Acordei ainda dentro da Beatriz.
O sol entrava fino pela fresta da cortina. Ela dormia de costas para mim, a camisola no quadril, o meu pau mole entre as coxas dela. Quando saí, um fio escorreu. Ela resmungou e não acordou.
Levantei. Vesti a cueca, a bermuda, a camiseta. Passei a mão no cabelo e fui até a cozinha.
O Paulo já estava em casa. Tinha chegado de madrugada, depois de um bico que se estendeu até tarde. Camiseta velha do time, cabelo bagunçado, café na mão.
— E aí, genro. A Beatriz te deixou vivo essa noite?
Ri no automático. A Helena, do outro lado da mesa, derrubou a colher. O metal bateu no prato. Todo mundo olhou. Ela murmurou desculpa, o rosto vermelho até o pescoço, e foi para a pia.
O Paulo nem percebeu. Continuou falando do jogo, do pão queimado, de outro serviço que tinha pela frente.
A Beatriz apareceu pouco depois, com o cabelo preso. Beijou minha boca com gosto de sono e sentou.
— Vocês ouviram a casa rangendo de madrugada? — perguntou, passando manteiga no pão. — Achei que o Rafael tinha saído.
— Fui beber água — falei.
Ela olhou um segundo a mais do que o normal. Depois sorriu e não insistiu.
A Helena não levantou os olhos do prato.
Depois do café o Paulo saiu de novo, para o mesmo tipo de bico da noite anterior. A Beatriz foi tomar banho.
— Cinco minutos e a gente sai? — gritou do corredor.
— Vou ficar um pouco — respondi. — Te encontro mais tarde.
Ficamos os dois na cozinha.
A Helena juntava os pratos. Blusa de botão, calça de moletom velha. Quando se inclinava na pia, o tecido marcava o peito e a linha da calcinha aparecia na cintura.
— Você não precisava ficar — falou, de costas.
— Eu sei.
— Então por que ficou?
Fui até a pia. Parei ao lado dela. A água corria. Cheiro de sabão de louça misturado com o perfume dela.
— Porque ontem você me disse que estava molhada.
A esponja parou na mão dela.
— Isso foi cruel da sua parte.
— Foi verdade.
Ela fechou a torneira. As mãos pingavam no fundo da pia. Virou o rosto só o suficiente para eu ver o perfil: o nariz, a boca, o fio de cabelo preto solto atrás da orelha.
— A Beatriz está no banho. A água está ligada. Ela não ouve. Isso não muda nada.
— Muda que a gente está sozinho de novo.
Helena riu, um riso curto, sem humor.
— Sozinho. Que palavra bonita para uma merda dessas.
Secou as mãos no pano. O movimento fez a blusa abrir um botão perto do peito. A pele apareceu, e a sombra do sutiã. Ela percebeu e não abotoou.
— Você gozou ontem? Depois que voltou para o quarto.
A pergunta saiu seca.
— Gozei. Dentro dela.
A respiração dela ficou irregular. Fechou os olhos.
— Eu ouvi. A cama. O gemido dela. O seu. Fiquei do outro lado da parede com a mão na boca.
Abriu os olhos. Estavam úmidos.
— Eu me toquei — confessou, a voz falhando. — Depois que você saiu da cozinha. Na cama. Pensei na sua mão no pau, na água do box, no leite quente na minha blusa. Gozei rápido e chorei depois. Chorei de verdade. De nojo. De tesão. De tudo.
Apertei a beirada da pia.
— Helena…
— Não chega perto.
Mas não recuou quando dei um passo. Ficamos a um palmo. O peito dela subia e descia. Dava para ver o pulso no pescoço.
A água do chuveiro da Beatriz ainda corria, constante, distante.
Helena levantou a mão e parou no meu cinto. Os dedos tocaram o metal. Não desceram. Só ficaram ali, sentindo o calor.
— Se eu descer a mão, eu não paro mais — sussurrou. — E eu preciso parar.
— Então não desce.
— Eu quero descer.
Os olhos dela foram até o volume na minha calça. Ficaram lá. A língua passou nos lábios.
A água do chuveiro parou.
Nós dois congelamos.
Passos no banheiro. A box abrindo. A Beatriz cantarolando baixo.
Helena afastou a mão como se o cinto queimasse. Deu dois passos para trás. Abotoou a blusa com dedos trêmulos, errou o botão, tentou de novo.
— Vai embora. Agora. Antes dela sair.
Saí pela porta da frente sem pegar a mochila. Na rua, o sol de Itatiaia estava forte demais. Sentei no carro, as duas mãos no volante, sem ligar o motor.
