Jerry desabou ambos os braços sobre a bancada de mármore, encarando o dispositivo com olhos arregalados. Quando olhou para Kelly ela sorria timidamente, porém com olhos marejados. Nenhum deles parecia exatamente feliz. Talvez, confusos fosse a conclusão correta. Jerry voltou a encarar o dispositivo:
- Tem certeza? Pode estar errado?
Kelly tirou outras duas caixinhas de exames mais simples e o empurrou na direção dele:
- Tenho. Esse aí foi o último que eu fiz e confirmou os dois primeiros.
Jerry começou a suar frio e levou uma mão a testa. Por fim, encarou Kelly e não conseguiu evitar a pergunta que o afligia:
- É meu? Ou... Ou... é do Chuck?
[CONTINUANDO]
- Como é que é!? - Perguntou Kelly, surpresa com o marido.
- Ora, Kelly... Eu... Vocês usaram preservativo naquele maldito dia, não usaram? – Insistiu Jerry, deixando claro a sua dúvida.
Só então Kelly entendeu o porquê da reação dele. Ela colocou uma mão à frente de sua boca, digerindo as palavras do marido. Mesmo que fossem pequenas, mínimas as chances, ela sabia que uma chance dele não ser o pai existia. Ela sabia que Jerry era o pai, ela sentia isso, mas também sabia que, naquele momento, ela não tinha como provar. E não podia culpá-lo por desconfiar dela, afinal... Então, falou:
- Tá... Vamos ficar calmos, ok? Eu e você sempre tivemos uma vida íntima ativa, correto? E também vínhamos tentando dar um irmãozinho ou irmãzinha para a Katie, não vínhamos?
- Sim! E por isso estou assim. Você transou com outro. E se esse filho, ou filha, não for meu. Como vai ser?
- Jerry, calma! É claro que é seu. Eu tenho certeza disso...
- Ah tá... E como você pode ter certeza? Ah, entendi! Vocês transaram com preservativo, é isso? – Ele insistiu uma vez mais na pergunta.
Kelly se calou novamente, encarando-o constrangida. Ela tentou puxar por alguma lembrança do dia em que transou com Chuck e a única certeza que teve é que foi bom e que ela sentiu todas as pulsações dele dentro de si, bem como a quantidade anormal de porra que ele ejaculou, como se tivesse se preservado nos quatro anos em que ficou naquela ilha:
- Fala, Kelly! Transaram ou não com preservativo? - Jerry insistiu novamente.
- Não... – Ela praticamente sussurrou: - Foi algo tão inesperado, e rápido, que não pensei em nada.
- Porra, Kelly! Você não pensou que poderia engravidar dele? Você mesma falou que nós estávamos tentando... Você não estava tomando anticoncepcional e não pensou que poderia engravidar dele?
- Não pensei... – Ela confirmou: - Foi um erro meu, ok!? Mas em minha defesa, eu não estava nos meus dias férteis...
- Tem certeza? Como pode ter certeza? Você nunca foi perfeitamente regulada e depois que parou com o anticoncepcional, ficou ainda pior. Como pode ter certeza de que não estava no seu período?
- Porque minha menstruação havia parado há poucos dias...
- Há poucos dias... – Jerry repetiu sarcasticamente: - Agora fiquei muito mais tranquilo.
- Jerry...
- Você acha ou tem certeza, Kelly? Por favor, não tenho mais coração para especulações nessa altura do campeonato.
Kelly apoiou o cotovelo esquerdo sobre a bancada e começou a morder a unha de um dos dedos enquanto refletia. Jerry não perdeu tempo:
- Você não tem certeza de nada... Meu Deus! Eu pensei que tudo estivesse no caminho certo e agora mais essa!
- Calma, amor. Eu... tenho certeza. Só não posso provar ainda.
- Provar!? Ótima ideia! DNA... Eu quero. Eu preciso.
- Tá. Calma! Confie em mim. Vai tudo dar certo.
