Estava naquele período entre o Natal e o Ano Novo que parece não pertencer nem a Deus nem ao diabo. Os dois ficam disputando para decidir quem não vai ficar com a guarda, enquanto a gente tenta entender que dia da semana é, o que deveria estar fazendo e se ainda existe alguma obrigação que não deveria ter sido adiada. Era exatamente assim que eu me sentia naquele último dia antes das férias.
Eu precisava resolver algumas coisas antes de finalmente conseguir parar e, no meio de tudo, acabei adiando uma sessão de terapia. Não foi uma decisão muito correta, eu sabia disso, mas naquele momento pareceu ser a única maneira de organizar tudo. Júlia discordou logo pela manhã e passou o resto do dia inteiro sem falar comigo pelo WhatsApp. Aquilo me deixou com uma saudade enorme da minha gatinha. Eu estava acostumada a receber as mensagens dela em diferentes momentos do dia, às vezes para falar de alguma coisa importante, às vezes para comentar a coisa mais banal do mundo e, outras vezes, para me contar alguma novidade extraordinária. Eu gostava daquela presença espalhada pela minha rotina, mesmo quando ela falava sobre algo completamente corriqueiro.
Ela dizia que eu estava negligenciando a minha saúde e, sendo muito honesta comigo mesma, sabia que havia razão no que estava dizendo. Adiar a terapia para conseguir atender outras demandas não era exatamente o tipo de escolha que eu deveria estar fazendo. O problema era que eu não conseguia simplesmente olhar para tudo aquilo e decidir que uma parte deixaria de existir. Sempre priorizei minha profissão por amor e às vezes ela é imprevisível, surgem situações que não estavam planejadas, pessoas precisam de mim e eu não consigo ter controle sobre tudo. Já estava mais flexível do que jamais havia conseguido ser, entretanto a dificuldade continuava sendo a quantidade de lugares em que eu atuava.
Eu não conseguia escolher entre O Projeto, que ajudava tantas crianças, adolescentes e jovens e para o qual ainda não havia aparecido uma pessoa realmente honesta e disposta para dar continuidade ao trabalho no meu lugar, e a filial, que representava um sonho profissional. Ela fazia parte de algo que eu admirava profundamente, principalmente por pertencer ao meu ídolo quando o assunto era psiquiatria e pelas formações no Rio que era uma condição estabelecido para eu fazer parte da equipe do Psiquilord. Não era simplesmente um trabalho do qual eu pudesse abrir mão e dizer que não fazia mais sentido para mim.
E ainda tinha a Clínica... Eu me sentia um pouco culpada por deixá-la praticamente nas mãos de Davi, embora soubesse que essa culpa não fosse exatamente justa com ele. Davi era extremamente competente, confiável e sempre tinha dado conta de tudo. Nunca precisei desconfiar da maneira como conduzia as coisas e, principalmente, ele sempre foi muito transparente comigo. Eu sabia que estava em boas mãos, contudo, por ser um sonho pessoal que havia se concretizado, eu queria estar mais próxima, queria acompanhar de perto, participar mais e sentir que estava realmente presente naquele lugar que havia significado tanto para mim.
Só que eu não tinha como estar em todos esses lugares ao mesmo tempo e talvez fosse justamente isso que Juh estivesse tentando me fazer enxergar naquele período, enquanto eu insistia em encontrar uma maneira de continuar segurando tudo como se estivesse fazendo um malabarismo.
Quando cheguei em casa, não tinha ninguém. Tomei um banho e fui até a pousada, mas lá também estava tudo vazio. Foi naquele momento que me senti realmente abandonada por Deus e pelo diabo, porque a família já tinha chegado toda antes mesmo do Natal e não tinha um pé de pessoa ali. O que me tranquilizava um pouco era ver os carros estacionados, então pelo menos eu sabia que não tinham ido muito longe.
Abri uma cerveja, deitei em uma rede e resolvi esperar o tempo passar. Se demorassem demais, mandaria uma mensagem no grupo perguntando por onde estavam e iria atrás deles. Depois de algum tempo, Lorenzo e Sarah apontaram e vieram caminhando na minha direção. Só pelo lado de onde estavam vindo, deduzi que tinham ido ao Haras. Os outros provavelmente estavam por lá também, afinal, não era nada incomum isso acontecer quando a família se reunia.
