Capítulo XXXII – Cavalo rebelde
— Achei que não viria...
Epona usava um vestido escuro, cabelos soltos, ombros e braços desnudos, um decote que convidava mais a imaginar do que a olhar; a saia descia até seus pés... Suas sandálias, também escuras, ajudavam no contraste dos detalhes dourados que usava: unhas, colar, anéis, bracelete...
— Não sabia que tinha essa opção...
Disse tentando soar provocativo, engraçado... algo compatível com o cara do espelho... Ela sorriu...
— Claro que tem, Potrinho... — devolvia com malícia. — ... mas ficaria sem jantar!
A mesa da entrada do laboratório estava coberta com uma toalha branca e, sobre ela, havia uma toalha vermelha menor. Em cima, em duas grandes tábuas, havia queijos, uvas, azeitonas e carnes defumadas... no centro, alguns pães... há tanto tempo comendo a ração do Templo, o que era provável entrada parecia um banquete...
— Não perderia um jantar assim... ainda mais na companhia de tão linda Senhora...
A porta do laboratório se fechou, por poucos instantes tudo ficou escuro, e então Epona acendeu algumas velas espalhadas pela sala... não entendi por que as lâmpadas não funcionaram como antes...
— O terno lhe caiu bem, Potro... — falava enquanto aproximava a ponta de diamante do disco —, espero que não fique desconfortável nele. Sei os trapos que vestia antes.
Um pequeno susto... reconhecia a melodia, não a música... mas era brasileira... brasileiro era isso. Não respondi à provocação de Epona, fui até ela:
— Permite-me uma dança?
Epona abriu um meio sorriso:
— Então os boatos são verdadeiros? Todo brasileño sabe dançar?
Sabia dançar... durante anos, meus pais me deixavam nos finais de semana com minha avó e ela sempre ia aos bailes... eu a acompanhava, era convidado por suas amigas para dançar... conforme envelheci, envergonhei-me de não ter uma parceira e acabei parando de dançar em público, mas segui dançando com minha avó quando ela foi ficando mais doente e mais reclusa.
Começamos alguns passos... era uma música antiga, mas era um samba. Era evidente que Epona sabia dançar; dança é condicionamento físico e, sobretudo, desprendimento corporal... Eu não dançaria bem à luz de todos, mas com as amigas da minha avó não tinha vergonha de mexer os quadris; fechado na casa dela, entregava o que minha avó buscava... Era samba, era a minha vantagem.
Epona ergueu uma das sobrancelhas. Algo finalmente lhe escapava!
— Começo a entender o guilty pleasure de Ártemis...
Falava de mim?
— Como assim, Senhora?
Corrigia discretamente sua postura e seus passos; anos dançando com alguém cuja memória se desfazia haviam me ensinado a conduzir sem constranger.
— Ártemis vê a música brasileira, o samba... como uma arte muito humana: de escravos. Para ela, deveria ser algo ressentido... mas não é, é cheio de surpresas. Como você, Potrinho...
Foi então que lembrei! Como havia esquecido? Era Vinícius...
— Vinícius é talvez o maior nome da nossa música...
Epona deu uma risada... um misto de humilhação com provocação...
— Nossa música, Potro... qual a sua parte nisso?
A música terminava; Epona aproveitou para encher nossas taças com o vinho que estava decantando, mas seguia me fitando, aguardando minha resposta ao seu enigma...
— ... é a lei natural dos encontros, Senhora... deixamos e colhemos um pouco em cada um em quem esbarramos, afinal.
Lembrei-me de um dos vinis dos finais de semana... não era exatamente samba, mas funcionava como tal para minha avó, e isso bastava em seus dias finais de bailarina...
— Boa resposta, Potrinho... boa demais. Não é sua, né?
Não era, mas não havia como Epona ter certeza; ela estava blefando, tinha que avançar! Peguei a taça de sua mão, entrelaçando nossos braços.
— Talvez seu caderninho seja pequeno para um bom malandro...
Bebemos. Epona virou o vinho — não se vira vinho, vinho se saboreia, lembrei-me de meu amigo —, mas ela o virou; estava avançando, vencia o caderninho... Virei, todavia, incapaz de beber de maneira menos viril do que ela.
— Vai com calma, malandro, temos a noite toda e faz bastante tempo que você não bebe!
Era verdade, mas o que estava bebendo possuía uma qualidade totalmente distante de tudo o que já provara:
— Pedindo calma, Epona... achei que não precisaria pedir!
