Naquela noite, Cristiano não me levou para lugar nenhum. Depois de alguns quilômetros de estrada, ele simplesmente diminuiu a velocidade e entrou numa rua de terra que parecia existir apenas porque alguém, algum dia, decidiu passar por ali. A motocicleta sacodiu sob nós, levantando uma poeira fina que grudou na barra da minha calça. Mais adiante havia um terreno vazio, algumas árvores tortas e o esqueleto de uma construção abandonada.
Ele desligou o motor, o silêncio chegou aos poucos. Primeiro desapareceu o ronco da motocicleta, depois o ruído distante da estrada. Por fim, sobrou apenas o vento passando pelas folhas e o pequeno estalo do motor esfriando.
— Bonito aqui — eu disse.
Cristiano tirou o capacete.
— É nada.
— Você sempre faz isso?
— Isso o quê?
— Diz que uma coisa é nada quando claramente não é.
Ele me olhou por cima do ombro.
— Você sempre transforma tudo em alguma coisa.
— É meu talento.
— Deve ser cansativo.
— Bastante.
Ele riu. Me sentei no banco da moto, parada em frente a construção vazia de concreto, e observei Cristiano acender um cigarro. A chama do isqueiro iluminou seu rosto por um segundo; depois desapareceu, deixando apenas a ponta vermelha do cigarro entre os dedos.
— Desde quando você fuma? – perguntei exasperado.
— Só quando estou estressado.
— E quando não está estressado?
— Aí eu não fumo.
— Impressionante... eu detesto cigarro.
Ele soltou fumaça pelo nariz.
— Você reclama demais.
— Você não me conta as coisas.
Cristiano olhou para a estrada.
— Talvez seja por isso que a gente dá certo.
Eu sorri.
— Isso foi quase romântico.
— Não exagera.
Ficamos algum tempo em silêncio. Então reparei uma cicatriz, que eu já tinha visto antes, mas nunca havia comentado. Ela apareceu quando Cristiano ergueu o braço para levar o cigarro à boca, uma linha irregular que atravessava a parte interna do antebraço, clara contra a pele. Apontei.
— O que aconteceu aí?
Ele abaixou imediatamente a manga da camisa.
— Nada.
— Parece uma cicatriz.
— Parabéns. Você sabe reconhecer uma cicatriz.
— Cristiano.
— Mateus.
— Como você se machucou?
O rosto dele mudou, não muito, só o suficiente. A mandíbula endureceu, o cigarro permaneceu parado entre os dedos por alguns segundos, queimando sem ser tragado.
— Você pergunta demais.
— E você foge demais.
Ele jogou a ponta do cigarro no chão e esmagou com o tênis.
— Vamos embora.
Não respondi, ele colocou o capacete.
— Mateus.
— O quê?
— Vamos.
Dessa vez, obedeci, mas guardei a cicatriz comigo. Trinta minutos depois, o sol já havia se posto, tingindo o céu de um laranja envelhecido e sujo, quando Cristiano agarrou o meu pulso com força de quem não aceita um não. O chão de terra batida do quintalzinho rangeu sob as solas desgastadas dos nossos calçados, enquanto descíamos da moto, e Cristiano me puxava em direção ao seu barraco.
A madeira da porta rangeu ao abrir, protestando contra o atrito das dobradiças enferrujadas, e nós caímos para dentro, deixando o calor úmido do dia externo para trás e entrando na penumbra abafada do barraco.
Cristiano soltou o meu pulso apenas quando a porta se fechou com um baque surdo, cortando a luz do crepúsculo e nos deixando apenas com o brilho pálido que entrava pelas frestas das janelas. O silêncio no barraco era pesado, quebrado apenas pela minha respiração ofegante e pelo som das botas de Cristiano se arrastando no chão.
Não houve conversa. Cristiano se aproximou, seu corpo alto, esguio, mas musculoso, bloqueando a única saída, e colocou a mão pesada na minha nuca, me puxando para um beijo que foi mais dentes e língua do que carinho. Era um beijo de fome, de posse, onde o gosto de Cristiano invadia a minha boca.
As minhas mãos, inicialmente levantadas em defesa, baixaram lentamente, encontrando a cintura de Cristiano. Meus dedos trêmulos desabotoaram o botão de metal dos seus jeans com dificuldade, o som do zíper descendo parecendo alto demais naquele espaço confinado.
Cristiano deixou um gemido rouco escapar contra os meus lábios quando a minha mão desceu por dentro da sua cueca, tocando a pele quente e já dura da sua ereção. Minha palma esfregou o membro de Cristiano com movimentos desajeitados, mas ansiosos, sentindo as veias saltarem sob a pele sensível.
Cristiano não esperou. Ele me empurrou para trás, me fazendo tropeçar na cama de colchão fino. Eu caí de costas, o ar saindo dos meus pulmões com o impacto, e Cristiano me seguiu logo acima de mim, se ajoelhando entre as minhas pernas abertas.
