Aquela noite foi uma das mais complicadas da minha vida; demorei a dormir. Já havia passado por muitos problemas e dificuldades, mas nunca tinha lidado com o que estava enfrentando naquele momento.
Tamires foi incrível comigo. Era difícil acreditar que ela ainda era uma adolescente. Seu comportamento era de uma pessoa adulta; era muito responsável, inteligente e com um coração enorme. Naquele início de tarde, ela foi meu porto seguro, a pessoa que me abraçou e ouviu meu desabafo sem me julgar. Em vez de me fazer mil perguntas ou dar lições de moral, ela simplesmente ficou ali comigo. Nunca vou esquecer disso. Eu já amava aquela garota como uma irmã, e depois dela enxugar minhas lágrimas, passei a amá-la ainda mais. Ela só saiu da minha casa depois que viu que eu estava melhor. Antes de ir, fez uma única pergunta: perguntou se eu amava Tânia. Eu disse que não, que nunca tinha amado ninguém romântica mente para comparar, mas que o que sentia por Tânia ainda não era esse tipo de amor, disso eu tinha certeza; estava apenas gostando muito dela. Tamires desfez a expressão preocupada e apenas disse: “Graças a Deus.”
Depois que ela se foi, tomei um banho e consegui comer alguma coisa antes de me deitar. Troquei toda a roupa de cama; não queria correr o risco de sentir o cheiro da Tânia nos meus lençóis.
Deitada, comecei a repensar tudo e cheguei a uma conclusão: a maior parte da raiva que sentia não era de Tânia, mas de mim mesma por ter permitido que isso acontecesse. A culpa de estar passando por isso era minha. Eu precisava ser bem mais cautelosa dali em diante, manter-me longe de Tânia e de qualquer relacionamento. Precisava cumprir o que jurei a mim mesma, abraçada com Manu naquele hospital. O foco principal tinha que ser ela, só ela.
Acordei no dia seguinte um pouco mais tranquila; a raiva havia diminuído, algo que sempre acontecia comigo. Aquela raiva que, às vezes, me tirava a razão passava rápido; era algo momentâneo e explosivo. Graças a Deus, não fiz nenhuma besteira. Eu estava bem; o coração ainda doía e eu não iria esquecer o que houve, mas a dor passaria, e eu conseguiria conviver com ela até que sumisse de vez.
Fui para a padaria um pouco antes do meio-dia. Quando entrei, Tamires já estava lá com Manu ao lado. Quando me viu, veio correndo me dar um abraço. Eu a apertei nos braços e disse que a amava muito; ela respondeu que também me amava e me deu um beijo no rosto. Tamires se aproximou e disse que a trouxe porque imaginou que eu estava com saudades e não iria querer entrar em casa para vê-la. Agradeci e disse que ela tinha razão em tudo.
Fiquei com minha sobrinha e Tamires até dar a hora de eu começar a trabalhar. Tânia chegou da faculdade no horário habitual, passou rápido e de cabeça baixa. Eu não sabia se era medo do que eu poderia fazer ou falar, ou se era vergonha. Porém, ela nem olhou para o lado do balcão, onde sabia que eu estaria. Naquele dia, não desceu para trabalhar, e agradeci a Deus por isso. Tinha certeza de que não iria falar nem fazer nada com ela, mas não ter sua presença no mesmo ambiente era melhor ainda.
O tempo foi passando, e Tânia só voltou a trabalhar na semana seguinte. Graças a Deus, não dirigiu uma palavra a mim e nem me olhava; pelo menos eu não a vi fazer isso. Mas era nítido que ela estava triste; isso estava estampado em seu rosto. Eu só não sabia a razão. Arrependimento por ter feito o que fez comigo ou porque Rogério só a usou de novo? Apostava na segunda opção, mas demorou muito tempo para eu descobrir a verdade, na verdade, alguns anos.
Minha raiva se foi com o tempo; a dor da traição demorou mais, mas também se foi. A presença de Tânia já não me incomodava tanto, mas eu não queria nenhum tipo de contato com ela. Helena percebeu e perguntou se nós tínhamos brigado. Eu disse que tivemos uma pequena discussão, nada sério, mas a amizade havia acabado. Expliquei a Helena que, apesar de nós duas termos tentado e até nos dado bem por um tempo, éramos muito diferentes. Foram exatamente essas diferenças que levaram a um conflito, e para evitar algo pior, decidimos que era melhor cada uma ficar no seu canto.
Helena disse que talvez fosse melhor assim, que conhecia bem a filha que tinha e me conhecia o suficiente para saber que éramos totalmente diferentes. Apesar de ter gostado de nos vermos bem por um tempo, era meio óbvio que, em algum momento, iríamos nos estranhar justamente por termos valores diferentes. Disse que não iria se meter, já que éramos adultas, e que só perguntou por curiosidade. Fiquei feliz por ouvir aquilo; acho que, no fim, aquele assunto seria resolvido sem precisar expor tudo que houve entre eu e a filha dela.
