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FERNANDO (I)

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Um conto erótico de Claudio_New
Categoria: Homossexual
Contém 1722 palavras
Data: 19/07/2026 10:47:08

Conheci Fernando, tínhamos ambos dezoito anos. Foi no exército, aquela sucursal do inferno, principalmente para os, como eu, gays, tímidos ou enrostidos, trancafiados no mais hermético armário. Foi simpatia à primeira vista, e a amizade brotou espontânea, como toda boa amizade deve ser. Éramos inseparáveis, partilhávamos tarefas, ajudávamo-nos nas dificuldades, confidenciávamo-nos em “quase” tudo. Nando foi um ano de bálsamo no sofrimento intermitente do quartel.

Naturalmente que me apaixonei perdidamente por ele. Se eu fosse mais romântico, diria que foi meu primeiro amor. Mas terrivelmente platônico, que eu jamais teria coragem sequer de insinuar minha homossexualidade, muito menos que estava a fim dele. Então, ao lado do prazer de tê-lo ao lado e solícito, eu vivia a angústia de não poder lhe falar do meu tesão, do meu desejo, da minha paixão por ele.

Quando, no banheiro, coincidia de nos encontrarmos, no banho, eu literalmente babava rios devorando seu corpo com os olhos. Adorava tudo que via: seus lábios carnudos, que se entreabriam num riso safado mas sempre sincero; seu peito moreno, os mamilos arrebitados, sua barriga de gomos; as coxas grossas, a bunda redonda e cheia, e principalmente a rola escura, que se balançava entre as pernas, esparzindo a água do chuveiro. Quantas e quantas vezes sonhei em tomar aquele monumento de prazer nos lábios e chupá-lo até fazê-lo gozar seu leite fresquinho em minha garganta... Ou abri-lhe as pernas e receber sua pica rígida no meu cu...

Nessas horas de admiração eu evitava me despir totalmente, pois invariavelmente minha rola estaria em posição de sentido, o que poderia me/lhe/nos constranger e fissurar nossa amizade tão linda. Eu preferia guardar aquela imagem divina e, à noite ou quando tinha a certeza de que estava sozinho, gozar uma deliciosa punheta com sua rola impossivelmente na minha boca e no meu cu ao mesmo tempo.

No dia em que demos baixa daquela merda, eu estava vivendo uma mescla de sentimentos. Feliz por finalmente me livrar daquela porra, inseguro sobre o que encontraria lá fora (eu virara um adulto, afinal, e isso me assustava pra caralho!), mas estava principalmente lamurioso por ter que me separar do meu amigo-amor, e sem que ele soubesse de o quanto eu lhe queria. Nosso último abraço foi a explosão desse turbilhão interior: procurei fruir toda a magia daquele corpo que decerto eu não veria jamais; eu buscava ansiosamente sentir seu cheiro e leva-lo dentro de mim para toda a vida...

O tempo passou, célere ou moroso, de acordo com o momento específico da vida. Estudei, me formei, virei profissional, adquiri alguns bens, fiz algumas viagens, comi algumas bucetas, e uma vez ou outra pagava por uma rola, que eu nunca consegui assumir plenamente minha sexualidade. Não casei, não tive filhos, não transmiti a ninguém o legado infeliz da minha miséria psicológica – inevitável não pensar em Machado...

Também passei anos e anos sem nada saber de Nando, que naquela época não havia as facilidades de comunicação de hoje. O que eu sentia por ele foi aos poucos se aquietando, se acomodando em algum cantinho dentro de mim, e se tornou mais uma peça no baú das experiências que vivi na vida. Eu até já conseguia pensar nele, vez em quando, sem entrar na paranoia que me assolava nos tempos do exército – era uma lembrança boa, gostosa, ainda que incompleta... Nada mais.

Até que um dia, folheando um jornal, topei com sua foto. Apesar de maltratado pelo tempo e pelas circunstâncias, ainda era um belo exemplar masculino. Meu coração disparou ao vê-lo, minha pica se movimentou discretamente, e quase sem perceber passei o dedo no meu cu, experimentando o prazer do relevo das rugas. Mas o que li em seguida foi estarrecedor: Fernando da Silva fora preso numa batida policial, flagrado com sei lá quantos quilos de droga; no desenrolar da reportagem, a informação de que sua ficha era considerável, tendo até acusações de assaltos e homicídios. Não pude evitar a lágrima. Em que se transformara meu amor de juventude!

Naquele dia não senti mais alegria, Fernando ocupou inteiramente meus pensamentos, misturando-se com Nando – o atencioso companheiro e amigo embaralhado com o perigoso assaltante, traficante, homicida, e o que mais teria acontecido com ele. Fechei o dia na noite de um bar, tomando um aperitivo qualquer e lembrando dele. Pela primeira vez não transformei a lembrança dele em punheta, ao final do dia.

Mas isso também passou, que o tempo é engenhoso curador de feridas e fabricante de cicatrizes. Mas cicatrizes, por não doerem, passam tempos inativas, sem a gente nem lembrar que existem. Nando virou uma cicatriz, enquanto continuava, inexorável, minha vida fútil, cotidiana e tributável – inevitável não lembrar de Álvaro de Campos.

No meio dessa minha existência, me aposentei, descobri e venci um câncer, e me convenci de que já era tempo de assumir de vez minha homossexualidade. Fui entendendo (e aceitando) que não tinha mais que dar satisfação a ninguém sobre com quem eu fazia sexo. Fui aos poucos e aos sobressaltos, contactando com pessoas do meio, fazendo amizades, uma ou outra festinha (terrível prova para minha timidez), por vezes pegando (e sendo pegado) por homens, sem precisar pagar... Até namorado arranjei, a quem dei mais de uma vez.

