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Garoto do EB / Ep 01

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Um conto erótico de Michel
Categoria: Gay
Contém 2851 palavras
Data: 16/07/2026 23:39:28

O toque do despertador às quatro e meia da manhã não foi um susto; foi a primeira pancada do dia que eu já sabia que seria infernal. Meus olhos se abriram instantaneamente, fixos no teto do meu quarto. A carta de convocação do Exército Brasileiro na minha escrivaninha como uma sentença de morte ou uma prisão. CONVOCAÇÃO PARA O SERVIÇO MILITAR OBRIGATÓRIO. Eu lia aquelas letras e sentia um medo, nervosismo, tudo de ruim que eu poderia imaginar.

Eu tinha dezenove anos, uma estrutura física de magrinho, cintura fina, e traços que, no meu bairro, já haviam sido motivo de comentários sussurrados. Eu sabia quem eu era. Sabia desde cedo, mas sempre mantive isso guardado comigo, como um segredo que logo logo eu teria que revelar. Mas eu sabia que o quartel não era o meu mundo. Entrar no 28º Batalhão de Infantaria Blindada era como caminhar voluntariamente para dentro de um ninho de cobras, e eu seria a principal atração.

Me levantei, cada movimento pesando uma tonelada. Vesti uma calça moletom cinza, uma camiseta branca e os tênis na cor branca também. A instrução da carta era clara: roupas simples, "sem ostentaçã". O Exército queria apagar minha individualidade antes mesmo do portão abrir, e eu estava facilitando o trabalho deles, tentando me tornar invisível.

Na cozinha, minha mãe já estava de pé, passando café. O silêncio entre nós era denso, sufocante. Ela não me olhou nos olhos quando me serviu uma xícara.

— Come tudo, Michel. Você não sabe que horas vão te dar comida lá dentro — ela disse, com a voz embargada.

— Não estou com fome, mãe.

— Come assim mesmo. E... Michel? — Ela finalmente me encarou. Havia um pânico indisfarçável naqueles olhos cansados. — Pelo amor de Deus, toma cuidado. Cuidado com o jeito que você fala, com o jeito que você se mexe. Você sabe como aqueles homens são. Não arruma problema. Se segura.

— Eu sei, mãe. Vou ser um fantasma. Ninguém vai notar que eu existo.

Ela assentiu, mas eu sabia que ela não acreditava naquela mentira. Eu também não. No mundo militar, a fraqueza — ou o que eles chamavam de fraqueza — era farejada à distância.

O portão do quartel parecia que havia acabado de acontecer uma guerra por ali, ele era de ferro e estava todo surrado e pronto pra me engolir. Às seis da manhã, a calçada já estava lotada. Uma massa uniforme de jovens nervosos, alguns rindo alto para disfarçar o pânico, outros com cara de quem ia vomitar a qualquer momento. Eu me encostei num muro de concreto, as mãos afundadas nos bolsos, tentando encolher meus ombros o máximo possível.

Não demorou muito para que os grupos se formassem. A seleção natural começou ali mesmo, baseada na pura e simples demonstração de testosterona. A poucos metros de mim, um sujeito alto, de maxilar quadrado e cabelos raspados nas laterais, já comandava a roda. Ele falava alto, gesticulando muito, contando vantagens sobre as mulheres que dizia ter "pegado" no fim de semana. O nome dele, como descobri mais tarde, era Gustavo. Ele era a encarnação de tudo que eu temia.

— Meu irmão serviu aqui — Gustavo dizia, com um sorriso de canto de boca que me dava asco. — Ele disse que os sargentos só pegam no pé de quem tem cara de mocinha. Se você mostrar que é casca-grossa, eles te respeitam. Eu vou ser o primeiro em tudo, vocês vão ver.

Um dos amigos dele, um gordinho de riso frouxo, olhou na minha direção. Eu tentei desviar o olhar imediatamente, mas já era tarde. O contato visual havia sido estabelecido.

— Ih, ó lá, Gustavo — o gordinho cochichou, apontando discretamente com o queixo na minha direção. — Acho que o sargento vai ter um prato cheio ali.

Gustavo virou o pescoço devagar, como um predador avaliando a presa. Seus olhos me escanearam de cima a baixo, demorando-se nos meus tênis limpos demais, na forma como eu segurava meu casaco. O sorriso dele se transformou em uma careta de puro desdém.