Helena nunca mais tocou no assunto, e a vida seguiu seu curso. Passei a dar mais valor ao meu tempo com a Manu; não que eu não fizesse isso antes, mas, por um tempo, acabei perdendo meu foco principal: ver Manu crescer feliz e proporcionar a ela o que eu não tive. Comecei a sair com ela quase todas as manhãs; às vezes íamos a uma sorveteria que ela adorava, outras vezes saíamos para fazer compras ou simplesmente ficávamos sentadas no banco da praça. Ela já tinha pouco mais de três anos e estava cada vez mais linda. Eu tinha muito orgulho dela e de mim mesma por estar criando uma menina saudável e educada. Apesar de achar que uma boa parte dessa educação vinha de Tamires, que mantinha Manu sempre na rédea curta, como dizia meu pai.
Minha irmã estava noiva e provavelmente se casaria no ano seguinte. Ela disse que não iria esperar se formar. Matheus era louco para constituir uma família grande, e como ela era apaixonada por crianças, decidiu começar cedo sua família. Sinceramente, achei meio apressado, mas não tinha dúvidas de que Eliana seria uma ótima mãe e Matheus um ótimo pai. Ele estava terminando seu último ano de medicina; logo, a cidade teria um novo pediatra para cuidar de suas crianças.
Pedro ainda era uma presença constante na minha vida. Sempre que podia, levava Manu até seu apartamento e conversávamos muito. Acabei contando para ele sobre Tânia, e ele disse que eu fui muito idiota em achar que Tânia algum dia me assumiria perante a família e, principalmente, para seus amigos. Tive que concordar com ele; realmente fui muito burra. Pedro também ia muito à minha casa e à casa de Helena; ele era querido por todo mundo.
Falando em Tânia, parece que finalmente ela conseguiu o que queria. Rogério criou coragem e pediu a mão dela em casamento. Isso aconteceu uns seis meses depois da nossa separação. Parece que Rogério cansou de se divertir, resolveu se casar e virar um homem sério. Tânia foi a escolhida, e agora estão noivos. Sinceramente, eu nem sei o que senti quando Tamires me contou. Não fiquei triste nem feliz; para mim, Tânia já era uma página virada.
Eu já tinha uma boa quantia de dinheiro guardada. Para muita gente, poderia ser pouco, mas para alguém que nunca teve muito, era satisfatório ver minha conta bancária. Estava planejando juntar mais e, quem sabe, comprar um carro para mim. Mesmo Helena me emprestando o dela ou o do Seu Geraldo para usar quando necessário, eu queria ter o meu. Já tinha pensado em guardar para o futuro de Manu, mas Helena disse para eu não me preocupar com isso, pois ela tinha aberto uma conta poupança para Manu e todo mês depositava uma boa quantia. Isso seria usado para os estudos dela no futuro.
Porém, a vida tinha outros planos para o meu dinheiro. O comércio dos meus pais não estava indo bem há um tempo; eles não me contavam, mas Eliana sempre me mantinha informada de tudo. As coisas foram piorando, e tanto eu quanto Eliana decidimos ajudar. Eliana já ganhava um bom salário na loja onde trabalhava e passou a pagar sua faculdade. Eu decidi transferir 90% do que eu tinha para a conta do meu pai; só depois contei a ele. Foi uma conversa tensa; ele não queria aceitar de jeito nenhum. Mas eu fui mais teimosa do que ele dessa vez, e com a ajuda de Eliana, consegui convencê-lo a aceitar. Porém, ele disse que aceitar seria sob a condição de que ele me pagaria no futuro. Prometi, mas sabia que, pelo andar da carruagem, ele não conseguiria me pagar e provavelmente aquele dinheiro não duraria muito tempo.
Mas eu e Eliana tínhamos um plano. Matheus vinha de uma família relativamente rica. Seus pais tinham doado um lote bem grande para a construção da futura casa que ele e Eliana iriam morar. Matheus sabia dos problemas que seus sogros enfrentavam e teve a ideia de construir a casa deles e deixar um pedaço do terreno para que seus sogros pudessem construir uma casa e viver ao lado da filha. Nossa ideia era que, assim que Eliana se casasse, nós duas convenceríamos nossos pais a vender o sobradinho e usar o dinheiro para construir a casa ao lado da casa de Eliana. Iríamos ajudar e bancar as despesas deles, pelo menos até meu pai se aposentar, algo que não demoraria; provavelmente em dois anos ele já poderia fazer seu pedido de aposentadoria. Não seria algo fácil, já que nosso pai é um homem muito orgulhoso, mas acreditávamos que juntas conseguiríamos convencê-lo.
Minha vida estava boa. Claro que existiam problemas no dia a dia, mas nada que tirasse meu sono. E assim seguiu por um bom tempo.
