O plano foi traçado. Mas os dias que antecederam a viagem de Beraldo e Daniel foram os mais difíceis da vida de Natália.
Ela começou a se sentir distante da família. Não uma distância física — ela continuava ali, servindo café, arrumando a casa, indo à igreja. Mas era uma distância de alma. Como se ela estivesse atrás de um vidro, observando a vida daquela família sem fazer parte dela.
Beraldo falava sobre o congresso. Ela ouvia, acenava com a cabeça, mas não escutava. Sua mente estava na mala escondida no fundo do armário. No dinheiro guardado no banco, uma pensão herdada. No mapa que Sara havia desenhado com o caminho até a cidade da tia-avó.
Daniel falava sobre a faculdade. Ela sorria, dizia "que bom, filho", mas não via o rosto dele. Via apenas Sara. Sempre Sara.
O pior momento aconteceu numa noite de terça-feira.
Natália estava na cozinha, terminando de lavar a louça do jantar. Daniel e Sara estavam na sala. O som da televisão ligada baixo.
Natália foi até a porta da cozinha para chamar Daniel para ajudar a guardar as cadeiras. E viu.
Daniel estava agarrando Sara.
Estavam no sofá. Ele a beijava. Suas mãos percorriam o corpo dela por cima da roupa. Sara estava imóvel. Os olhos abertos. Não retribuía. Não se afastava. Apenas deixava. Viu Natália observando a cena. Sara estava aflita,como se pedisse socorro.
Natália sentiu o sangue ferver.
Uma onda de calor subiu pelo seu peito. As mãos cerraram nos panos de prato. A respiração ficou curta.
Ela quis ir até lá. Quis puxar Daniel pelo cabelo. Quis enfiar as unhas no pescoço dele. Quis esganá-lo.
O pensamento foi tão violento, tão primitivo, que Natália assustou a si mesma.
— Mãe? — Daniel a viu na porta. Tirou as mãos de cima de Sara. — Precisa de ajuda?
Natália demorou um segundo para responder. A voz saiu estranha, mas ele não percebeu.
— As cadeiras. Ajuda a guardar.
Natália olhou para Sara. Os olhos das duas se encontraram. Sara estava pálida. Seus lábios estavam vermelhos de tanto beijo forçado.
— Desculpa — Sara sussurrou, só para Natália ouvir.
— Você não tem culpa — Natália respondeu, também num sussurro.
Elas sabiam. Daniel não tinha culpa. Ele namorava Sara. Tinha direito de beijá-la. De tocá-la. De querer transar com ela.
O problema não era Daniel. O problema era que Natália já não o via como filho. Via como rival.
E esse sentimento a corroía por dentro.
Naquela noite, Natália chorou no banho. Não de tristeza. De raiva. Raiva de si mesma. Raiva da situação. Raiva de ter que esconder o que sentia.
O tormento só aumentou nos dias seguintes.
Cada vez que Daniel abraçava Sara, Natália sentia um aperto no peito. Cada vez que Daniel beijava Sara na testa, na bochecha, na boca, Natália queria gritar. Cada vez que Daniel entrava na edícula à noite e trancava a porta, Natália ficava no quarto, roendo as unhas, imaginando o que estavam fazendo.
Ela sabia o que estavam fazendo. Ou melhor, sabia o que Daniel tentava fazer. Sara cortava. Ele insistia. Ela inventava desculpas. Cólica. Dor de cabeça. Cansaço. No fundo, Sara guardava-se para Natália. Mas Daniel não sabia. Continuava tentando. Achava que Sara estava jogando,aquilo fazendo parte de um estágio na relação.
— Está tudo bem com você? — Beraldo perguntou, numa quinta-feira à noite. — Você está diferente.
— Estou preocupada com a viagem de vocês — Natália mentiu. — É um congresso importante, receio haver problemas.
— Vai ficar tudo bem. São só três dias.
Três dias. O tempo que ela precisava.
Na véspera da viagem, Natália e Sara tiveram seu último encontro furtivo. Na edícula. Às duas da manhã. Beraldo roncava. Daniel também.
Transaram como se não houvesse amanhã. Porque, de certa forma, não havia. O amanhã seria outro. O amanhã seria a fuga.
— Você está pronta? — Sara perguntou, já exausta, o corpo suado colado ao de Natália.
— Estou.
— Não vai voltar atrás?
— Nunca.
Natália colocou Sara de quatro e meteu a lingua no anelzinho da moça. Sara virbou,seu corpo sacolejava de tesão. Natália lambia aquele orifício, com dedicação, com a libido em polvorosa,puxando os cabelos de Sara,que estava quase chorando de prazer. Depois de castigar a amante, tocando uma gostosa siririca enquanto levava Sara a loucura, as duas se beijaram de maneira tão erótica que pareciam que iam se fundir.