Ainda sentia o calor dos dedos dela no cinto.
O celular vibrou.
Beatriz: “Cadê você? Achei que ia esperar.”
Digitei e apaguei. Digitei de novo.
“Precisava resolver uma coisa. Te ligo.”
Não voltei na hora. Dirigi sem destino. Passei na frente do Curso Horizonte, vazio por causa das férias. Passei na rua da casa duas vezes sem parar.
No fim da tarde voltei.
O carro do Paulo ainda não estava lá; ele só voltaria à noite. O da Beatriz, sim.
A Beatriz estava no sofá, notebook no colo. Olhou para mim com cara de bronca.
— Que merda foi essa de ir embora do nada?
— Desculpa. Estava mal.
— Mal de quê?
Sentei ao lado dela. Beijo na bochecha, automático.
— Cabeça cheia.
Ela não acreditou, mas também não quis brigar. Fechou o notebook. A mão subiu na minha coxa e apertou.
— Queria você hoje. Desde de manhã.
O pau reagiu. Ela percebeu, sorriu pequeno contra o meu pescoço.
— Está vendo? Seu corpo não mente igual a sua boca.
Puxou minha mão por baixo da camiseta. O peito quente, o mamilo já duro. Apertei por reflexo. Ela gemeu baixo.
A Helena cruzou o corredor.
Pelo canto do olho, vi a blusa de botão, o cardigan por cima. Ela parou um segundo quando a minha mão estava embaixo da roupa da filha. O rosto não mudou. Só os olhos. Escuros. Fixos. Um segundo longo demais.
Depois seguiu em direção ao quarto.
A Beatriz não viu.
— Vem — puxou. — Meu pai só chega de noite.
Fomos para o quarto. Ela trancou a porta. Tirou a camiseta, a calça, ficou de calcinha clara. Empurrou-me na cama, sentou em cima e esfregou a buceta na minha calça.
Fechei os olhos.
A Helena na cozinha. A camisola. Os dedos no cinto.
Abri os olhos. A Beatriz estava me olhando.
— Cadê você?
— Estou aqui.
Mentira.
Ela desceu o zíper, tirou meu pau, colocou na boca. Quente, molhada. Enterrei a mão no cabelo loiro e tentei ficar só naquilo. Não deu. Cada vez que ela descia, eu pensava na boca carnuda da mãe, na saliva no canto dos lábios, no “estou molhada”.
Gozei rápido demais, na garganta dela, bem forte. Grosso. Quente. Ela engoliu, tossiu de leve, depois riu.
— Nossa. Estava precisando, hein.
Puxei ela pra cima, virei, fiquei por cima e puxei a calcinha de lado e chupei até ela gozar nos meus lábios. O gosto doce. Os pelos claros, molhados. A buceta vermelha de tanto tesão. Ela abafou o gemido no travesseiro.
Depois ficamos ofegantes. Ela beijou minha boca.
— Te amo.
— Também.
A palavra saiu pesada.
Quando ela foi ao banheiro, fiquei olhando o teto.
A porta do quarto da Helena ficava do outro lado da parede. Fina. A cama rangeu. Veio um soluço abafado. Depois silêncio. Depois o som úmido, ritmado, de dedos. Lento no começo. Depois mais rápido. Um gemido preso, quase um choro.
Fiquei duro de novo.
A Beatriz voltou, deitou, abraçou.
— Você ouviu alguma coisa?
— Não.
Ela dormiu.
Eu continuei escutando a parede.
Do outro lado, a Helena gozou quieta. Um som curto, quebrado, como se tivesse se mordido.
Depois chorou. Baixo. Só aquela respiração irregular de quem se odeia e mesmo assim acabou de gozar pensando no que não podia.
Coloquei a palma da mão na parede.
Do outro lado, depois de alguns segundos, ela também colocou.
Ficamos assim. Duas palmas separadas por alguns centímetros de gesso e tinta. Ao menos na minha imaginação sim...
Nenhuma das duas mãos desceu.
───
De manhã a Beatriz saiu cedo de novo, mas voltou rápido do trabalho e foi direto para o banho. O Paulo também saiu cedo, mas não havia voltado ainda.
A Helena estava na área de serviço, pendurando roupa no varal. O sol batia nas costas dela. Blusa fina, short velho. Quando levantava os braços para prender a camiseta da Beatriz, a blusa subia: uma faixa de pele na cintura, a calcinha preta marcada por baixo do short, o começo da bunda mole.
Fiquei na porta, sem entrar.
