Eu estava saindo da Filial para almoçar em casa com Dom quando meu celular tocou. Assim que atendi, percebi pelo tom de voz da Júlia que tinha alguma coisa errada. Ela até tentava falar com calma, mas a voz denunciava um certo desespero. Minha gatinha disse que estava indo para um hospital com Iury porque, durante a aula de Educação Física, ele tinha passado mal e acabou desmaiando. Na mesma hora, associei que provavelmente era mais um episódio de hipoglicemia.
No começo, todo mundo achava que era apenas desleixo do Iury. E, para ser justa, uma parte realmente era. No abrigo, ele esquecia horários, fazia as coisas de qualquer jeito e nem sempre levava o tratamento tão a sério quanto deveria. Contudo, com o passar do tempo, a situação mudou.
Mesmo com todo o cuidado, monitoramento frequente, aplicação correta da insulina e consultas em dia, as hipoglicemias continuavam acontecendo. Algumas eram leves e outras, nem tanto. Pelo jeito que a Júlia estava falando comigo, provavelmente aquela tinha sido uma das piores. Ela estava praticamente chorando enquanto pedia que eu fosse encontrá-los.
Se eu tivesse saído direto da Filial para o hospital, teria chegado bem mais rápido, mas o problema foi que eu já estava quase em casa quando ela me ligou. Então precisei fazer o caminho de volta e acabei demorando um pouco mais.
Assim que cheguei, me identifiquei na recepção, e uma funcionária me acompanhou até o quarto. Antes mesmo de entrar, já consegui ouvir os dois discordando.
— Falei que não precisava vir... Agora eu sou o cara estranho que desmaia jogando bola e a irmã corre para um médico. — Ele falou com a voz um pouco lenta.
— Eu estou cuidando de você. Cale a boca. — Juh respondeu e deu um beijo nele para encerrar a discussão.
Quando entrei no quarto, encontrei os dois deitados na mesma maca. Iury era a conchinha menor, e a Júlia o abraçava por trás.
— O que foi que teve, homi? — Perguntei, tocando no braço dele enquanto dava um selinho em Júlia.
Ela já estava mais calma.
— Hipo. — Meu cunhado respondeu, virando-se para mim.
— Estava sem sachê? — Questionei, sentando no sofá.
Desde que descobri que o Iury era propenso a episódios de hipoglicemia mais graves, criei o hábito de comprar sachês de glicose. Pela absorção rápida, eles costumavam ser uma das formas mais práticas de reverter uma queda de glicemia enquanto um atendimento adequado não acontecia. Então, sempre que eu passava por uma farmácia ou encontrava algum lugar que vendesse, acabava comprando alguns e deixava com ele. Foi uma mania que nasceu da precaução. Eu preferia que ele carregasse vários e nunca precisasse usar do que passar pelo desespero de não ter um à mão quando necessitasse.
— Eu tomei, olha aqui! — Meu cunhado respondeu, um pouco exaltado.
E, realmente, ele havia consumido três unidades.
— Então não foi suficiente. Você deve ter gastado muita energia. — Comentei.
— Amor, foi terrível! A boca dele ficou da cor de um papel. Eu batia no rosto dele, sacudia, e ele não respondia. Fiquei desesperada! — Júlia me contou, enquanto o irmão revirava os olhos.
— Ela é exagerada. — Iury falou, deixando escapar um sorriso.
— Exagerada nada. Nós temos que ver isso. Não pode continuar acontecendo... Acho melhor você deixar a Educação Física... — Juh comentou, pensativa.
— Quê? Não! Não, tá doida???
— Xiiii... Se ferrou... — Falei, rindo dele.
— Lore! — Iury exclamou.
— Amor, antes de tomarmos uma decisão, você não acha melhor ele passar por uma consulta com o endocrinologista dele e levantar essa questão para tentar resolver? Amanhã eu estou livre. Podemos tentar marcar, e eu o levo. — Propus.
— Está bem, então. — Juh concordou, para o alívio de Iury.
Depois que ele recebeu alta e fomos para casa, percebemos que meu cunhado ficou bem abatido. Não era só o cansaço físico. Dava para perceber que ele também estava envergonhado por ter desmaiado na frente de todo mundo. Erica, Marcela e Dona Sônia estranharam o quanto ele estava quieto, pois já estavam acostumadas com o jeito brincalhão dele. Elas passaram o restante do dia fazendo carinho, perguntando se precisava de alguma coisa e o enchendo de dengo.
