele tem o direito de saber. É o certo, Kelly.
- Meu Deus! E... E agora? Como vai ser?
- Não sei. Só sei que fiz. O que é uma chaga a mais para um leproso? Já estamos todos fodidos mesmo!...
- Mas... Mas...
Jerry, dessa vez, não ouviu. Apenas a deixou ali com suas palavras e pensamentos, e um grupo de meninas que gritavam alheias ao tormento dos adultos. Ele foi até a suíte e se trancou no banheiro, entrando embaixo da ducha e deixando que uma água gelada caísse sobre suas costas. Ficou ali, por minutos, muitos, apenas existindo, sobrevivendo.
Na área social, Kelly observava as meninas, enquanto refletia no que fazer. Certamente Chuck a procuraria, e cobraria respostas a perguntas que ela ainda não tinha. Ela, como mulher, sabia que o filho era de Jerry, só não tinha como provar. Ainda.
Ela voltou a se sentar com as meninas, mas sua inspiração foi embora. Apenas ficou, fingiu brincar, interagiu minimamente até a hora em que os pais das colegas de Katie vieram busca-las. Depois, fingiu agir normalmente, preparando o jantar, dando banho na filha, jantando em família com ela e Jerry. Ele falava quase nada, apenas o mínimo e praticamente só com a filha. Ela havia se calado.
Quando Katie dormiu, ela voltou a pressionar o marido:
- Não entendo o porquê fez isso?
- Eu já expliquei, ele pode ser o pai do bebê.
- Mas e daí!? Você também pode ser o pai?
- Sim! E torço por isso! Mas e seu não for? Kelly, eu não sei se consigo criar o filho de outro. Ainda mais sendo dele, uma lembrança dele, um lembrança do que ele e você fizeram comigo.
- Você nunca vai me perdoar, não é?
- Não sei. Talvez um dia. Hoje, eu tento. Talvez um dia, eu consiga de fato.
Deitaram juntos. Era quase um protocolo imposto pela terapeuta. Dizia ela que servia para não tornar o abismo ainda maior. Eles se esforçavam, faziam, relutantemente. Dormir, entretanto, dependia de outros fatores e ali, naquele momento, parecia que nenhum deles os tinha presentes. Cada um deles, a seu modo, tentou dormir, mas falhou. Foi uma noite longa, longuíssima...
No dia seguinte, o mesmo de sempre. Jerry se arrumou, ajudou a filha, tomaram café e ele saiu para o trabalho, com a pequena a tiracolo a caminho da escola. Kelly se despediu dela com um beijo carinho e dele com outro, mas meio reticente. A vida tinha que continuar.
Chuck também não teve uma noite boa. Pouco ou nada dormiu. A única conclusão que conseguiu chegar é que precisava conversar com Kelly sobre a revelação que Jerry havia feito no dia anterior.
E foi isso que ele fez.
Já de manhã, ficou estacionado a carros de distância da casa de Kelly, aguardando ansiosamente a saída de Jerry para mais um dia de trabalho. Só não contava que ele fosse fazer um caminho diferente e passar ao seu lado. E ele viu que Jerry notou a presença de seu Jeep, passando devagar ao seu lado. Chuck não tinha como se esconder, ou talvez não quisesse, e ambos os homens se entreolharam por um instante, fazendo um discreto meneio de cabeça como se dissessem: é agora.
Enquanto Chuck tomava coragem, Kelly arrumava a bancada, pegando a louça e os talheres para lavar na pia próxima. Houve paz por minutos, talvez uns 10, talvez menos.
Então, a campainha tocou.
Ela depositou uma xícara dentro da pia e apoiou as mãos no mármore frio. Ela não precisava atender a porta para saber quem estava ali. Olhou para o teto. Fechou os olhos. Suspirou... uma... duas vezes. Uma lágrima quis se formar, mas ela piscou rapidamente. Enxugou as mãos num pano próximo e ouviu a campainha tocar novamente.
Foi até a porta e a abriu.
Chuck estava lá. Vestia-se como sempre. Um sapato social preto lustrado, calça social azul marinho, uma camisa social de mangas curtas, um colete e o penteado curto. Kelly usava apenas um conjunto de moletom, os cabelos amarrados de qualquer jeito. A única coincidência entre eles eram as olheiras profundas de ambos:
- Oi, Kelly. Como tem passado? Eu... não queria ter vindo assim, mas...
