Às vezes, nos acostumamos com algo, e isso se torna necessário na nossa rotina. Foi exatamente isso que aconteceu comigo. A presença da Tânia, os carinhos, os beijos, o sexo delicioso. Eu havia me acostumado com tudo isso e com sua presença. Quando ela não estava, eu sentia falta. Ficava ansiosa para que pudéssemos ficar juntas, e nas noites em que ela não dormia ao meu lado, parecia que estava faltando algo.
O namoro que eu achava que não duraria nada, durou e, na verdade, durou muito mais do que precisava.
Durante esses meses, Tânia me surpreendeu. Ela se dedicou de corpo e alma ao nosso relacionamento. Ela era extremamente carinhosa e me tratava como uma princesa, algo que eu não estava acostumada. Por isso, acabei me iludindo. Quem não quer ser tratada como a pessoa mais especial do mundo? No entanto, nada é perfeito. Os meses passaram e eu nem percebi que já estávamos juntas há sete meses. Ninguém descobriu; para todos, éramos apenas boas amigas, assim como eu era amiga da Tamires e da Helena. Para a família dela, eu e Tânia tínhamos construído uma amizade verdadeira.
A única pessoa que desconfiou foi Tamires. Ela me perguntou diretamente se havia algo mais entre eu e sua irmã. Neguei categoricamente e, por confiar em mim, Tamires acreditou na minha palavra. Não me senti bem mentindo para ela, e isso me fez perceber que eu não tinha motivos para viver escondida. Foi então que percebi que os seis meses já haviam passado e Tânia não cumpriu o que combinamos.
Na primeira oportunidade que tive, conversei com ela. Tânia disse que também não havia percebido o tempo passar, mas prometeu que faria o que combinamos, que não queria me perder. Acredito que, se naquele dia Tânia tivesse sido honesta comigo e consigo mesma, as coisas poderiam ter acontecido de forma diferente. Mas ela escolheu outro caminho e tudo terminou da pior maneira possível.
Tânia pediu mais um mês para contar aos pais. Disse que, por ter esquecido, não havia preparado o terreno. Concordei, dando a ela esse tempo para criar coragem. Ela me agradeceu e tivemos uma noite maravilhosa juntas. Contudo, nos dias seguintes, percebi pequenas mudanças que indicavam que algo não estava bem. Tânia parecia distante às vezes, seus carinhos diminuíram, seus sorrisos, também. Até o sexo se tornara mais frio, mais mecânico. Nada exagerado, mas eu percebia os detalhes; ela estava diferente.
Entendia que não era fácil para ela lidar com uma decisão tão importante. Falei com Tânia e ela disse que estava tudo bem, que mesmo com medo, contaria aos pais. Eu, por outro lado, não temia que eles soubessem; tinha certeza de que aprovariam. Eles gostavam de mim e eu sabia que a Helena torcia para Tânia encontrar alguém legal e que a amasse de verdade. Para Helena, o fato de eu ser mulher, provavelmente não era relevante; ela sempre me tratou bem, assim como tratava o Pedro. Eu nunca percebi qualquer tipo de preconceito da parte dela.
Vinte dias após minha conversa com Tânia, ofereci ir com ela falar com seus pais, ou até mesmo que eu falaria com eles. Contudo, ela foi enfática em dizer que queria fazer isso sozinha e pediu para que eu não dissesse nada antes que ela contasse. Concordei, mas disse que, se mudasse de ideia, eu estaria ao seu lado.
Sabia que não era fácil para ela; já havia passado por isso e foi aterrorizante. Pensei até em sugerir que deixássemos isso para mais tarde, mas se eu fizesse isso, talvez ela nunca criasse coragem. Levar um namoro sem futuro adiante seria uma péssima ideia, e quanto mais envolvida eu estava com ela, mais sofreria no final. Mal sabia que o sofrimento estava prestes a bater à minha porta.
Tudo aconteceu em um dia qualquer. Eu estava na padaria, conversando com Helena e esperando a minha hora de trabalho. Tinha deixado a Manu com Tamires havia uns 20 minutos. Helena falava sobre as novas empresas que abriram no prédio novo construído há alguns meses a dois quarteirões da padaria. Ela estava animada, pois acreditava que isso traria novos clientes para a padaria. Logo, Tamires chegou com Manu toda arrumada, e eu percebi que as duas iriam a algum lugar. Tamires disse que estava indo a uma papelaria no início da avenida, a duas quadras da padaria, para comprar materiais para o colégio. Helena pediu que ela esperasse um momento, levantou-se, foi ao caixa e voltou com algumas notas. Pediu a Tamires para passar no mercado e comprar duas lâmpadas de LED. Tamires se despediu e foi.