— Ela vai te matar hoje — Lorenzo brincou, rindo.
— Juh parece estar bem chateada, viu, Lore?! — Sarah me informou.
— O que você fez, hein? Ela está puta da vida, e quando Juh não fala, a gente sabe que foi você — Meu irmão quis saber.
— Adiei uma sessão de terapia para dar conta de uma reunião importante — Expliquei.
— Só isso? — Meu irmão questionou.
— Exatamente, só isso — Confirmei, revirando os olhos.
— Remarcou para quando? — Minha cunhada questionou.
— Ainda não remarquei, mas é algo que eu posso fazer... Sei lá... Hoje a noite? Amanhã pela manhã? — Supus.
— Imagino que Juh presuma que você não vai remarcar — Sarah concluiu e se jogou, rindo, na rede seguinte.
Parei para refletir e não seria algo que eu nunca tivesse feito. Infelizmente, o pensamento de Júlia tinha fundamento e coerência.
Sabem a sensação de quando uma verdade que você não estava preparado para conceber e mesmo assim ela te atinge em cheio? Foi o que eu senti no momento, então preferi mudar o rumo da conversa.
— Estavam no Haras? O que está rolando lá? — Perguntei.
— Um churrasquinho... Putz, você perdeu eu contando para Alice, Tiago e Biel que o porquinho do nosso espetinho era a Peppa Pig — Ele contou e nós rimos.
— Huuuum... E vocês dois vieram para casa sozinhos planejando fazer o quê??? Estou atrapalhando algo? — Perguntei, já zoando.
— Epaaaa, nós chegamos lá cedo e por isso fomos os primeiros a vir embora — Minha cunhada protestou.
— Sei, sei, cunhadinha... — Provoquei.
— Mas não é má ideia, não... — Meu irmão brincou.
— Vão em frente, estou distante. Daqui não escuto nada! — Continuei brincando e eles riram.
Depois, como quase sempre vinha acontecendo, o assunto acabou chegando à adoção. Naqueles dias, quase todas as conversas com Lorenzo e Sarah acabavam indo para esse lado. Os dois estavam muito angustiados com a espera, principalmente porque não havia nada que se pudesse fazer além de esperar.
— Eu até mudei o toque de ligação da Vara da Infância... Para não perder nenhuma, mas eles só... Não ligam... Nunca... — Meu irmão contou.
O tom de voz dele fez meu coração tremer de dó. Eu conhecia aquela dor e sabia que não era nem um pouco fácil lidar com ela. Simplesmente não estava nas mãos deles. Eles podiam estar preparados, podiam desejar aquele filho mais do que qualquer coisa, mas não tinham como acelerar o processo ou decidir quando a vida finalmente colocaria uma criança no caminho dos dois.
— Eu tento não pensar nisso o tempo inteiro, mas é difícil... A gente se prepara, imagina como vai ser, organiza tudo e depois fica esperando uma ligação que pode acontecer a qualquer momento... Ou não acontecer... — Sarah desabafou.
— Vai acontecer. Tenham fé em Deus! No próximo Natal, eu quero vocês aqui com mais um membro nessa família. Filho ou filha, não importa, mas eu tenho fé que vocês vão estar vivendo esse Natal com o filho de vocês nos braços — Falei, tentando transmitir a eles um pouco da certeza que eu gostaria de poder oferecer e pude vê-los sorrindo.
Nós três ficamos ali por mais algum tempo, tomando mais algumas cervejas e conversando sobre assuntos diferentes, até que o sol começou a baixar. Mais ou menos na hora do pôr do sol, vimos a família inteira voltando. Juh vinha na frente com Dom no colo, enquanto Iury e Lana caminhavam ao lado dela, claramente apressados. O restante do pessoal vinha um pouco mais atrás, espalhado pelo caminho, e Milena e Kaique apareciam a cavalo, indo de um lado para o outro, completamente entretidos com a própria brincadeira.
— Ainda bem que você chegou, Júlia está insuportável! — Iury esbravejou.
— Não é exagero. Ela está mesmo!!! — Lana concordou, emburrada.
