(Som de chuva forte ao fundo, misturado ao barulho de passos pesados marchando no asfalto)
— Meu nome é Michel, Se me dissessem no meu primeiro dia pelo portão das armas que o Batalhão se tornaria uma teia de chantagens, eu teria rido. Eu vim para cá buscando disciplina, talvez uma forma de me provar. Encontrei o frio da instrução, a rigidez da farda... e o Gustavo.
Os primeiros meses foi um borrão de sobrevivência. Entre marchas exaustivas, olhares tortos no alojamento e o medo constante de descobrirem quem eu sou, vi alianças serem formadas e destruídas. Vi o Martins cair pelo próprio veneno. Vi o Gustavo despojado das suas insígnias no estande de tiro e jogado para fora por ser explosivo, Dagoberto sendo punido por seus atos, Vitor se frustrando com suas próprias tentativas de ser o melhor recruta dentro do Batalhão.
Mas o verdadeiro perigo não usava farda no pátio. Ele estava nas sombras. O Emiliano — que sempre se mostrou rebelde — jogou um jogo perigoso, roubando munição 7,62 e deixando o rastro mais básico de todos: suas próprias digitais. E foi exatamente essa falha que nos jogou na boca do lobo.
Entramos numa padaria de folga como recrutas. Saímos sob a mira de um revólver, reféns do ex-Comandante Valente. Que havia sido colocado pra ser o principal nome a investigação sobre o que estava acontecendo dentro do batalhão após acharem duas munições na mochila de Cardoso, Agora, com a perícia adulterada para incriminar o Cardoso, não temos mais escolha. Teremos que invadir a sala do Tenente Brito e roubar o cofre, nele contém todas as coisas em que Brito esconde há tempos, toda a carreira dele estava sendo salva por aqueles documentos que não foram vazados.
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Garoto do EB — T2 • EP 01 | Moeda de Troca
Uma semana depois...
Eu e Emiliano estávamos de pé, ombro a ombro, encarando o Comandante Valente. A imagem do velho parecia quase inofensiva se não soubéssemos do rastro de chantagem que ele carregava: ele estava sentado calmamente em um banco de madeira sob a sombra de um ipê, jogando farelos de pão para um grupo de pombos que se aglomerava aos seus pés. O som suave dos pássaros e o barulho distante do trânsito contrastavam com a tempestade que devastava meu estômago.
— Gostam de pombos, garotos? — Valente quebrou o silêncio sem erguer os olhos, jogando mais um punhado de farelos. — Eles não têm lealdade a ninguém. Vêm pelo alimento, vão embora pela ameaça. Uma dinâmica muito simples. Assim como a de vocês comigo a partir de hoje.
— Você ajudou a gente, não consigo entender — dei um passo à frente, ajustando a gola do fardamento civil que ainda vestia, tentando disfarçar a voz trêmula. — E já fez a Inteligência limpar as digitais do Emiliano e culpar o Cardoso. Mas, mas....
Valente finalmente levantou a cabeça. Me interrompendo...
— Chega de conversa fiada sobre o que aconteceu, vocês já sabem o que está em jogo, a dívida de vocês está bastante alta — Valente disse, a voz num tom baixo, pausado e absoluto. Ele meteu a mão no bolso interno do paletó e puxou um pequeno bloco de notas encadernado em couro, tirando uma folha dobrada em quatro. — Aqui estão as coordenadas exatas do que vocês vão fazer.
Ele estendeu o papel. Hesitei por um segundo, mas peguei. O papel estava frio.
— Prestem atenção — continuou o velho, apontando o indicador para o meu peito. — Na sexta-feira, às vinte e duas horas em ponto, o Batalhão entra na escala de prontidão do final de semana. A troca de guarda da secretaria acontece às vinte e uma e quarenta e cinco. O ponto cego da câmera do corredor da Seção de Armamento fica a exatamente quatro passos do armário de suprimentos, no lado leste.
Emiliano deu um passo à frente, os olhos fixos na folha, a mente trabalhando rápido...Valente se levantou com os olhares cravados em nós.
