Capítulo XXXIV – Cavalo Companheiro
Antes de seguir, acredito que sejam necessárias algumas palavras. Ártemis me entregou este caderno para que eu pudesse conversar com Clara, e para que esta pudesse me auxiliar a entender sua linguagem de sinais. Em dado momento, minha Deusa pegou o caderno para folhear e disse que havia gostado do que leu. Deu-me, então, outra tarefa: deveria rememorar tudo o que vivera em seu Templo. Mas Ártemis me pediu que fizesse isso não apenas relembrando os momentos, mas também tentando recompor minhas memórias sobre eles. Não sei se a entendi corretamente, mas penso que seu desejo possa ser acompanhar de perto a evolução da minha mente e das minhas ideias — a transição de um falso homem preso em uma sociedade ressentida para a minha verdade de presa, sujeito apenas às determinações de minha própria natureza e a ocasional Vontade predadora.
Acho importante expor isso aqui, pois creio que o texto possa ser mal compreendido. Hoje, estando em um ponto mais elevado da minha vida, não compartilho mais da visão ressentida em relação a Epona e ao próprio Templo; entendi minha posição natural de presa. Porém, naquela época — e, principalmente, após a predação de Epona —, atingi o ápice do ressentimento. Como já combinado com meu leitor, todavia, devo tentar revisitar os confins desse homem ressentido e escrever com suas próprias palavras. Apenas tenha em mente que esse retrato triste não corresponde mais àquilo que guardo comigo...
Quando cheguei ao Templo de Ártemis, quando fui escolhido pela minha Deusa e acolhido pela Senhora do Estábulo, meu ressentimento era, praticamente, todo externo. Nasci com um pênis... e não qualquer pênis, um pênis grosso. Na sociedade da “igualdade”, qualquer diferença biológica que, por um “milagre”, escape do destino da mediocridade é lida como essencialidade. Tinha um pênis, logo, deveria ser um homem. Foi roubada de mim a verdade da minha essência de presa, mas, como presa, participei desse sequestro vendo homens nos outros pintos. Se isso não bastasse, a sociedade da humanidade fez dos homens meninos, ao mesmo tempo em que fez os meninos pensarem que eram homens; mesmo os garotos que percebiam o engodo o compreendiam de maneira parcial. Al Capone e Escobar foram apenas adolescentes que, ao crescerem um pouco, quiseram voltar à segurança da humanidade para rir dos adultos infantilizados...
Como presa, incapaz por essência e dominada pela lógica do rebanho, aos poucos meu ressentimento foi sendo direcionado para a Senhora do Estábulo. Qual a lógica desse ressentimento? Tinha tesão por Epona, desejava seu corpo! Queria beijar sua boca, mordiscar seu pescoço, apertar seu seio macio, penetrá-la! Será que eu me satisfazia com as migalhas fetichistas e humilhantes: engolir seu cuspe, lamber o suor de suas axilas, limpar as solas de seus pés? Mas, como presa, nada podia garantir sua atenção, então eu a ressentia? Ou talvez fosse o homem, o menino que gritava dentro de mim e que, humilhado tanto por Epona quanto pelo verme, não tolerava a Senhora do Estábulo e exigia alguma reação minha? Ou, ainda, pensava-me muito superior ao que realmente era, julgando já ser Cavalo e que Epona estava apenas atrasando o momento de minha entrega a Ártemis?
Hoje, sei que tentar responder a essas questões — achar que elas podem ser respondidas por mim — é o pior veneno da sociedade da humanidade. Como presa, não sou capaz de dar sentido; sou, antes, significado pelo Predador. E, como variam os Predadores, variam os significados e, por consequência, meu próprio ser... Mas, até ter passado pelas três Domas, eu não tinha inscrito em mim o meu significado; carregava ainda o falso homem e a ilusão de que poderia me significar. Inicialmente, a minha solução foi ver o Templo como a sociedade destituída de qualquer tabu, a verdade cuspida e escarrada: existem presas e predadores. Nessa sociedade, poderia significar-me como presa, enquanto minha Senhora se significava como predadora. Mas o que eu estava vendo era a sociedade, e a verdade é que a sociedade é também fraude. Após Epona me predar, ficou claro, terrivelmente claro, que não havia sociedade entre presa e predador; ver a Natureza como organização e não como potência é o fardo da presa...
Destruído, recusava-me a acordar. Não tinha fome, não tinha desejo... como se tivesse sido expulso de um Éden que nunca existiu, aguardava a queda fatal. Meu corpo todo doía, mas doía ainda mais a ideia de que não havia uma aliança possível entre presa e predador.
(Caligrafia diferente, definitivamente Noga)
“Ai, ai... você nunca surpreende, porquinho... eu esperei tanto tempo para conseguir tirar esse caderno das mãos da Ártemis, na esperança de que leria seu melhor momento... Você descrevendo seus gritos, suas dores, seus sofrimentos... Queria que você relatasse como era cagar com um cu com o dobro do raio! Por que você não começou a contar que agora seu pau podia caber no seu cu sem problema nenhum? Como você é chato, como desagrada seus leitores! Eles querem ouvir sua verdade, porquinho, seus gritos enquanto Epona lhe predava, seu sofrimento enquanto você cagava sangue! Mas não, você tem que ser esse ser chatíssimo que quer falar de coisas que você não entende... Você me enganou quando disse que estava condenado a fazer um relato erótico... e me enganou de novo ao entregar um vídeo tão saboroso como aquele e, depois disso, voltar para essa chatice...”
Despertei quando o deserto no qual meu ser havia se transformado foi banhado por uma chuva gentil... Uma mão levantava um pouco minha cabeça, enquanto a outra inclinava um pote com água garganta adentro. Não eram as mãos de Epona, eram mãos irmãs às minhas, era o Outro. Estava deitado em um banco elevado de ferro, em uma espécie de cela; o banco em questão estava encostado às grades. Atrás delas, entre as barras de metal, o Outro passava seus braços e tentava interromper minha queda. Ele se encontrava em uma cela semelhante à minha, uma ao lado da outra... Estava visivelmente ferido, bastante ferido; éramos restos de homens.
Uma luz amarela e fraca, vinda de um corredor que chegava à prisão em que nos encontrávamos, iluminava o sorriso do Outro... Estaria contente por me ver despertar? Poderia haver emoção verdadeira? Um sorriso que não fosse fingido? Tentei desviar o olhar; ele percebeu que havia algo de inconveniente, repousou minha cabeça no banco com delicadeza e retirou suas mãos de dentro da minha cela...
— What happened? I heard your screams.
Seu inglês seguia sofrível... mas me compadeci. Epona também falava português; podia haver sotaque, podia haver distância, mas existia um caminho entre nossas línguas... com o Outro não. Ele não falava a língua de Epona, ele não falava a minha língua, e a língua dele não era o inglês; ele se comunicava de maneira sofrível com o inglês de Epona... Tentei me virar. Como meu corpo doía, como minha bunda ardia... ele desviou o olhar, como se tentasse me dar alguma privacidade, como se não quisesse ver o pequeno sangramento que escorria do meu cu para o chão... Nossos olhares se encontraram pela primeira vez. Tentei falar algo, mas, antes das palavras, estávamos chorando...
