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Pesadelo

Da série O Galpão
Um conto erótico de Mateus
Categoria: Gay
Contém 2627 palavras
Data: 25/08/2026 22:43:47

Na semana seguinte, comecei a notar coisas: Cristiano não gostava de barulho quando estava irritado, não suportava que batessem portas, nunca deixava um copo cheio perto da borda da mesa. Quando alguém levantava a voz, ele imediatamente olhava para as mãos da pessoa, não para o rosto, para as mãos. Era um gesto tão rápido que talvez ninguém mais percebesse, mas eu percebia.

Também percebia que ele nunca desperdiçava comida. No almoço, se sobrava arroz no prato, ele raspava tudo até não sobrar nada. Uma vez, deixei metade de um pão sem comer. Ele olhou.

— Vai comer?

— Não.

— Então me dá.

Entreguei. Ele comeu enquanto trabalhava.

— Você não precisa comer coisa que eu deixei – respondi.

Ele não me respondeu.

— Era só pão – continuei.

— Justamente.

Não sabia o que responder, então fiquei quieto.

________________________________________

Certa tarde, estávamos sozinhos no galpão, depois do expediente. O lugar já estava quase vazio, e a luz amarela que entrava pelas janelas altas deixava tudo com aparência de fotografia antiga: ferramentas espalhadas, manchas de óleo no concreto, poeira suspensa no ar quente, o rádio tocando alguma música antiga. Cristiano estava deitado sob um caminhão, tentando consertar uma peça qualquer. Eu estava fingindo que entendia o que ele estava fazendo.

— Me passa a chave dezessete.

Procurei na caixa.

— Essa?

— Não. A outra.

— Existem quatro dezessete.

— A que parece dezessete.

— Essa frase não faz nenhum sentido.

A mão dele surgiu por baixo do caminhão.

— A mais velha.

Entreguei, ele pegou.

— Essa.

— Como você sabia?

— Porque eu conheço minhas ferramentas.

— Você conhece suas ferramentas melhor do que conhece as pessoas?

Ele continuou trabalhando.

— Ferramenta não mente.

A frase me faz parar. Ele tentou apertar alguma coisa, escorregou a mão e xingou baixinho.

— Você sabe que isso não é exatamente uma demonstração de competência, né?

— Quer fazer?

— Não.

— Então cala a boca.

Ele saiu rindo de debaixo de caminhão e tirou a camiseta para limpar o suor do rosto. Aproveitei para admirar o seu corpo magro, alto, esguio, mas firme e musculoso. Foi quando notei, contra a claridade que batia, uma cicatriz fina que atravessava parte das costelas, desaparecendo perto das costas. Quando a gente se pegava era normalmente na penumbra do barraco dele, então eu não conseguia observar esses pequenos detalhes com tanta nitidez.

A cicatriz não parecia recente, era irregular, clara, quase branca contra a pele. Minha voz saiu antes que eu conseguisse pensar.

— Isso foi o quê?

Cristiano olhou para o próprio corpo, depois para mim.

— Isso?

— É.

— Nada.

— Não parece nada.

Ele vestiu a camiseta novamente.

— Então pronto.

— Cristiano.

— Mateus.

— Como você se machucou? Foi um acidente? Foi seu pai?

O silêncio mudou de temperatura, ele segurou a ferramenta com mais força.

— Não fala do que você não sabe.

Não houve um grito. Foi justamente isso que me incomodou, ele simplesmente voltou ao trabalho, e o barulho metálico da ferramenta contra a peça ocupou o espaço que antes era nosso. Eu fiquei olhando para as minhas próprias mãos.

— Desculpa.

— Tá.

Mas as coisas não estavam bem, eu sabia. Silêncio. O som metálico da chave contra o parafuso pareceu alto demais. Depois de um período indistinto de tempo, Cristiano finalmente falou:

— Meu pai bebia.

Só isso. A frase veio seca, sem preparação. Eu não perguntei mais, mas ele continuou:

— Quando bebia, ficava engraçado.

Pausa.

— Depois ficava menos.

Meu estômago apertou

— Ele batia em vocês?

Cristiano não respondeu.

— Cristiano...

— Às vezes.

Minha garganta apertou. A chave escapou dos dedos dele, ele respirou fundo, saiu debaixo do caminhão de novo e se sentou no chão. As mãos estavam pretas de graxa, ele esfregou o polegar contra a palma.

— Minha mãe chorava.

Olhou para mim.

— Eu achava que, se eu ficasse acordado, ela não ia apanhar.

Não havia música naquele momento, ou talvez houvesse, mas eu não conseguia mais a ouvir.

