O saco repousava no banco do passageiro durante toda a viagem.
Mais do que uma compra, parecia um segredo.
Em cada semáforo, os meus olhos desviavam-se para a caixa negra onde o corset estava cuidadosamente dobrado. Era apenas uma peça de roupa. Era isso que repetia a mim própria.
Mas sabia que não era verdade.
Desde que o vestira na loja, alguma coisa mudara.
Não conseguia explicar.
Não era apenas a forma como moldava o corpo.
Era a forma como eu própria me olhava.
Cheguei a casa ao princípio da noite.
O apartamento estava silencioso, como quase sempre. Tirei os sapatos à entrada, deixei a mala sobre a consola e caminhei lentamente pela sala.
Pela primeira vez em muitos anos, não liguei a televisão.
Não peguei no telemóvel.
Não preparei o jantar de imediato.
A minha atenção estava toda voltada para aquela caixa.
Coloquei-a sobre a cama.
Durante alguns segundos fiquei apenas a observá-la.
Sorri.
— Estás a comportar-te como uma adolescente...
Abri a tampa.
O brilho discreto do material voltou a prender-me o olhar.
Passei lentamente a ponta dos dedos pelo tecido.
Havia qualquer coisa naquela textura que transmitia uma estranha sensação de segurança.
Como se aquele objeto estivesse à espera da pessoa certa.
Respirei fundo.
Voltei a vestir o corset.
Desta vez sem pressa.
Sem o nervosismo da loja.
Sem receio de estar a ser observada.
Quando terminei de ajustar as fitas, caminhei até ao grande espelho do quarto.
A mulher refletida continuava a ser eu.
O mesmo cabelo.
Os mesmos olhos.
As mesmas pequenas marcas que quarenta e cinco anos de vida tinham desenhado no meu rosto.
E, ainda assim...
Parecia diferente.
Não mais jovem.
Mais presente.
Mais inteira.
Endireitei os ombros.
Cruzei lentamente os braços.
Inclinei ligeiramente a cabeça.
Experimentei diferentes expressões, quase como uma atriz a descobrir uma personagem.
Sorri.
Depois deixei desaparecer o sorriso.
Mantive apenas o olhar.
Foi esse olhar que me surpreendeu.
Não havia dureza.
Nem agressividade.
Havia calma.
Uma calma que nunca tinha reparado possuir.
Sentei-me na cadeira junto à janela.
Lembrei-me da funcionária da loja.
Da forma como me falara.
Da serenidade que transmitia.
Ela não tentara convencer-me de nada.
Apenas esperara.
Talvez fosse isso.
Talvez a verdadeira confiança não precisasse de levantar a voz.
Peguei num caderno antigo que guardava na estante.
Na primeira página escrevi apenas uma frase.
"Quem quero eu ser?"
Fiquei longos minutos a olhar para aquelas palavras.
As respostas começaram a surgir devagar.
Quero deixar de pedir desculpa por ocupar espaço.
Quero caminhar sem baixar os olhos.
Quero aprender a dizer não.
Quero conhecer a mulher que sempre escondi.
Fechei o caderno.
Pela primeira vez senti que aquele não seria um diário comum.
Seria o mapa da minha transformação.
Nos dias seguintes, comecei a reparar em pequenos detalhes.
No trabalho, deixei de interromper as minhas frases a meio.
Nas reuniões, mantinha contacto visual durante mais tempo.
Quando alguém tentava falar por cima de mim, esperava calmamente que terminasse antes de continuar, sem alterar o tom de voz.
Curiosamente, as pessoas ouviam-me mais.
Não porque eu falasse mais alto.
Mas porque deixara de parecer insegura.
Essa descoberta fascinava-me.
Ao final da semana, passei novamente em frente à mesma loja.
Parei.
Sorri.
Entrei.
O sino voltou a anunciar a minha chegada.
A funcionária reconheceu-me de imediato.
— Boa tarde.
— Boa tarde.
— Vejo que voltou.
Olhei discretamente para o corset que trazia vestido por baixo da camisa.
Sorri.
— Acho que sim.
Ela devolveu-me um sorriso cúmplice.
— Então encontrou o que procurava?
Pensei durante alguns segundos.
— Ainda não.
— E o que procura?
Olhei em redor da loja.
Já não via apenas objetos.
Via possibilidades.
Respirei fundo.
— A mim.
A funcionária permaneceu em silêncio por um instante.
Depois respondeu com uma serenidade que me acompanharia durante muito tempo.
— Nesse caso... a viagem está apenas a começar.
Saí da loja sem comprar nada.
Mas dessa vez compreendi que não precisava de levar mais nenhum objeto para casa.
A verdadeira transformação não cabia dentro de uma caixa.
Estava a acontecer, lentamente, dentro de mim.
E, pela primeira vez, tive a certeza de que nunca mais voltaria a ser a mulher que tinha entrado naquela loja na semana anterior.