— Ela vai te matar hooooooje — Meu irmão repetiu em um tom baixo, rindo.
O ignorei completamente e me levantei da rede. Assim que fiquei de pé, Dom me viu e começou a apontar na minha direção, esticando os bracinhos e deixando claro que queria vir para mim. Juh, que já estava indo em direção à casa, acabou sendo obrigada a mudar o caminho e veio até onde eu estava.
— Que neném cheiroso — falei, dando vários beijinhos nele, que parecia ter acabado de sair do banho.
Ninho vestia apenas um body e estava com as perninhas de fora, provavelmente sentindo o calor daquele fim de tarde.
— Segura ele, vou pegar um short e mais repelente — Juh falou, sem sequer olhar para mim.
— Só se eu ganhar um beijinho — Arrisquei, aproveitando a proximidade para roubar um selinho dela na maior cara de pau.
— Ai... Não vem, não... — Ela respondeu, saindo em direção à casa.
Eu ri sozinha pois tinha certeza de que ficaria tudo bem.
Voltei para rede com meu neném grudadinho em mim, fazendo as gracinhas que ele morria de rir.
— Você estava com saudade de mamãe? — Perguntei, dando mais beijinhos nele.
— É bonitinho como ele é apegado a você — Sarah comentou.
— Quando você não está, ele fica te procurando em cada nova pessoa que chega no recinto — Meu irmão disse.
— Ele gosta de brincar com a mamãe — Respondi, o erguendo em meus braços.
Juh não demorou muito, passou o repelente e eu vesti o short para que ele ficasse mais protegido dos mosquitos.
— Vou tomar um banho. Não deixa ele dormir, por favor — Ela disse.
— Tá cedo pra mimir, não é, neném? — Questionei Dom, que sorria.
Mesmo brincando, dava para perceber os olhinhos quebrados dele, o aviso fazia sentido.
Consegui mantê-lo entretido por mais algum tempo, brincando, fazendo cócegas e inventando todo tipo de graça para arrancar aquelas risadinhas gostosas. Até que, depois de muita insistência de Mih e Kaká, acabei montando no cavalo com ele. Foi uma péssima ideia. Dom detestou desde o primeiro segundo, ficou assustado e se agarrou em mim com tanta força que praticamente se pendurou no meu pescoço. Tentei acalmá-lo, mas não adiantou. Na hora de descer, a situação ficou ainda pior. Ele não aceitava ir para o colo de ninguém e permanecia grudado em mim. Quando começou a chorar de verdade, não tive alternativa. Pulei do cavalo com ele e passei a mostrar que estava tudo bem, tentando fazê-lo entender que nada de ruim tinha acontecido.
— O vovô vai economizar um cavalo — brinquei.
— Deixa só ele crescer mais um pouquinho que vai amar — Mih respondeu, pegando-o no colo.
Ninho não estava exatamente com cara de quem queria sair dos meus braços, mas foi com os irmãozinhos. Fiquei olhando os três por alguns segundos e depois fui atrás da minha muié, tentando vencer pelo menos uma batalha daquela guerra.
O banheiro já estava livre, então segui para o quarto e a encontrei se vestindo.
— Você está sendo muito, muito, muito irresponsável com você mesma — Júlia disse, assim que me viu.
— Amor... Você está se estressando por causa de uma sessão que eu posso remarcar? Sério? — Questionei, indo até ela.
— Porque eu sei como você funciona. Eu sei que você não está bem e por algum motivo parece que tudo é mais importante, menos se cuidar do jeito certo... Menos se cuidar do jeito que você cuida da gente! — Juh exclamou.
— Vou me cuidar direitinho... Não fica assim comigo, gatinha — Falei e dei um beijinho no pescoço dela.
Ficamos uns segundinhos nós olhando através do espelho e eu voltei a beijar a curva de seu pescoço até virá-la para dentro dos meus braços.
— Eu estava com saudade de você — Disse no ouvido dela e roubei um selinho.
Depois outro, e outro e outro.