— O cofre não fica visível. Ele está atrás do painel de madeira da parede norte da sala do Brito — explicou Valente, com uma precisão cirúrgica. — A combinação é um segredo de seis dígitos, mas vocês não vão precisar arrombar nada. As coordenadas indicam o local exato dentro do gaveteiro trancado da mesa dele onde fica o gabarito. Michel, você tem exatamente sete minutos entre a saída do sentinela para a ronda do pátio interno e o retorno dele para o posto. Sete minutos para entrar, fotografar cada página da pasta vermelha marcada com a sigla A-10 e sair sem deixar um rastro de poeira.
— Sete minutos na sala do Comandante é suicídio se qualquer porta bater — murmurei, sentindo o suor frio escorrer pelas minhas costas.
Valente deu um sorriso sem calor algum e deu um passo final, parando a centímetros do meu rosto. O cheiro forte de café e tabaco que vinha dele quase me sufocou.
— Então certifique-se de que nada vá bater, recruta. As coordenadas do caminho, das câmeras e dos horários estão na sua mão. Se seguirem o mapa, saem limpos. Se tentarem me passar para trás, irei sentir o sabor de sangue da pele delicada de vocês...
Emiliano deu um passo a frente...
— Como sabe dessas coisas mesmo estando a 10 anos fora? — Disse Emiliano, com o rosto visivelmente em desconfiado.
Ele sorriu, se virou de costas, e foi caminhando devagar em direção à avenida e desaparecendo no nevoeiro da manhã, deixando a mim e ao Emiliano sozinhos na praça com o mapa da nossa própria sentença nas mãos.
Saímos de lá, o ar pesado da praça ainda queimava no meu peito enquanto dobramos a esquina em direção ao endereço que eu conhecia tão bem. Emiliano caminhava ao meu lado em silêncio, com as mãos afundadas nos bolsos da jaqueta e o olhar atento a cada carro que passava. Eu sabia que levar o Emiliano até a casa do Gustavo era pisar em um terreno minado, mas eu não tinha escolha; precisávamos de um porto seguro para abrir aquele mapa sem o risco de sermos vigiados por alguém.
Subi os degraus da varanda com o coração batendo na garganta e bati três vezes na porta de madeira. Bastaram alguns segundos para que a tranca girasse.
Quando a porta se abriu, Gustavo apareceu no portal, vestindo apenas uma cueca boxer. O cansaço em seu rosto desapareceu no exato instante em que seus olhos encontraram os meus, mas a expressão suavizada durou pouco.
Assim que o olhar dele se desviou para trás de mim e travou na figura do Emiliano, o maxilar do Gustavo trancou. A postura dele mudou em um segundo, o corpo tenso de quem reconhece o perigo na própria porta.
— O que esse cara tá fazendo aqui, Michel? — a voz do Gustavo veio grave, um rosnado contido, sem dar espaço para cumprimentos. — Ele só traz desgraça. Toda vez que ele se aproxima de você, alguma merda gigante acontece.
— Gustavo, calma... por favor — dei um passo à frente, colocando a mão no peito dele para conter o avanço. O calor da pele dele sob os meus dedos me deu um solavanco de realidade. — Nós não tínhamos para onde ir. O Valente pegou a gente de manhã. A coisa ficou séria.
Gustavo encarou Emiliano por mais três segundos intermináveis, medindo o garoto de cima a baixo com um desprezo palpável. Emiliano não baixou a cabeça, mas deu um meio-sorriso contido, ajustando o canote da jaqueta com uma frieza que só fez a tensão no ar aumentar.
— Entra. Mas se pisar falso na minha casa, eu te jogo pela janela — Gustavo rosnou, dando passagem e trancando a porta logo em seguida.
Caminhamos para a pequena mesa da sala. Tirei o papel dobrado do bolso e espalhei o mapa com as coordenadas do Batalhão sobre a madeira. Gustavo se aproximou, apoiando as duas mãos calejadas na mesa e inclinando o corpo para analisar o desenho das rotas, dos pontos cegos e da localização do cofre do Brito.
— Isso é loucura — Gustavo disse, passando a mão pelo cabelo raspado, a mente militar avaliando a vulnerabilidade da invasão. Ele apontou para o setor leste do croqui. — O ponto cego da câmera do corredor dura menos de cinco minutos na troca de turno, não sete. O Valente tá contando com a sorte de vocês. Se o sentinela dobrar a esquina antes da hora, o Michel fica encurralado na sala do comando sem ter pra onde correr.
— Eu sei do risco — Emiliano interveio, dando um passo para mais perto da mesa, com a voz baixa e calculada. — Mas é a única saída que a gente tem pra não ir direto pra Corregedoria. Se o Michel seguir o meu tempo na distração do pátio, funciona.