Dormiram abraçadas na cama estreita. Por longos minutos, não houve risco. Não houve medo. Não houve esconderijo.
Houve apenas as duas.
No dia seguinte, Beraldo e Daniel partiram para o aeroporto. Natália se despediu na porta. Beijou o marido. Beijou o filho.
— Voltem logo — disse.
Mas dentro de si, pensou: Não voltem nunca.
Assim que o carro desapareceu na esquina, ela trancou a porta. Foi para o quarto. Puxou a mala escondida no fundo do armário. Vestiu a calça jeans. A blusa mais solta. O batom mais vivo.
Sara apareceu na porta do quarto. Já vestida. Já pronta. Sua mala era menor — uma mochila nas costas.
— O carro está ali — disse. — Aluguei com o dinheiro que você me deu.
Natália olhou pela janela. Um carro pequeno, cinza, estacionado na rua.
— Você sabe o caminho?
— Sei. Decorei.
Natália pegou a mala. Olhou em volta do quarto. A cama de casal. O criado-mudo com a Bíblia. A foto de casamento na parede — ela e Beraldo, jovens, sorrindo, sem saber o que o futuro guardava.
Não sentiu nada.
— Vamos — disse.
Saíram pela porta dos fundos. O quintal estava silencioso. A edícula vazia. A grama molhada de orvalho.
Entraram no carro. Sara ao volante. Natália no banco do passageiro.
O motor ligou.
O carro começou a andar.
Natália olhou para trás. Viu a casa diminuindo. A janela do quarto. A varanda dos fundos. A edícula.
Não sentiu saudade, mas sentiu tristeza. Como diz a letra de uma música “lágrimas por ningúem / só porque é triste o fim”.
Sentiu alívio.
— Para onde a gente vai primeiro? — Sara perguntou, os olhos fixos na estrada.
— Para longe — Natália respondeu. — Para muito longe.
Sara sorriu. Estendeu a mão. Natália pegou.
Os dedos se entrelaçaram. Ficaram assim durante toda a viagem.
O tormento tinha acabado.
A fuga tinha começado.
A primeira tentativa de contato foi no dia seguinte à partida.
Beraldo ligou no final da tarde. Queria saber se Natália tinha dormido bem, se estava tudo em ordem na casa. O telefone tocou. E tocou. E tocou. Ninguém atendeu.
Ele ligou de novo. Mais tarde. Mais uma vez.
— Ela deve estar na igreja — disse para Daniel, que mexia no celular ao lado. — Ou no mercado.
Daniel ligou para Sara. O telefone tocou várias vezes, depois caiu na caixa postal. Ele mandou mensagem. "Oi, sumida. Tudo bem?" A mensagem foi entregue, mas não teve resposta.
Na manhã seguinte, Beraldo tentou de novo. Nada. Ligou para a vizinha da frente.
— A Natália? Não a vejo desde ontem — a vizinha disse. — O carro dela está na garagem, mas a casa está com as luzes apagadas.
Beraldo sentiu um aperto no peito.
— Daniel, liga para a Sara de novo.
Daniel ligou. E ligou. Nada.
No segundo dia, Beraldo ligou para a irmã Lurdes, do grupo de oração.
— A Natália não apareceu no culto ontem — Lurdes disse. — Eu estranhei, mas pensei que ela estivesse com algum problema de saúde.
— Ela não está doente — Beraldo respondeu, a voz já tensa.
— Quer que eu vá até a casa?
— Vá, por favor.
Irmã Lurdes foi. A casa estava trancada. As janelas fechadas. O carro na garagem. Bateu na porta dos fundos, na edícula, chamou pelo quintal. Ninguém respondeu.
— Não tem ninguém — ela disse, ao telefone. — Parece que a casa está vazia.
Beraldo cancelou o restante do congresso. Ele e Daniel pegaram o primeiro voo de volta.
No avião, quase não conversaram. Daniel estava branco. Beraldo passava a mão no rosto repetidamente, como se tentando acordar de um pesadelo.
— Ela não faria isso — Daniel disse em determinado momento. — Não sem avisar.
Beraldo não respondeu.
Chegaram na cidade no fim da tarde. Pegaram um táxi até a casa. A rua estava silenciosa. O portão estava fechado, mas não trancado.
Beraldo empurrou. Entrou.
A casa estava impecável. Louça lavada. Camas arrumadas. Nada fora do lugar.
Mas algo faltava.
— As roupas dela — Daniel disse, abrindo o armário do quarto dos pais.Falta roupa. A mala que ela guardava no fundo não está mais ali.
Beraldo sentou na cama. Passou a mão pelo rosto.
— Ela foi embora — disse, em voz baixa. Como se dissesse a si mesmo.