Depois outro, e outro e outro. O primeiro ainda foi quase um pedido de desculpas, mas o segundo já veio com mais vontade e, quando percebi, Juh tinha parado de tentar manter aquela cara fechada. Beijei sua boca devagar, sentindo a língua dela encontrar a minha lentamente, e foi ficando cada vez mais difícil lembrar por que estávamos discutindo. A boca dela foi amolecendo aos poucos, e eu sorri quando senti que ela finalmente tinha desistido de resistir. Passei as mãos pela cintura da minha gatinha e a puxei para mais perto, enquanto ela segurava meu rosto e me trazia de volta sempre que eu tentava dar espaço entre um beijo e outro. Em algum momento, simplesmente a peguei no colo e a coloquei sentada na penteadeira, só para ficarmos na mesma altura, Juh logo passou as pernas por trás da minha cintura e me puxou novamente pelo rosto, e eu pensei que, considerando o estado de irritação em que ela estava minutos antes, talvez eu tivesse escolhido uma estratégia bastante eficiente para começar a resolver aquela guerra.
Eu já estava com planos de começar a nos despir, porém em determinado momento, ela se afastou um pouquinho e olhou dentro dos meus olhos.
— Para quando você remarcou? — Júlia me perguntou.
Demorei horrores para assimilar a pergunta, eu já estava em outro planeta, feliz da vida. No primeiro instante me perguntei ao que minha mulher se referia, e quando compreendi, percebi que não existia uma resposta, afinal eu ainda não havia entrado em contato para uma nova data.
— Você não remarcou, não foi? — Ela questionou, chateada.
— Não... Mas, amor, eu... — Comecei a dizer.
— Não, não, não... — Júlia me interrompeu, erguendo o dedo até que eu me silenciasse completamente.
Rapidamente conseguiu se desvencilhar de mim e saiu do quarto, talvez mais revoltada do que quando eu cheguei.
Não tinha muito o que fazer além de resolver aquilo naquele mesmo instante. Peguei o celular, entrei em contato com o secretário do meu terapeuta e consegui remarcar a sessão para três dias depois. Só então bloqueei a tela e me joguei na cama, ainda tentando organizar os pensamentos. O problema era que eu tinha ficado com todo aquele fogo aceso e, depois de tudo o que tinha acabado de acontecer, não fazia a menor ideia de como apagá-lo. Fiquei alguns minutos encarando o teto, tentando me convencer de que aquilo passaria, até concluir que um banho gelado talvez fosse a melhor maneira de esfriar a cabeça e todo o resto.
Colei um post it com dia e horário da minha sessão bem no meio do espelho, para eu não esquecer, e claro, para que ficasse bem visível para a minha gatinha.
Em algum momento, ela viu e isso ficou claro através da nossa comunicação durante o restante da noite, não estava cem porcento, porém estava bem melhor. Acreditei que faltava apenas ela me dizendo que só estava tentando fazer com que eu me cuidasse enquanto eu roubava milhões de beijos daquela boquinha gostosa.
Juh é uma pessoa muito reservada no que se refere a nossas vulnerabilidades. Então se a gente discorda ou discute, ela não é o tipo de pessoa que vai querer desabafar com terceiros um problem nosso. Mas por ela ser uma pessoa transparente, se eu irritar essa muié de alguma forma, todos percebem porque fica explícito na face dela.
Estávamos no nosso tradicional círculo de fofoca familiar, com Juh sentada ao meu lado e Ninho mamando, já quase mimindo. Kaká estava deitado com a cabeça apoiada no meu peito, enquanto Mih fazia o mesmo no colo de Júlia. As duas conversavam baixinho, porque Milena ainda lutava contra o sono e se divertia com o cafuné que Juh fazia, numa tentativa de convencê-la a dormir de uma vez. A naninha de Ninho estava apoiada no meu ombro quando ele esticou a mãozinha para alcançá-la. Chamei-o, ele veio imediatamente, puxando o paninho para cobrir o rosto. Coloquei a chupeta e, em questão de segundos, meu neném já estava completamente apagado.
— Se sua mamãe te levar você vai? — Ouvi Júlia perguntar.
— Vou — Milena confirmou.
— Bora também, filho? — Questionei Kaká e ele quase não me respondeu.
— Hum rum — Foi o que eu ouvi dele, sem nem abrir os olhos.
Eu já me preparava para levantar quando minha mãe pediu para que Dom dormisse com ela.
— Use a noite para conversar com sua esposa — Ela disse.
