Dizem que eu tenho um corpo muito enxuto para a minha idade.
Meus filhos vivem repetindo que eu devia sair mais, fazer amizades novas, arrumar um namorado. Que eu mereço. Eu escuto, agradeço e não acredito em uma palavra — porque quando eu paro na frente do espelho, não é isso que eu vejo. Eu vejo a sombra da mulher que um dia eu quis ser.
Quando eu era menina, os quarenta pareciam um lugar seguro. Eu chegaria lá com a vida resolvida: casa própria, marido, filhos criados, um emprego decente e uma parede cheia de diplomas. Era só atravessar e seguir em frente.
Mas, a vida não é gente boa.
Casei cedo, com um homem que eu não tinha certeza de amar — e o "não tinha certeza" já era a resposta, só que ninguém me ensinou a ler isso aos dezenove. Os filhos vieram rápido. Os estudos ficaram para depois, e o depois nunca chegou. A rotina cobrou o preço dela no meu corpo, e meu marido, que pareceu descontente com as obrigações da vida à dois, foi procurar em outra mulher aquilo que ele achava que tinha perdido. Levou pouca coisa quando saiu, mas deixou a família inteira.
Hoje eu sou aquilo que o mundo adora chamar de guerreira.
É a palavra que inventaram para não dizer sozinha. Ninguém chama de guerreira uma mulher que está bem — guerreira é o troféu que te dão por aguentar. E eu aguento: ralo como uma condenada para que meus dois filhos, que mal entraram nos vinte, tenham um futuro melhor que o meu.
O deles está garantido. Do meu ninguém fala.
E sexo?
Eu amo. Sempre amei. Só que sexo é uma dessas coisas que saíram do meu cardápio — e não é por eu ser feia. É por eu viver cansada.
Saio de manhã, trabalho o dia inteiro, volto e ainda tem lista de tarefas me esperando em casa. Os meninos ajudam agora, mas a dona da casa sou eu, e o que sobra sempre sobra pra mim. Some a isso o fato de eu ser protetora demais: enquanto meu filho está na rua, ou minha filha saiu com o namorado, minha cabeça não desliga. Fico com um pedaço do juízo do lado de fora, esperando barulho de portão.
Quando finalmente sobra um tempo, eu não tenho corpo pra ele.
E mesmo assim eu me cuido. Creme à noite, depilação em dia, raiz retocada antes de aparecer, um perfume bom guardado para as ocasiões. Eu mantenho impecável um corpo que ninguém encosta há anos. Nunca parei pra pensar pra quem. Acho que pra mim — ou pra alguma versão minha que ainda não desistiu.
Vez ou outra, numa festa de amigo próximo, alguém puxa conversa. E é aí que eu vejo o tamanho do estrago: eu não tenho assunto. Quem passa a vida sendo guerreira não coleciona histórias, coleciona coisas cotidianas. O que eu ofereço numa conversa? Boleto, escala de trabalho, o resultado do exame do meu filho? Eu sorrio, respondo curto, e vejo a pessoa procurar outro lugar pra conversar. Cada vez que acontece, eu confirmo o que o abandono me ensinou — que eu sou pouca coisa, que ninguém ia me querer mesmo.
Mas essa história é de um amor inusitado.
Eu ainda não sei direito por onde começar. Só sei o ponto: foram seis anos inteiros sem transar. Seis. E eu lembro da última vez minuto por minuto — não porque foi boa.
Ninguém avisa quando é a última vez. Não tem despedida, não tem nada diferente no ar. Você faz igual fez outras cem, dorme, acorda no dia seguinte e a vida segue. Só muito depois, olhando pra trás, é que você entende que aquilo ali foi o fim de alguma coisa.
Foi uma transa sem gosto, sem tesão, sem pegada.
É por ela que eu vou começar. Porque é de lá que eu venho — e porque, se eu abrisse pela parte boa, você não ia entender o tamanho dela.
Quando se é mãe, você sabe que não vai poder transar quando seus filhos estão acordados, conforme eles envelhecem, ao contrário do que se pensa, fica pior ainda. Eles consegue captar os sinais, entender melhor os sons. Ninguém quer que seus filhos saiba que você está no quarto transando.
Meu marido estava em casa.
E marido em casa, naquela época, queria dizer marido me caçando pelos cômodos. Ele chegava na hora que dava na telha, largava as coisas em qualquer canto e vinha atrás de mim. Mão na minha cintura enquanto eu lavava louça, corpo me prensando contra a bancada, beijo roubado no corredor, mão por dentro da blusa enquanto eu dobrava roupa.
Não posso dizer que eu nunca gostei disso. Gostei muito, por muitos anos.
Só que antes tinha troca. Ele me apalpava na cozinha porque de noite ia me pegar direito. Porque de manhã ele tinha feito o café. Porque na quarta ele tinha perguntado como foi o meu dia e esperado a resposta. A mão na minha bunda era lembrete de um monte de outras coisas.
Quando as outras coisas acabaram, sobrou a mão na bunda. E aí virou outra coisa completamente diferente. Aí eu passei a detestar.
— Cara, eles tão acordados, porra! Hoje não!
Eu falava. Repetia. Tentava dizer o óbvio, como quem explica horário pra criança. Mas ele não estava perguntando, estava avisando. Quando ele queria, ele tinha. E em algum ponto que eu não sei precisar, eu tinha parado de brigar por isso.
E, já que é pra contar tudo: eu também não estava lutando muito. Porque aquilo, do jeito ruim que era, ainda era o melhor que eu tinha.
Era o sexo que eu podia ter.
Lembro dele me arrastando pro quarto aos beijos, tirando minha calcinha por baixo do vestido de ficar em casa. Eu sempre amei isso nele, não posso negar. A pegada forte, o homem mandão, meio bruto. Era a única coisa nele que nunca precisou de esforço — e talvez por isso tenha sido a última a ir embora. Tudo que exigia trabalho já tinha acabado fazia tempo, junto com a gentileza.
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