— Ontem você parou na nossa porta — falei.
Ela não se virou.
— Eu sei que você viu a sombra.
— Vi.
— E gozou. A respiração mudou. Eu ouvi ela. Ouvi você.
Agora ela se virou. O short curto, as coxas nuas, um fio de suor descendo entre os peitos. Os olhos castanhos escuros estavam cansados e acesos ao mesmo tempo.
— Você me ouviu também.
— Eu também ouvi você.
Helena segurou o varal com as duas mãos.
— Eu me odeio. Todo dia um pouco mais. Acordo odiando. Durmo odiando. E no meio disso eu molho a calcinha só de lembrar da sua porra escorrendo na minha bochecha.
A palavra “porra” saiu estranha na boca dela. Pesada. Suja.
Entrei na área. Fechei a porta de vidro. O calor subiu.
— Me mostra — falei.
Ela piscou.
— O quê?
— Se está molhada agora.
Helena olhou para a casa. A água do chuveiro da Beatriz ainda corria, abafada.
As mãos dela desceram, tremendo. Puxaram o short e a calcinha pra baixo, só de um lado, o suficiente. Apareceram os pelos pretos, o começo da fenda, a pele brilhando. Estava molhada de verdade. Um fio claro escorrendo um pouco na virilha.
Ela segurou assim dois segundos, me mostrando, o rosto desfeito de vergonha e tesão. Depois puxou a roupa para cima com violência.
— Satisfeito?
— Não.
Dei um passo. Ela não recuou. Ajeitei o short folgado, largo, no quadril dela, os dedos roçando a pele quente. Fiquei com a mão parada ali, o polegar por dentro da cintura.
— A Beatriz vai desligar o chuveiro.
— Então vai embora — ela sussurrou.
Meu polegar desceu um centímetro. Encostou no pelo molhado. Ela tremeu inteira, um arrepio visível nos braços, nos peitos, no pescoço.
— Rafael…
A água do chuveiro parou.
Tirei a mão.
Helena virou de costas, pegou um pregador qualquer, fingiu que o varal era a coisa mais urgente do mundo. Os ombros subiam e desciam rápido demais.
Saí da área. Passei pelo corredor. A Beatriz saía do banheiro, toalha no corpo, cabelo pingando.
— Estava te procurando — disse, sorrindo.
Beijei a boca dela. Gosto de pasta de dente. A mão dela passou na minha calça e sentiu o pau duro.
— De novo? — riu. — Você está insaciável esses dias.
Sorri contra a boca dela e não falei nada.
Atrás de mim, na área, um pregador caiu. O plástico bateu no cimento.
Nenhum de nós foi ver o que era.
A Beatriz me puxou pelo corredor, ainda de toalha.
— Vem. Me ajuda a escolher uma roupa.
Entrei no quarto com ela. A porta ficou entreaberta. Ela deixou a toalha cair, de costas para mim, abrindo o armário. O corpo loiro molhado, gotas escorrendo pelas costas e pela fenda da bunda, parando nos pelos claros.
— Essa ou essa? — levantou duas blusas, sem se virar.
Eu não respondi. Pelo vão da porta, o corredor continuava à vista.
A Helena passou.
Devagar. O short ainda torto no quadril. Os olhos dela entraram no quarto um segundo. A Beatriz nua na frente do armário. A minha cara. O volume na calça.
Não parou. Seguiu até o quarto dela. A porta não fechou até o fim.
A Beatriz se virou, nua, as duas blusas na mão.
— Rafael. Estou falando com você.
— A amarela.
Ela sorriu, jogou a outra no chão e veio até mim. Encostou o corpo molhado na minha roupa. A buceta quente na minha coxa.
— Depois a gente resolve isso — sussurrou, a mão no meu pau por cima da calça. — Agora me veste.
Do outro lado do corredor, a cama da Helena rangeu.
Uma vez.
Como se ela tivesse sentado na beira.
E tivesse ficado ali.
Ouvindo.
A Beatriz se afastou, passou a blusa amarela, me deu as costas de novo.
— Fecha o zíper.
Fechei. A mão ficou um segundo a mais no quadril dela.
No corredor, ninguém apareceu.
Mas a porta da Helena continuava entreaberta.
E, do silêncio do quarto dela, veio um som baixo. Quase nada.
Um suspiro.
Preso.
Como quem aperta as coxas e não pode gemer.
A Beatriz não ouviu.
Eu ouvi.
E soube, ali — os dedos ainda no zíper da Beatriz, o cheiro da Helena ainda na pele —, que a próxima vez não ia parar no polegar.
(continua)