Epona olhou para cima, querendo fingir estar entojada com minha fala, mas seu corpo gostava, dançava...
— Como discutir com quem apresenta como triunfo o amor que só é bom se doer...
Voltamos a dançar e, como esperado... como na festa de calouros, a bebida soltou meu corpo. Deixei Epona perder o equilíbrio em meio ao meu jogo de pés! Segurei-a firme para impedir a queda... e, como prêmio, aproximei nossos corpos.
Ela me fulminou com o olhar, mas, ainda assim, devolveu um sorriso:
— Gosto de saber que posso contar com seu corpo para segurar meus tropeços, Potro... e gosto ainda mais de ver toda uma plasticidade ainda por ser explorada...
Tão próximo ao seu rosto, olhando em seus olhos, pude sentir seu perfume... era doce ao entrar, mas instalava-se queimando... Antes do Templo, nunca me imaginei dançando com alguém tão bela; Epona era uma Rainha!
— ... Então é isso!? Pensa que é Rei e malandro? Que o Templo, que o meu Estábulo, são seus dias para amar?
Era como me sentia, ao menos enquanto a segurava pela cintura, fazendo-a esbarrar suas coxas nas minhas e sentindo a mistura de seu cheiro com o gosto do vinho... Mas não podia me deixar conquistar, eu que precisava conquistar...
— Quase, Senhora... estão mais para meus sete dias para morrer!
Epona riu:
— Nêgo, se Ártemis lhe escuta falar que seu Templo é lugar para morrer... ela não vai gostar nada!
Epona percebeu meu pequeno descompasso... mas sua fala não era sobre Ártemis. Ártemis podia ser minha Deusa, mas era a chefa dela! Era isso... era mais um teste... falhei no dia da fofoca, não falharia agora:
— Pensei que essa noite era sobre comemorar o seu sucesso, minha Senhora... entendi mal?
Senti o prazer nos olhos de Epona; eu a fazia viver a experiência da competição feminina... ela aproximou o rosto do meu ouvido...
— Falou como Cavalo...
Deixou-me todo eriçado:
— ... melhor, falou como Homem!
Epona parecia entregar-me o que eu queria, mas algo gritava dentro de mim: essa não é a Epona... precisava conter essa voz, precisava afogar o fracassado em vinho. Soltei-a para nos servir; ela aproveitou para preparar alguns quitutes...
— Aqui, Senhora...
Epona aproveitou minha boca aberta e enfiou um pedaço de pão com uma das carnes dentro dela... era divino. Senti-me como quando meu pai ficava bebendo e dona Janaína entregava a ele um prato de comida... cuidando silenciosamente do seu amanhecer...
— Vamos fazer uma pequena pausa... a cara que fez mastigando me deu fome — falou enquanto interrompia a vitrola.
Eu aceitaria sua determinação? Meu pai e o pai do meu pai não aceitavam seguir os horários do lar... resisti como pude; quando ela passou por mim para alcançar sua cadeira, segurei-lhe o braço... ela se virou, havia surpresa em seu rosto.
— Minha fome é de outra coisa, Senhora!
Nós nos sentaríamos, mas a Rainha sentar-se-ia no colo de seu Rei. Epona não resistiu ao meu puxão, mas ao aterrissar em minhas coxas, mordeu-me a mão com força... soltei-a.
Entretanto, em vez de se levantar, Epona se virou... o abrir de suas pernas revelou, ainda que brevemente, uma calcinha que mais mostrava do que escondia. Ela pressionou seu quadril contra minha virilha; senti seu sexo, ainda que amortecido pelos tecidos que nos separavam...
— Gosto do seu fogo, Potro! Seu pau está sedento pelo que lhe foi negado até aqui... — esfregava-se com propósito. — ... nós vamos nos deitar, mas não agora! Quero que essa noite seja marcante pela música, pela comida, pelo vinho... mas não esquecida pelo vinho!
Beijou-me. Um beijo indiscreto. Sua língua áspera invadiu minha boca, senti seu gosto, fruta doce com fundo fermentado; desorientado, tentei persegui-la com a minha, mas, antes que se entrelaçassem, Epona afastou o rosto e se levantou...
— Falou como Homem, beijou como Potro!
Sentou-se em sua cadeira, ajustei-me na minha, e começamos a comer enquanto ela me encarava...
Ninguém rebolaria como Epona fez se não estivesse se entregando ao desejo... sua mordida, seu beijo e sua última humilhação eram testes... assim como eu duvidava de sua honestidade, ela duvidava que houvesse em mim algo além do Potro.