— Você tinha quantos anos?

— Dez... nove, sei lá. Acho que foi quando eu me dei conta.

Ele deu uma risada curta, sem humor.

— Dez anos e achava que conseguia proteger alguém.

— E conseguia? - perguntei lugubremente.

Cristiano olhou para as próprias mãos.

— Não.

Era tudo. Nenhuma explicação, nenhuma cena, nenhuma tentativa de justificar. A resposta era simples, por isso doía mais.

Depois disso, algumas coisas começaram a fazer sentido: a casa pequena, o colchão fino, a televisão velha, a ausência quase completa de fotografias. O jeito como ele ficava desconfortável quando minha mãe colocava comida demais no prato dele.

A maneira como, às vezes, ele permanecia sentado na varanda depois de todo mundo jantar, como se não soubesse muito bem o que fazer quando uma casa permanece silenciosa sem que o silêncio seja uma ameaça. Uma noite, minha mãe perguntou:

— Cristiano, você quer levar um pouco de comida?

Ele hesitou.

— Não precisa.

— Eu fiz demais.

— Mesmo?

— Mesmo.

Ela colocou arroz, feijão e carne num pote. Cristiano segurou o recipiente com as duas mãos.

— Obrigado, dona.

— De nada, meu filho.

Ele baixou os olhos, só por um segundo, mas eu vi. Mais tarde, quando estávamos sozinhos na varanda, perguntei:

— Você saiu de casa por causa do seu pai?

Cristiano estava sentado no degrau, mexendo numa corrente da motocicleta.

— Também.

— E por que saiu?

Ele deu de ombros.

— Cansei.

— Só isso?

— Você queria que eu tivesse uma frase bonita?

— Não.

— Então pronto.

Fiquei ao lado dele.

— Eu saí de casa porque um dia ele chegou bêbado e tentou bater no meu irmão.

Agora entendi a fotografia, o menino pequeno, o braço sobre o ombro. Aquela expressão quase adulta no rosto de Cristiano.

— Você tinha para onde ir?

Ele riu.

— Tinha uma moto.

— Isso não é um lugar.

— Naquela época era. Primeiro fui para a casa de um amigo. Depois consegui trabalho lá no galpão. Depois aluguei o barraco lá.

Olhei para ele, Cristiano encarou a rua escura.

— Peguei minhas coisas. Coloquei numa mochila. Fui embora.

— Sua mãe deixou?

Ele demorou a responder.

— Ela disse para eu ficar.

— E você?

— Eu não conseguia mais.

O vento mexeu nas folhas da árvore acima de nós, Cristiano passou a mão pelo rosto.

— Eu tinha dezoito anos, Mateus. Todo mundo acha que dezoito é adulto. É uma idade engraçada. Você já pode trabalhar, dirigir, pagar conta, tomar decisão errada... mas ninguém explica como se faz para ser adulto.

— E você aprendeu?

Ele olhou para mim.

— Aprendi a não depender de ninguém.

A frase ficou entre nós. Eu poderia dizer que isso não é aprender a viver, mas não disse nada. Porque talvez fosse justamente esse o problema. Cristiano não aprendeu a viver, aprendeu a sobreviver. E, pela primeira vez, entendi que talvez fosse esse o lugar onde nossas vidas realmente se desencontravam. Eu queria construir alguma coisa, ele queria ter certeza de que amanhã ainda estaria de pé. Ele estendeu a mão e encostou dois dedos na minha.

— Que foi?

— Nada.

Ele sorriu.

— Você está fazendo aquela cara.

— Qual?

— Essa cara de quem está pensando demais.

Segurei sua mão.

— Talvez eu esteja.

Cristiano entrelaçou os dedos nos meus.

— Então pensa menos.

— Não sei fazer isso.

— Eu sei.

E apertou minha mão, como quem, por alguns segundos, conseguia me oferecer exatamente aquilo que ele nunca recebeu. Uma coisa pequena, uma coisa insuficiente, uma coisa que, justamente por ser tão pequena, assustava muito mais do que qualquer promessa.

Cristiano ficou comigo até tarde, depois foi embora na motocicleta, deixando no ar aquele cheiro de gasolina, poeira e noite fria que parecia ter se tornado uma espécie de assinatura dele. Eu fiquei na varanda até o farol desaparecer na esquina.

Quando ele foi embora, a conversa ficou comigo. Eu pensava nela enquanto estava sentado na varanda da minha casa, observando a rua silenciosa, com o cheiro de terra molhada subindo das calçadas e o vento frio entrando pela gola da minha camisa.

