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Caderno Vermelho, Primeiro Volume - XXXVI - Cavalo companheiro

Um conto erótico de Escravo 43
Categoria: Sadomasoquismo
Contém 1415 palavras
Data: 27/08/2026 01:43:54
Última revisão: 10/09/2026 22:00:56

Capítulo XXXVI – Cavalo companheiro

Um guarda, Cavalo ou Égua, descia uma vez por dia para nos trazer água e ração. Nos primeiros dias, nos quais eu não conseguia me levantar, Notau recebia as refeições e ajudava a me alimentar.

Gostava de ver a sua fúria quando a nossa comida atrasava. Ele ia até as grades, começava a gritar, xingar e ameaçar Epona... e a comida, então, descia.

Ele também cuidava de me limpar... Havia, ao fundo de nossas celas, um buraco profundo onde poderíamos fazer nossas necessidades. Mas, do jeito que eu me encontrava, não havia como me mexer. Notau, no entanto, não via problema em me ajudar a cagar no pote e em descartar minhas fezes.

Aos poucos, fui melhorando; os pesadelos espaçaram, as dores diminuíram. Ele me garantia que eu conseguiria ficar de pé, que não havia nada afora uma cicatriz na minha bunda...

Se eu acreditava que o Outro tinha algum controle sobre o que acontecia de fato, é difícil dizer... mas, ao me levantar e não ver o meu intestino se espalhar pelo chão, tive a impressão de que algum poder Notau era capaz de exercer.

Quando ficou claro que nossas feridas físicas e mentais começavam a cicatrizar, os pequenos carrascos que "cuidavam" de nós passaram a nos cobrar alguns exercícios físicos antes de entregar água e alimentos... Resisti bastante, colocando nossos estômagos em severo sofrimento. Notau, contudo, convenceu-me de que, para nos vingarmos de Epona e fugirmos do Templo, teríamos que estar em nossa melhor forma... Não estaríamos nos degradando diante dos pequenos poderes, e sim tramando...

Passamos então a fazer nossas refeições gozando daqueles que ficavam nos vendo exercitar... começamos a chamá-los de tarados, de zumbis, de idiotas... e os guardas, de viados! Entre nossas pequenas rebeldias, Notau me contava algumas coisas de sua antiga vida...

Viera de algum lugar pobre, teve que ir para uma cidade maior tentar ganhar algum dinheiro... Envolveu-se num roubo ou algo do tipo contra um figurão local, precisava desaparecer ou seria morto. Sem condições financeiras de fazer essa fuga, deparou-se com Mamon — ou algo assim — e ele lhe ofereceu um refúgio cobrando um preço estranho, mas que Notau podia pagar: alguns frascos de seu sangue e uma amostra de sua dentição... Notau chamava o homem de demônio... então nem sei se Mamon era só o jeito de ele se referir a um demônio ou algo do tipo... o fato é que ele se culpava, devia ter visto nesse pedido um presságio, e não uma solução... salvara-se da morte, mas não escapara do inferno...

Felizmente, o que Notau precisava era de alguém para quem desabafar as saudades e as culpas que tinha... contar que seu pai era um homem simples, mas honesto, contar que tinha sucesso com a mulherada, mas que não conseguia se fixar com ninguém... Chorava, algumas vezes, lembrando-se de algum filho seu ou de alguém que criava como filho, ou da mãe que já havia morrido, mas que, segundo ele, estaria vendo as coisas feias em que ele tinha se metido... Eu respirava aliviado quando seu choro começava; tinha a terrível impressão de que, se ele não fosse tomado por forte emoção, perguntaria a mim qual era a minha origem, por que eu estava naquele inferno...

Pequenas inverdades, no entanto, acabavam escapando. Dizia que tinha uma vida fora do Templo, que tinha sido enganado; relatava o estranho cenário vazio antes do meu sequestro... como havia sido colocado contra a minha vontade em um porta-malas... Mentia. Não havia o que fazer; como contar para um homem que eu pedi, como um cachorrinho, para ser sequestrado? Precisava que Notau me reconhecesse como um igual, e ele precisava de um igual para desabafar... e, depois de tudo que ele tinha feito por mim, parecia-me o mais acertado...

Havia o abismo da linguagem também. Às vezes, eu interpretava mal Notau; às vezes, o que ele me contava não era exatamente o que eu entendia... às vezes, ele também modificava um pouco sua história... talvez a mentira não fosse bem o que acontecia... talvez só fosse a dificuldade do idioma... seu inglês era terrível, afinal... Porém, divago...

