A tarde de sábado no quartel tinha um gosto estranho. Depois de uma semana inteira engolindo poeira, marchando até o pé sangrar e ouvindo esporro de tudo que é lado, o toque de corneta da "tarde livre" parecia até mentira. A maioria dos recrutas correu para o refeitório atrás de um resto de suco, ou ficou no pátio engraxando o coturno e contando vantagem sobre as namoradas que deixaram lá fora.
Eu preferi sumir. Para mim, ficar no meio do tumulto era pedir para virar alvo do Gustavo.
Caminhei rápido, fingindo que estava indo cumprir alguma ordem para nenhum veterano me parar, e fui para os fundos do galpão de manutenção das viaturas. Era um lugar isolado, cheio de árvore e com um banco de cimento que vivia na sombra. O cheiro de graxa e óleo diesel ali era forte, mas era o único canto onde eu não ouvia a voz do Gustavo e dos capangas dele.
Sentei no banco, apoiei os cotovelos nos joelhos e fiquei olhando para as minhas mãos. Estavam cheias de pequenos cortes por causa do metal dos armários e do tecido duro da farda. Minha cabeça raspada ainda ardia no sol quando eu tirava o gorro. Bateu um desânimo forte. Eu só queria fechar os olhos e esquecer que eu era o Recruta 114.
— Destrava a cara, 114!
Dei um pulo do banco. O coração disparou na hora. Fiquei de pé quase num reflexo de medo, achando que era algum sargento.
Um cara estava descendo o barranco atrás de mim, escorregando na grama seca como se fosse treinado para aquilo. Quando ele parou na minha frente, demorei um pouco para entender a cena. O cara havia quebrado todas as regras de fardamento.
Ele estava sem a gandola — a blusa camuflada pesada estava amarrada na cintura igual uma saia. Ele arrancou a camiseta verde-oliva justa exibindo seu físico todo definido, jogou ela em cima de um galho de árvore e ficou em uma postura totalmente folgada. Ele colocou o gorro militar dele virado para trás, e o cabelo nem parecia que tinha visto a máquina um. Estava meio crescido já, uma afronta. O cara era moreno, tinha os olhos bem vivos e um sorrisão de quem tinha aprontado alguma e saído ileso.
Era o Recruta Emiliano. Eu já tinha visto ele de longe; ele era do Primeiro Pelotão, o grupo que os sargentos chamavam de "os queridinhos" porque a maioria ali era atleta ou tinha entrado por vontade própria.
— Calma, assustado! — Emiliano deu uma risada alta, zombando do meu susto, e levantou as mãos. — Baixa essas armas que eu sou da paz. Se eu fosse o Rocha, você iria sentir um bafo de café de longe, Respira pô!
Soltei o ar devagar, mas continuei desconfiado. Ali dentro, ninguém era legal de graça.
— O que você tá fazendo aqui? — perguntei, meio grosso.
— Caraca, uma semana aqui e você ja esta falando que nen sargento hein? — Emiliano riu, nem ligando pro meu tom. Ele enfiou a mão no bolso da calça e tirou uma maçã vermelha, gigante. A bicha estava brilhando, cheia de gotinhas de água. Gelada de verdade. — Segura o rojão!
Num movimento doido, ele jogou a maçã pra mim de efeito. Quase deixei cair, mas agarrei contra o peito. O gelado da fruta me deu um choque na mão.
— Direto do contrabando do rancho — Emiliano mandou, puxando outra maçã do bolso e dando uma mordida tão barulhenta que estalou. Ele limpou o caldo da boca com a própria camiseta.
— O sargento de dia estava lá dando um esporro num infeliz que derramou comida sobre a mesa, aí eu pensei: "Pô, essa geladeira tá dando sopa". Se o Rocha pegar a gente, tamo frito e o castigo vai ser marchar de ré até segunda-feira. Então, morde logo isso aí antes que o crime prescreva!
Olhei para a maçã. Fazia dias que eu não via uma comida com cara de comida. Dei uma mordida. O gosto doce e gelado encheu minha boca. Sensacional.
— Por que você tá me dando isso? — perguntei, engolindo o pedaço. — Você nem me conhece, cara.
— Ih, começou o interrogatório policial — Emiliano sentou no banco do meu lado, jogando as pernas lá na frente, quase deitando. — Cara, eu tava no refeitório mais cedo. Vi o show de horrores do Gustavo na hora do almoço. O cara esbarrando na tua bandeja de propósito... E o gordinho do Dagoberto rindo igual uma hiena engasgada. Pô, o Dagoberto parece aqueles cachorrinhos que ficam balançando a cabeça no painel do carro, só vai na onda do dono.