Tudo começou a mudar no dia do casamento da minha irmã. Foi tudo lindo, e a festa foi maravilhosa. A família de Matheus era super gente boa, e Manu foi dama de honra. Ela ficou linda; depois do casamento, acho que tiraram mais fotos dela do que dos noivos. A maioria foi Tamires e Helena que tirou, mas quase todo mundo fez questão de tirar uma foto com Manu. Eu, claro, tirei várias, mesmo com um celular meio ruim, as fotos ficaram boas.
Mas essas fotos acabaram parando na mão de Tânia, que estava com o casamento marcado. Ela foi convidada para o casamento da minha irmã, mas por algum motivo, não foi. Porém, viu as fotos no celular da mãe. Nessa época, Tânia já estava com o casamento marcado; o relacionamento dela com Rogério realmente se tornou sério. Ele frequentava a casa dela direto; até nos víamos às vezes, e ele sempre me cumprimentava e até trocava algumas palavras comigo.
Bom, Tânia viu as fotos e se encantou com Manu de vestido de dama. Mostrou as fotos para Rogério, que também adorou. Só fui saber disso depois pela boca de Helena. O resultado foi que, um dia, na minha saída do trabalho, Tânia estava parada perto do início da escadaria para subir ao andar de cima, onde eu iria pegar Manu. Quando fui passar, ela simplesmente falou o que tinha para falar.
Tânia— Será que eu poderia levar a Manu como minha dama de honra? Por favor.
Eu até me assustei quando ouvi sua voz direcionada a mim. Olhei para ela, e ela estava olhando para o chão, como se tivesse medo de olhar nos meus olhos. Nem precisei pensar; disse que tudo bem. Que ela poderia resolver tudo com a mãe dela, mas que tinha minha autorização. Ela agradeceu e saiu andando sem me olhar. Achei aquilo até engraçado, mas não sorri; só continuei meu caminho.
Bom, eu nunca proibi Tânia de ter contato com Manu. Primeiro, porque ela sempre tratou minha sobrinha super bem e nada mudou depois do que houve entre nós; segundo, porque Manu gostava dela, sempre gostou. Rogério também tinha contato com Manu, e era nítido que ele gostava dela. Até deu alguns presentes em datas especiais, e claro, ela o chamava de tio. Ela ainda não tinha perdido essa mania; para ela, todo mundo era tio ou tia.
Eu não iria proibir Manu de ser daminha de Tânia. O tempo tinha passado; eu nem tinha mais mágoa dela, só não queria contato. No mais, ela era alguém que fazia parte do meu dia a dia e era uma das pessoas que Manu gostava.
Falei com Helena sobre o assunto e pedi que ela falasse com Tânia para avisá-la quando começassem os ensaios ou as provas dos vestidos. Eu queria saber para não marcar nenhum compromisso com Manu no mesmo dia e causar um problema. Helena disse que iria falar com ela e resolveria tudo. Agradeci a Helena e disse que, se precisasse, ela mesma poderia resolver, pois eu já tinha dado a autorização.
Os dias se seguiram, e faltavam pouco mais de um mês para o casamento de Tânia. Recebi o convite, mas com certeza não iria. Manu já tinha ido a alguns ensaios, e Rogério veio me agradecer por eu permitir que Manu fosse a dama do casamento dele. Ele elogiou muito a Manu e insistiu para que eu fosse. Eu disse que iria, mesmo sabendo que não iria.
No meio disso tudo quase houve uma tragédia. Seu Geraldo passou mal e foi levado as presas para o hospital. Ele ficou cinco dias internado e os exames indicaram um problema de pressão arterial alta, isso causou uma pequena arritmia no coração. O médico passou uma lista com três remédios para ele tomar diariamente, e recomendou repolso total nos próximos dias. Também pediu para que se possível, era para ele ficar em um ambiente tranquilo, principalmente no início do tratamento. A pressão dele estava alta e qualquer tipo de estresse poderia levar ele a ter outra crise. Helena ficou muito preocupada e passou a ir menos na padaria, ela estava ficando mais em casa para cuidar de marido de perto.
Faltando pouco mais de quinze dias para o casamento, Manu passou bastante tempo com Tânia e provavelmente com Rogério. Ela sempre falava algo deles; acho que adorou ser dama de honra e gostava de ir aos ensaios. Imagino que isso se devia muito às “porcarias” que Tânia comprava para ela. Porcarias que às vezes eu tinha que esconder para ela não comer além do limite, especialmente chocolates.
Faltando poucos dias para o casamento, notei uma mudança em Rogério. O vi algumas vezes durante a semana, e ele simplesmente me ignorou. Não que isso fizesse falta, mas antes ele sempre sorria e me cumprimentava. O sorriso sumiu, e ele parou de me cumprimentar. Até achei que era coisa da minha cabeça, ou talvez ele estivesse nervoso por causa do casamento. Como eu estava errada!
Mas não foi só isso que notei nas últimas semana antes do casamento. Também percebi uma pessoa nova que começou a frequentar à padaria todos os dias, exatamente às três horas da tarde. Mas não fui só eu que a notei; ela também me notou e fez questão de deixar isso bem claro.
Continua...
Criação; Forrest_Gump
Revisão; Whisper