— O tempo do Michel é o meu problema agora — Gustavo cortou Emiliano com um olhar afiado, sem dar margem para contestação. Ele se virou para mim, a firmeza nos olhos dando lugar a um desespero protetor. — Se vocês vão fazer essa loucura na sexta-feira, eu vou estar do lado de fora. Na rua dos fundos do Batalhão, com o carro ligado. Se alguma coisa der errado, você não volta pro alojamento, Michel. Você pula o muro leste e entra no meu carro. Entendeu?
A forma como ele falou, assumindo o meu risco mesmo estando fora do Exército e com a própria vida destruída pela expulsão, fez meu peito apertar. Não consegui segurar. Esqueci a presença do Emiliano, esqueci o mapa, esqueci a contagem regressiva da chantagem. Segurei o rosto do Gustavo com as duas mãos e o puxei para mim.
O beijo foi urgente, bruto e desesperado, carregado do medo de que aquela pudesse ser uma das nossas últimas manhãs juntos.
Gustavo respondeu imediatamente, puxando minha cintura para colar o meu corpo ao dele com uma força que me tirou o ar, me prendendo em seus braços como se quisesse me blindar do mundo inteiro. Sentir o calor da boca dele, a pegada firme na minha cintura e o cheiro de creme hidratante da pele dele me fez esquecer que está tínhamos uma sentença de morte assinada nas mãos.
Ao meu lado, o silêncio do cômodo ficou ensurdecedor.
Pelo canto do olho, enquanto a boca do Gustavo ainda buscava a minha em um carinho intenso e possessivo, vi o exato momento em que a postura do Emiliano ruiu. Ele deu meio passo para trás. Os olhos dele passeavam entre as minhas mãos no pescoço do Gustavo e a mão do Gustavo cravada nas minhas costas. A mandíbula de Emiliano se travou com tanta força que os músculos do seu rosto saltaram, e um brilho sombrio, ele fez cara de que estava um pouco revoltado, se virando e encarando a parede com os braços cruzados.
— Dá para os dois pararem? — Emiliano soltou, dando um passo à frente com a cara fechada e o tom carregado de um desdém mal disfarçado. — Temos algo muito mais importante para resolver aqui do que essa agarração de vocês. O relógio está correndo e se a gente perder o foco agora, o próximo lugar onde vocês vão se abraçar é numa cela da PM.
Gustavo nem sequer soltou minha cintura. Ele apenas girou o rosto devagar, encarando o Emiliano com um olhar tão frio que poderia congelar a sala. O maxilar dele trabalhou duas vezes antes de responder, a voz vindo num tom pausado, ignorante e perigoso:
— Olha como você fala na minha casa. Eu não tô nem aí pro seu teatrinho de estrategista e não vou planejar porra nenhuma com você.
Gustavo deu um passo na direção dele, fazendo o Emiliano franzir a testa e dar meio passo involuntário para trás.
— O meu papel nessa merda é simples: eu só vou seguir o que o Michel garantir que é melhor pra ele sair vivo daquele Batalhão — Gustavo completou, apontando o dedo na cara do Emiliano. — Então cala a boca e some da minha frente.
O contraste entre o caos que vivemos na casa do Gustavo e a ordem gélida do Batalhão quase me fez tontear. Minutos depois de cruzarmos o Portão das Armas em uma segunda-feira de manhã, o som estridente do apito militar ecoou pelo pátio de formatura, forçando todo o contingente a se alinhar em linhas perfeitas sob o sol forte da manhã.
— Pelotão, SENTIDO! — a voz de trovão do Sargento Rocha rasgou o silêncio.
Nós dois nos petrificamos na posição. Ombro com ombro na fila, eu e Emiliano mantínhamos o olhar fixo no horizonte, mas a minha mente ainda estava cravada na conversa daquela sala, nas coordenadas do Valente e na promessa do Gustavo.
Rocha caminhou lentamente pela frente da tropa, com as mãos cruzadas nas costas e o coturno espelhado refletindo a luz do dia. Por incrível que parecesse, o clima no ar não era de punição. O Batalhão respirava uma paz estranha, quase ilusória, após a tempestade que levou o Cardoso e expulsou o Gustavo.