Quando deu meio-dia, fui para trás do balcão fazer meu trabalho. Helena logo veio me ajudar, pois o movimento estava grande. Já havia notado o atraso de Tânia. Ela tinha retomado os estudos, meio a contragosto, mas retomou. Geralmente, chegava da faculdade entre meio-dia e meio-dia e meia. Mas já era quase uma da tarde e nada dela aparecer. Pensei em mandar uma mensagem, mas mudei de ideia; talvez ela estivesse apenas atrasada.
Assim que o movimento acalmou, Helena se aproximou e disse que estava preocupada com o atraso de Tânia. Nesse momento, vi Tamires entrando de mãos dadas com Manu que chupava um picolé. Tamires tinha algumas sacolas na outra mão. Comentei com Helena que eu também tinha notado o atraso de Tânia. Tamires já tinha se aproximado do balcão e ouviu nossa conversa.
Tamires— Se vocês estão falando da minha querida irmã, podem ficar tranquilas, ela está muito bem. Acabei de vê-la aos beijos com o Rogério. Provavelmente ele está com vergonha de vir aqui depois do que houve; parou o carro na avenida.
Helena— Não acredito que Tânia perdoou ele de novo.
Tamires— Pelo jeito sim. Eu vi de perto, os pombinhos estavam no maior amasso. Parece que ele tem vergonha de vir aqui, mas Tânia não tem vergonha na cara.
Helena chamou a atenção de Tamires por falar assim da irmã, mas Tamires apenas deu de ombros e saiu levando Manu, que estava apenas prestando atenção no seu picolé. Eu, por outro lado, sentia como se tivesse levado uma facada nas costas; aquilo doeu. Tentei respirar fundo para não deixar transparecer a dor e a raiva que sentia naquele momento. Sabia que não conseguiria esconder meus sentimentos; quando estou com raiva, não sei disfarçar. Ficar ali seria um erro, especialmente se Tânia aparecesse.
Disse a Helena que não estava me sentindo bem e pedi para que ela me cobrisse. Ela concordou, questionando o que eu tinha. Respondi que era um mal-estar e que iria para casa tomar um remédio, prometendo voltar assim que melhorasse. Helena disse que eu poderia ir tranquila e que, se precisasse de ajuda, era para eu ligar. Agradeci e saí da padaria, indo direto para casa. Durante o caminho, senti algumas lágrimas escorrendo pelo meu rosto, mas as limpei rapidamente; não iria chorar, Tânia não merecia.
Cheguei em casa e me joguei no sofá. Precisava colocar as ideias em ordem e controlar a raiva que sentia. Não poderia ficar ali para sempre; em algum momento, eu teria que ver Tânia. Esse era meu maior medo. Não sabia se conseguiria me controlar ao vê-la. O mais provável era que eu perdesse a paciência e a xingasse. Eu me conheço e sei que não sou uma boa pessoa quando estou muito brava. Não sou violenta, mas perco toda a educação que meus pais me ensinaram.
Enquanto tentava me acalmar, ouvi uma notificação no celular. Pensei que era Helena se preocupando comigo, mas era Tânia. Não devia ter aberto a mensagem, mas abri e li. Tânia dizia que estava atrasada porque havia passado na casa de uma amiga para fazer um trabalho da faculdade, mas que chegaria depois das 16 horas e que à noite me explicaria tudo. Pediu também para eu avisar sua mãe. Se ela tivesse mandado a mensagem para a mãe dela e pedido para que ela me avisasse, teria sido melhor. Mas não, ela mandou para mim.
Se eu já estava com raiva, essa mensagem só aumentou minha indignação. Com certeza, Tânia e Rogério resolveram ir para um lugar mais privado e aproveitar melhor o resto do dia. Se não, ela já teria chegado à padaria e não teria me mandado aquela mensagem; ainda nem eram 14 horas. Mal percebi quando comecei a responder. Escrevi e enviei. Disse que sabia muito bem onde ela estava, com quem estava e, principalmente, o que estavam fazendo. Pedi que tivesse vergonha na cara e que nunca mais chegasse perto de mim, porque com a raiva que eu estava, não responderia por mim. Falei que queria distância de uma vadia mentirosa como ela.
Assim que enviei a mensagem, bloqueei o número dela. Senti lágrimas caírem novamente, mas me recusei a chorar. Levantei-me e fui lavar o rosto. Não sei quantas vezes me chamei de idiota olhando meu reflexo no espelho do banheiro. Mas era exatamente isso que eu era; uma idiota que foi usada como passatempo até Rogério aparecer de novo, estalar os dedos e Tânia voltar como uma cachorrinha treinada.