Daniel correu para os fundos. A edícula estava vazia. A cama desarrumada da última noite. O armário de Sara estava vazio. A mochila não estava mais no canto.
— Sara também foi — ele disse, voltando para a cozinha. A voz tremia. — As duas foram.
Beraldo levantou. Foi até o criado-mudo. Abriu a gaveta. A Bíblia de Natália estava lá, em cima de um envelope.
Ele abriu o envelope. Era uma carta. Escrita à mão. Com a caligrafia de Natália.
"Beraldo,
Quando você ler isso, eu já estarei longe. Não tente me encontrar.
Fui uma boa esposa para você durante 22 anos. Fui uma boa mãe. Fui um bom exemplo na igreja. Mas nunca fui eu mesma. Nunca soube quem eu era.
Agora sei.
Estou apaixonada por Sara. Não foi uma escolha. Não foi uma tentação que eu deixei entrar. Foi um sentimento que cresceu dentro de mim, contra todas as minhas vontades, contra tudo o que eu ensinei e acreditei.
Sinto muito por você. Sinto muito por Daniel. Sei que isso vai doer. Sei que vão me odiar. Mas não posso viver mais uma mentira.
Cuide de Daniel. Ele vai precisar de você.
Não me procure.
Natália."
Beraldo leu a carta duas vezes. Depois deixou cair no colo.
Daniel pegou. Leu. As mãos tremiam tanto que o papel fazia barulho.
— Isso não é verdade — ele disse. A voz estava estranha. — Isso não pode ser verdade.
— É verdade — Beraldo respondeu, sem olhar para o filho.
Daniel largou a carta. Saiu andando. Foi para o quintal. Beraldo ouviu um grito. Um grito rouco, gutural, que vinha do fundo da alma.
Depois o silêncio.
Beraldo ficou sentado na cama. Olhou para a foto de casamento na parede. Ele e Natália jovens. Sorrindo.
Ele nunca vira Natália sorrir daquele jeito depois dos primeiros anos de casamento. Pensava que era a vida, o tempo, a rotina.
Não era.
Era falta de amor.
Era falta dela ser quem realmente era.
Ele guardou a carta no bolso. Levantou. Foi até o quintal.
Daniel estava sentado no degrau da edícula, a cabeça entre as mãos. Chorava.
— Por que a Sara fez isso? — ele perguntou, sem levantar o rosto. — Por que ela fez isso comigo?
Beraldo sentou ao lado do filho. Não tinha resposta.
A noite caiu. O quintal escureceu. A casa continuou vazia.
No dia seguinte, a notícia se espalhou. A esposa do pastor tinha fugido com a namorada do filho. A moça recém-convertida que morava na edícula nos fundos.
A comunidade ficou chocada. A irmã Lurdes chorou. O diácono Osmar pediu uma reunião de emergência com os presbíteros. A vizinha da frente disse que "sempre desconfiou" — embora nunca tivesse desconfiado de nada.
Beraldo não deu entrevistas. Não deu declarações. Trancou-se em casa com Daniel.
O filho não saiu do quarto por dois dias. Quando saiu, seus olhos estavam secos, vermelhos, fundos.
— Eu vou encontrá-la — disse. — Vou encontrar as duas.
— Não vai — Beraldo respondeu. — Ela não quer ser encontrada.
— Não importa o que ela quer. Ela destruiu minha vida.
Beraldo olhou para o filho. Viu no rosto dele a mesma raiva que sentia no próprio peito. Mas também viu outra coisa. Cansaço. Tristeza. Uma dor que nenhuma vingança curaria.
— Sentar aqui e odiar não vai trazer ninguém de volta — Beraldo disse.
— O que eu faço então?
— Vive. Vive a sua vida. Um dia de cada vez. É o que eu vou tentar fazer.
Daniel não respondeu. Voltou para o quarto.
Beraldo ficou na sala. A casa estava silenciosa. A cadeira de Natália vazia. A xícara de café que ela usava todas as manhãs ainda estava na pia.
Ele sentou no sofá. Ficou olhando para a parede.
Aos poucos, a ficha foi caindo.
Ela foi embora. Ela não volta mais. Ela escolheu outra pessoa.
Uma mulher. Mais nova. A namorada do filho.
A dor era tão grande que não cabia no peito. Transbordava. Vazava pelos olhos.
Beraldo chorou. Sentado no sofá da sala, sozinho, o pastor que aconselhara tantos casais em crise não conseguiu encontrar consolo para si mesmo.
Do lado de fora, o mundo continuava.
A vizinha pendurou roupas no varal. As crianças foram para a escola. A igreja abriu as portas para o culto noturno.
Mas dentro daquela casa, algo tinha morrido.
Algo que nunca mais voltaria.