A semana seguinte chegou carregada de novos e maiores medos. Um silêncio que parecia ter desaparecido, voltou com força total. Não era mais o silêncio da distância ou da mágoa antiga. Era o silêncio que antecede uma tragédia. Jerry, embora de volta à cama de Kelly, mal dormia. Acordava no meio da noite e ficava olhando o teto, calculando semanas, dias, probabilidades. Dia após dia, ele perguntava e confirmava dados com Kelly. Ela respondia. Tentava lhe passar confiança e calma. Mas em seu âmago, ela também temia. Ainda assim, ela tentava manter a rotina com a casa e Katie, mas até o olhar dela parecia desconfiar de algo.
Na quarta-feira pela manhã, numa consulta de encaixe, os dois estavam sentados lado a lado na sala de espera do consultório de pré-natal. Jerry segurava a pasta com os exames iniciais de laboratório com uma rigidez quase dolorosa. Batia o pé sem parar, denunciando toda a sua ansiedade. Quando a enfermeira chamou o nome de Kelly, ele se levantou junto com ela, como se tivesse medo de ser deixado para trás.
A Dra. Victoria os recebeu com um sorriso profissional. Depois de confirmar a gravidez pelo resultado de laboratório e fazer as perguntas de praxe, Jerry não conseguiu se conter:
- Doutora, a partir de quando é possível fazer um exame de DNA para confirmar a paternidade?
A caneta da médica parou no meio da anotação que ela fazia. O silêncio que se seguiu foi curto, mas denso o suficiente para mudar a temperatura da sala. Ela ergueu os olhos devagar. Olhou para Jerry primeiramente, como se procurasse algo que indicasse um abusador. Depois para Kelly, procurando sinais de abusos em sua postura. Novamente encarou Jerry, observando uma postura tensa, a forma como as mãos dele estavam fechadas sobre os joelhos.
Temendo que Kelly pudesse estar sendo vítima de um ambiente de abuso ou agressividade, com uma calma deliberada, ela pousou a caneta e entrelaçou os dedos sobre a mesa:
- Sr. Lovett... – Disse com uma voz profissional, porém firmemente neutra: - Eu... gostaria de conversar a sós com a Kelly por alguns minutos, pode ser? O senhor se importaria de aguardar na recepção?
Jerry piscou surpreso, como se tivesse levado um tapa:
- Do lado de fora? - A voz saiu mais alta do que pretendia: - Eu... sou o marido dela. Estamos aqui juntos. Eu só quero saber se...
- Eu entendo, mas... - A médica o interrompeu, embora mantivesse o tom sereno: - Ainda assim, em algumas situações eu prefiro ouvir a gestante individualmente primeiro. É apenas um protocolo médico.
Kelly sentiu o corpo de Jerry endurecer ao seu lado. Ele estava pálido, a mandíbula travada, respirando com dificuldade, os olhos passando da médica para ela em busca de apoio. Ela entendeu de imediato o porquê do pedido da médica: uma suspeita de pressão, de controle, de violência emocional. Então, ela interveio em apoio ao marido:
- Doutora, não é necessário. – Disse, a voz saiu um pouco trêmula, mas decidida, especialmente reforçada por ter colocado a mão sobre a de Jerry: - Eu quero que ele fique. Pode falar na frente dele.
A médica a estudou por mais alguns segundos, avaliando se havia medo ou coação por trás da resposta. Kelly sustentou o olhar:
- Tem certeza?
- Absoluta.
Só então a Dra. Victoria acenou ligeiramente e se recostou na cadeira. Mesmo assim, sua postura continuou cautelosa:
- Tudo bem. Então vamos ser diretos... Existe alguma dúvida quanto à paternidade biológica dele nesta gestação? Por que querem o exame de DNA?
O ar pareceu ficar escasso. Jerry respirava pela boca, de forma curto, rápida. Kelly baixou o olhar por um instante, as mãos apertando soltando a de Jerry e voltando para o próprio colo, agora apertando a outra. Quando falou, o constrangimento era evidente, mas a voz não falhou:
- Eu acredito, de coração, que o bebê é do meu marido. Mas eu… o traí com um antigo namorado. Houve uma relação fora do casamento há algumas semanas.