— Muito bem, recrutas — Rocha começou, com o tom de voz surpreendentemente calmo, quase paternal à sua maneira dura. — Olhem para os lados. Vejam quem sobrou ao lado de vocês. Faltam exatos quatro meses para que vocês concluam o serviço militar inicial e cruzem aquele portão como homens formados e honrados.
Um murmúrio abafado de alívio percorreu a tropa, mas o Sargento ergueu a mão, cortando a reação no ato.
— Não comemorem antes da hora. Até lá, ainda temos as instruções de tiro noturno, a marcha de longa distância e a temida instrução de sobrevivência na selva. Ninguém aqui está formado até o último dia. Para a escala deste final de semana, o quadro de avisos já foi atualizado. Prestem atenção aos seus postos.
Enquanto ele listava os nomes da faina e da guarda do quartel-general, meus olhos se desviam sutilmente para a prancheta de metal presa no cavalete ao lado da formação.
Busquei desesperadamente a linha referente à sexta-feira à noite, no horário crítico das vinte e duas horas.
A chave mestre. O ponto cego. O sentinela da secretaria.
Morales. Segundo Pelotão.
Senti meu peito dar um solavanco. Morales era um dos recrutas mais destacados do segundo pelotão. Alto, de porte atlético, traços marcantes e um sorriso bonito, modelo , ele era indiscutivelmente um rapaz lindo — e, para a minha sorte, um dos mais tranquilos de se conversar.
Assim que Rocha deu o comando de "Voltar à discrição" e liberou o pelotão para o intervalo antes das instruções práticas, vi a oportunidade perfeita. Deixei o Emiliano para trás no pátio e caminhei a passos firmes na direção dos lavatórios dos fundos, onde Morales tirava o coturno para ajustar a meia.
Aproximei-me devagar, escorando no batente da porta e tentando transparecer a maior naturalidade do mundo.
— Oi, Morales — cumprimentei, dando um meio-sorriso.
Ele ergueu os olhos castanhos e retribuiu o sorriso na hora, enxugando o suor da testa com o antebraço.
— Fala, Michel. Sobrevivendo ao discurso do Rocha? Quatro meses passam voando, cara.
— Nem me fale. Parece que não acaba nunca — dei um passo para dentro, reduzindo a distância entre nós e mantendo a voz num tom baixo e amigável. — Vi no quadro que você pegou a guarda da secretaria na sexta à noite.
— Pois é. Peguei a bucha da troca das vinte e duas. Pelo menos é tranquilo, só ficar de olho na porta e fazer a ronda no corredor — ele deu um riso fraco, ajeitando o fardamento.
Encarei o rosto dele por um segundo a mais do que o estritamente militar.
— Ficou puxado pra você... Mas escuta, Morales: você tem um tempinho livre depois da instrução de hoje à tarde? Queria trocar uma ideia rápida com você. Coisa simples.
— Sempre tenho tempo! A gente conversa! — Ele passou por mim com um sorriso e um toque no ombro.
Antes do nosso encontro nos vestiários, o aviso veio no final do expediente do almoço. Um soldado da secretaria bateu a bota no refeitório, chamou meu nome em alto e bom som e me deu a ordem: Apresentar-se imediatamente na sala do Comando.
Caminhei pelo corredor silencioso do QG com as palmas das mãos suando. Bati três vezes na porta de madeira pesada e ouvi a voz grave lá dentro:
— Entra, recruta.
Ao abrir a porta, o ar-condicionado no gelado me deu um golpe no peito. O Tenente Brito estava sentado atrás de sua mesa de mogno maciço. Ao lado dele, repousava o famoso quadro de madeira com a insígnia da Seção de Armamento — o mesmo quadro que, segundo o mapa do Valente, escondia o cofre. Minhas pernas vacilaram por um segundo, mas me obriguei a marchar e bater a continência perfeita.
— Soldado Michel se apresentando, senhor!
Brito não respondeu de imediato. Ele assinou uma folha de papel, guardou a caneta no bolso da farda e se encostou na cadeira de couro, me medindo da cabeça aos pés.
— Descanse, Michel — ele disse, com um tom calmo, quase cordial, que me deixou cem vezes mais alerta do que se estivesse gritando. — Sabe por que eu te chamei aqui?
— Não, senhor.
Ele puxou uma pasta parda da gaveta e a abriu sobre a mesa.
