Algumas pessoas chamam a atenção só de entrar em um ambiente. Assim era Laura, uma mulher bonita, elegante e com um charme natural que capturou minha atenção desde a primeira vez que a vi entrar na padaria. Eu me lembro que havia muito movimento, mas, mesmo assim, consegui notá-la em meio a todos. E ela também me notou.
A padaria tinha várias mesas para as pessoas tomarem café ou fazerem um lanche, além de alguns bancos altos perto do balcão. Quando Laura entrou, seus olhos começaram a percorrer o ambiente. Eu a observava atrás do balcão enquanto separava alguns pedaços de bolo para uma freguesa. Ela parecia estar reconhecendo o lugar e tentando decidir qual seria o melhor espaço para se acomodar. Foi quando seu olhar cruzou com o meu e um pequeno sorriso se formou em seu rosto.
Laura veio direto na minha direção. Não consegui ver como ela chegou até o balcão porque precisei parar de olhar para embalar os pedaços de bolo, mas, quando terminei, ela já estava sentada quase na minha frente. Ao atendê-la, ela pediu um suco natural e me pediu uma indicação de algo doce para comer. Acabei sugerindo um bolo de cenoura com cobertura de chocolate que eu adorava. Ela aceitou a sugestão e fui servi-la, enquanto pedia a um dos funcionários para preparar o suco. Não pude ficar muito tempo perto dela, mas, a cada vez que eu a olhava, ela parecia me seguir com os olhos.
Quando consegui um tempo, percebi que ela já havia terminado o suco e o pedaço de bolo não existia mais. Pelo jeito, ela gostou. Perguntei se ela precisava de mais alguma coisa, ela disse que sim, mas que eu não puderia servi-la naquele momento. Fiquei sem saber o que dizer. Ela colocou o copo sobre a bandeja e mencionou que voltaria com mais tempo para conhecer melhor a bela atendente que a serviu. Pegou sua comanda e foi até o caixa para pagar. Antes de sair, olhou para mim, deu um sorriso e uma piscada discreta. Eu sorri de volta e ela se foi.
A visita de Laura às três da tarde virou rotina. Acabamos conversando por alguns minutos nessas ocasiões e descobri que ela estava dando assistência jurídica a uma empresa nas proximidades. Também soube seu nome, que ela era advogada, e trabalhava em uma grande empresa da cidade. Parece que ela se interessou por mim. Laura era bem direta e não poupou elogios. Ela disse que tinha amado meus olhos, mas que era meu corpo que estava tirando o sono dela. Eu apreciava aquelas investidas, mas não queria me envolver com ninguém. Mesmo sendo uma mulher muito bonita, charmosa e provavelmente rica, eu sempre levei na boa as investidas dela. Porém sempre recusando à sair com ela. Olha que ela me convidou algumas vezes nos últimos dias. Laura era direta, embora educada, nunca ultrapassou limites, apenas deixou claro que me queria.
Porém, ela não iria continuar frequentando a padaria por muito tempo. Após uns 15 dias, ela parou de aparecer. Na sua última visita, no entanto, deixou algo que só percebi quando cheguei em casa. Ao abrir, entendi o que Eliana dizia sobre pessoas ricas que acham que podem conseguir tudo com dinheiro. Mas, sinceramente, não fiquei com raiva de Laura. Achei algo meio apelativo, mas, por algum motivo, não me senti ofendida. Talvez por ela ser uma mulher interessante.
Laura me entregou um envelope e disse que era para eu abrir quando chegasse em casa, afirmando que provavelmente não me veria mais, a não ser que tivesse interesse no que havia dentro do envelope. Perguntei o que era, ela sorriu e disse tchau, saindo sem olhar para trás. Passei o resto do dia curiosa, mas cumpri o que ela pediu e só abri o envelope ao chegar em casa. Dentro, havia um papel branco dobrado. Quando o puxei, percebi que havia outro papel menor atrás. Ao olhar o que saiu por trás, levei um baita susto: era um cheque no valor de 10 mil reais. Eu não estava entendendo nada, especialmente porque o cheque não estava assinado e não tinha data. Ainda meio assustada, abri o papel.
Era um bilhete de Laura. Nele, ela dizia que tinha se encantado por mim, mas que, apesar das tentativas, eu não havia dado chances. Por isso ela fez uma proposta, afirmando que seria sua última tentativa de conseguir o que queria: passar uma noite inteira comigo em sua cama. Se eu tivesse interesse, era só ligar para ela, e ela preencheria o que faltava no cheque. Ela também deixou um número de telefone no final do bilhete, com uma marca de batom em forma de beijo em vez da assinatura.
