A mesma noite, do outro lado da casa
O Jorge escreveu quatro contos e em todos eles eu sou a mulher que ele olha.
Agora deixa eu contar como foi ser olhada. E como foi a noite em que ninguém me olhou.
Pra quem tá chegando agora: prazer, somos o Casal Apimentados.
Nos apresentamos como Jorge e Lúcia — nomes fictícios, por motivos que qualquer casal liberal entende.
Ele: negro, 1,85 m, corpo forte sem ser musculoso, 33 anos na época.
Eu: 1,72 m, loira natural, olhos verdes, seios fartos e umas coxas grossas que ele jura serem o ponto fraco dele — e que eu detestei a vida inteira, mas isso é assunto pra outro conto.
Treze anos de casamento quando tudo começou. Nada de liberal, nada de swing — até uma tarde de 2017 numa feira erótica em São Paulo, quando um desconhecido no escuro me perguntou se eu queria com ou sem emoção.
Eu respondi com emoção. E aqui estamos.
Nos contos anteriores: o labirinto da feira (I), a nossa primeira noite no The26 Club (II), a quinta-feira do celular e o sábado que veio depois (III), e o sítio em Ibiúna com a regra da casa (IV). Este conto acontece **dentro** do quarto conto — é a mesma noite, contada por mim.
O que eu não contei pra ele naquela terça
Quando a Helena mandou a mensagem com a regra do sítio, o Jorge leu e ficou puto.
Eu li e senti alívio.
Alívio. Essa é a palavra, e eu levei três dias pra conseguir dizer ela em voz alta, e nem consegui — eu disse outra coisa, disse aquilo na pia da cozinha, sobre ele gostar de ver ou de saber que eu volto. Mas a verdade é mais simples e mais feia.
Em todas as vezes anteriores, eu estava fazendo aquilo na frente dele.
E, na cabeça de uma mulher criada como eu fui criada, "na frente dele" quer dizer "com a permissão dele". E "com a permissão dele" quer dizer que a coisa não é minha. É dele. É um presente que ele me dá e que ele pode tirar.
Eu queria uma noite que fosse minha. Só isso.
Eu queria descobrir se eu gostava daquilo — ou se eu gostava de ver o meu marido gostando de mim.
A ala leste
Meia-noite e dois. Cinco mulheres, três homens, um corredor com quatro quartos e uma sala com um sofá enorme.
E eu, num vestido verde que eu tinha comprado escondida na quarta-feira, sem saber o que fazer com as mãos.
A primeira hora foi horrível.
Ninguém foi grosso comigo, ninguém me pressionou, e mesmo assim eu passei sessenta minutos com o coração na garganta, bebendo vinho rápido demais e rindo de piada que eu não tava escutando. Duas vezes eu pensei em levantar, atravessar o corredor e acabar com aquilo.
Sabe o que me segurou? Uma coisa ridícula.
Eu não queria que ele descobrisse que eu não aguentei.
Quem me salvou foi a Helena.
Ela sentou do meu lado no sofá, encostou o ombro no meu e não falou nada por uns cinco minutos. Depois:
— Você tá procurando ele em todo mundo que entra na sala.
— Eu sei.
— Para. — Ela pegou a taça da minha mão e colocou na mesa. — Fecha o olho.
Eu fechei.
— Agora me responde sem pensar: o que você quer fazer hoje?
E eu respondi sem pensar. E o que saiu da minha boca me assustou tanto que eu abri o olho e tampei a boca com a mão.
A Helena riu.
— Pronto. Achei ela.
O primeiro
Vou chamar ele de Téo.
Alto, magro, uns quarenta, cabelo grisalho na têmpora, uma voz grave que ele usava baixinho. Ele foi a primeira pessoa da noite que não me tratou como a esposa de alguém.
Isso parece pouco. Não é.
Treze anos sendo "a mulher do Jorge" — no churrasco da firma, no aniversário da sobrinha, na porta da escola. E aquele homem sentou na minha frente, perguntou o meu nome, e a partir dali eu era só uma mulher de vestido verde numa casa em Ibiúna.
Ele pediu antes de encostar. Todo mundo naquela casa pede antes de encostar, e eu desejo do fundo do coração que o mundo lá fora funcionasse assim.
O primeiro beijo foi na sala mesmo, com gente em volta.
E aí aconteceu a coisa mais importante da minha noite, e não foi sexo.
A mão dele desceu pra minha coxa e eu travei. Sem querer, o corpo travou sozinho.
E ele parou.
Na hora. Sem drama, sem cara feia, sem "que foi?". Só tirou a mão, encostou a testa na minha e esperou.
Eu comecei a chorar.
Chorei uns dois minutos no ombro de um homem que eu conhecia há seis horas, sem saber direito por quê. Hoje eu sei: eu chorei porque foi a primeira vez na vida que eu descobri, na prática e não na teoria, que eu podia parar.
Quando eu levantei o rosto, eu não tinha mais medo de nada.
O quarto do fim do corredor
Eu levei ele pra dentro pela mão. Fui eu que levei. Isso importa.
