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A Origem da Mistress II - O Corset

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Um conto erótico de Lady Kamilla
Categoria: Heterossexual
Contém 694 palavras
Data: 03/08/2026 16:57:05

O saco repousava no banco do passageiro durante toda a viagem.

Mais do que uma compra, parecia um segredo.

Em cada semáforo, os meus olhos desviavam-se para a caixa negra onde o corset estava cuidadosamente dobrado. Era apenas uma peça de roupa. Era isso que repetia a mim própria.

Mas sabia que não era verdade.

Desde que o vestira na loja, alguma coisa mudara.

Não conseguia explicar.

Não era apenas a forma como moldava o corpo.

Era a forma como eu própria me olhava.

Cheguei a casa ao princípio da noite.

O apartamento estava silencioso, como quase sempre. Tirei os sapatos à entrada, deixei a mala sobre a consola e caminhei lentamente pela sala.

Pela primeira vez em muitos anos, não liguei a televisão.

Não peguei no telemóvel.

Não preparei o jantar de imediato.

A minha atenção estava toda voltada para aquela caixa.

Coloquei-a sobre a cama.

Durante alguns segundos fiquei apenas a observá-la.

Sorri.

— Estás a comportar-te como uma adolescente...

Abri a tampa.

O brilho discreto do material voltou a prender-me o olhar.

Passei lentamente a ponta dos dedos pelo tecido.

Havia qualquer coisa naquela textura que transmitia uma estranha sensação de segurança.

Como se aquele objeto estivesse à espera da pessoa certa.

Respirei fundo.

Voltei a vestir o corset.

Desta vez sem pressa.

Sem o nervosismo da loja.

Sem receio de estar a ser observada.

Quando terminei de ajustar as fitas, caminhei até ao grande espelho do quarto.

A mulher refletida continuava a ser eu.

O mesmo cabelo.

Os mesmos olhos.

As mesmas pequenas marcas que quarenta e cinco anos de vida tinham desenhado no meu rosto.

E, ainda assim...

Parecia diferente.

Não mais jovem.

Mais presente.

Mais inteira.

Endireitei os ombros.

Cruzei lentamente os braços.

Inclinei ligeiramente a cabeça.

Experimentei diferentes expressões, quase como uma atriz a descobrir uma personagem.

Sorri.

Depois deixei desaparecer o sorriso.

Mantive apenas o olhar.

Foi esse olhar que me surpreendeu.

Não havia dureza.

Nem agressividade.

Havia calma.

Uma calma que nunca tinha reparado possuir.

Sentei-me na cadeira junto à janela.

Lembrei-me da funcionária da loja.

Da forma como me falara.

Da serenidade que transmitia.

Ela não tentara convencer-me de nada.

Apenas esperara.

Talvez fosse isso.

Talvez a verdadeira confiança não precisasse de levantar a voz.

Peguei num caderno antigo que guardava na estante.

Na primeira página escrevi apenas uma frase.

"Quem quero eu ser?"

Fiquei longos minutos a olhar para aquelas palavras.

As respostas começaram a surgir devagar.

Quero deixar de pedir desculpa por ocupar espaço.

Quero caminhar sem baixar os olhos.

Quero aprender a dizer não.

Quero conhecer a mulher que sempre escondi.

Fechei o caderno.

Pela primeira vez senti que aquele não seria um diário comum.

Seria o mapa da minha transformação.

Nos dias seguintes, comecei a reparar em pequenos detalhes.

No trabalho, deixei de interromper as minhas frases a meio.

Nas reuniões, mantinha contacto visual durante mais tempo.

Quando alguém tentava falar por cima de mim, esperava calmamente que terminasse antes de continuar, sem alterar o tom de voz.

Curiosamente, as pessoas ouviam-me mais.

Não porque eu falasse mais alto.

Mas porque deixara de parecer insegura.

Essa descoberta fascinava-me.

Ao final da semana, passei novamente em frente à mesma loja.

Parei.

Sorri.

Entrei.

O sino voltou a anunciar a minha chegada.

A funcionária reconheceu-me de imediato.

— Boa tarde.

— Boa tarde.

— Vejo que voltou.

Olhei discretamente para o corset que trazia vestido por baixo da camisa.

Sorri.

— Acho que sim.

Ela devolveu-me um sorriso cúmplice.

— Então encontrou o que procurava?

Pensei durante alguns segundos.

— Ainda não.

— E o que procura?

Olhei em redor da loja.

Já não via apenas objetos.

Via possibilidades.

Respirei fundo.

— A mim.

A funcionária permaneceu em silêncio por um instante.

Depois respondeu com uma serenidade que me acompanharia durante muito tempo.

— Nesse caso... a viagem está apenas a começar.

Saí da loja sem comprar nada.

Mas dessa vez compreendi que não precisava de levar mais nenhum objeto para casa.

A verdadeira transformação não cabia dentro de uma caixa.

Estava a acontecer, lentamente, dentro de mim.

E, pela primeira vez, tive a certeza de que nunca mais voltaria a ser a mulher que tinha entrado naquela loja na semana anterior.

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Comentários

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Excelente parte de preparação da transformação e do empoderamento. Reparei que aqui não havia comentários. O que está acontecendo com os homens? Tem medo de encarar uma mulher que se assume e se posiciona? Gostei. Leitura atrasada, mas é justificado. Estava a terminar alguns contos.

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Leon, mais uma vez obrigada pela leitura atenta. 😊 Fico contente por teres percebido que esta parte é sobretudo sobre a preparação da transformação e o empoderamento da personagem. Quanto aos homens... talvez alguns ainda não saibam muito bem o que fazer quando uma mulher deixa de pedir licença para assumir quem é. 😉 Ou talvez estejam apenas à espera para ver até onde esta Mistress vai chegar. E não te preocupes com a leitura atrasada, compreendo perfeitamente — se estavas a terminar outros contos, fico até contente por a minha história ter entrado na tua lista. Obrigada por voltares a ela. Agora fiquei curiosa para saber o que vais achar da próxima parte...

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