Capítulo XXXV – Cavalo companheiro
Nosso choro foi longo e demorado. Todas as lágrimas que não derramei desde minha captura, o abandono da minha antiga vida, a distância da minha família e dos meus antigos sonhos... uniam-se às do Outro. Ele também chorava por sua antiga vida, também chorava pelo inferno em que nos encontrávamos.
Demorou; por vezes, parecia que ia acabar, mas então um de nós abria sem querer a torneira e voltávamos ao lamento. Mas acabou. Uma hora ele sorriu para mim, e eu sorri de volta... apoiamo-nos um no outro e conseguimos avançar para fora do abismo linguístico que nos separava...
Não tenho ideia de qual era seu idioma materno, e muito menos como ele escrevia seu nome (se é que ele o sabia); porém, em sua voz, soava para mim como Notau ou Motau. Testei algumas vezes as pronúncias e, em ambas, ele entendeu que eu o estava chamando.
Do seu jeito, me contou... ou tentou me contar, e eu tentei entendê-lo. Durante a operação, Epona também o colocou para separar os medicamentos. No entanto, sem entender quase nada do que ela tentava explicar, ele cometeu erros e mais erros. Até que Epona parou com os safanões disciplinares e começou a atacá-lo para destruí-lo... Entendia, finalmente, o seu desaparecimento...
Depois, uma dura verdade começou a se revelar... como ele não tinha sido abençoado por Ártemis, Epona nem se preocupava em falar com ele... e pior... ficava também evidente que minhas conversas com Epona... nossas conversas... eram apenas trabalho.
Notau contou que, diante do descontrole de Epona, tentou reagir, tentou golpeá-la, mas, graças à coleira, não teve qualquer chance real... acordou daí a um tempo no laboratório e, quando começou a se recuperar, foi jogado na prisão em que agora estávamos.
Nem mesmo o ódio de Epona, sua ira, era outra coisa que não trabalho... Demorei um pouco para perceber que Notau começava a me inquirir acerca do que havia acontecido comigo. Eu lhe contei que Epona também não era mansa comigo... disse que também tinha dificuldades para entendê-la e que ela havia me enganado com um banquete. Acabei ficando muito bêbado, e ela se aproveitou para me violentar...
Ele percebeu meu mal-estar, aproximou-se da grade e disse algo mais ou menos assim:
— Olha, cara, essas vadias são monstros... quando elas me jogaram aqui, eu quase aceitei o que elas queriam, mas quando você chegou, quando eu vi em você o mesmo sofrimento a que elas me submeteram, ficou claro que eu tinha que cuidar de você... a gente tá nessa junto!
Notau falou mais coisas, mas algumas eram em seu idioma completamente irrecuperável, e outras em um inglês tão truncado que não consegui entender. Reproduzo apenas aquilo de que tenho certeza.
Suas palavras, inclusive as que não entendia, mexeram comigo... pareciam sinceras, mas, ao mesmo tempo... eu já havia sido tão enganado e humilhado. Não sabia mais o que era ou não sinceridade... Lembrei-me de que ele meteu em Epona... de que ele me viu assistindo... será que ele me via como igual? Será que ele estava com dó de mim porque eu fui estuprado e ele foi apenas espancado? Cuidava de mim como Fernando cuidou em minha primeira ressaca ou garantia meu bem-estar pois, como Luciano, precisava que eu lhe passasse o gabarito das provas?
Notau percebeu que eu estava perdido em meus pensamentos e novamente tentou dizer algo:
— Cara, eu também tava com a cabeça ferrada... mas tenta relaxar, tenta dormir. Eu vou ficar acordado de olho enquanto você descansa...
Tinha acabado de acordar, mas não é como se eu conseguisse ficar de pé ou fazer outra coisa senão descansar... A guarda de Notau, ao menos, aliviava um pouco meu sofrimento... Claro que ninguém seguraria Epona se ela realmente quisesse, mas, ao menos, ter uma testemunha da brutalidade da Senhora do Estábulo era algo...
Fechei os olhos e fiquei esperando o tempo passar, operar seus curativos... Não havia mais nada a fazer naquela situação. Seria Notau um aliado? Ou ele era uma versão superior a mim? Além do determinismo biológico, ele começava a parecer moralmente superior...
*
(...)
*
Acordei? Estava novamente no laboratório, com as pernas para cima, tudo escuro, mas um som horrível de algo metálico, grande, pesado demais para que Epona pudesse levantar... ela o arrastava em minha direção... qual seria a nova violência que ela praticaria? Comecei a me debater todo, chorar em desespero e, então, acordei... O pesadelo não era presságio agora; era ilusão. Havia distorcido um barulho que, na verdade, talvez fosse bom.
— Easy, guy! Easy, I am here!
Notau percebeu meu pesadelo, minha mente estilhaçada, puxou o banco metálico que estava no canto oposto e o colocou lado a lado com o meu. Deitado em seu banco, ele segurava minha mão e tentava me resgatar do mundo infernal para o qual havia voltado em sonho...
— Notau, ela abriu um buraco no meu cu! Eu tenho medo de olhar... eu acho que, se eu me mexer, tudo o que está dentro vai sair para fora... ela podia ter me matado, Notau, mas não, ela me deixou nesse estado para que eu me mate sozinho, para que eu me movimente pensando estar melhor e veja minhas tripas escorrerem...
Não sei se me entendia; em desespero, ainda imerso no horror do qual não conseguia verdadeiramente despertar, misturava o inglês com o português... Apertei-lhe a mão firme e voltei a chorar... Notau aproximou-se mais da grade e continuava a repetir as palavras que sabia... Sem cuidados pessoais, minhas unhas haviam crescido e eu o feria... mas ele não recuou. Apenas continuava, em tom baixo, me acalmando, pedindo para eu respirar, dizendo que estava ali... não sei quanto tempo passamos assim, mas tive a impressão de que foi um tempo sem fim...
Entre cochilos, pesadelos e movimentos que fazia sempre com muita dor... de fato, fui me acalmando... a cada despertar, via que Notau cumpria sua palavra, estava ali do meu lado, acordado, me observando... eu sorria, ele sorria de volta... até que houve um ponto em que acordei e Notau estava de olhos fechados... teria dormido? Observei-o e o vi acordar levemente assustado.
— Sorry, man...
— No problem, I know you are doing your best!
Lembrei-me do meu pai, meu primeiro Outro. De quando minha mãe estava ausente e ele improvisava um cuidado que não era dele, mas por medo, era por vezes mais tolerante que ela. Aproximei-me mais da grade e quis lhe beijar o rosto; Notau, em vez de ficar parado, moveu o rosto ao meu encontro... nos beijamos.