Cristiano não tinha medo apenas de ser descoberto, essa era a explicação fácil. A verdadeira parecia muito pior: ele não sabia o que fazer quando alguém ficava (e, ironia do destino, eu também talvez não soubesse). Porque, para ele, ficar sempre pareceu uma coisa provisória.

A mãe ficou para trás, o pai ficou para trás, o irmão ficou para trás, a casa ficou para trás. E tudo aquilo, de algum modo, virou violência. Então Cristiano aprendeu outra matemática. Não esperar, não pedir, não depender, não planejar. Sobreviver até o quinto dia útil.

Eu, ao contrário, passei a vida imaginando o que existia depois dela: faculdade, cidade grande, carreira, livros, uma casa que ainda nem existia. Um futuro inteiro desenhado em lápis, esperando que eu tivesse coragem de colorir. E talvez fosse justamente aí que estivesse o obstáculo que nenhum beijo conseguia resolver. Eu queria levar Cristiano comigo, Cristiano talvez nem soubesse para onde ir.

_________

Naquela noite, dormi mal. Não era exatamente insônia, era pior. O sono vinha, mas vinha aos pedaços, como se alguma coisa dentro de mim tivesse decidido que descansar seria um luxo indevido. Antes de enfim apagar, pensei naquilo que Cristiano me disse no galpão certa vez:

“Você vai embora?”

A pergunta continuava martelando na minha cabeça. Talvez porque, pela primeira vez, eu percebesse que não era apenas Cristiano quem podia ser deixado para trás. E eu já fizera isso antes, mais vezes do que gostaria de admitir.

No sonho, estou numa casa velha. Não sei onde fica, sei apenas que existe uma estrada de terra diante dela e que o vento levanta poeira suficiente para apagar as coisas antes mesmo que eu consiga as enxergar direito. A casa parece ter sido abandonada há décadas, embora haja uma cadeira na varanda e uma lâmpada acesa sobre a porta.

É madrugada, aquele intervalo miserável entre a noite e o amanhecer, quando tudo parece suspenso e até os sons mais distantes adquirem uma importância absurda. Estou descalço, não sei por quê. Então percebo que estou usando uma beca de formatura, ou o que sobrou dela.

O tecido está rasgado, sujo de terra, preso em alguns lugares por fios soltos. A barra arrasta pelo chão e deixa uma marca escura na poeira. Olho para mim mesmo e tenho vontade de rir.

— Muito apropriado — digo.

Minha voz não parece minha. Então ouço o primeiro motor, longe, muito longe. Um ronco grave atravessa a escuridão. A estrada começa a se iluminar e eles aparecem.

Primeiro, Leandro. Não exatamente como ele era, mas como minha memória decidiu o reconstruir: o corpo inclinado sobre o volante de uma carcaça de carro, os faróis quebrados, a lataria queimada. O veículo avança lentamente pela estrada, soltando fumaça pelas janelas.

— Mateus!

Ele grita meu nome, eu dou um passo à frente.

— Leandro!

Ele não para, o carro passa diante da casa e desaparece na poeira.

Depois vem Heitor.

Depois Rafael.

Depois Rodrigo.

Cada um dentro de uma espécie diferente de ruína. Carros antigos, caminhonetes destruídas, motores que deveriam ter parado de funcionar há anos, mas continuam avançando pela estrada como se obedecessem a alguma lei que eu não conheço.

Eles passam, todos gritam meu nome. Eu corro até a beira da estrada.

— Espera!

Ninguém espera. A poeira entra nos meus olhos, tento enxergar, nada. Volto para a varanda, espero. O vento aumenta, então ouço outro motor. Dessa vez, reconheço o carro antes de ver quem está dirigindo.

Leandro. O segundo, o que chegou depois, mais recente. O que eu ainda não sei se pertence ao passado ou se é apenas outra versão de uma história que insiste em se repetir.

— Mateus!

Corro.

— Eu estou aqui!

O carro passa, ele não olha para mim.

— Eu estou aqui!

Nada. Quando finalmente alcanço a estrada, não existe mais ninguém. Só a poeira e o vento. E aquele silêncio enorme que parece ter sido colocado ali especificamente para me humilhar. Volto para a casa, a beca está no chão. Olho para ela, piso sobre o tecido.

E então percebo uma coisa que me assusta mais do que os carros: no bolso da beca há uma chave. Uma chave pequena, de motocicleta. Eu a retiro, escuto outro motor. Mais próximo, muito mais próximo. Levanto os olhos, no fim da estrada, surge uma motocicleta. Cristiano. Meu corpo inteiro se move antes que eu consiga pensar, desço os degraus correndo.