De Nando, a novidade me veio pela mídia – agora internética. Uma matéria num site jurídico em que ele era o entrevistado. Um rosto maduro (mas ainda lindo) e uma voz tranquila a dizer o quanto aproveitou o tempo da prisão para repensar sua vida, ler bastante, aprender uma profissão, e seu firme propósito de, ao sair dali, recomeçar uma vida agora honesta. Eu ouvia a entrevista e meu coração batia descompassado, temendo que, em algum momento, ele associasse a mudança de comportamento a uma conversão evangélica. Graças aos deuses pagãos do Olimpo, ele esclareceu nada ter a ver, ao responder a uma pergunta do também curioso entrevistador. Fiquei feliz. Fechei o celular e os olhos, Nando voltando suavemente a minha lembrança, e naquela noite dormi tranquilo.

Hoje reencontrei Nando. Foi assim. Eu dirigia meu carro numa BR, em direção a uma cidade vizinha, para um frila, quando um homem, de camiseta, bermuda jeans e mochila nas costas, pediu carona, no acostamento. No meu passado de jovem confuso entre a hétero e a homossexualidade, conduzi caroneiras e caroneiros, alguns rendendo até beijos, pegadas, carícias, chupadas... Mas a escalada ingovernável da violência, fez-me mais cauteloso e fui abandonando essa prática. Atualmente eu não mais parava na estrada para ninguém.

Não sei exatamente o que me levou a diminuir a velocidade, ao gesto do mochileiro. Percebi, pelo retrovisor, que ele entendeu a desaceleração do veículo como anuência, e veio em minha direção. Arrependi-me na hora de ter parado e até pensei em dar partida, deixando-o para trás, frustrado e puto; desisti da ideia canalha, achei melhor espera-lo, e, a partir da informação sobre para onde ele iria, eu pedir desculpa e dizer que ia para um lugar diferente – seria menos sacana, eu acreditava.

Estava eu entabulando o plano de descarte do caroneiro, quando ele emparelhou com a porta e logo ao cumprimento tive um choque ao ouvir aquela voz familiar. O Universo era imprevisível: ali estava, ao lado do meu carro, meu maior amigo, minha paixão incubada daqueles tempos do quartel. Sua surpresa não foi menor que a minha, e se abriu num sorriso do tamanho de nossa saudade. Imediatamente abri minha porta, dei a volta e me joguei em seus braços, num abraço do tamanho daquele último que trocamos, tantos anos atrás.

Ele me acariciou os cabelos, camaradamente, como costumava fazer no garoto de dezoito anos, sem imaginar o que aquela carícia provocava em meu corpo desde então e ainda agora; trocamos frases desconexas, entre sorrisos bobos, e novo abraço como para termos certeza de que aquele reencontro estava realmente acontecendo. Já instalados no carro, buscando por alguns segundos assunto (entre os tantos que tínhamos) para iniciar a conversa, aos poucos fomos falando sobre nossas vidas.

Ele falou que quando saiu do quartel, arranjou um emprego de ajudante numa marcenaria, que não dava muito dinheiro nem ele tinha paciência para ficar marcando passo a vida toda assim. Foi pulando de bico em bico, de trabalho em trabalho, até que conheceu um cara do crime, que o convenceu a utilizar alguns “atalhos” para vencer na vida. Aí a história se confunde com a de tantos e tantos jovens: assaltos, dinheiro fácil e muito, drogas, sexo, brigas, mortes – ele foi adquirindo status e respeito no submundo, mas a um preço muito alto: sua tranquilidade. Ele se livrara de algumas emboscadas, precisou matar para não morrer, e passou a viver sempre em alerta máximo.

Até que caiu. Preso, julgado e condenado a vários anos de cadeia. Nesse tempo aprisionado, leu e refletiu (e aqui ele repetiu a história que eu já vira na entrevista), e decidiu abandonar aquela vida turbulenta e tentar um recomeço. Sabia que não seria fácil, com seu passado e a pecha de ex-presidiário, e não estava sendo mesmo, mas nada o demovia da ideia de, uma vez paga sua dívida com a sociedade, aproveitar honestamente o que lhe restava de sua útil vida.

Eu marejara os olhos em alguns trechos da narrativa, pensando comigo mesmo como eu queria ter estado ao seu lado quando ele deu o primeiro vacilo... Talvez eu pudesse tê-lo ajudado a se safar do embrulho em que se metera, como ele fez comigo tantas vezes, no exército. Mas logo reconheci a inutilidade de tal pensamento, que o passado só é vivido uma vez, e mesmo que tenhamos, em algum momento, elementos de lá de trás no presente, estes não são mais os mesmos. Tudo agora é diferente e o passado é irreversível.

Ao perguntar pela minha vida, fiz o resumo mais enxuto possível, que minha existência não tinha importância alguma, diante do que vivemos no quartel e da própria vida civil de Fernando. Mas foi quando ele começou a recordar nossa amizade no quartel, nossas brincadeiras, nossas aventuras de jovens, que senti ter chegado finalmente o momento de abrir o jogo com ele. As coxas que escapavam da bermuda, ao meu lado, e que eu flagrava em rápidas e discretas olhadas, eram o estímulo definitivo para falar agora aquilo que, dito nos nossos dezoito anos, teria mudado radicalmente nossas vidas.

Conto como foi, mas na segunda parte deste conto, senão fica enorme demais.

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