Uma rotina começou a ser criada... não era exatamente o que eu tinha vindo buscar no Templo... mas, se eu não podia mais conviver entre Predadores... o jeito era me acostumar à vida de presa, e a vida com Notau era reconfortante a sua maneira... ele via valor em mim. Eu entendia as falas dos guardas, dos Cavalos e das Éguas... ele me perguntava algumas palavras que ouviu de Epona, e eu explicava o que eram... quando não sabia, dava a melhor explicação que conseguia, e Notau se satisfazia, sorria e dizia que eu era um homem estudado, que minha família devia estar com saudades de mim. Eu chorava e Notau me entendia, de certa forma... ele dizia que nosso encontro era um presente do destino, um "gift". Restava apenas saber se na acepção inglesa ou alemã...

A resposta, no entanto, não tardou a vir... passos diferentes ecoaram nas escadarias que davam acesso às nossas celas... não era o pisar leve dos pés descalços dos escravos sexuais, não era o passo ritmado de botas dos guardas enojados com a parte que entendiam como suja do Templo... era algo pior. Fui para o canto mais oposto da entrada; Notau percebeu algo, ou, ao menos, percebeu minha atitude, e, em vez de recuar, foi para a frente... encarar quem estava descendo... Era Epona. Vestia seu jaleco branco por cima da sua roupa de jockey...

— Fiquei sabendo que meus Potrinhos estavam melhorando... mas o que vejo aqui são dois Potros saudáveis! Acho que vou ter que punir minhas fontes...

Epona riu das ofensas — se é que eram ofensas — na língua incompreensível de Notau.

— ...O que acha que eu devo fazer com elas, Potrinho? Eu rasgo o rabo delas também? Ou isso fica só entre a gente?

Ela se direcionava a mim... talvez porque entendesse que o pior veneno para Notau era simplesmente não ter ideia do que ela falava...

— ...Ai, que baixo-astral, gente! Este não para de relinchar e aquele parece que viu um fantasma... vim aqui contar uma coisa boa para vocês...

Não podia ser bom, não podia ser bom, mas eu precisava ouvir. Notau ia me perguntar tudo depois, eu tinha certeza...

— ...Estão muito perto de serem elevados de Potro para Cavalo. O que acham? Isso não é bom?

Como Potro e Cavalo eram palavras muito usadas, acho que Notau conseguiu pegar algo... Eu, por um instante, lembrei-me de Ártemis... seria uma saída? Sendo Cavalo, seria entregue para a minha Deusa e escaparia das garras cruéis da Senhora do Estábulo... mas lembrei-me de que não havia sociedade entre predador e presa, lembrei-me de que nada que vinha de Epona podia prestar e, mais ainda, lembrei-me de que agora eu não estava sozinho para interpretar as palavras dela.

Seja lá o que Notau tenha entendido da fala de Epona, ele ficou visivelmente mais transtornado e agressivo. Tentava espremer seus braços entre as barras de sua cela, como se, de algum modo, fosse suprimir um espaço impossível entre sua mão e o pescoço de nossa Senhora.

— Bom, eu tinha mais uma coisa para falar, mas, depois dessa recepção fria de vocês, eu acabei esquecendo...

Epona se virou e começou a se retirar... mas eu sabia que ela não tinha esquecido nada. Era tudo fraude, era tudo engodo.

— Lembrei — disse ela, virando-se e vindo na direção da minha cela. — Tem só um probleminha, eu contei errado as vagas para Cavalo, achei que tinha duas... Aí eu fiquei pensando em como resolver isso... pensei em coisas deliciosas — fez uma cara de tesão real —, mas vocês não serão meus Cavalos... quer dizer, meu Cavalo, então não posso fazer isso... Decidi, por bem, que amanhã cedo eu venho levar vocês para a Antessala, e aí lá vocês se resolvem, que tal?

Notau não entendeu nada, ou quase nada, mas viu o horror em meus olhos... Epona se aproximou da minha cela:

— Olha, Potrinho, achei que você ia estar mais feliz comigo, hein... Eu pensei em descer aqui vários dias, mas fiquei sabendo que você estava de conversinha com o outro Potro e resolvi dar o espaço para você viver sua fantasia de "homem que dá bunda"... não entendo por que essa situação entre a gente... mas vou deixar vocês a sós para que se entendam, né... acho que as novidades, no final, pesaram o clima...

Riu seu riso sádico e patético enquanto se retirava da sala...

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