— Acabei de revisar os relatórios do último exercício no estande de tiro. Mesmo com todo o transtorno lamentável que tivemos com o ex-recruta Gustavo e a confusão das munições, seus números foram impressionantes. Você ficou entre as três melhores pontuações do Batalhão na medição de precisão a cinquenta metros.
Senti um nó na garganta ao ouvir o nome do Gustavo ser pronunciado com tanta frieza.
— Obrigado, senhor. Apenas cumpri a instrução.
— Modéstia é uma virtude, mas reconhecer o próprio valor é maturidade — Brito se levantou devagar, contornando a mesa e parando a poucos passos de mim, com as mãos cruzadas nas costas. — O Exército precisa de homens com foco. Homens que saibam pra onde apontar e quando puxar o gatilho. O seu futuro aqui dentro pode ser brilhante, Michel... se você souber caminhar com as pessoas certas.
O olhar dele se estreitou ligeiramente, e o ar da sala pareceu pesar vinte quilos.
— O Batalhão é um lugar perigoso para quem não sabe escolher suas companhias — continuou o Tenente, a voz descendo meio tom. — Você era muito próximo do Gustavo, um garoto desequilibrado que terminou expulso pela porta dos fundos. E agora vejo você andando para cima e para baixo com o Emiliano... um recruta que carrega sombras demais para o meu gosto.
Senti minha respiração travar, mas mantive o olhar fixo na parede atrás dele, como manda o regulamento.
— Amizades erradas no lugar errado podem destruir uma carreira promissora antes mesmo dela começar. Às vezes, achamos que estamos ajudando um amigo, quando na verdade estamos nos enforcando junto com ele. Entende o que estou te dizendo?
— Perfeitamente, senhor — respondi, tentando esconder o tremor na voz.
— Ótimo — Brito deu um tapinha paternal no meu ombro, um gesto que me fez querer dar um passo para trás. — Mantenha os olhos abertos, Michel. A lealdade é uma qualidade nobre, mas a lealdade ao Batalhão e a você mesmo deve vir sempre em primeiro lugar. Quem tenta jogar dos dois lados costuma ser o primeiro a cair. Dispensado.
Bati a continência, dei meia-volta e saí da sala. Assim que a porta se fechou às minhas costas, soltei o ar que estava prendendo no peito. As palavras dele não tinham sido um conselho; tinham sido uma ameaça velada. O Brito sabia que algo estava sendo urdido.
Foi com aquela sensação de sufocamento e a certeza de que a corda no meu pescoço estava se apertando que eu me dirigi ao vestiário... onde o Morales me esperava.
O calor da tarde transformava o vestiário dos fundos em uma verdadeira estufa. O cheiro de suor, couro e sabão de glis se misturava ao som da água caindo dos chuveiros. Esperei a maioria dos recrutas dispersar para o alojamento até restar apenas o Morales, sentado no banco de madeira enquanto amarrava o coturno limpo.
Aproximei-me devagar e me sentei ao lado dele, mantendo o tom de voz baixo, quase um segredo.
— Morales... preciso te pedir uma parada séria. Coisa de irmão de farda!
Ele se virou para mim, os olhos castanhos me encarando com curiosidade e um brilho sutil de interesse.
— Manda, Michel. O que tá pegando?
— Na sexta-feira, na sua guarda das 22h na secretaria... eu preciso de cinco minutos lá dentro. Sem ninguém no corredor. Preciso pegar um documento esquecido numa pasta antes da inspeção de sábado.
Morales franziu a testa, dando uma risada curta e sem graça. Ele se inclinou na minha direção, reduzindo o espaço entre nós dois no banco. O calor do corpo dele era perceptível.
— Ficou maluco, cara? A secretaria é área restrita. Se o Rocha me pega fora do posto, eu pego uma cadeia daquelas.
— Você não vai estar fora do posto de bobeira — apelei, tocando de leve no joelho dele, sentindo o músculo da coxa dele tensionar sob o brim da calça. Encarei os lábios dele por um segundo antes de voltar ao seus olhos. — Você só vai dar aquela sua pausa estratégica pra tomar um café no refeitório dos fundos. Cinco minutos, Morales. Ninguém vai notar. Eu entro, pego o que preciso e sumo.
Morales olhou para a minha mão no joelho dele e depois subiu o olhar para o meu rosto. O ar no vestiário pareceu ficar ainda mais denso. O sorriso brincalhão dele deu lugar a uma expressão mais intensa, carregada de uma intenção indisfarçável.
ele cobriu a minha mão com a dele, apertando meus dedos com firmeza.