Depois de ler o bilhete, não sabia o que pensar. O certo seria rasgar o cheque e o bilhete. Eu não estava à venda, deveria me sentir ofendida com aquilo, mas não me senti. Em vez de rasgar, guardei tudo no envelope novamente e coloquei dentro de uma das gavetas do meu guarda-roupa. Não parei para pensar diretamente naquilo, mas ri da proposta maluca de Laura. Não iria aceitar, embora 10 mil reais fosse muito dinheiro. Eu não me venderia; não precisava daquilo. Resolvi tomar um banho e esperar Manu chegar. Ela estava com Tamires desde cedo, provavelmente fazendo os últimos ensaios e ajustes do vestido.
No fim de semana, seria o casamento de Tânia. Eu não iria, mas pedi a Tamires para cuidar da Manu para mim. Sinceramente, não tinha nada contra o casamento de Tânia, mas não tinha razões para ir, especialmente com Rogério fazendo cara feia para mim.
No sábado, Tamires foi buscar Manu de manhã; provavelmente iriam ao salão e depois para a casa da família do Rogério, já que a noiva sairia de lá. Fiz as últimas recomendações para minha sobrinha e para Tamires. Ela me perguntou se eu não tinha mudado de ideia sobre ir ao casamento. Respondi que não, especialmente depois que o noivo também parou de falar comigo. Tamires sorriu meio amarelo e decidiu me contar algo.
Tamires— Acho que sou meio culpada por ele ter parado de falar com você.
Camila— Você? Por quê?
Tamires— Uma das madrinhas não iria poder ir ao casamento. Não sei o motivo, só sei que Rogério veio aqui em casa e estava conversando com Tânia e minha mãe sobre isso. Peguei o assunto pela metade, mas Rogério dizia que iria te chamar para ser madrinha no lugar da que não poderia ir. Tânia na hora disse que era melhor não, que você não iria aceitar e que vocês duas não se davam muito bem. Minha mãe concordou, mas Rogério insistiu, dizendo que iria falar com você, até porque tinha mostrado uma foto sua para o amigo dele que seria o par, e o amigo tinha se interessado em você. Eu ri e Rogério ouviu, então perguntou por que eu estava rindo. Eu disse que o amigo dele não teria a menor chance com você, porque você era lésbica.
Camila— Ele não sabia?
Tamires— Provavelmente não, porque ele fez uma cara de espanto. Olha, Tânia não deve ter contado para não levantar suspeitas, minha mãe é muito reservada, meu pai mal fala com ele e eu também. Só sei que ele disse que não iria mais te chamar. Minha mãe fez uma cara de brava e disse que era para eles resolverem, que ela ia cuidar do meu pai. Porém, pela cara que ele fez, provavelmente ele tem preconceito com pessoas homossexuais. Não estou afirmando isso, mas, considerando que você disse que ele parou de falar com você, tenho mais certeza de que ele é homofóbico.
Camila— Provavelmente é realmente por isso que ele virou a cara para mim, mas isso não é culpa sua.
Tamires— Sei que não tenho culpa dele ser um imbecil, mas fui eu quem abriu a boca. Desculpe, mas é que não gosto dele e, quando ele falou aquilo, só quis irritá-lo. Me desculpe por contar a ele.
Camila— Eu não escondo quem sou de ninguém, nunca te pedi segredo. Então você não fez nada de errado, na verdade, me ajudou. Se você não falasse, ele viria falar comigo e eu teria que recusar; talvez falasse do amigo dele e eu mesma contaria. Então, não tenho nada a te desculpar, mas sim a te agradecer.
Tamires abriu um sorriso e ia falar algo, mas foi interrompida por Manu, que puxou sua mão e a chamou para ir logo. Minha sobrinha estava animada para ir ao casamento. Eu apenas ri e despedi-me delas.
Trabalhei o dia todo e pensei na proposta de Laura algumas vezes. Aquilo me tirava alguns sorrisos, não por estar interessada, mas pela loucura que achava aquilo tudo. O dia foi tranquilo, graças a Deus, já que fiquei responsável pela padaria. Todos foram ao casamento, até o senhor Geraldo, que, mesmo com a saúde um pouco debilitada, fez questão de ir. Helena me deixou como responsável na padaria, o que eu já esperava. Era tranquilo, pois conhecia todos os funcionários e eles já sabiam o que fazer.
À noite, depois de fechar a padaria, fui para casa. Não esperei por Manu, que provavelmente chegaria tarde. Já tinha pedido a Tamires para cuidar dela no domingo, pois eu iria cedo para a casa dos meus pais. Eliana tentaria convencer meus pais a vender o sobradinho e construir uma casa ao lado da dela. A ideia era que eles morassem com Eliana e Matheus até a casa ficar pronta, isso se o sobradinho fosse vendido antes e meus pais aceitassem a proposta.