- Entendi... – Disse a médica, fazendo uma expressão de surpresa e constrangimento.
Kelly continuou:
- Mas eu e ele já vínhamos tentando engravidar, porque queríamos dar um irmãozinho ou irmãzinha para a nossa filha. Por isso acredito que o bebê seja dele, do Jerry.
A médica anotou algo com calma deliberada. Não havia julgamento no rosto, apenas atenção clínica:
- Preciso de informações objetivas para orientá-los com precisão, ok? Você lembra a data aproximada dessa relação?
- Há umas quase quatro semanas...
- E a data da última menstruação antes disso?
Kelly calculou mentalmente:
- Tinha terminado poucos dias antes. Quatro ou cinco dias, no máximo.
- Mas ela havia parado de tomar anticoncepcional não fazia muito tempo, doutora. – Jerry participou, tenso: - Além disso, a menstruação da Kelly nunca foi regulada.
A Dra. Victoria assentiu lentamente a nova informação:
- Certo. Vejam bem... Depois da interrupção do anticoncepcional, o ciclo costuma ficar irregular. A ovulação pode antecipar ou atrasar. Do ponto de vista biológico, eu... lamento dizer, mas as duas possibilidades permanecem abertas. Não há como descartar nenhuma delas apenas pela contagem dos dias.
Jerry passou a mão pelo rosto, a respiração que já estava alterada, agora era acompanhada pelo descompasso dos batimentos de seu coração:
- Tá. Tá... E o exame de DNA? Quando podemos fazer?
- Sr. Lovitt... o teste não invasivo só se torna confiável a partir da sétima ou oitava semana de gestação. Por uma garantia maior, esperamos um pouco mais. Hoje, pela contagem da Kelly e do resultado de laboratório, a gestação tem aproximadamente entre três a cinco semanas. Vocês precisarão aguardar, no mínimo, mais quatro semanas. O recomendável é entre seis e oito.
Jerry ficou horrorizado. Pelo conhecimento e pesquisas que havia feito, sabia que teria que esperar um pouco mais, mas a esperança de sair dali com tudo resolvido era algo que havia nascido e crescido em seu peito. Ele soltou uma risada baixa, descrente, balançou a cabeça em negativa e se levantou de repente, empurrando a cadeira para trás com um ruído seco. Caminhou até a outra extremidade do consultório na direção de uma janela, de costas para as duas, as mãos na cintura, o peito subindo e descendo rápido demais:
- Quatro semanas… Meu Deus! Meu Deus! - Repetiu, a voz falhando: - Vou precisar ficar no mínimo mais quatro semanas sem saber se esse filho é meu!?
Kelly se levantou, preocupada:
- Jerry, calma!…
Ele ergueu uma mão, pedindo distância, mas o corpo não obedeceu à própria ordem de controle. Os ombros começaram a tremer. Ele apoiou as duas mãos no peitoril da janela e baixou a cabeça, respirando como se o ar tivesse engrossado e não conseguisse mais entrar em seu peito:
- Eu não aguento isso... - Murmurou, a voz embargada e quebrada: - Eu achei que a gente estava reconstruindo… e agora eu não sei nem se a criança que ela carrega é minha.
A médica permaneceu sentada, mas o olhar perdeu um pouco da frieza profissional. Ela abriu uma gaveta e pegou um comprimido. Depois, se levantou e foi até o bebedouro, trazendo um copo de água e o entregando a Jerry:
- O que é isso?
- Um calmante. Mas é fraco, não se preocupe. Tome antes que o senhor tenha uma síncope.
- Uma... o quê?
- Uma crise nervosa. Por favor, beba.
Jerry aceitou o comprimido, pegando-o com a mão trêmula e o colocando na boca. Fez o mesmo com o copo de água, mas precisou das duas mãos para levá-lo à boca. Assim que o engoliu, a médica falou:
- Por favor, sente-se.