Com um movimento brusco, Cristiano puxou a minha camisa para cima, expondo o meu peito pálido e magro que subia e descia rapidamente. Ele se curvou, seus lábios úmidos trilhando um caminho de beijos rudes pelo meu pescoço, mordendo a pele macia perto da minha clavícula, deixando marcas vermelhas que reclamavam propriedade.
A mão de Cristiano desceu com urgência, abrindo a minha calça. O tecido resistiu por um segundo antes de ceder, e a minha ereção saltou para fora, batendo contra a minha barriga. Cristiano sorriu, um gesto quase cruel no escuro, e envolveu os dedos grossos ao redor da minha carne.
O aperto foi firme, controlador, e ele começou a bombar, devagar, sentindo o peso e o calor do meu pau em sua mão. Arqueei as costas, meus dedos se cravando no colchão gasto, meus quadris buscando o ritmo imposto por Cristiano.
Não satisfeito apenas com o toque manual, Cristiano se inclinou e levou a língua à base da minha pica, lambendo em um traço longo e úmido até a minha glande. Soltei um grunhido, as minhas pernas tremendo involuntariamente.
Cristiano abocanhou a minha glande, sugando com força, enquanto sua mão continuava a trabalhar a base do meu cacete. O som de sucção era obsceno, misturado aos meus gemidos abafados. O cheiro de tesão e homem ficava intenso no ar quente do barraco.
Cristiano então girou o corpo, se posicionando acima de mim na posição de 69. Ele baixou os quadris, trazendo seu próprio membro duro para perto do meu rosto. Sem precisar de ordens, eu abri bem a boca, recebendo a carne intumescida de Cristiano.
O gosto era salgado e intenso. Tentei engolir o máximo possível, a minha língua trabalhando freneticamente ao redor da glande enquanto Cristiano continuava a sugar e lamber o meu membro abaixo dele. Foi uma torre de Babel de prazer, uma confusão de pernas e braços onde o único objetivo era o estímulo mútuo e desesperado.
De repente, Cristiano parou. Ele retirou a vara da minha boca e se ergueu, saindo de cima de mim. Eu fiquei lá, ofegante, confuso, a minha boca vazia e o corpo pedindo mais. Cristiano olhou em volta, seus olhos se fixando em um lençol velho e rasgado que estava amontoado no canto do quarto. Ele pegou o pano, sentindo a textura áspera e desgastada entre os dedos.
"Vira de bruços," ordenou Cristiano, a voz rouca e profunda.
Obedeci, me virando no colchão, meu rosto enterrado no travesseiro velho. Cristiano agarrou os meus pulsos, os puxando para as minhas costas. Com o lençol velho, ele começou a amarrar os meus pulsos juntos, fazendo nós apertados e seguros.
O tecido roçava na pele sensível dos meus pulsos, uma lembrança constante de minha restrição. Quando terminou, Cristiano puxou as pontas do lençol para testar a firmeza. Eu tencionei os braços, sentindo a imobilização total. Eu não podia me mover, não podia me tocar. Estava completamente vulnerável, exposto e à mercê do que Cristiano quisesse fazer. A curiosidade se misturava com o medo e o tesão, uma eletricidade que percorria a minha espinha.
Cristiano apreciou a vista por um momento. Eu ali, oferecido, as nádegas brancas esperando, as mãos presas incapazes de o empurrar ou o puxar. O poder corria nas veias de Cristiano, uma sensação de domínio absoluto que o deixava ainda mais duro. Ele passou a mão pela curva da minha lombar, descendo até o meio das minhas nádegas, as separando com o polegar.
Ele me preparou com pressa, usando um pouco de saliva e dedos ásperos para abrir o caminho. Eu gemi no travesseiro, o meu rosto vermelho de esforço e prazer, tentando abrir mais as pernas para facilitar a entrada, mas limitado pela minha posição. Quando Cristiano sentiu que estava pronto, ele se posicionou atrás de mim, alinhando a glande com a minha entrada apertada.
Com um empurrão forte dos quadris, Cristiano entrou dentro de mim. Eu gritei, o som abafado pelo travesseiro, sentindo o estiramento doloroso e prazeroso da invasão. Cristiano não esperou. Ele começou a me foder com força, na posição de cachorrinho, segurando os meus quadris para me manter no lugar. Cada golpe era profundo, batendo naquele ponto interno que fazia as minhas pernas tremerem. O som da pele batendo na pele ecoava nas paredes do casebre, um ritmo percussivo de sexo bruto.
Cristiano mudou o ritmo, me puxando para cima, fazendo com que eu ficasse de joelhos em seu colo, ainda com as mãos presas às costas, me apoiando no peito de Cristiano. A posição permitiu um contato mais íntimo, com Cristiano me abraçando por trás, seus lábios no meu pescoço suado, enquanto continuava o movimento dos quadris. A profundidade aumentou, e Cristiano podia sentir os meus músculos internos o apertando em espasmos involuntários.