Fui tirada dos meus pensamentos pelo toque do meu celular. Pensei que era Tânia, mas me enganei de novo; era Helena. Ela perguntou como eu estava, e eu disse que tinha tomado um remédio para enjoo, mas ainda não me sentia bem. Helena, em tom de brincadeira, disse que eu deveria fazer um exame de gravidez. Acabei sorrindo com a brincadeira dela. Depois, ela comentou que, se eu não melhorasse, não precisava voltar ao trabalho e que, se quisesse ir ao médico ou precisasse de algo, era só ligar. Agradeci e disse que ligaria sim. Despedimo-nos e ela desligou.
Voltei para o sofá, não queria ir para minha cama; o cheiro de Tânia provavelmente me faria chorar. Estava com muita raiva, mas também doía. Não vou dizer que amava Tânia, mas gostava dela. Aquela desgraçada realmente me iludiu, porque acreditei que ela gostava de mim e que estava levando nosso relacionamento a sério. Maldita hora em que passei a confiar nela e a ignorar meus instintos.
Fiquei ali deitada relembrando tudo. Às vezes, sentia vontade de chorar, mas me segurava. Outras vezes, queria sair dali e falar tudo que estava entalado na minha garganta para Tânia. Porém eu não podia fazer isso, iria causar mais problemas. O melhor seria deixar a raiva passar e tentar seguir minha vida, mesmo sabendo que veria Tânia todos os dias e, em um futuro próximo, provavelmente ao lado de Rogério. Os sinais estavam na minha cara, mas resolvi ignorá-los. Nunca que Tânia assumiria uma namorada como eu; eu era apenas um bom divertimento para ela. Caí na conversa dela, de boba que fui. Agora era hora de ser forte e enfrentar as consequências de uma escolha errada.
Não voltei ao trabalho e, no início da tarde, alguém bateu à minha porta. Perguntei quem era, já cansada de surpresas. Era Tamires; imaginei que ela tinha trazido Manu. Levantei e abri a porta. Tamires estava sozinha. Perguntei por Manu e ela disse que estava com a mãe. Veio ver como eu estava e, pela minha cara, percebeu que eu não estava nada bem. Chamei-a para entrar e já fui dizendo que estava melhor, mas ela se sentou e soltou a bomba.
Tamires— Não, você não está bem, e pelo choro que ouvi vindo do quarto da minha irmã, ela também não está. Agora, queria saber se você vai me contar o que está acontecendo ou vai mentir para mim de novo?
Camila— Como assim, mentir para você de novo?
Tamires— Eu desconfiei que vocês estavam juntas; te perguntei e você disse que não. Mas hoje eu vi o que aconteceu. Você fica doente do nada e vem para casa. Minha irmã chega e vai para o quarto chorar. Isso não é coincidência. Por favor, diga a verdade dessa vez. O que você e minha irmã tinham?
Camila— Tamires, não temos nada.
Tamires— Mas tinham. Por que não confia em mim? Achei que éramos amigas de verdade.
Camila— A gente é amiga de verdade, por favor, não duvide disso. Eu só…
Tamires— Camila, não vou te julgar nem contar para ninguém. Se seu medo é esse, pode ficar tranquila e confiar em mim. Eu só quero entender para tentar te ajudar.
Camila— Promete que essa conversa nunca vai sair daqui?
Tamires— Eu prometo.
Resolvi contar tudo para Tamires. Poderia ter escolhido confiar na pessoa errada de novo, mas Tamires era muito diferente da irmã. Todo o tempo que passamos juntas, ela provou ser uma garota legal e confiável. Eu me senti mal por mentir para ela da primeira vez e não queria repetir o erro.
Contei a ela tudo que vivi com Tânia, desde que percebi os olhares até o momento em que soube que a irmã estava com Rogério. Ela ouviu sem me interromper e, quando terminei, estava chorando. Tamires não disse nada; levantou-se, veio sentar ao meu lado e me abraçou. Ali, em seus braços, senti o conforto de quem abraça seu melhor amigo, e então chorei, chorei muito.
Quando meu choro foi acalmando, jurei a mim mesma que nunca mais deixaria alguém me fazer de boba.
Eu sei que aquilo iria passar e iria ficar tudo bem. A dor e a raiva que eu sentia seria um bom aprendizado e eu sairia dessa muito mais forte.
Continua…
Criação; Forrest_Gump
Revisão; Whisper