Jerry voltou a se sentar e a respirar profundamente. Por segundos, ou minutos, o tempo fica sempre relativo nessas situações, todos ficaram em silêncio. Jerry era observado, cuidado. Após sua respiração se controlar um pouco, a médica orientou:
- Eu recomendo fortemente que vocês busquem acompanhamento psicológico enquanto aguardam. A carga emocional desse tipo de situação é extremamente alta e pode desencadear episódios como os que quase acabamos de presenciar. Ou piores...
Kelly apenas acenou positivamente com a cabeça. Jerry não respondeu. Continuava de frente para a médica, mas agora tomado por um leve torpor, uma calma química induzida pelo medicamento.
Dois dias depois, pela primeira vez, Jerry acompanhou Kelly até o consultório da Dra. Laura Mitchell. Fora a pedido da própria terapeuta após ouvir uma rápida explicação de Kelly sobre o que quase acontecera com Jerry no consultório da Dra. Victoria.
Ele entrou rígido, sentou-se na ponta do sofá e ficou em silêncio enquanto Kelly resumia os últimos acontecimentos: a reconciliação, o recomeço traçado por eles, a descoberta da gravidez e a dúvida brutal que agora pairava sobre eles.
Laura ouviu com atenção observando as confissões não verbais das posturas corporais de ambos. Quando Kelly terminou, voltou-se para Jerry:
- E como você está hoje, Jerry?
- Vivendo, digo, sobrevivendo...
- Sei... – Dra. Laura fez uma rápida anotação e insistiu: - E como você está lidando com isso, Jerry?
Ele soltou uma risada triste, acompanhada de uma respiração pesada:
- Lidando?... Eu não estou lidando! Só estou aguardando o tempo para fazer esse maldito exame de DNA. – Disse coçando nervosamente o dorso de uma mão: - Eu... Eu... acordo e a primeira coisa que penso é: “E se não for meu?”. Eu olho para a barriga dela, que nem existe ainda, e sinto raiva, medo, culpa… tudo misturado! Eu perdoei, dei uma chance... Eu queria reconstruir. Agora parece que a traição ganhou um corpo para me lembrar que nada depende de mim.
Laura acenou lentamente, entendendo cada palavra:
- Essa dúvida, quando a paternidade, reabre a ferida de uma forma muito específica. Ela transforma a traição para algo potencialmente concreto no futuro. Não é mais só o passado. É uma criança que vai nascer e que pode carregar essa condição para sempre.
- E tem a nossa filha! Daqui a pouco a barriga da Kelly vai crescer e a Katie vai notar. Se é que já não notou. E ela vai perguntar! Vai saber do bebê. Vai fazer planos. E se não for meu? Como é que a gente explica isso para uma criança? – Jerry suspirou pesadamente, alisando as têmporas: - Eu não sei se consigo amar um filho que não é meu. E odeio a mim mesmo por pensar isso de uma criança.
Kelly enxugou uma lágrima em silêncio. Laura foi a única que notou. Após dar um tempo para Jerry se acalmar, ela falou com toda calma que a situação merece:
- Você não precisa ter todas as respostas agora. E também não precisa decidir sozinho o que será capaz de sentir daqui a meses. O que vocês têm nas mãos hoje é uma espera forçada. E espera, quando misturada com medo, costuma ser corrosiva. O trabalho aqui será ajudar vocês a não se destruírem enquanto essa resposta não chega.
Jerry passou as duas mãos pelo rosto, balançando negativamente a cabeça:
- Quatro semanas no mínimo, doutora… Talvez mais! Eu... não sei se aguento.
- Você precisa aguentar, Jerry. Você tem uma filha que depende de você. Mas não precisa aguentar sozinho. - Respondeu Laura: - Por isso estão aqui. Vamos construir estratégias para que essa espera não destrua o pouco de confiança que vocês conseguiram recuperar.
Kelly estendeu a mão e tocou os dedos de Jerry. Ele não afastou. Apenas ficou olhando para o ponto onde as mãos se encontravam, os lábios secos se esfregando, se mordendo.