Ela nem se deu ao trabalho de ouvir o resto. Apenas fez um movimento com o corpo para o lado, dando passagem para ele. Chuck entrou. Kelly fechou a porta e seguiu até o sofá, sentando-se, apoiando os cotovelos nos joelhos e escondendo o rosto nas mãos. Chuck se aproximou e se sentou também, mas numa poltrona de frente para ela. Não era hora para contatos físicos, mas para explicações, e de olho no olho:
- Jerry me procurou ontem...
- Eu sei. – Disse ela, o interrompendo: - Ele me contou quando chegou em casa.
- Então... é verdade. Você está mesmo grávida, esperando um filho meu... – Concluiu Chuck, forçando um meio sorriso ao final da frase.
Kelly tirou o rosto das mãos. Os olhos estavam vermelhos, mas secos. A voz saiu baixa, cansada:
- Estou grávida... Isso é um fato. Mas não sei se o filho é seu. Ainda não...
Chuck assentiu devagar, como quem confirma uma sentença que já esperava e olhou para as próprias mãos, vendo os dedos entrelaçados com força demais:
- Eu estava me preparando para ir embora. Já tenho tudo encaixotado, transferência, novo apartamento, tudo... Eu ia sumir de verdade dessa vez. Ia deixar vocês em paz, finalmente.
- Eu sei. Eu soube...
- Soube?
- Soube.
- E agora?
A pergunta ficou no ar. Kelly não sabia o que responder. Chuck, idem. Quando falou, a voz saiu rouca:
- Bem... Eu fiquei acordado a noite inteira. Uma hora eu estava feliz, idiota de feliz, sonhando que talvez… talvez eu... – Ele sorriu sarcasticamente para si mesmo: - E justo com você! Mas depois vinha a outra parte, a que lembra que você é casada, que tem uma filha, que escolheu o Jerry.
Kelly desviou o olhar para a janela. Lá fora, a rua estava quieta, sem movimento algum:
- Eu não sei o que fazer com você agora, Chuck. Eu tinha colocado na minha cabeça que iria esperar até poder fazer o exame de DNA e só então, dependendo do resultado, contar para você. Mas o Jerry, ele...
- Eu... entendo. Só que agora eu também não sei se consigo sumir, sabendo que esse filho, ou filha, pode ser meu. Aliás, você já sabe o sexo?
Kelly se surpreendeu com a pergunta e riu da ingenuidade dele:
- Claro que não, Chuck! Ele é muito novo. Nem barriga eu tenho ainda.
E ela fechou os olhos por um segundo, passando a mão na testa:
- Mas eu tenho certeza de que é do Jerry. Eu sinto. Eu… Nós estávamos tentando. Eu tinha parado com o anticoncepcional. A gente fazia… com certa frequência. Eu estava nos dias. Eu acho... Eu... preciso acreditar que é dele.
Chuck sentiu o peso da frase. A esperança pequena e teimosa que tinha nascido na noite anterior encolheu um pouco:
- E se não for?
Kelly abriu os olhos. Olhou para ele com uma honestidade crua:
- Então, meu casamento acabou. O Jerry não tem condição de assumir um filho que não é dele. Não nessas circunstâncias.
O silêncio que se seguiu foi denso, mais do que isso, foi tenso. Chuck se inclinou para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, a mesma postura dela há instantes atrás, com a diferença de que ele a encarava, ansiosamente:
- Eu não quero destruir o que vocês têm. Eu já destruí muito. Mas eu também agora não consigo fingir que não existe a possibilidade desse filho, ou filha, ser meu. Se for meu, eu preciso saber. Eu preciso… - Ele titubeou, talvez escolhendo melhor as palavras, mas só conseguiu repetir: - Eu preciso, pelo menos saber.
A mão de Kelly desceu para sua boca. Ele ficou olhando para ele em silêncio, pensando:
- O exame só pode ser feito daqui a algumas semanas. Foi o que a médica explicou. Se não me engano, umas cinco,semanas no máximo. Talvez mais... Até lá a gente vai ter que conviver com essa dúvida.
- E o que a gente faz até lá?
Ela respirou fundo:
- Eu não sei. O Jerry está no limite. Eu estou no limite. Você… Talvez ainda devesse ir embora.