Meu estômago deu um nó. O gosto da maçã até sumiu. Abaixei a cabeça, sentindo aquela vergonha de sempre voltar.
— Eu tento ficar na minha, sumir aqui dentro, mas parece que todo mundo me caça — falei baixo.
— Ih, pronto, vai chorar na minha maçã? — Emiliano me deu um cutucão com o cotovelo, rindo. — Sumir o caramba, Michel! Tu mandou bem demais na marcha ontem! O tenente quase teve um derrame de tanta alegria vendo você marchar reto. Você acha que o Gustavo tá no teu pé porque você é fraco? Que nada, meu parceiro! O "machão da quebra" tá puto porque uma ruivinha fez ele parecer um completo desajeitado na frente do chefe! Tu pisou no calcanhar do ego dele, moleque.
Fiquei quieto. Ninguém tinha falado aquilo para mim ainda. Ele fazia a situação parecer uma piada, e isso de alguma forma tirava o peso das coisas.
Do nada, Emiliano jogou o resto da maçã dele na moita e deu um pulo, ficando de pé. Ele me pegou pelos dois braços e me puxou para cima.
— Levanta aê, soldado da depressão. Vai, agiliza!
— Para quê, Emiliano? — perguntei, sem entender nada.
— Só levanta, 114. Deixa de ser mole.
Fiquei de pé. A mão dele era quente pra caramba e ele me puxou sem esforço. Quando fiquei perto, ele me olhou de cima a baixo com uma cara de paisagista avaliando uma planta morta.
— Deus me livre, Michel. Que fardamento é esse? Tu fechou os botões com os olhos fechados? Parece que foi atropelado por um tanque. Desse jeito o inimigo não te mata de tiro, morre de desgosto.
Antes que eu pudesse reclamar, Emiliano deu um passo pra frente, colando o peito no meu. Meu coração deu um pulo e eu esqueci como respirava. Ele levantou as mãos e começou a arrumar a minha gandola. Fechou o botão de cima que eu tinha deixado aberto, deu um tapa na gola para alinhar e puxou o tecido para baixo com força. O toque dele não tinha nada de bruto, era rápido e seguro, mas tinha uma leveza que me deixou mole. Enquanto ele ajeitava o meu cinto, os braços dele roçaram nos meus, e senti meu rosto ferver.
— Pronto, agora parou de parecer um espantalho — Emiliano disse, espalmando as duas mãos nos meus ombros. Ele empurrou meus ombros para trás com vontade, me obrigando a estufar o peito. — Postura de campeão, queixo pra cima.
Ele não tirou as mãos dos meus ombros. Ficou me olhando bem de perto, olho no olho, com um sorriso de canto. A brincadeira dele deu uma pausa por um segundo, e o olhar dele ficou sério, quente. Ele subiu uma das mãos devagar e, com o polegar, deu um toque bem de leve em meu rosto, subindo até perto da orelha. Foi um carinho rápido, de malandro, mas que me deu um choque por dentro.
— Você é um cara bonito, Michel. Você tem cara de modelo, parece um boneco, E marcha melhor que esse bando de tonto junto — ele falou meio baixo, com a voz mais mansa, bem perto do meu rosto. — Mas precisa parar de andar como se estivesse pedindo licença para pisar no chão. Esse quartel aqui é um teste de paciência com esse bando de homofóbico ignorante, eu sei. Mas se você se encolher, eles montam. Quando o Gustavo vier falar bosta, não desvia o olho não. Encara o infeliz. Deixa ele ver que embaixo dessa pose de bom moço tem um couro difícil de engolir. Demorou?
Engoli em seco. Onde ele tinha tocado ainda estava queimando. O medo sumiu por um segundo, virando uma eletricidade doida.
— Demorou — respondi, firme.
Emiliano deu um tapa estalado no meu ombro, saindo de perto e voltando com aquela cara de palhaço de sempre.
— Show. Agora engole esse resto de maçã aí antes que o Rocha apareça e queira morder também.
Ficamos ali o resto da tarde. Emiliano só falava besteira, contou que o objetivo dele no exército era descobrir onde guardavam o rango bom e gastar o mínimo de energia possível. Pela primeira vez na semana, eu dei risada de verdade. O cara era um rádio ligado, não parava, e isso era tudo que eu precisava.
A noite no quartel sempre chegava parecendo um filme de terror. O céu ficou preto e o frio começou a castigar. No alojamento do Terceiro Pelotão, a palhaçada tinha acabado. Todo mundo estava só o pó e tenso com a madrugada.