Laura exigiu que eles retornassem no dia seguinte. A situação deles exigia uma presença mais incisiva. Eles precisavam. Jerry precisava.
No dia seguinte, Jerry e Kelly voltaram ao consultório. Suas olheiras denunciavam que ele havia dormido pouco. Sua postura estava rígida, menos assertivo, menos falante. Kelly sentou-se perto dele, mas sem colar o corpo. Havia um espaço pequeno, porém perceptível, entre os dois.
Laura observou o casal por alguns segundos em silêncio antes de começar:
- Ontem vocês trouxeram uma dor bruta. Hoje vamos trabalhar o que fazer com ela enquanto a resposta não chega. Quatro a oito semanas é muito tempo para viver em estado de emergência emocional. Se não criarmos alguma estrutura, a ansiedade vai corroer o pouco que vocês reconstruíram.
Jerry cruzou os braços:
- Eu só quero uma resposta. Só isso.
- Eu sei. Mas o tempo não acelera porque a gente sofre, Jerry. Então precisamos de ferramentas para atravessá-lo sem que ele nos destrua no processo.
Laura abriu um caderno e falou de forma clara, quase didática, mas sem perder a suavidade:
- Vou propor algumas estratégias concretas. Mas não são mágicas. São práticas de contenção emocional.
Ela levantou o olhar para os dois:
- Primeiro: Vocês tem que separar o “agora” do “depois”... Toda vez que a mente de vocês for para “e se não for meu?” ou “e se for do Chuck?”, vocês vão praticar uma interrupção consciente. Podem usar uma frase âncora. Algo simples como: “Isso é uma possibilidade, não um fato. O fato ainda não chegou.” Repetir isso não elimina o medo, mas impede que ele ocupe o dia inteiro de vocês.
Jerry franziu a testa:
- Parece autoajuda barata...
- Parece. Mas funciona muito bem como freio de emergência. O cérebro em estado de ameaça precisa de um comando claro para não entrar em espiral, entende? E esse método ajuda.
Laura esperou para ver se algum deles diria algo, mas como não disseram, ela continuou:
- Segundo: Vocês precisam combinar horários para conversar sobre o assunto. Por que isso? Justamente para que vocês não falem sobre a dúvida o dia todo. Isso transforma a casa em um tribunal permanente. E oprime tanto quem quer resposta, como aquele que não as tem para dar. Sugiro que escolham um momento do dia, no máximo vinte ou trinta minutos, para falarem abertamente sobre o medo, a raiva, as hipóteses. Fora desse horário, o tema fica suspenso. É um acordo de proteção mútua.
Kelly assentiu devagar:
- E se a gente não aguentar esperar o horário?
- Então usam a frase âncora e anotam o que está sentindo para trazer no momento combinado. A ideia é conter o vazamento emocional constante.
Laura fez uma pausa e olhou especialmente para Jerry:
- Terceiro: Vocês precisam cuidar do corpo, porque a ansiedade vive nele. O sono irregular, alimentação ruim e falta de movimento pioram a ruminação. Eu quero que você, Jerry, mantenha alguma rotina física diária, mesmo que seja uma caminhada de vinte minutos. O corpo precisa de uma válvula de escape que não seja só o pensamento.
- Acho que vou fazer boxe... – Disse, rindo sarcasticamente.
- Ótimo! É uma ótima ideia. Um esporte de impacto que cause cansaço no corpo é uma ótima forma de aliviar a tensão.
Jerry se surpreendeu com a concordância dela com sua “piada sem graça”. E passou a mão pelo queixo, apenas observando:
- Quarto: Vocês precisam proteger a Katie. Enquanto a barriga não aparece e enquanto não houver resposta, vocês não precisam antecipar conversas com ela. Elas não precisam carregar o conteúdo adulto. Mantenham a rotina dela o mais estável possível. Focar nela também ajudará vocês a não se perderem completamente no medo.