— Cinco minutos sem guarda custam caro, Michel... — ele sussurrou, a voz ficando grave, rente ao meu ouvido. — Eu posso te dar esses cinco minutos. Posso até 'esquecer' a porta da secretaria encostada. Mas não vai ser de graça.
Senti meu estômago dar um nó.
— O que você quer? — perguntei, tentando manter a voz firme.
Morales deu um sorriso de canto, deslizando a mão do meu joelho até a minha coxa, num aperto audacioso que me fez travar a respiração.
— Eu quero uma noite com você fora do Batalhão. No meu próximo final de semana de folga. Sem farda, sem ninguém pra atrapalhar... só nós dois num quarto de motel...Eu sei que você é gay, e eu também sou...
O mundo pareceu girar mais devagar. A imagem do Gustavo veio instantaneamente na minha cabeça — o beijo desesperado na sala dele, as mãos dele na minha cintura, a promessa de me tirar dali. E agora, o preço para conseguir a chave era vender uma noite da minha vida para o cara bonito da guarda.
— E aí, Michel? — Morales provocou, alisando minha perna com malícia. — Negócio fechado?
— Tudo bem — soltei num sussurro carregado de tensão, a voz quase falhando. — Negócio fechado. Cinco minutos de porta encostada e a pausa pro seu café... em troca de uma noite.
Morales deu um sorriso lento, vitorioso. Mas em vez de soltar minha perna, a mão dele subiu um pouco mais, deslizando pela parte interna da minha coxa com uma firmeza calculada. Ele se aproximou tanto que consegui sentir o calor do hálito dele contra o meu pescoço.
— Saber que você aceitou deixa essa guarda mil vezes mais interessante, Michel... — ele murmurou, a voz grave e rouca arranhando na minha pele.
Ele puxou meu corpo sutilmente para mais perto pelo cós da calça da farda, me colando ao dele no banco de madeira.
— Desde o dia da instrução física no pátio eu reparo em você. O jeito que você se move, o porte... Você tem um corpo atraente. Definido na medida certa, delicadinho, Fica difícil focar no exercício quando você tá na minha frente.
O elogio direto, o tom baixo e a pressão da mão dele subindo perigosamente pela minha virilha me pegaram totalmente desprevenido. Meu coração disparou. Tentei manter a mente no Gustavo, no plano, no risco de sermos pegos por qualquer um que entrasse no vestiário, mas a combinação do perigo, do toque ousado e da respiração quente dele no meu pescoço enviou uma descarga elétrica direto para a minha espinha.
Senti um arrepio violento subir pelos meus braços e o calor se concentrar no meio das minhas pernas, uma reação física incontrolável que me pegou de surpresa.
— Olha só como você tá... — ele provocou, roçando os lábios no meu ouvido enquanto a mão dele apertava minha coxa com ainda mais força, me prendendo ali. — Nem tenta fingir que não está gostando.
Ele desceu os dentes de leve no meu lóbulo, puxando num carinho bruto que me fez soltar um suspiro abafado, fechando os olhos enquanto o calor tomava conta do meu peito.
— No sábado de folga eu vou te levar num lugar bem discreto — Morales sussurrou, a voz carregada de uma intenção crua e direta, sem rodeios. — Quero te comer devagar, Michel. Do jeito que você tá pedindo pra ser tomado desde que pisou nesse vestiário. E você vai me entregar tudo.
O impacto daquelas palavras me fez engolir em seco, o coração batendo descontrolado no peito. Morales me deu um último aperto firme no quadril, marcando a posição dele, e finalmente se afastou devagar.
Ele se levantou do banco, ajeitou o dólmã da farda com um sorriso presunçoso e me encarou de cima para baixo antes de caminhar até a saída.
— Sexta-feira, vinte e duas horas. A porta da secretaria vai estar destrancada — ele avisou na porta, piscando para mim. — E sábado a gente se vê!
A porta do vestiário se fechou. Fiquei sozinho no banco de madeira, de cabeça baixa, tentando controlar a respiração desordenada e o calor que ainda queimava entre as minhas pernas. A chave para invadir a sala do Brito estava garantida... mas o preço dessa aliança ia ser pago da forma mais perigosa e intensa possível.