— Está tudo bem já... Eu acho... — Comentei, olhando os três caminhado em direção para casa.
— Melhor você se certificar — Minha mãe falou e pegou meu bebezinho.
— Se ele acordar de madrugada, me liga — Pedi.
— Ele não vai fazer isso com a vovó dele, vai mimir a noite toda, não é, príncipe? — Ela brincou com o netinho.
— Mãe... Obrigada! — Agradeci e dei um beijo nela.
Enquanto tentava os alcançar, fui pensando: "Essa mulher vai me comer no argumento, e com toda razão" e dito e certo, assim que ficamos a sós o sermão começou. Eu não queria mais prolongar aqui, nem conversar naquele momento, então mesmo com ela toda marrentinha e cheia de si, eu fui para cima da fera.
Assim que ficamos a sós, o sermão começou exatamente como eu tinha previsto.
Júlia falava com toda aquela segurança de quem sabia que estava coberta de razão. Eu tentei interrompê-la duas vezes, porém ela ergueu a mão e continuou, deixando muito claro que remarcar a sessão não apagava o fato de que eu só tinha feito aquilo depois de ser pressionada.
Eu sabia que ela estava certa. Só não queria admitir enquanto ela usava aquele tom marrento que me desarmava e me provocava na mesma medida.
Por isso, quando Juh se aproximou para reforçar mais um argumento, segurei sua cintura e colei nossos corpos.
— Lore, eu ainda estou falando — Ela me disse
— Eu sei... — Respondi e beijei sua boca antes que ela pudesse continuar.
No primeiro instante, Júlia tentou preservar a expressão séria, mantendo as mãos imóveis entre nós, mas bastou eu prosseguir o beijo para sentir sua resistência diminuir. Sua respiração mudou, os dedos agarraram minha roupa e, quando sua língua encontrou a minha, soube que tinha vencido ao menos aquela pequena batalha.
Eu me excitava com cada reação dela. Com o suspiro preso quando minhas mãos deslizavam por suas costas, com a maneira como seu corpo se aproximava e, principalmente, com os sons baixos que escapavam de sua boca sempre que eu encontrava um ponto mais sensível de seu pescoço.
Entre beijos apressados e risos abafados, fomos nos livrando das roupas naturalmente, peça por peça, sem jamais nos afastarmos por completo. Juh me puxou para a cama e, a partir daquele momento, deixamos que o desejo conduzisse nossos movimentos. Nós posicionamos para um 69 e rapidamente eu não sabia mais distinguir meus suspiros dos dela. Eu queria vê-la perder o controle e adorava perceber que cada toque meu provocava uma nova reação, um arrepio, uma contração involuntária, meu nome dito com a voz entrecortada. Quando ela chegou ao orgasmo pela primeira vez, permaneceu alguns segundos de olhos fechados, respirando com dificuldade. Eu mal tive tempo de admirar a cena antes que ela me puxasse para perto novamente, determinada a retribuir tudo, me fazendo gozar com sua língua dentro de mim.
Depois, voltei a me dedicar inteiramente a ela, chupando sua pepeca e a penetrando com dois dos meus dedos. Interpretar cada movimento, observando cada nova expressão. Juh segurou meus cabelos, arqueou-se contra mim e tentou sufocar os sons mordendo os próprios lábios, mas não conseguiu por muito tempo. Ouvir seus gemidos é uma provocação poderosa demais; quanto mais ela reagia, mais eu me divertia, mais eu me excitava, mais eu desejava provocar.
— Vem, amor... Vem... — Júlia pediu, sussurrando.
Eu intensifiquei o ritmo e o corpo dela finalmente relaxou outra vez, deixando seu melzinho em mim. Subi devagar para beijá-la e minha gatinha me recebeu com os braços ao redor do meu pescoço, ainda trêmula e com um sorriso satisfeito nos lábios.
Eu queria mais.
Fui pegar o strap, vesti e recomeçamos o beijo. Me recostei na cabeceira da cama e Juh sentou no meu colo. A gente se movimentava lentamente, provocando a nós duas enquanto prendia minha boca entre os dentes. Segurei sua cintura e passei a pontinha na entrada de sua pepeca e ela sentou deliciosamente, rebolando com vigor e em determinado momento, me agarrou permitindo-se perder o controle. Juh escondeu o rosto em meu pescoço e gemeu junto ao meu ouvido, fazendo meu corpo inteiro estremecer. Seus movimentos perderam o ritmo, tornaram-se mais urgentes, e eu a abracei com força, ajudando-a a continuar enquanto também me aproximava de um novo ápice.