Às oito da noite, a porta de ferro levou uma bica que quase saiu do trilho.
— ATENÇÃO, PELOTÃO! — o Sargento Rocha berrou, e todo mundo pulou da cama igual pipoca, ficando na posição de sentido.
Rocha entrou marchando com aquela cara de quem chupou limão azedo. Parou bem no meio do corredor com uma prancheta.
— Senhores, hoje acaba a mamata de civil de dormir a noite inteira. Hoje tem a primeira escala de guarda. Se um de vocês dormir no posto, eu enterro o infeliz vivo no campo de instrução.
Ele levantou a prancheta e botou um óculos de grau na cara, o que deixava ele parecendo um vilão de desenho animado.
— Escala para o Posto Quatro — a Linha de Tiro dos fundos. O pior lugar. Breu total, perto do mato e onde os sargentos adoravam passar de surpresa para pegar recruta fazendo merda.
Rocha pigarreou e começou:
— Primeiro turno, das vinte e duas às zero hora: Recruta 082, Emiliano. Veio cobrir vaga do Primeiro Pelotão.
Olhei de canto. Emiliano estava na posição de sentido, mas com a boca torta, tentando não rir do óculos do sargento. O cara não batia bem.
— Segundo turno, da meia-noite às duas da manhã: Recruta 055, Dagoberto.
O gordinho engoliu em seco tão alto que deu para ouvir. A farda dele parecia que ia estourar de tanto que ele começou a tremer de medo do escuro.
— Terceiro turno, das duas às quatro da manhã — o sargento aumentou o tom de voz e olhou bem na minha cara. — Recruta 114, Michel.
Minha alma quase saiu do corpo. Das duas às quatro. O horário maldito onde o frio te mata e o sono te derruba.
— E quarto turno, das quatro às seis: Recruta 091, Simões.
Rocha andou até parar colado em mim. O bafo dele era puro café queimado.
— Recruta 114, quero ver se você marcha bonito no escuro, com o dente batendo de frio e sem nenhum tenente para passar a mão na sua cabeça. Se eu te pegar vacilando, você vai morar na cadeia do batalhão. Entendeu?
— Sim, sargento! — gritei com toda a força do peito, do jeito que o Emiliano tinha falado. O som ecoou tanto que o Rocha deu um passo para trás, meio invocado, e saiu pisando duro.
— Apagar as luzes em dez minutos. Força!
— FORÇA! — o pessoal gritou.
Assim que a luz apagou e ficou só aquela lâmpada vermelha de zona de guerra, o Gustavo começou a avacalhar do beliche de cima.
— Aí, Dago — Gustavo falou alto pro alojamento ouvir. — Fica esperto na hora de passar o posto. A "Michele" vai te render às duas. Cuidado para ela não ver um fantasma e pular no teu colo chorando.
O gordinho deu uma risadinha sem graça. Eu liguei o "foda-se". Sentei na cama, calcei as meias e fiquei esperando meu horário.
Às duas da manhã, o quartel parecia o Polo Norte. O Cabo da Guarda me deu um sacolejo para acordar. Vesti a japona por cima de tudo e fui. O equipamento do recruta era uma piada: uma lanterna que parecia um pedaço de cano e um cacetete de borracha. Arma de verdade nem pensar.
Caminhei com o Cabo no meio de uma neblina branca que não dava para ver dois palmos. Quando chegamos na Linha de Tiro, era o fim do mundo. Um breu absurdo.
O Dagoberto estava na guarita parecendo uma geladeira de farda, batendo os dentes.
— Posto sem novidade, senhor Cabo — ele gaguejou, quase chorando de frio.
O Cabo anotou, mandou ele vazar e olhou para mim:
— Recruta 114 assume. Qualquer coisa usa o apito. Não inventa de dormir! Se eu vier aqui e pegar você moscando eu passo pro superior!
Ele sumiu na neblina e eu fiquei ali. Sozinho no meio do nada. O frio passava direto pelo casaco. Entrei na guarita e fiquei ouvindo o mato estalar. Cada barulho parecia um monstro. Lembrei das gracinhas do Gustavo e da cara de mau do Rocha. O desespero começou a querer bater.
Passou uns vinte minutos. Meus dedos já estavam travados dentro da luva. Foi aí que ouvi um barulho de bota na brita.
Meu coração parecia uma escola de samba. Dei um passo para trás e segurei o cacetete com vontade. Se fosse o Rocha fazendo ronda surpresa, eu estava no sal.
