Eu saí da casa com a mochila no ombro e o cabelo ainda úmido. A rua de Itatiaia estava quente, daquele sol de manhã que já incomoda. Fechei o portão com cuidado, como se fizesse diferença.
Caminhei sem destino. O corpo estava limpo. A cabeça, não.
Toda vez que piscava, via a mesma coisa: a Helena parada na porta do box, a blusa azul manchada, o gozo escorrendo pela bochecha, aquele “meu Deus, o que eu fiz” e os passos correndo pelo corredor.
Fui para casa. Tomei outro banho. Frio. Fiquei parado debaixo da água até os dedos enrugarem. Não adiantou.
Perto do meio-dia, o celular vibrou.
Beatriz: “Está em casa? Pensa em vir jantar?”
Olhei a tela por um tempo.
“Hoje não. Estou ruim da cabeça.”
Ela mandou um ok e um beijo. Não insistiu.
A Helena não mandou nada. O Paulo também não.
Passei a tarde no sofá, com o celular virado para baixo. Cada vibração era um susto. Nenhuma era dela.
À noite, tentei comer e não consegui. Deitei cedo. Dormi mal. Sonhei com a tranca girando. Com o clique. Com ela escolhendo ficar.
Na quarta, evitei a casa. Inventei trabalho. A Beatriz reclamou baixo, daquele jeito dela quando não quer brigar.
Na quinta, ela ligou.
— Vem hoje. Minha mãe está estranha. Mais calada que o normal. O clima aqui está ruim.
— Tá.
— Você também está estranho, Rafael.
— Eu sei.
Cheguei no fim da tarde. O Paulo ainda não tinha voltado. A Beatriz me recebeu com um beijo rápido e foi terminar uma planta no computador.
— Cinco minutos — falou. — Só fecho isso.
Fiquei na sala.
A Helena saiu da cozinha. Blusa diferente, cabelo preso. Os olhos cruzaram com os meus por um segundo e desviaram. O rosto não ficou vermelho. Ficou só cansado.
— Oi, Rafael.
— Oi.
— A Beatriz está no quarto?
— Está. Trabalhando.
Ela acenou, um movimento pequeno, e voltou para a cozinha.
O jantar foi silencioso. A Beatriz tentava puxar assunto, falava do escritório, da planta, do chefe. Eu respondia pouco. A Helena quase não falava. Toda vez que nossos olhares se encontravam, ela baixava o rosto para o prato.
— Vocês dois estão iguais hoje — a Beatriz riu, sem graça. — Calados.
Ninguém respondeu direito.
Depois do jantar, ela foi tomar banho.
— Não dorme no sofá — gritou do corredor.
Eu fiquei na sala, fingindo mexer no celular.
A Helena passou com um cesto de roupa. Parou um segundo na porta da sala, como se fosse falar. Não falou. Só olhou, rápido, e foi embora.
Eu levantei e fui atrás.
Ela estava na lavanderia, de costas, colocando roupa na máquina. O cheiro de sabão em pó misturado ao perfume dela. Quando sentiu que eu estava ali, virou-se.
— Não — disse baixo. — Não faz isso.
— Eu só queria falar.
— Não tem o que falar. Foi um erro. Um erro enorme. A Beatriz está do outro lado da parede.
A voz tremia, mas estava firme.
— Eu não vou contar.
— Eu sei que você não vai. Mas eu não consigo te olhar sem lembrar. E eu não quero lembrar.
A máquina ligou, produzindo um barulho baixo e constante.
— Se a Beatriz descobrir, acaba tudo. E o Paulo. Eu não tenho desculpa para aquilo.
— Eu também não tenho.
Ela cruzou os braços. A blusa marcou o peito. Os olhos castanho-escuros não subiam até os meus por mais de um segundo.
— Então por que você veio atrás de mim?
— Porque você parou na porta da sala. E porque eu também não consigo parar de lembrar.
Helena respirou fundo.
— Para. Por favor. Vai para a sala. Deixa eu terminar aqui.
Passei por ela. O cheiro ficou no ar. Doce. Conhecido. Agora misturado com aquela terça.
Voltei. A Beatriz saiu do banho pouco depois, cabelo molhado, de camisola. Sentou-se ao meu lado e encostou a cabeça no meu ombro.
— Você está estranho esses dias.
— Estou cansado.
— Cansado de quê?
— Da cabeça.
Ela não insistiu. Ficou quieta, os dedos desenhando no meu braço.