— Esse aí não aguenta o primeiro dia de faxina no pátio — Gustavo disse, alto o suficiente para que todos na roda e eu ouvíssemos. — O exército tá virando creche. O que que essa moça tá fazendo aqui? Veio procurar maquiagem?

O estômago contraiu-se num nó doloroso. Eu sentia o sangue subir para as minhas bochechas, mas me forcei a manter a expressão neutra, congelada. Eu conhecia aquele tipo de homem. Eram os mesmos que, na escola, chutavam minha mochila no corredor. Mas ali não haveria sinal de fim de aula.

Antes que a provocação pudesse evoluir, o portão de ferro correu sobre os trilhos com um estrondo metálico que calou a multidão instantaneamente. Dois cabos e um sargento saíram para a calçada. O sargento tinha a pele curtida pelo sol e olhos que pareciam navalhas.

— Silêncio! — o sargento rugiu. A voz dele ecoou pelo quarteirão inteiro, fazendo alguns garotos darem um passo para trás. — Formem duas filas indianas. Agora! Sem correr, sem empurrar, e de boca fechada. Quem eu ouvir dando um pio vai começar o dia pagando flexão no asfalto. Mexam-se!

A massa de jovens se atropelou para cumprir a ordem. No empurra-empurra, senti um ombro forte chocar-se contra o meu com violência, me jogando para o lado.

— Sai da frente, ô moça — rosnou Gustavo, passando por mim para garantir um lugar mais à frente na fila.

Eu não respondi. Apenas ocupei meu lugar na fila, algumas posições atrás dele. O cheiro de óleo diesel dos caminhões estacionados no pátio e o odor de terra batida invadiram minhas narinas. O processo de triagem havia começado.

As primeiras horas foram um teste de resistência psicológica. Fomos levados para um enorme galpão com teto de zinco, onde o eco transformava qualquer som num estrondo. Fomos obrigados a sentar em bancos de madeira compridos e estreitos.

— Vocês não são civis aqui dentro — explicava um tenente jovem, de óculos escuros. — Vocês são propriedade do Estado a partir do momento em que cruzaram aquele portão. Aqui não tem "eu quero", não tem "eu acho". Vocês só têm dois direitos: obedecer e cumprir a missão. Entendido?

— Sim, senhor! — a massa respondeu, num coro desajeitado.

— Mais alto! Eu não ouvi! — o tenente berrou.

— SIM, SENHOR! — o galpão tremeu.

Eu gritei junto, sentindo a garganta arranhar. No entanto, o que mais me incomodava não era a rigidez dos oficiais, mas a atmosfera que se formava entre nós, os próprios conscritos, durante os intervalos.

Por volta das dez da manhã, houve uma pausa para irmos ao banheiro coletivo antes dos exames médicos. O banheiro era um espaço vasto, com uma fileira de mictórios de parede sem divisórias. Foi ali que a verdadeira dinâmica do grupo começou a se desenhar.

Eu entrei tentando ser o mais discreto possível, esperando um mictório no canto ficar vago. Enquanto estava ali, de olhos fixos nos azulejos brancos descascados à minha frente, ouvi as risadas ecoando no ambiente úmido.

— Pô, viram o tamanho daquele sargento? O cara parece um armário — dizia um dos garotos.

— Armário nada, você tem que ver é o sargento de dia. Aquele sim dá medo — respondeu outro.

Então, Gustavo e seu grupo entraram. O espaço parecia encolher quando ele ocupava um lugar. Ele desabotoou a calça rindo alto, olhando ao redor como se fosse o dono do local. Seu olhar cruzou com o meu enquanto eu estava terminando e me virando para ir até a pia.

Gustavo deu um sorriso malicioso para o amigo gordinho e falou num tom de voz que não dava margem para dúvidas sobre quem era o alvo:

— Ô rapaziada, tem que tomar cuidado na hora de tomar banho aqui, hein? Parece que a seleção este ano foi meio... flexível demais. Trouxeram até gente que gosta de olhar pro lado na hora do mictório.

Alguns rapazes riram de imediato. O som das risadas ecoou pelas paredes de azulejo, batendo no meu peito como socos físicos. Eu sentia as mãos tremerem levemente enquanto abria a torneira de ferro. A água fria ajudou a focar minha mente. Eu lavei as mãos devagar, recusando-me a demonstrar que a provocação me afetava, embora por dentro eu estivesse em pânico.