Laura recostou-se um pouco:
- E por último: Vocês não precisam decidir agora o que farão se o resultado for o pior cenário, porque...
- Como não!? – Jerry a interrompeu, ansioso: - Eu... Eu não quero assumir o filho daquele...
- Jerry, por favor... – Laura se antecipou a sua óbvia colocação, interrompendo-o, de modo que não aumentasse o dano: - Tentar resolver hoje uma situação que ainda não existe só aumenta o desespero dos dois. O trabalho neste período é sobreviver à espera com o mínimo de danos. As decisões grandes ficam para depois do exame.
Jerry suspirou, consternado, balançando negativamente sua cabeça. Depois, falou baixo, a voz rouca:
- E se eu não conseguir? E se eu olhar para ela? E se eu só pensar que a criança pode não ser minha?
Laura sustentou o olhar dele sem dureza e se inclinou em sua direção, oferecendo apoio naquele movimento:
- Então você nomeia isso aqui, nesta sala, comigo. Eu serei o seu apoio quando o chão lhe faltar. Não faça isso em casa, no meio da madrugada, sozinho, nem jogue tudo em cima da Kelly. Ela errou. Já assumiu isso. Já pediu perdão. Mas penitenciá-la eternamente, não é justo com ninguém.
Jerry anuiu com um movimento de cabeça discreto. Laura continuou:
- Eu estou preparada para ouvi-lo e aconselhá-lo. Não deixe o medo te dominar. Medo não nomeado vira monstro. Medo falado, mesmo que doloroso, fica mais fácil de se derrotar.
Kelly enxugou uma lágrima no canto do olho antes que ela caísse. Laura se virou para ela. Sabia que o medo também a dominava:
- E eu? O que eu faço com a culpa? Porque eu olho para ele sofrendo e sei que fui eu quem trouxe isso.
- Você carrega a responsabilidade do que fez. - Respondeu Laura com honestidade: - Mas carregar essa responsabilidade não significa se autodestruir. Sua tarefa agora é ser constante, transparente e paciente com o tempo que precisa ser esperado. E não tentar convencer o Jerry a cada minuto de que o bebê é dele. Mesmo porque vocês não sabem ainda se ele é.
Laura voltou a se recostar e olhou para os dois, um de cada vez:
- Vocês estão iniciando uma travessia forçada. A pergunta que importa nas próximas semanas não é “de quem é o filho?”, porque essa resposta ainda não existe. A pergunta é: “Como não nos destruiremos enquanto esperamos?”.
Jerry respirou fundo e falou, quase rendido:
- Eu vou tentar. Não sei se vai funcionar. Mas... eu vou tentar.
- Não precisa funcionar todos os dias. - Respondeu Laura: - Precisa funcionar o suficiente para que vocês cheguem até o dia do exame ainda capazes de se olhar sem ódio.
Kelly buscou a mão de Jerry e a apertou de leve. Dessa vez, ele correspondeu a pressão por alguns segundos antes de soltar.
Laura fechou o caderno:
- Vamos nos ver duas vezes por semana enquanto essa espera durar. E se tiverem alguma crise antes de nossas sessões, me liguem e eu os orientarei, ou tentarei encaixar uma sessão de emergência. Vocês não precisam atravessar isso no escuro.
Quando saíram do consultório, o sol da tarde batia na calçada. Nenhum dos dois sorriu. Mas, pela primeira vez, Jerry não parecia estar à beira de um colapso. O cansaço existia, e existiria por dias ainda. Mas, de algum modo, se sentia um pouco menos sozinho com o próprio terror.
OS NOMES UTILIZADOS NESTE CONTO SÃO FICTÍCIOS E OS FATOS MENCIONADOS E EVENTUAIS SEMELHANÇAS COM A VIDA REAL SÃO MERA COINCIDÊNCIA.
FICA PROIBIDA A CÓPIA, REPRODUÇÃO E/OU EXIBIÇÃO FORA DO “CASA DOS CONTOS” SEM A EXPRESSA PERMISSÃO DO AUTOR, SOB AS PENAS DA LEI.