Mais tarde, no quarto, a gente se pegou. Foi rápido. Quase automático. Eu fechei os olhos e, por um instante, não era o corpo dela que eu via. Era a Helena na porta do box, ofegante, com a blusa manchada.
Gozei com um gosto ruim na boca.
A Beatriz riu baixo, ofegante.
— Nossa. Estava precisando.
Dormiu no meu peito.
Eu fiquei acordado, olhando o teto.
No corredor, uma porta fechou com cuidado. Passos leves. Pararam um segundo na frente do nosso quarto. Depois continuaram.
Eu ouvi.
O pau endureceu contra o colchão, sem eu pedir.
Dessa vez, não saí da cama.
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No sábado, a Beatriz precisou ir ao escritório de manhã. Projeto atrasado. O Paulo saiu cedo para um bico. Eu estava na casa desde a sexta.
Acordei sozinho na cama dela. A casa estava quieta de novo. O mesmo silêncio daquela terça.
Fiquei deitado uns dez minutos, ouvindo. Nada.
Levantei. Fui até a cozinha.
A Helena estava lá, de costas, cortando alguma coisa na tábua. Blusa clara, cabelo preso. Não virou quando me ouviu.
— Bom dia.
Ela demorou um segundo.
— Bom dia.
Fui até a cafeteira. O cheiro dela misturado ao café. Fiquei perto demais sem querer. Quando ela se virou para pegar um prato, nossos braços se tocaram.
Ela recuou na hora.
— Desculpa.
— Não foi nada.
Mas o rosto já estava vermelho. Os olhos desviaram para o chão, depois para a minha boca e, por fim, para longe.
Ficamos os dois parados na cozinha pequena. O único som era o da faca parada na pia.
— A Beatriz volta logo — ela falou, baixo.
— Eu sei.
— Então não fica me olhando desse jeito.
— Eu não estou olhando de jeito nenhum.
Mentira. Eu estava. E ela sabia.
Helena respirou fundo.
— Aquilo não pode acontecer de novo. Nunca. Eu sou a mãe dela. Você é o namorado dela. O Paulo ainda mora aqui. Eu não tenho desculpa.
— Eu também não tenho.
Ela passou a mão no cabelo. A blusa subiu um pouco na cintura. Eu vi a pele. Desviei o olhar, atrasado.
— Para — disse, quase sem voz. — Para de me olhar.
— Estou tentando.
Ela riu sem graça. Um riso curto, quebrado.
— Pois tenta mais.
Pegou o pano e limpou a tábua sem precisar. Eu fiquei encostado na parede, com o café na mão, sem beber.
— Você pensa nisso?
As costas dela tensionaram.
— Todo dia. E odeio isso. Odeio que eu pense. Odeio que eu lembre da sua cara quando… quando você…
A voz falhou.
— Eu também penso.
Ela se virou. Os olhos úmidos, mas não de choro. De raiva misturada com outra coisa.
— Então para. Se a Beatriz descobrir, acaba tudo. Acaba o casamento que já está acabando, acaba a relação dela comigo, acaba você. Eu não vou destruir a minha filha por causa de uma puta fraqueza.
A palavra saiu pesada.
Eu não respondi.
Ela saiu com o prato na mão, quase trombando em mim para passar. O cheiro ficou colado.
Pouco depois, o carro da Beatriz parou na frente.
A Helena abriu a porta como se nada tivesse acontecido. Sorriso curto.
— E aí, filha. Cansada?
— Morta. O projeto não anda.
Eu fiquei na cozinha, com o café frio.
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À noite, a Beatriz deitou ao meu lado.
— Minha mãe estava diferente hoje. Você percebeu?
— Percebi.
— Estranho, né? Às vezes acho que ela está escondendo alguma coisa.
— Talvez só esteja cansada.
Ela ficou quieta. Encostou as costas nas minhas e dormiu.
Eu fiquei acordado.
Do outro lado da casa, uma porta abriu e fechou. Passos leves no corredor. Pararam na frente do nosso quarto. A sombra no vão de baixo da porta. Dois pés.
O pau endureceu de novo.
A Beatriz resmungou no sono.
— Está acordado?
— Estou.
— Não consegue dormir?
— Não.
O braço dela passou pela minha cintura. A mão parou perto demais. Quente.
— Quer que eu te ajude?
Fechei os olhos.
— Não precisa.
Ela tirou a mão, virou para o outro lado e voltou a dormir.
Esperei.
Quando tive certeza, levantei. Cueca. Porta com cuidado.
O corredor estava escuro. Só a luminária da sala, aquela que o Paulo esquecia acesa. A porta da Helena estava fechada, com um fio de luz embaixo. Ela estava acordada.