Eu ainda precisava passar no Hospital do Exército e, naquele dia, a ideia era levar Dom comigo. Só que a rotina dele já tinha sido completamente bagunçada. Em vez de estar dormindo naquele horário, meu neném estava muito acordado, deitadinho no peito da mamãe dele. Não tinha a menor chance de eu convencê-lo a sair dali. E, se formos pensar bem, ele estava mais do que certo.
Quando saí de casa, lembro que até senti pena da maneira como o Iury estava deitado no sofá. Continuava sonolento, quieto e com uma expressão de quem só queria que aquele dia acabasse logo. Eu sabia o quanto ele odiava chegar àquele ponto. Além do desgaste físico, alterações importantes na glicemia também costumam afetar o humor. É comum a pessoa ficar mais irritada, impaciente, sensível, cansada e até com dificuldade para se concentrar durante algumas horas. O corpo precisa de um tempo para se recuperar.
Fui cumprir os meus compromissos, mas a minha cabeça continuou em casa. Passei boa parte do dia pesquisando sobre hipoglicemias recorrentes em pacientes que mantinham boa adesão ao tratamento e também conversei com alguns colegas endocrinologistas. Iury já usava monitor contínuo de glicose, então tanto a literatura quanto os colegas acabaram chegando à conclusão de que valia a pena discutir com o endocrinologista dele a possibilidade de uma bomba de insulina. A frequência daqueles episódios estava começando a ficar perigosa demais para continuar correndo o risco de que outra hipoglicemia grave acontecesse.
Consegui sair um pouco mais cedo naquele dia e resolvi aproveitar para buscar Milena e Kaique mais cedo no colégio. Os dois já tinham conversado com o tio pelo WhatsApp e sabiam que ele estava lá em casa, mas, assim que entraram no carro, quiseram saber por mim como ele realmente estava. Contei exatamente o que tinha visto antes de sair. Falei que ele ainda estava bastante cansado, quieto e um pouco chateado com tudo o que tinha acontecido. Também fiz isso por precaução. Não queria que eles estranhassem caso encontrassem Iury daquele jeito.
~ Ah! Na escola um monte de menina perguntou por aquele safado também...
Só que, quando chegamos em casa, demos de cara com uma cena completamente diferente da que eu tinha deixado.
Iury corria ao redor da sala tentando alcançar Júlia, que gargalhava enquanto fugia dele. Erica, Marcela e Dona Sônia assistiam ao espetáculo do sofá, morrendo de rir, e até o Dom acompanhava tudo muito atento, virando a cabecinha de um lado para o outro para não perder nenhum detalhe.
— Júlia, eu estou falando sério! Não conte para minha mãe! — Iury implorava, quase sem fôlego.
— Vou contar, sim! Ela tem que saber, ué! — Juh respondeu entre uma risada e outra, acelerando o passo.
— Pelo amor de Deus! Você vai preocupar nossos pais à toa! Eles nunca mais vão me deixar jogar bola na vida!
— Acho que seria uma ótima ideia! — Júlia exclamou, sendo alcançada por ele, mas erguendo o braço para dificultar que ele pegasse o celular dela.
Obviamente isso não foi um empecilho, mas acabamos chamando atenção ao entrar, e deu tempo de minha mulher dar mais uma escapulida. Os dois continuaram dando voltas pela sala, com minha gatinha rindo da cara dele e Iury tentando impedir, a qualquer custo, que a notícia chegasse aos ouvidos dos pais. Eu apenas parei na porta, olhei para aquela bagunça e sorri. Pelo menos meu cunhado não estava mais apático.
Foi inevitável... Eu, Mih e Kaká olhamos um para o outro e resolvemos entrar na brincadeira. Toda vez que o Iury conseguia se aproximar da Juh, alguém pegava o celular da mão dela e jogava para outra pessoa. O coitado atravessava a sala inteira achando que finalmente ia conseguir impedir a ligação, mas o aparelho já estava voando novamente. A cada tentativa frustrada, as gargalhadas aumentavam, inclusive as dele, que já não conseguia mais esconder que também estava se divertindo com aquela confusão. Depois de correr de um lado para o outro sem sucesso, ele simplesmente se jogou no tapete da sala, rendido. Ficou ali deitado, rindo da própria derrota, enquanto nós continuávamos tirando sarro da cara dele.
— Eu vou ligar e contar que você não se sentiu bem e que amanhã vai ao médico... Não vou detalhar, apesar de acreditar que deveria. — Juh falou para ele.
— Não precisava de nada disso... — Ele lamentou, porém aceitou.
— Não falar nada também é sacanagem, maluco. — Falei, dando um tapa na cabeça dele.