Gozamos intensamente, o bastante para nos deixar sem voz, sem forças e sem rumo. Permanecemos abraçadas, tentando recuperar o fôlego, com Júlia ainda no meu colo, a testa apoiada na minha e felizes da vida.
Demoramos bastante ali, apenas existindo. Era o que dava para fazer no momento, aos poucos, bem aos poucos mesmo alguns carinhos foram surgindo.
— Isso não encerra a nossa conversa - Ela murmurou.
Soltei uma risada do fundo da alma e beijei sua testa.
— Eu sabia que você diria isso em algum momento... — Falei.
— Vai à terapia daqui a três dias — Juh disse, firme
— Vou — Confirmei.
— Sem remarcar pela milésima vez — Ela insistiu.
— Sem remarcar — Prometi.
Júlia ergueu o rosto, procurando qualquer sinal de brincadeira no meu. Dessa vez, não encontrou. Eu sabia que ela não tinha feito aquilo para me controlar... Estava preocupada comigo porque percebia, até antes de mim, quando eu começava a me abandonar em nome de todas as pessoas e projetos que julgava precisar sustentar.
— Eu só quero que você cuide de você também — Minha gatinha disse baixinho.
— Eu sei, meu amô — Afirmei, acariciando seu rosto com o polegar.
— Me dá um beijinho para eu te perdoar — Ela falou, rindo.
— Ainda não estou perdoada? — Perguntei, surpresa.
— Não, me irritou muito hoje — Juh disse, segurando meu queixo.
Então a beijei novamente para selar a nossa reconciliação.
Passamos o último dia daquele ano de amorzinho, sem desgrudar uma da outra para nada, decidimos tentar compensar as horas em que ficamos afastadas. Fizemos tudo juntas, trocando bastante carinho e beijinhos. Era aquele tipo de dia simples que não precisava de absolutamente nada extraordinário para ser bom. Bastava estar em casa, cercada pelas pessoas que amávamos e, principalmente, ter minha gatinha novamente nos meus braços.
A virada foi muito divertida. A única parte que Dom definitivamente não aprovou foram os fogos. Ele amou as cores no céu, ficava apontando encantado cada vez que uma nova explosão iluminava tudo, mas a quantidade e o barulho fizeram o bichinho chorar bastante após algum tempo. Também já estava morto de sono, então não havia combinação possível que fosse capaz de deixá-lo feliz naquela hora. Ficou no meu colo, agarradinho, enquanto eu tentava protegê-lo do barulho.
Acredito que foi naquela virada que Milena e Kaique mais aproveitaram. Os dois ficaram acordados praticamente a madrugada inteira, contudo, para isso, precisaram passar a tarde inteira fazendo uma verdadeira preparação para a missão. Dormiram tudo o que conseguiram e ainda tomaram alguns goles de energético a noite. Não vou dizer que foi uma decisão exemplar, mas o que importa é o resultado da equação: Os dois conseguiram aproveitar até o último minuto, felizes da vida.
Não tínhamos programado absolutamente nada para as férias. A ideia inicial era simplesmente descansar e decidir as coisas conforme fossem acontecendo, sem roteiro, horário ou obrigação. Só que Loren começou a falar em como queria Alice e Tiago conhecessem um pouco da ilha que crescemos, enquanto ainda estavam naquela idade. A sugestão acabou ganhando força e, quando percebemos, estávamos organizando a ida para lá.
E fomos! Lá é um daqueles lugares gostosos de estar com criança. Tem um ambiente familiar incrível, águas quentinhas para a gente simplesmente relaxar, e um pôr do sol que, na minha humilde opinião, é o mais bonito do universo. Não precisávamos de grandes planos, bastava os "de sempre para sempre" estarem juntos e deixarem os dias acontecerem no próprio ritmo, aproveitando aquele pedaço de tempo em que, finalmente, ninguém precisava correr para lugar nenhum.
