Se Tânia realmente estivesse namorando, com certeza eu não ficaria mais com ela. Se tem algo que eu não aceito, é traição, em nenhum sentido. Não importa o tipo de relacionamento; amizade ou namoro, para mim, se a confiança é quebrada com uma traição, acabou. Portanto, nosso rolo terminaria ali, já que o que eu não quero para mim, também não desejo para ninguém. Independente de quem fosse o homem com ela, eu respeitaria caso fosse mesmo um namoro.
Tânia entrou na padaria com um sorriso no rosto. Quando viu que eu estava ali, olhando, seu sorriso desapareceu, mas eu sorri para ela e disse "boa tarde", como sempre. Ela respondeu em um tom baixo e seguiu rumo ao segundo andar. Fui fazer meu trabalho, mas fiquei curiosa com algo. Tamires disse que Tânia nunca trazia amigos ou namorados para casa; segundo Tamires, ela tinha vergonha de ser "filha de padeiro". Porém, pelo jeito, o homem do carro era uma exceção.
Fiquei com isso na cabeça e, assim que Tamires apareceu com Manu, perguntei a ela. Tamires disse que provavelmente o rapaz era um tal Rogério, neto do ex-patrão do pai dela. As famílias eram conhecidas e Rogério sabia muito bem que Tânia era filha do seu Geraldo. Assim, não adiantava ela tentar esconder de quem era filha. Isso esclareceu minha dúvida, mas Tamires me contou mais algumas coisas.
Ela disse que Rogério era quatro anos mais velho que Tânia, trabalhava com o pai na empresa da família e era um babaca. Ele já tinha namorado Tânia antes, mas a traiu e a trocou por outra mulher. Agora, pelo jeito, ele procurou Tânia de novo e ela o aceitou de volta. Isso era algo que eu nunca aceitaria, mas cada um sabe o que faz.
Pelo que Tamires falou, ele era o que Tânia sempre buscou; um homem rico o suficiente para bancá-la. Porém, se o que Tamires disse era verdade; e eu acreditava que era, o preço que Tânia pagaria seria bem alto. Geralmente, quem trai uma vez, trai novamente.
Como imaginei, Tânia realmente estava namorando. Soube com certeza no dia seguinte, quando Tamires veio me contar a novidade com uma expressão nada boa. Pelo jeito, ela não gostava do tal Rogério.
Na quarta-feira, Manu ficou para dormir com Tamires, e como eu imaginei, Tânia apareceu na minha casa à noite. Chegou meio sem graça e me contou que estava namorando, e que não poderíamos mais ficar juntas. Eu disse que, com certeza, não ficaríamos, já que jamais ficaria com alguém comprometido. Desejei toda felicidade do mundo para ela e disse que não precisava parar de vir à minha casa ou se afastar de mim. Poderíamos continuar amigas como antes, sem ultrapassar limites. Tânia sorriu, agradeceu e logo foi embora.
Fiquei feliz com nossa conversa; não havia motivos para a gente se afastar. Bom, pelo menos foi o que achei. Depois daquela conversa, Tânia nunca mais veio à minha casa, mal me cumprimentava e evitava ficar perto de mim. Ela podia até tentar disfarçar, mas era óbvio que estava me evitando. No início, fiquei um pouco chateada; sinceramente, não precisava disso, mas com o tempo decidi que, se era isso que ela queria, eu iria facilitar para ela. Passei a fazer o mesmo, evitando me aproximar dela e simplesmente ignorando-a.
A vida seguiu, e às vezes via Rogério na padaria ou saindo da casa da Helena. Nunca falei com ele, mas já tinha reparado que era um homem até bonito, andava bem vestido e sempre que passava pela padaria, tinha um sorriso no rosto. Helena parecia não gostar muito dele, mas era bem discreta e nunca falava nada, embora eu percebesse sua expressão de insatisfação quando alguém tocava no assunto.
O tempo passou, já fazia dois anos que eu morava ali. Estava prestes a completar 22 anos e Manu já tinha dois. Minha vida seguia boa, mas bem rotineira, e isso até me agradava. Meu vínculo com Tamires, Helena e Pedro só aumentou durante esse tempo. Conheci o irmão de Pedro e sua família. Ele se chamava André, e foi outro que se emocionou quando ouviu minha voz. Tivemos uma conversa em particular e ele me contou que minha irmã foi seu primeiro amor, que nunca a esqueceu. Mesmo amando a esposa e constituindo uma família, ele ainda se pegava lembrando dos momentos que viveu ao lado de Carla.
