Fui seminarista católico. Digo fui porque me extirparam das entranhas da igreja. Não me acharam digno de ser um sacerdote. Porque sinto, porque penso, mas principalmente porque exteriorizo o que sinto e o que penso. Sinto e penso o que todos, lá dentro, pensam e sentem, desde o novato até o bispo. Mas se acovardam todos, não falam, não se mostram. Escondem-se nas trevas dos armários, despensas, recantos e banheiros, para satisfazerem seus corpos e suas mentes.
Achei que poderia ser sincero e exercer a naturalidade com que a natureza dotou meu corpo. Enganei-me. Não pude. Vedaram-me. E, por segurança (deles), expulsaram-me, arrancaram-me do meio deles. Trataram-me como erva daninha, que poderia contaminar os demais, que, enrustidos, não poderiam ter o perigoso contato libertador com alguém que diz o que pensa e o que sente.
Os seminaristas e noviços, ante as primeiras agulhadas do desejo no corpo, fustigadas pela ideia cretina do celibato, agasalham a rola e a fazem explodir de prazer, embora embotados pela pecha do pecado que poderiam estar cometendo. Com o tempo, as cada vez mais intensas exigências naturais, a mão não mais satisfazendo a pica, porque o cu começa a piscar e a pedir rola, o vulto de pecado começa a se diluir e os corpos se procuram, para se satisfazerem.
Mas tudo tendo que ser recoberto, disfarçado, trancafiado a sete vezes setenta chaves, porque a eterna vigilância sacerdotal dificulta tudo (ando lendo muito Guimarães Rosa, ultimamente). Acaba que todos descobrem um ingrediente inovador, provocador de muito mais prazer que uma mão na rola, uma rola no cu ou na boca: o escondido. O saber que é proibido e que corre o risco de, se descoberto, ser humilhado e expulso, isso tudo acrescenta uma dosagem de prazer excepcional às transas secretas.
Padres também se buscam e se comem ou comem inocentes beatas, geralmente novinhas e de corpo escultural escondidos em roupas largas e feias. Ou usam sua autoridade para descer as calças e subir as batas de acólitos gostosos, e satisfazerem as exigências sexuais da frente ou por trás de seus corpos.
Todo mundo sabe disso. Os de fora desconfiam e apostam que isso existe; os de dentro têm a certeza de que existe. Embora clamem em seus sermões contra a concupiscência e condenem aos que buscam satisfazer seus desejos carnais de formas externas ao promulgado pelo cânone, suas rolas não lhes dão paz, sempre duras e ávidas por gozar; seus cus não lhes dão sossego, sempre piscantes e ansiosos por línguas e rolas.
Mas o grande pacto é manterem-se todos no mais absoluto silêncio, não importa quanto devasso possa ser seu corpo. Eis o que salva a instituição e garante a permanência de todos em paz uns com os outros e com a comunidade. E a pseudo paz com o divino, claro.
Por isso fui expulso. Porque não soube ou não quis calar meus desejos e escrevi. Nem fiz nada (não deu tempo), apenas escrevi um poema exteriorizando meus sentires, que foi flagrado por alguém que o entregou ao reitor do seminário – porque essas sacanagens existem também lá dentro, e a rodo!
Fui sumariamente julgado, acharam uma blasfêmia sem tamanho, sem justificativa, sem apelação, fui qualificado como herege, indigno de estar naquele ambiente “santo”. Convidaram-me gentilmente a desocupar a moita.
Não sou mais seminarista. Não serei padre. Não importa se tenho vocação ou não; tenho desejos e prazeres físicos que não sei reprimir nem vivenciá-los escondido. Escrevo-os. Isso é o bastante para ser persona non grata eclesial.
É... Talvez seja melhor assim. Não acredito no Deus hipócrita que eles inventaram e que pecamina o que ele mesmo teria criado. O pecado não é designação divina; é estratégia humano-eclesial para reprimir e dominar o rebanho. Uma ovelha que sente, pensa e escreve poemas deve ser rapidamente decepada do rebanho.
E o poema? A inconteste prova da minha inadequação ao santo ambiente eclesiástico foi destruída com ânsia de inquisição, no fogo perene da rica lareira do Seminário. Além de hipócritas, idiotas; acharam, porventura, que detinham a única cópia do “pecaminoso” texto? Ei-lo:
O CORPO DE CRISTO
Nada me acelera mais
O sangue fervente nas veias
Nem me intumesce mais o cajado
Que o tecido displicente jogado
Sobre a intimidade de Jesus Cristo preso na cruz.
Junto-me a Adélia
Na admiração de suas nádegas...
Minha ardente imaginação
Suga-lhe o falo decerto rígido
E gozo meu satânico gozo
Na explosiva jactância
Dos meus líquidos desejos.
Tiro a túnica de Paulo
E flagro sua espada flamejante,
Clamando por ela em minhas entranhas.
Desço o véu de Maria,
Abro-lhe a camisa alva
E me delicio na imaculada
Alvura dos seus seios,
Entre meus lábios e língua.
Ah... mas nada,
Nada se compara ao delineado
E apetitoso corpo de Cristo.