Devolvia o olhar indiscreto, e o jantar romântico convertia-se em campo de batalha... devoramos quase tudo como se estivéssemos a nos devorar, medindo-nos como predadores em cada bocada!
Havia, contudo, um problema... Epona não estava há vários meses sem beber... eu estava... um pouco zonzo e sonolento, mal pude perceber que ela havia se levantado... percebi a música... assustei-me quando ela falou ao pé do meu ouvido:
— O predador sacia todas as suas fomes... — mordiscou-me a orelha. — a presa costuma se acovardar quando sacia uma...
Iria vencer, tinha que vencer... não seria humilhado, gozaria dentro dela! Levantei-me; a cadência do samba sempre foi uma aliada do passo ébrio...
Tinha vivido, até aquele ponto de minha vida, em tempo de paz. O Templo convidava-me à guerra. Esforcei-me para dançar, tentava silenciar o revirar do estômago; Epona, a cada passo que não me acompanhava, ficava mais e mais vermelha... ela também estava embriagada... ela também precisava do empurrãozinho do álcool para aceitar ser mulher... entregar-se como mulher.
Em seu terceiro erro, pisando em meus pés, fingi uma dor mais aguda do que meus sentidos enfraquecidos podiam de fato sentir...
— Mas que droga, Potro! Não é possível que vou precisar fazer isso...
Soltei-a. Ela caminhou até a mesa e, pela primeira vez, desprezou o ritual, vertendo o líquido de uma nova garrafa diretamente em sua boca; em seguida, estendeu-a para mim. Estava pela metade. Segurei e, não podendo ficar para trás, virei o restante.
Com menos habilidade, um pouco caiu sobre meu paletó... o gelado do líquido aplacou um pouco do meu calor e deu-me a desculpa para atirar a peça manchada ao chão... Epona também se despia... arremessou as sandálias contra a parede:
— Que humilhação, que saco! Me ensina, Potro, me ensina sua dança infernal!
Voltei a conduzi-la de maneira gentil... ou melhor, voltei a tentar fazer isso. Em um estranho jogo de sorte, nossos pequenos erros convertiam ensino em brincadeira, em descoberta.
Não se tratava mais de professor e aluna, de professora e aluno. O galo cantava, deslocando tempo e lugar. As luzes bruxuleantes enegreciam a pedra clara daquele piso; pisávamos, entrelaçávamos os passos, sambávamos ou tentávamos. O ritmo mais frenético das primeiras faixas do lado B dissolveu nossas consciências e, por uma dúzia de minutos, nossos corpos enredaram-se, entenderam-se e foram felizes...
A tristeza, infelizmente, se impôs quando meu corpo começou a falhar, trazendo minha consciência, ou talvez a falta dela, de volta à tona... soltei meu par, apoiei-me na cadeira e tentei fazer as coisas pararem de girar...
Minha Senhora riu. Confirmava que, apesar dos pesares, mesmo ela tendo me favorecido com o samba, minha natureza de presa me traía... a solidão mais uma vez parecia vencer minha virilidade...
Epona se aproximou, agarrei-lhe a mão; não a deixaria escapar, não a deixaria abandonar o homem que tentava se libertar! Segurei com força, vi dor em seu rosto, justo suas mãos, seus bens mais preciosos... vi sua fúria... ignorei, puxei-a ainda mais violentamente, jogando-a contra a mesa... taças e garrafas se estilhaçaram com o baque de sua cintura na madeira...
Ela tentou se levantar, mas eu a empurrei de novo contra a mesa, tentei levantar a saia de seu vestido enquanto ela tentava se libertar.
Em meio ao piso molhado de vinho e aos golpes de Epona, perdi o equilíbrio. Agarrei-me ao seu vestido como se me agarrasse a uma corda e embaixo de mim houvesse o abismo... um rasgo, a corda rompeu-se, eu caía!
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"Como curador do Caderno Vermelho, devo alertar os leitores ocasionais que não há revelação ou descoberta nas páginas a seguir que não possa ser encontrada no levantar de uma casquinha em um ferimento purulento. Mas não há de se descobrir a si mesmo investigando a ferida? Talvez, mas essa investigação é também um estímulo ao câncer. O Caderno encontrará seus leitores, por isso não temo deixar de ter views. Quem lê seus Volumes o faz por uma espécie de comichão, que não se silencia até que a ferida seja, por mais uma vez, retalhada."
