O Deus Grego do Ibirapuera
Mike Jordan
(Este é um primeiro conto meu, escrito em 2001. Ocorreu comigo!)
Adoro cuidar do corpo. Corro para queimar o excesso de calorias que o dia insiste em me empurrar goela abaixo. Principalmente quando estou puto. Corrida é a única coisa que consegue me tirar daquele estado de ódio quieto, daquele fogo baixo que vai queimando por dentro até sobrar só cinza e cansaço.
Aquele dia eu saí do trabalho com o peito apertado e a boca amarga. Trabalhei o fim de semana inteiro. Sábado e domingo trancado no escritório enquanto o sol de outono brilhava lá fora, quente na medida certa, daqueles dias em que São Paulo quase pede desculpa por existir. E na reunião do conselho? Nada. Zero. Meu trabalho nem foi citado. Como se eu não tivesse existido. Como se aquelas horas fossem lixo.
Pior: tinha marcado com um cara da internet. Ele mandou uma foto. Que corpo. Que peito. Que bunda redonda e pesada. O tipo de homem que a gente olha e já sente a boca encher d’água. Eu fiquei em casa sozinho, com a porra da expectativa e o silêncio. Já fazia quase uma semana que eu não tocava uma punheta decente, que não sentia mão quente de verdade na pele. O pau já acordava sozinho de manhã só de lembrar da foto, e eu acabava gozando rápido, sem graça, com gosto de solidão.
Cheguei em casa e não deu outra. Short curto, tênis e regata. Fui direto para o Parque Ibirapuera. Sete da noite. O céu já estava tingido de roxo e a temperatura começava a cair, típico de outono paulistano. Eu sabia que logo ia suar. Melhor assim. Suor lava a raiva.
Comecei a alongar perto da pista. Meus músculos estavam duros, contraídos de tanta musculação e de tanto nervoso. Resolvi alongar direito pela primeira vez em semanas. Não tinha pressa. Não tinha ninguém esperando. Só eu e a vontade de esquecer aquele dia de merda.
Comecei pelas pernas. Sempre fui de engordar aí e na bunda. O excesso de peso se acomodava todo naquelas curvas. Quando levantei a perna e contraí os glúteos, senti a bunda ficar ainda maior, mais pesada, mais evidente. O short subiu um pouco e eu quase conseguia imaginar o formato dela de trás. Fechei os olhos e respirei fundo, sentindo o ar frio entrar no peito.
Foi aí que escutei.
Passadas distantes. Respiração ofegante. Olhei por cima do ombro quase sem querer. E ele estava ali, uns dez metros atrás.
Alto. Loiro. Sem camisa. A barriga era inexistente — só abdômen marcado, cada linha desenhada como se alguém tivesse esculpido com dedo molhado. Poucos pelos. Um caminho da felicidade claro, dourado, que descia e sumia dentro do short de esportista. O short apoiava bem nos ossos da bacia, bela bacia estreita, e o tecido caía o suficiente para mostrar o começo do rego. O abdômen formava uma seta. Uma seta apontando direto pro que eu queria ver.
Ele passou por mim como se eu fosse poste. Aliança no dedo anelar. Uns trinta e poucos. Casado. E mesmo assim… Deus. Peito largo, braços fortes, ombros que pediam para serem mordidos. Eu fiquei de pau duro só de olhar. O sangue desceu rápido demais. Meu short, sem cueca por baixo, começou a apertar. Vinte e dois centímetros de carne quente se esticando, puxando a pele, doendo gostoso.
Continuei alongando, fingindo que nada tinha acontecido. Mas a curiosidade é filha da puta. Virei de novo. Queria ver a bunda. E vi. Redonda, firme, o short tão caído que o rego aparecia quase inteiro, uma linha escura e profunda entre duas metades perfeitas. Subi o olhar pelas costas largas e definidas… e ele estava me olhando.
Meu rosto queimou. O coração bateu na garganta. O pau, solto, cresceu de uma vez, arrancando os pentelhos, empurrando o short até a cabeça escapar pela beirada. Ficou tão duro que doía. Abaixei a perna na hora, tirei a regata e joguei na frente da virilha como se pudesse esconder o óbvio. Quando olhei de novo, ele tinha sumido.
Respirei fundo. O ar entrava quente e saía frio. Fiquei ali, ofegante, com o pau latejando contra a mão e a vergonha subindo pelo pescoço. “Que saco”, pensei. “Que falta de iniciativa. Perder um homem desses.”
Não vi mais sinal dele. Então comecei a correr. Já eram vinte horas. Já estava escuro de verdade. Só o barulho dos tênis na pista, respiração de outros corredores distantes e o ronco baixo dos carros lá fora. Corri concentrado, tentando matar o desejo a cada passada. Suor escorria pela coluna, escorria entre as nádegas, escorria pela frente do short molhado. O pau ainda estava semi-duro, balançando a cada passo, esfregando no tecido.
Mas ele não saía da cabeça.
Aquele caminho da felicidade. Aquele short caído. Aquele olhar. Eu corria e imaginava a mão dele na minha bunda, puxando o short pra baixo no meio da escuridão, me virando contra uma árvore, me chupando até eu gozar na boca dele com gosto de suor e raiva. Imaginava o anel brilhando enquanto ele me fodia, sem pressa, me fazendo esquecer o trabalho, o conselho, a solidão da semana. Imaginava o gosto da pele dele, o cheiro de homem limpo e quente, o gemido baixo que um casado solta quando sabe que está fazendo merda.
A pista estava quase vazia. As luzes do parque mal alcançavam algumas curvas. Eu diminuí o ritmo, o coração ainda disparado, o short colado na pele. Foi quando escutei de novo. Passadas. Mais próximas. A mesma respiração ofegante, agora mais pesada.
Ele estava correndo atrás de mim.
Não olhei. Continuei. O sangue latejou no pau de novo, mais forte. Cada passo meu era um convite. Cada passo dele, uma ameaça gostosa. Eu sentia o olhar nas minhas costas, na minha bunda que balançava, no short que já não escondia nada. A temperatura caía, mas eu estava queimando. Suor escorria pela nuca, pelo peito, pela barriga, e eu só pensava em parar, virar, e ver se ele ia ter coragem.
A curva seguinte era mais escura. As árvores fechavam. Eu diminui ainda mais. Quase andando. O som dos passos dele se aproximava. Eu conseguia sentir o calor do corpo dele antes mesmo de vê-lo. O cheiro de suor limpo. A respiração perto demais.
Será que ele vai parar?
Será que a aliança vai importar agora que está escuro e a gente está sozinho?
Eu continuei andando, o pau duro de novo, latejando, quase saindo do short. A regata ainda na mão. O coração batendo tão forte que eu sentia no pau.
E então a respiração dele ficou ao meu lado.
Eu não virei. Ainda.
Mas o ar entre a gente já estava carregado demais pra ser só coincidência.
Será que encontrarei o Deus Grego de verdade desta vez?