— Quem tá aí? Fala! — gritei, mas a voz saiu meio fina pelo frio.
— Calma aí, Rambo! Sou eu, abaixa esse porrete antes que você se machuque.
Uma sombra saiu do meio do nevoeiro. Era o Emiliano. O cara devia estar capotado no alojamento desde as dez, mas estava ali, andando no breu como se estivesse no shopping. Com uma das mãos no bolso e com a outra carregando uma sacola estranha, aquele sorrisinho de moleque que sabe que tá errado.
— Emiliano? Você tá maluco? — sussurrei, desesperado. — O que você tá fazendo aqui, cara? Se o sargento te pega, a gente vai puxar cadeia junto!
Emiliano subiu os degraus da guarita na maior folga do mundo e se escorou na parede, ficando escondido.
— Que cadeia o que, rapaz! O sargento da guarda hoje é o Mello, do meu pelotão. O cara bateu um prato de sopa gigante no rancho e tá roncando que nem um porco gordo lá no alojamento dos graduados. A ronda só acorda às três e meia, relaxa o cabeção — ele deu uma piscada. — E pô, tu achou mesmo que eu ia deixar meu marchador favorito congelar aqui sozinho? Vim te fazer companhia ahahaha.
Antes que eu pudesse chamar ele de doido de novo, Emiliano abriu a sacola que ele estava carregando.
— Mentira... — olhei chocado.
— Quem tem limite é município, Michel, eu não!
O cheiro que subiu derrubou o frio na hora. Orégano, molho e muito queijo. Uma pizza. Uma pizza de verdade, saindo fumaça no meio da madrugada mais desgraçada do ano.
— O motoboy é primo de um cara do meu pelotão. Subornei o cara com um cinquentão para ele arremessar a caixa por cima do muro dos fundos, perto do lixo. Eu tava lá na espreita igual um ninja.
Ele tirou um pedaço gigante, com o queijo esticando igual chiclete, e estendeu pra mim.
— Pega logo, 114! Come antes que vire um bloco de gelo. Isso aqui é contrabando de alta qualidade.
Esqueci regulamento, esqueci Rocha, esqueci até meu nome. Peguei a pizza quente. O queijo esquentou minha mão na hora. Dei uma mordida que quase queimei a boca, mas foi a melhor sensação da vida.
Sentamos os dois no chão da guarita, bem abaixados para ninguém ver do pátio, dividindo a pizza no escuro. O medo de ser pego dava uma adrenalina muito louca, a gente comia e ria baixinho igual duas crianças aprontando.
— O Dagoberto quase borrou as calças aqui no turno dele — comentei baixo, limpando o queijo do queixo.
— Aquele ali se cair uma folha na cabeça dele, ele pede baixa por invalidez — Emiliano zoou, rindo baixo, com os olhos brilhando me olhando comer. — Ele e o Gustavo são dois comédias, Michel. Precisam pagar de brutos porque se tirar a farda, não sobra nada. Entram aqui achando que vão virar o Rambo, mas choram na primeira noite sem a mãe. Mas você não. Eu vi a tua cara quando o Rocha cresceu pra cima de você hoje. Tu mandou o "Sim, sargento" que quase estourou o tímpano do velho. Ali eu vi que tu tem gogó.
Olhei para o Emiliano. Ele estava muito perto. A guarita era bem pequena, e por causa do frio, a gente acabou se colando para segurar o calor. Nossos ombros estavam prensados e as pernas camufladas dividiam o mesmo espaço.
— Valeu mesmo, Emiliano — falei, olhando bem para ele. — Por hoje de tarde... e por isso aqui. Achei que ia ser um inferno sozinho.
— Já te falei, Michel. Comigo na área, tu não passa sufoco sozinho nessa porra de lugar não — ele sussurrou, com aquele sorriso de canto, mas com um olhar que me deu um arrepio na espinha que não tinha nada a ver com o frio.
O rosto dele chegou mais perto, tipo, centímetros. Meu coração parecia que ia quebrar a farda de tanto que batia. O quartel inteiro, as gracinhas do Gustavo, o medo do Rocha... tudo virou poeira ali. Só existia aquele calor doido que o Emiliano trouxe para dentro da minha guarita.
Dava quase três e meia, a hora da ronda estava chegando e o perigo era real, mas ali, deitado no chão de cimento do Posto Quatro com o Emiliano, eu saquei uma parada: para eu aguentar esse ano de cão, eu não precisava só aprender a bater de frente. Eu precisava também segurar esses momentos de rebeldia que os caras nunca iam conseguir arrancar de mim.