Eu já não via Pedro com tanta frequência; ele às vezes fazia viagens longas e passávamos dias sem nos ver, mas sempre que podíamos, nos encontrávamos e colocávamos o papo em dia. Eu gostava muito dele e com certeza ele gostava de mim. Minha irmã continuava seus estudos e agora estava noiva; fiquei muito feliz por ela. Meus pais continuavam tocando suas vidas, mas estavam preocupados com o comércio. A favela cresceu e agora tinha supermercados maiores, e para pequenos comerciantes, as coisas não estavam indo bem. Tentei oferecer ajuda, já que tinha uma boa quantia de dinheiro guardada, mas eles não aceitaram, prometendo me avisar se precisassem.
Fazia quase seis meses que eu e Tânia não nos falávamos, e nada tinha mudado. Ela continuava o namoro e não falava comigo, a não ser algo realmente necessário. Da minha parte, fazia o mesmo; não vou me importar com quem não se importa comigo. Porém, um dia, assim que cheguei na padaria, vi que Helena estava com uma expressão bem triste. Perguntei a ela se tinha acontecido algo, e ela disse que Tânia estava trancada no quarto há dois dias, que o namorado tinha terminado com ela e que ela estava mal. Senti muito, e realmente sentia; eu não tinha nada contra ela. Na verdade, por mim, teríamos continuado sendo amigas.
Fui fazer meu trabalho e evitei pensar naquilo, mas no início da noite, Tamires apareceu com Manu e ficamos conversando. Ela disse que Tânia estava mal porque foi traída de novo; dessa vez, Rogério a traiu com uma de suas amigas patricinhas. Além de perder o namorado, ela perdeu a amiga e seu "pote de ouro". Não rendi muito assunto, mas Tamires falou mais algumas coisas e disse que talvez dessa vez Tânia tivesse aprendido e parasse com essa bobagem de querer arrumar um homem rico. Só ouvi; não falei nada, mas acreditava que isso não iria mudar. Tem pessoas que, por mais que a vida tente abrir os olhos, continuam não querendo enxergar.
Tânia ficou sumida por uns dez dias; não apareceu para trabalhar e nem vi ela chegar da universidade. Provavelmente não estava indo às aulas. Isso se confirmou quando Tamires me contou que ela resolveu trancar a matrícula; os pais estavam muito irritados com ela e prometeram cortar todas as suas mordomias, não lhe dando nem um centavo para comprar nada. Mesmo assim, ela não voltou atrás.
Em uma quarta-feira, ela resolveu aparecer na padaria para trabalhar, toda bem maquiada. Não notei nenhum tipo de tristeza nela; parecia que já tinha superado a dor de cotovelo. O mais estranho é que ela me cumprimentou com um sorriso no rosto, como se nada tivesse acontecido. Respondi com a educação que minha mãe me deu, mas a vontade era dizer para ela ir se ferrar. Me ignorou todo esse tempo e vem dar boa tarde como se nada tivesse acontecido.
No final do meu turno, fui buscar Manu, mas quando comecei a subir as escadas, vi Tânia descendo com ela nos braços. Manu estava rindo de algo que Tânia tinha falado. Quando elas se aproximaram, fui pegar Manu, mas Tânia disse que podia deixar, que levaria ela. Ou seja, ela estava se convidando para ir para minha casa. Mas cortei a intenção dela, disse que não precisava e chamei Manu, que já esticou o corpo para vir para os meus braços. A peguei, virei as costas e saí andando. Porém, Tânia fez o mesmo e veio me seguindo. Quando virei para perguntar o que exatamente ela estava fazendo, ela me olhou com uma carinha triste e disse que só queria conversar comigo, pedindo, por favor. Acabei não falando nada e ela me seguiu.
Chegamos em casa e Tânia se ofereceu para ficar com Manu, caso eu quisesse tomar um banho e arrumar algo para comer. Já que ela estava ali e eu estava louca por um banho e com fome, aceitei a oferta.
Durante o banho, fiquei imaginando o que exatamente Tânia queria comigo. Se fosse voltar a termos nossas noites de sexo sem compromisso, ela iria se decepcionar; eu não estava disposta a voltar a ser o que éramos antes. Terminei o banho, arrumei algo para jantar e voltei para a sala. As duas estavam no maior papo sobre as roupas de uma das bonecas da Manu. Tânia podia ter todos os defeitos do mundo, mas realmente gostava muito da minha sobrinha. Era nítido o carinho enorme que ela tinha por Manu.
Sentei no sofá menor e fui jantar. Nem ofereci para Tânia, até porque provavelmente ela já tinha jantado. Manu raramente comia na minha casa; ela só tomava seu café da manhã e depois o almoço e o jantar eram na casa da tia Tamires. Ela não usava mais mamadeira e raramente comia besteira, algo que a gente evitava dar para ela. Isso só não dava muito certo aos domingos, quando meus pais sempre davam doces ou chocolate para ela escondido de mim, mas Manu sempre acabava entregando eles.