Chuck balançou a cabeça lentamente, negando:
- Agora, eu não consigo, Kelly. Não agora. Não depois de saber disso. Eu vou adiar a transferência. Vou ficar. Pelo menos até o exame.
Kelly sentiu o peito apertar. Parte dela queria gritar para ele ir embora de vez. Mas outra parte, aquela mesma que ainda carregava quatro anos de espera e uma tarde de hotel, sentiu um alívio culpado:
- Eu não sei como o Jerry vai reagir se souber que você ficou.
- Acho que ele já sabe. Foi ele que me deu a informação. Ele!
Kelly se levantou de repente. Caminhou até a cozinha, abriu a torneira, molhou o rosto com água fria. Ficou lá um pouco com as mãos apoiadas na bancada de mármore. Voltou. Mas não se sentou:
- Eu não quero te ver sozinha de novo. Não quero mentir para ele. Não quero mais omissões.
- Ele sabe que eu vim. Nós cruzamos e nos vimos quando ele saía com a Katie.
- Melhor assim.
- A Katie... já sabe?
- Não! E nem vai! Vou esperar o exame para depois contar para ela. Só não sei como contar se não for do Jerry... – Os olhos de Kelly marejaram de imediato ante o medo daquela possiblidade.
Chuck se levantou. Alisou a frente da camisa e olhou para ela:
- Vai dar tudo certo. Posso acompanhar você no próximo exame?
Kelly o encarou surpresa:
- Claro que não! Eu... tenho marido, Chuck. Se essa história vaza, seria um escândalo.
- Tá. Tudo bem... Então, eu vou indo. Quando quiser conversar novamente, me liga. A conversa juntos, os três, de novo. Como tem que ser.
Ela riu, um som seco, sem humor:
- Os três, de novo. Como se isso fosse uma coisa boa...
Chuck se manteve a uma distância segura, esperando algo que nem mesmo ele sabia o quê:
- Eu não vou tocar em você. Não vou pedir nada. Só… me mantenha informado. Quando forem fazer o exame, se precisarem de mim, ou quando o exame sair, a gente decide o resto.
Kelly o encarou por um tempo, nem curto, nem longo. Talvez longo demais para ela. Talvez curto demais para ele. Enfim... Os olhos dela estavam cheios, mas nenhuma lágrima caiu. Então, uma pergunta idiota soou de sua boca:
- Você ainda me ama?
A pergunta saiu baixa, quase sem força. Chuck não desviou o olhar:
- Sim. E me odeio por isso. Porque amar você agora parece que só destrói.
Ela fechou os olhos. Quando os abriu novamente, a voz estava mais firme:
- E dizem que amar não dói... Vamos esperar, sobreviver, e nos proteger. Até o exame. Depois a gente vê o que sobra.
Chuck assentiu:
- Combinado.
Eles ficaram em pé, um de frente para o outro, no meio da sala que um dia quase tinha sido o cenário de outra vida. Do lado de fora, um carro passou. O relógio da cozinha avançou mais um minuto:
Kelly foi até a porta e a abriu:
- Vá. Antes que eu peça para você ficar. Ou antes que eu grite para você sumir de vez.
Chuck passou por ela. No umbral, parou:
- Me avisa quando o Jerry puder conversar. Eu vou aguardar.
Ela não respondeu. Apenas fechou a porta com o mesmo cuidado com que ele a tinha fechado semanas antes.
Do lado de fora, Chuck desceu os degraus. Bateu a mão no bolso do colete, mas não encontrou o relógio de bolso que antes batia levemente contra o peito a cada passo. Apenas caminhou até o Jeep, entrou e ficou sentado longos minutos com as mãos no volante.
Dentro da casa, Kelly recostou a testa na madeira da porta e finalmente deixou as lágrimas descerem. Em silêncio, sem soluços. Apenas o peso de mais uma verdade que agora existia entre os três e que ninguém ainda sabia como carregar.
Lá fora, o dia seguia.
Lá dentro, o tempo parecia ter parado outra vez.
OS NOMES UTILIZADOS NESTE CONTO SÃO FICTÍCIOS E OS FATOS MENCIONADOS E EVENTUAIS SEMELHANÇAS COM A VIDA REAL SÃO MERA COINCIDÊNCIA.
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