— Cristiano!

A motocicleta se aproxima, o farol ilumina meu rosto. Ele diminui a velocidade, eu sorrio. Pela primeira vez naquela noite, sorrio. Cristiano para diante de mim, tira o capacete.

— Você vem?

Olho para trás. A casa, a varanda, a beca abandonada no chão, a estrada.

— Para onde?

Ele olha para mim como se a pergunta fosse absurda.

— Pra longe daqui.

Dou um passo em direção à motocicleta, então percebo que Cristiano está sozinho. Não há segundo capacete, não há lugar para mim.

— Espera.

Ele acelera.

— Cristiano!

O motor desaparece, a estrada fica vazia outra vez. E eu acordei.

Me sentei na cama com tanta força que bati o joelho na parede. Levei alguns segundos para entender onde estava. Meu quarto, a janela fechada, o ventilador fazendo aquele ruído irregular de sempre. O relógio digital marcava 4h37.

Estava suando, passei a mão pelo rosto. Meu coração ainda não havia entendido que não havia estrada nenhuma diante de mim. Fiquei sentado no escuro, a imagem da beca não saía da cabeça. Talvez porque eu soubesse exatamente o que ela significava. Ou talvez porque minha cabeça fosse uma péssima roteirista e tivesse decidido misturar faculdade, culpa, desejo e cinco homens num único pesadelo.

Leandro. Heitor. Rafael. Rodrigo. Leandro. Cinco nomes, cinco histórias. Cinco maneiras diferentes de eu ter acreditado que sabia o que estava fazendo. E agora Cristiano. O sexto. Não conseguia deixar de pensar na ironia: eu passei tanto tempo reclamando que Cristiano não sabia imaginar o futuro, embora talvez o problema fosse que eu imaginava futuros demais. Para mim, para ele, para nós. Para pessoas que nunca me pediram esse trabalho.

Me levantei e fui até a cozinha, bebi água diretamente da garrafa na geladeira. Apoiei as mãos na pia. No silêncio da casa, lembrei de uma coisa que Cristiano me disse:

“Você vai embora?”

Eu respondi:

“Um dia.”

Talvez tivesse sido a resposta mais honesta que eu poderia dar. E também a mais cruel, porque Cristiano ouviu aquilo como quem escuta uma sentença. Voltei para o quarto e me sentei na cama. Pensei nos outros, será que todos eles ficaram esperando alguma coisa de mim?

Será que eu transformei cada relacionamento em uma espécie de estação de passagem? Chegava, vivia intensamente, aprendia alguma coisa, desejava outra vida e depois seguia adiante, convencido de que crescer era necessariamente abandonar?

Leandro foi embora. Heitor ficou para trás. Rafael virou memória. Rodrigo virou ferida. O primeiro Leandro virou uma espécie de fantasma que ainda sabia meu nome. E agora Cristiano. A diferença é que Cristiano não queria uma explicação sofisticada, ele só queria saber se eu iria ficar.

E eu não sabia, essa era a parte que mais me assustava. Não sabia se o meu medo era o perder ou descobrir que, para não o perder, talvez eu precisasse abrir mão de alguma versão de mim mesmo que vinha construindo desde muito antes de o conhecer.

Olhei para a janela, o céu começava a clarear muito devagar. A estrada do sonho já não existia, mas a sensação permanecia, como se alguma coisa tivesse passado diante da minha casa durante a madrugada e levado consigo uma parte de mim. Eu peguei o celular, não havia mensagem alguma. Fiquei olhando para a tela, tinha vontade de escrever para Cristiano.

“Você está bem?”

Apaguei. Escrevi ao invés:

“Você chegou bem ontem?”

Apaguei também. Por fim, não escrevi nada, coloquei o celular sobre a mesa. Era estranho, passei a vida inteira achando que o perigo estava em sentir demais, quando talvez o verdadeiro perigo fosse descobrir que algumas pessoas não apareciam para ficar, apareciam para nos ensinar o preço de partir. E, pela primeira vez, tinha medo de que Cristiano fosse uma delas.

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Comentários

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Não sei pq eu não recebi a notificação de publicação desse conto, então vim atrás e só li agora! Mas que pesadelo mais edificante! Hahaha. E o Mateus devia pensar que não é tudo ou nada. Talvez Cristiano queria ser levado embora também...junto

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escolha ser feliz independente do lugar e das circunstancia

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quando a dor causado pelo outro que deveria te proteger é mais cruel. conto tocante

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