Eu imaginava que seria uma das primeiras tentativas, já que achava muito difícil meu pai aceitar vender o sobradinho. Meus pais moravam ali há muito tempo, tiraram o dinheiro para criar minha irmã e eu dali. Conheciam quase todo mundo e eram muito queridos. Mesmo morando sozinhos no momento, provavelmente estavam em um dos lugares mais seguros da cidade. Muitos dos traficantes da área conheciam eles, eram crianças que compravam balas na mercearia do meu pai há anos. Ninguém mexia com eles ali na favela.
No entanto, eles já estavam com a idade avançada e a mercearia estava dando prejuízo. Não tinham outra fonte de renda no momento. Se aceitassem, teriam uma casa nova para morar, ao lado de uma das filhas. Matheus tinha condições de ajudar financeiramente e estava ansioso para tirar meus pais da favela. Ele dizia que tinha medo de uma invasão militar ou de outra facção, que poderia dar errado e meus pais fossem pegos no meio do fogo cruzado. Bom, íamos tentar, com calma, mas íamos.
Quando cheguei, Eliana já estava lá e, na hora do almoço, fez a proposta. Foi praticamente um discurso. No fim, eu não tinha nada a dizer, exceto que concordava com tudo que ela disse. Minha mãe a olhava com orgulho, enquanto meu pai tentava falar algumas vezes, mas desistia. Eliana destacou todas as vantagens de aceitarem a proposta e as desvantagens de não aceitá-la. Explicou tudo detalhadamente, sem deixar brechas para meu pai contestar. O que mais balançou minha mãe foi quando ela falou sobre os netos. Disse que queria ter no mínimo quatro filhos e queria minha mãe por perto para ajudar a criar e educar os netos.
O resultado foi que, antes de meu pai criar coragem para falar algo, minha mãe se levantou e chamou ele para conversar. Foram para o quarto deles e voltaram após uns vinte minutos. Minha mãe parecia feliz; meu pai, nem tanto. Sentaram-se novamente e meu pai disse que aceitava a proposta. Não era o que ele queria, naquela idade, viver às custas do genro era vergonhoso. Porém, se fosse para fazer suas filhas e esposa felizes, ele era capaz de qualquer sacrifício. Eu não estava acreditando que tinha sido tão fácil, considerando o que esperava; mas, pelo jeito, Dona Inácia tinha feito acontecer.
Com tudo resolvido, passamos o resto do dia planejando como faríamos tudo, mesmo com algumas reclamações do meu pai. Tudo foi acertado. Agora era só vender o sobradinho, fazer a mudança e iniciar a construção da nova casa dos meus pais. Ao sair para voltar para casa com Eliana, paramos em frente à porta da mercearia. Acabamos demorando ali mais do que prevíamos. Relembramos muitas memórias daquele lugar. As minhas não eram todas boas, mas a maioria era. Saí dali com os olhos marejados; provavelmente seria a última vez ou uma das últimas que eu estaria naquele lugar que foi tão marcante na minha vida.
Lembrei da minha mãe, não do rosto, pois, sinceramente, não me lembrava do rosto dela, mas da pessoa que ela foi. Não lembrei com rancor, mas com tristeza. Minha mãe foi uma mãe horrível, mas talvez, se as coisas fossem diferentes, ela teria sido uma boa mãe. A vida tirou seu porto seguro e ela não soube como lidar com aquilo. Infelizmente aconteceu o que aconteceu. Talvez, se seu marido não tivesse morrido tragicamente, ela teria sido uma boa mãe para minha irmã. Só para ela, já que, se não tivesse acontecido o que realmente aconteceu, eu não existiria.
Sai desses pensamentos estranhos com Eliana me chamando. Ela perguntou se eu estava no mundo da lua. Sorri e disse que só estava pensando em alguém que, por pior que tenha sido, me deu a vida. Ela me abraçou e disse para eu não ficar pensando nisso, que era passado e que eu estava aproveitando bem a vida que ela me deu.
Cheguei em casa um pouco para baixo por ter lembrado da minha mãe, algo que raramente acontecia na minha vida. Porém, logo que peguei Manu com Tamires, aquela tristeza se foi. Não tinha como ficar triste perto daquele ser que sorria para mim. Manu, sem dúvidas, foi o maior presente que a vida me deu; eu faria qualquer coisa por ela.
Pensei nisso ao olhar para ela sorrindo, mas, mal eu sabia, naquele momento, que o que pensei iria ser colocado à prova em breve.
Continua…
Criação; Forrest_Gump
Revisão; Whisper