O suor escorria pelos nossos corpos, colando as nossas peles onde se tocavam. A respiração de Cristiano estava pesada no meu ouvido, sussurrando palavrões sujos que aumentavam o rubor no meu rosto.
O fim estava chegando, a tensão quebrando o limite do suportável. Cristiano apertou o abraço, seus dedos cravando na minha pele, e com um último, profundo golpe, ele gozou, me enchendo com seu líquido quente.
A sensação de ser usado como recipiente foi o empurrão final que eu precisava. Eu soltei um gemido longo e estrangulado, meu próprio orgasmo explodindo sem que eu tocasse o meu próprio pau, manchando o colchão velho por baixo de mim. Nós ficamos assim por um momento, colados um ao outro, tentando recuperar o ar no quarto abafado, enquanto a escuridão da noite completa tomava conta do barraco.
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Dois dias depois, encontrei uma fotografia. Não estava procurando nada, essa é a parte importante. Estava sentado no sofá do barraco, esperando Cristiano terminar de falar com um rapaz do outro lado da rua em que ele morava, quando meu olhar caiu sobre uma fotografia parcialmente escondida no móvel velho em que Cristiano dispunha a televisão.
Puxei, era uma imagem antiga, já amarelada nas bordas. Cristiano aparecia muito mais novo, talvez com dez ou onze anos. Estava magro, o cabelo loiro ainda comprido, sorrindo sem jeito, um braço sobre o ombro de um menino menor, ao lado de uma mulher que reconheci vagamente pelas semelhanças do rosto. E havia um homem, grande. A mão dele estava apoiada no ombro de Cristiano. A fotografia transmitia uma espécie de felicidade doméstica que, olhando melhor, parecia quase uma encenação.
— Achou isso onde?
Cristiano estava ao meu lado, dei um pulo.
— Aqui.
Ele pegou a fotografia, por um instante, olhou para ela. Não sorriu.
— Minha mãe.
— E seu pai?
Ele virou a fotografia.
— Também.
— Você era bonitinho.
— Eu era feio.
— Continua sendo.
Ele me deu um empurrão no ombro.
— Idiota.
— Estou tentando aliviar.
— Não precisa.
Ele guardou a fotografia novamente.
— Sua mãe é bonita.
— É.
— O menino é seu irmão?
— É.
Eu parei, Cristiano também. Ele colocou a fotografia dentro de um envelope e fechou a gaveta.
— Ele mora com minha mãe.
— E você?
— Eu moro aqui.
— Eu sei.
— Então.
É quase irritante como ele conseguia encerrar uma conversa com uma única palavra. Mas comecei a entender, havia coisas que ele protegia não porque fossem bonitas, protegia porque ainda doíam. Cristiano nunca me contava uma história inteira, essa era a primeira coisa que comecei a perceber sobre ele.
Ele me entregava pedaços, fragmentos. Um gesto interrompido, uma fotografia virada para baixo. Uma frase que parecia não ter importância e que, duas horas depois, continuava presa na minha cabeça como uma farpa.
Quando eu perguntava demais, ele ria, mudava de assunto ou inventava alguma tarefa urgente que, curiosamente, nunca existia cinco minutos antes. Como naquela tarde, em que toda a sua atenção se voltou para um refrigerante quente demais que ele esqueceu de colocar na geladeira.
— Você sempre foi assim? — perguntei.
Cristiano me olhou.
— Assim como?
— Assim.
— Muito esclarecedor.
— Fechado.
Ele deu um sorriso curto.
— Você fala demais.
— E você fala de menos.
— Então estamos equilibrados.
Ele me ofereceu o refrigerante, a garrafa passou da mão dele para a minha. O vidro estava úmido e deixou uma faixa fria na minha palma.
— Você nunca fala da sua casa.
Cristiano olhou para a rua, uma bicicleta passava devagar. Mais adiante, alguém chamava uma criança pelo nome, o rádio de uma oficina tocava sertanejo baixo, quase engolido pelo barulho dos carros.
— Não tem muito o que falar.
— Todo mundo tem.
— Você tem.
— Isso não significa que você não tenha.
Ele me encarou por alguns segundos.
— Tá vendo? É por isso que eu não conto.
— Por quê?
— Porque você transforma qualquer coisa numa investigação.
Eu dou risada.
— E você transforma qualquer coisa numa fuga.
Dessa vez ele não riu. A mudança era tão pequena que outra pessoa talvez nem percebesse, o canto da boca dele simplesmente deixou de subir, os dedos, que estavam batendo distraidamente na mesa, pararam.
— Bora! Vou te levar pra sua casa.
Ele se levantou.
— Cristiano...
— Vamos.
Eu poderia insistir, mas não insisto, ainda. Mais uma peça.