Tânia ficou praticamente conversando só com Manu, e eu terminei meu jantar. Minha sobrinha já tinha dado os primeiros sinais de que o sono estava chegando, e depois de jantar e escovar os dentes, chamei-a para ir para o nosso quarto. Ela já esticou os braços e eu a peguei. Tânia ficou meio sem saber o que fazer, então eu disse que ela poderia vir também. Poderíamos ir conversando até Manu pegar no sono. Sabia que minha sobrinha iria dormir logo que deitasse comigo. Foi dito e feito; nós duas nos deitamos e Tânia ficou sentada na beira da cama. Perguntei o que ela queria falar comigo.
Tânia— Eu só queria me desculpar por ter te ignorado esse tempo todo.
Camila— Sinceramente, não sei por que você fez isso, já que a gente tinha conversado sobre. Mas tudo bem, você deveria ter seus motivos.
Tânia— Sim, eu tinha, mas mesmo assim, me desculpe. Jurei para mim mesma que nunca mais vou fazer isso. Se você ainda quiser minha amizade, eu queria muito que a gente voltasse a ser amigas.
Olhei para Manu, que já estava com os olhinhos fechados, e resolvi falar o que realmente estava entalado na minha garganta. Mas antes, me levantei devagar para não acordar Manu e chamei Tânia para irmos à sala continuar a conversa. Assim que sentamos, já fui direto ao ponto.
Camila— Sabe, Tânia, eu nem deveria ter deixado você vir aqui. O que você fez realmente me chateou. Eu não sei o que passa pela sua cabeça. Primeiro você parecia não gostar de mim, depois se aproxima de mim do nada e acaba parando na minha cama. Depois arruma um namorado e resolve me ignorar como se eu não fosse ninguém. Agora quer ser minha amiga de novo. Sinceramente, não sei se quero uma amizade assim.
Tânia— Eu sei que pisei na bola, que você tem seus motivos, mas prometo que não vou mais fazer isso. Só me dá mais uma chance, por favor.
Camila— Tudo bem, mas é a última vez, e seremos amigas, sem envolvimento íntimo. Não quero mais correr riscos por causa disso.
Tânia— Acho que eu não consigo ser só sua amiga. Acho que gosto de você um pouco mais do que uma amizade.
Camila— Como assim?
Tânia— Eu não parei de pensar em você esse tempo todo. Mesmo quando estava com Rogério, era em você que eu pensava, era com você que eu queria estar.
Camila— Se isso é verdade, porque continuou com ele?
Tânia— Porque ele era a chance de realizar meu sonho. Eu escolhi sufocar o que sentia para conseguir o que queria, mas deu tudo errado.
Camila— E o que você espera que eu diga? Que está tudo bem? Que podemos voltar a ser amantes agora que seu namoro deu errado?
Tânia— Na verdade, eu queria que você namorasse comigo, mas sei que é pedir demais. Então, pelo menos uma chance de te conquistar eu queria. Ou seja, sua amizade já estaria de bom tamanho.
Camila— Namorar?! Você vai namorar uma lésbica, pobre e ex-favelada? Vai contar para seus amigos e sair de mãos dadas comigo na rua? Vai contar para seus pais que estamos namorando?
Tânia— Eu...
Camila— Está vendo? Esse é o maior problema. Mesmo se eu gostasse de você a ponto de querer esse namoro, eu jamais iria namorar alguém que tem vergonha de mim. Eu não nasci para viver no armário. Foi difícil sair e não volto para dentro por ninguém. Você tem vergonha até dos seus pais, Tânia. Imagina de mim. Mesmo se eu aceitasse essa loucura, na primeira oportunidade que você tivesse de fisgar um homem rico, eu seria descartada como lixo. Me desculpe, mas isso é impossível.
Tânia— Você tem todos os motivos para pensar assim, mas vou te provar que você está errada. Só estou pedindo uma chance de ser sua amiga de novo, só isso. Será que pelo menos isso você pode me dar? Por favor.
Camila— Tudo bem, você pode voltar a ser minha amiga sim, mas nada além disso. Não tenha esperanças de que vou mudar de ideia, porque eu não vou.
Tânia— Isso o tempo vai dizer.
Ela se levantou, deu um sorriso confiante e disse que precisava ir. Eu nem falei nada além de um "tudo bem" e "boa noite". Ela saiu e eu fiquei ali sentada no sofá pensando em tudo que ela tinha falado. Para mim, nada fazia sentido e eu tinha certeza de que logo ela desistiria disso e voltaria a ser a Tânia de antes.
Levantei-me e fui tentar dormir. Nada melhor do que uma boa noite de sono ao lado da minha princesa para acalmar minha mente. Amanhã seria outro dia.
Continua...
Criação; Forrest_Gump
Revisão; Whisper