Fui até a cozinha. Qualquer desculpa. Água.
Quando acendi a luz, ela estava lá.
Encostada na pia. Camisola fina. Cabelo solto. Copo nas duas mãos. Não se assustou.
— Não consegue dormir também — falou. Não era pergunta.
— Não.
Fiquei na porta. A camisola era clara, quase transparente na luz. Dava para ver o formato dos peitos caídos, os mamilos marcando o tecido. A barra no meio da coxa. As pernas nuas.
Ela percebeu onde eu olhava e não se cobriu. Só apertou o copo.
— Você deveria ter ficado no quarto.
— Eu sei.
— Então por que saiu?
Não respondi. Fui até a geladeira, peguei a jarra e servi água. As mãos tremiam um pouco.
— A Beatriz está dormindo?
— Está.
— O Paulo chega amanhã cedo.
— Eu sei.
A geladeira barulhou. Ao longe, um cachorro latiu.
— Eu fiquei na porta do quarto de vocês — ela confessou, a voz quase inaudível. — Não sei por quê. Fiquei uns segundos e fui embora. Me odeio por isso.
Encostei na mesa.
— Eu ouvi.
Ela fechou os olhos por um instante.
— Claro que ouviu.
Quando abriu, os olhos brilhavam.
— Sabe o que é pior? Não é só vergonha. É que uma parte de mim… uma parte nojenta… queria que você abrisse a porta. Queria que a Beatriz continuasse dormindo e que você saísse. E isso me deixa doente.
A camisola subiu um pouco quando ela respirou fundo. Eu vi mais coxa. A sombra entre as pernas.
— Helena…
— Não fala meu nome desse jeito.
— De que jeito?
— Desse. Como se a gente pudesse.
Deu um passo. Parou, como se tivesse batido num vidro.
— Se você me tocar agora, eu não vou conseguir parar. E depois eu vou odiar você. E vou odiar a mim. E a Beatriz vai sentir. Ela já está sentindo.
Apertei a beirada da mesa. O pau latejava na cueca. Ela olhou. Não desviou. A garganta se mexeu quando engoliu em seco.
— Então vai embora — disse. — Vai para o quarto. Agora.
Eu não me mexi.
Ela veio. Parou perto o suficiente para eu sentir o cheiro, o calor. Não me tocou. O peito quase encostando no meu.
— Estou molhada — sussurrou, com ódio da própria frase. — Desde que você entrou aqui. E eu odeio isso. Odeio que meu corpo faça isso com o namorado da minha filha.
A mão subiu, hesitou no ar, parou no meu peito. Dedos quentes. Dois segundos. Depois empurrou, fraco.
— Vai.
Eu saí.
Voltei pelo corredor descalço. Entrei no quarto. Fechei a porta. Deitei atrás da Beatriz.
Ela se mexeu na hora.
— Cadê você? — a voz saiu enrolada, mas acordada. — O que estava fazendo?
— Fui beber água.
— Demorou.
Virou-se de frente para mim. A camisola subiu na coxa. Encostou o corpo no meu e sentiu o pau duro na cueca.
— Tá assim por causa da água?
Não respondi.
Ela riu baixo no meu pescoço e começou a rebolar. Devagar. A buceta quente por cima do tecido. A mão dela desceu, puxou a cueca, segurou o pau.
— Quero — sussurrou. — Mete em mim.
Puxei a calcinha dela para o lado. Estava molhada. Enfiei de ladinho, fundo, sem pressa. Ela mordeu meu ombro para não gemer alto. A casa dormia. A parede era fina.
— Isso… assim… não tira.
Ficamos de lado. Eu entrava e saía devagar, o quadril dela recuando para pegar mais. A respiração dela quente no meu pescoço.
— Mais fundo. Me fode. Quero seu pau na minha buceta até gozar.
Apertei o quadril dela. Fodi mais firme, ainda de ladinho, o colchão reclamando pouco. Ela gozou primeiro, apertando, um gemido preso na minha pele. Eu segurei um pouco e gozei dentro, fundo, o corpo travando contra as costas dela.
Ficamos assim. Eu ainda dentro. O leite quente escorrendo entre as coxas. A camisola grudada.
Ela beijou minha boca, já quase dormindo.
— Não sai.
Não saí.
Dormimos daquele jeito. Abraçados. Gozados. O pau amolecendo dentro dela.
Do outro lado da parede, a cama da Helena rangeu uma última vez, seguido de um suspiro profundo.
E depois a casa inteira fez silêncio...
(continua...)