Tranquei a porta, e a chave ficou comigo — os donos daquela casa entendem alguma coisa de mulher que a maioria dos homens não entende.
Ele me despiu de costas pro espelho, o vestido verde escorregando pelo braço, e ficou um tempo só olhando. Sem pressa nenhuma. Eu, que passei a vida com vergonha das minhas coxas, fiquei parada deixando um estranho olhar.
E aí ele falou no meu ouvido uma coisa que eu não vou repetir aqui porque o Jorge lê os contos — mentira, vou repetir, ele que aguente:
— Eu não sei como alguém consegue sair de casa com você e conversar com outra pessoa.
Eu ri. E aí não ri mais.
Ele me deitou na cama e desceu.
Devagar. Absurdamente devagar. Boca no pescoço, na clavícula, no meio dos seios, uma mordida na lateral da cintura que me fez arquear. Passou pela barriga, pela virilha, pela parte interna da coxa — e ficou ali. Naquela zona de tortura que os homens de vinte anos não conhecem e os de quarenta conhecem bem demais.
Eu já estava implorando antes de ele chegar.
E quando chegou, ele fez com paciência de quem não tem hora pra sair. Eu gozei na boca dele em menos de três minutos, agarrada no lençol, mordendo o próprio braço pra não acordar o sítio inteiro.
Ele nem levantou o rosto. Continuou.
Eu gozei de novo em seguida, e essa segunda foi diferente — foi longa, foi rasgada, foi daquelas que fazem a perna tremer sozinha depois. Eu empurrei a cabeça dele porque não aguentava mais.
Foi quando eu percebi que eu não tinha pensado no Jorge nem uma vez nos últimos vinte minutos.
E que não tinha problema nenhum nisso.
Eu subi em cima dele e fiz do meu jeito, no meu ritmo, olhando pra minha própria cara no espelho da parede.
Essa é a imagem que eu levei daquela noite. Não é ele. Sou eu.
Cabelo grudado na testa, boca aberta, o corpo que eu critiquei no espelho a vida inteira fazendo uma coisa bonita — e nenhum homem por perto de quem eu precisasse de autorização.
Eu gozei olhando pra mim mesma.
Se você é mulher e tá lendo isso, você entende. Se você é homem, pergunta pra sua esposa se ela já se olhou assim uma vez na vida.
Três e meia
Depois eu fiquei um tempo com a Helena. Isso eu vou contar de outro jeito, porque foi doce e não foi urgente — a gente ficou meia hora deitada, conversando pelada como se fosse pijama party, e ela me contou coisas da vida dela que eu não vou repetir.
E aí, lá pelas três e meia, eu escutei.
Não a voz dele. Uma risada. Do outro lado da casa, abafada, atravessando duas portas e um corredor.
Eu conheço a risada do Jorge desde os vinte anos.
Eu levantei da cama, coloquei o vestido pelo avesso e fui até a porta que separa as duas alas.
Fiquei com a mão na maçaneta feito uma idiota.
E eu vou contar uma coisa que eu não contei pra ele na estrada, e que ele vai ler aqui pela primeira vez:
Eu abri.
Abri uns cinco centímetros. Vi um pedaço da sala, a lareira quase apagada, e vi ele — de calça, sem camisa, sentado no chão encostado no sofá, olhando pro teto com uma mulher dormindo do lado.
Ele tava acordado. Sozinho. Com aquela cara de quem tá longe.
Fechei a porta e voltei.
Não porque a regra proibia. Porque eu descobri, naqueles cinco centímetros, tudo o que eu tinha ido até ali descobrir.
Sete e meia
Eu não dormi. Tomei banho às seis, sentei no deck com um cobertor vendo a névoa subir do vale, e passei uma hora e meia contando os minutos.
Quando eu entrei na cozinha e vi ele sentado naquela mesa, com onze pessoas em volta, eu não pensei em nada.
Eu atravessei a cozinha e subi no colo dele que nem criança.
Fiquei ali dois minutos. E não era saudade de sexo, não era culpa, não era carência.
Era isso: eu passei a noite inteira sendo só eu.
E descobri que eu gosto de mim. E que, gostando de mim, eu ainda escolho ele.
São coisas diferentes, e eu precisei atravessar uma casa de doze pessoas em Ibiúna pra entender a diferença.
Uma última coisa
O rapaz do labirinto — o da máscara, o que quase acabou com o meu casamento numa quinta-feira de arroz queimado.
Eu pensei nele uma vez naquela noite. Uns dez segundos, no meio do corredor.
E a conclusão foi tão sem graça que eu quase ri sozinha: eu nunca quis aquele homem. Eu queria alguém pra quem eu pudesse falar o que eu queria sem morrer de vergonha.
Hoje eu tenho pra quem falar. Ele dirige o carro do meu lado, ronca, deixa a toalha na cama e escreve os nossos contos.
Casal Apimentados
(A Parte V é dele de novo — a noite em que a gente abriu a porta de casa. E, olha, essa foi a mais difícil de todas.)