No dia seguinte, levei Iury ao médico. Expliquei tudo o que tinha acontecido no dia anterior, comentei sobre as hipoglicemias recorrentes e também mencionei as conversas que tive com alguns colegas. Depois de uma avaliação geral, dos registros do monitor contínuo de glicose e de ouvir o relato do desmaio, o endocrinologista concordou que já era hora de mudar a estratégia do tratamento. Ele também recomendou o uso de uma bomba de insulina, explicando que ela poderia proporcionar uma administração mais precisa da insulina ao longo do dia e ajudar a reduzir o risco de novas hipoglicemias por conta dos alarmes que o aparelho dispara. Assim que saímos da consulta, providenciei a compra do equipamento para que ele pudesse iniciar o processo de adaptação o quanto antes.
Iury passou o caminho inteiro me fazendo perguntas que eu não sabia responder, porque ele nunca tinha ouvido falar em bomba de insulina. Queria saber como funcionava, se doía, se ficava aparecendo por baixo da roupa, se poderia continuar jogando futebol e se corria o risco de ela dar defeito no meio da rua.
Dias depois, meu cunhado retornaria lá com Júlia para configurar o aparelho, definir os parâmetros, receber mais orientações sobre o uso e tirar todas as dúvidas que tivesse. O único problema é que, quando o assunto é médico, esse moleque fica mudo.
~ Juh diz que ele só tem boca para respondê-la mal 🤣🤦🏽♀️
Quando chegamos em casa, fomos direto almoçar. Assim que terminamos, finalmente chegou um momento que eu e minha muiezinha estávamos esperando havia semanas: a introdução alimentar de Dom!
A orientação era oferecer a primeira frutinha no café da manhã. Porém, como naquela manhã eu saí com Iury, não conseguiria estar presente. Júlia queria que eu participasse daquele momento tanto quanto eu, então resolveu adiar por algumas horas. Em vez de servir a frutinha pela manhã, deixou para oferecê-la de sobremesa, depois do almoço, para que nós duas estivéssemos juntas. A fruta escolhida foi uma banana.
Seguindo todas as orientações que recebemos da pediatra, oferecemos primeiro em pedaços e também amassadinha. Dom olhou para aqueles pedacinhos com a maior curiosidade do mundo, pegou um por um... E conseguiu a proeza de arremessar todos para longe. Nenhum chegou perto da boca, o que obrigou a mamãe a colocar uma pequena colherada de banana amassada na boca dele, e a reação foi imediata. Ninho fez a maior careta, provavelmente porque estranhou a textura ou simplesmente porque estava descobrindo um sabor completamente novo. Até então, tudo o que ele conhecia era o leite do pepezinho.
O mais cômico é que, apesar das caretas, ele não recusou. A cada colherada fazia outra expressão engraçada, mas abria a boca novamente. No fim, comeu a bananinha toda daquele jeito, fazendo careta do começo ao fim.
~ Tudo o que oferecemos, ele fez careta, da banana ao limão... Mas espero me lembrar de contar quando servimos beterraba. Aconteceu uma bobeirinha engraçada que me faz rir pra caralho até hoje 🤣
— Isso, meu fiu... Aprenda a comer comida... — Falei, só para a Juh escutar, e ela me deu um tapinha.
— Ele vai mamar até os quatro anos. — Minha gatinha zoou e encostou o corpo no meu.
— Não vai mesmo... — Garanti, rindo contra o pescoço dela antes de lhe dar um beijo.
No outro dia, meus sogros chegaram lá em casa com Lana. Conforme tinha prometido, Júlia deixou que o próprio Iury explicasse o que tinha acontecido. Obviamente ele aliviou bastante a história e disse apenas que tinha passado mal durante a aula de Educação Física, que precisou ir ao hospital e que, por precaução, o endocrinologista resolveu mudar o tratamento e indicar uma bomba de insulina para evitar que episódios como aquele continuassem acontecendo. Dona Jacira desconfiou um pouco e fez algumas perguntas. Contudo, ela e o Sr. José ficaram mais tranquilos ao saber que ele já estava bem e passaram a se interessar mais pela novidade do tratamento do que pelo susto em si.
E Juh não perdeu a oportunidade de atormentar o irmão com essa história. O dia inteiro ela passava por ele, dava um sorrisinho de canto e soltava: — Se eu quiser, eu conto como foi, viu?
Na mesma hora, Iury se desesperava, mandava ela ficar quieta e torcia para que Juh não resolvesse contar todos os detalhes do desmaio. Eu só assistia àquela implicância entre os dois, me divertindo com minha mulher finalmente infernizando a vida do meu cunhado.