— Tá falando de quem, Gustavo? — perguntou um terceiro rapaz.

— Ah, sei lá. Tem uns caras aí que andam meio rebolando, sei não. No meu bairro, esse tipo de bicho não durava dez minutos na rua — Gustavo respondeu, saindo do mictório e caminhando até a pia ao meu lado. Ele se inclinou, jogando água no rosto e depois olhando para mim pelo reflexo do espelho manchado.

— Não é não, ô... qual é o teu nome mesmo, ô moça da camiseta branca, ruivinha, bichinha...?

Eu fechei a torneira. O barulho da água cessou, deixando apenas o som sutil da respiração dos outros que observavam a cena, esperando para ver se haveria uma briga ou uma humilhação completa. Eu me virei devagar para encarar Gustavo. Eu sabia que se demonstrasse medo extremo, viraria o alvo preferencial pelo resto do ano.

— Meu nome é Michel — eu disse, com a voz o mais firme que consegui.

— Michele? Uau, viram só galera? O nome dela é Michele, estou achando que nas guardas noturnas a gente vai ter algo pra esquentar o peru! Ahahahaha. — Gustavo ficou rindo junto com seus colegas que se conheciam, logo depois ficou sério e se aproximou.

Então...

— "Michel" — Gustavo disse, com uma voz grossa e firme.

— Escuta aqui, Michel. Aqui dentro é lugar de homem. Homem de verdade. Se você acha que vai aguentar o tranco com essa pose de mocinha do centro, é melhor pedir para ir embora logo no exame médico. Inventa uma asma, uma dor nas costas. Porque se você ficar... a gente vai fazer da tua vida um inferno. Eu pessoalmente vou garantir que você peça para sair chorando para a sua mãe. Entendeu, moça?

— Deixa o cara, Gustavo — uma voz nova surgiu na porta do banheiro. Era um rapaz de pele negra, cabelos bem cortados e braços fortes, que ostentava uma cicatriz fina na sobrancelha direita. O nome dele era Vítor. — O cara tá na dele. Guarda essa valentia toda para a hora que o sargento mandar você correr dez quilômetros com o fuzil na mão. Quero ver se tu vai ter esse gogó todo.

Gustavo semicerrou os olhos para Vítor. A tensão no banheiro mudou de direção por um segundo. Dois homens grandes se medindo. Gustavo pesou suas chances, deu de ombros e cuspiu no chão de cimento.

— Só tô dando um aviso amigável para a mocinha não se machucar — Gustavo disse, apontando o dedo indicador para mim antes de se afastar. — Fica esperto, Michel.

O grupo de Gustavo saiu do banheiro, deixando um rastro de comentários sussurrados. Eu soltei o ar que nem percebia que estava prendendo. Minhas pernas pareciam feitas de gelatina. Eu olhei para Vítor, que caminhava até o mictório.

— Obrigado — eu disse, baixo.

Vítor nem sequer olhou para mim.

— Não fiz por você. Fiz porque odeio cara otário que acha que o quartel é a quebrada dele. Mas ele não tá totalmente errado não, ô Michel. Aqui dentro, os caras vão te caçar se você der mole. Te vira...Se quer mesmo servir vai precisar mudar essa sua postura, meu conselho seria pra você desistir!

O tom frio de Vítor foi um banho de realidade ainda maior para mim. Ali não haveria heróis salvadores. Havia apenas sobreviventes, e cada um cuidava da própria pele. E a minha pele estava com um alvo pintado nela.

A parte mais humilhante do dia chegou no início da tarde: o exame médico de aptidão física. Cinquenta conscritos de cada vez foram levados para uma sala ampla e gélida, onde fomos ordenados a tirar toda a roupa, ficando apenas de cueca. Para mim, aquele era o cenário de meus piores pesadelos. Estar seminúo numa sala cheia de homens que já me olhavam com desconfiança e agressividade era como estar exposto numa praça pública.

Fomos organizados em filas novamente. Médicos militares de jaleco branco passavam avaliando a postura, os dentes, a audição e fazendo perguntas rápidas.

— Próximo! — gritou o médico da mesa três.

Eu dei um passo à frente. O médico nem olhou para a minha cara; apenas folheou a ficha.

— Alguma doença crônica? Cirurgia recente? Problema de coluna?

— Não, senhor.

— Fique ereto. Junte os calcanhares.

Eu obedeci. Pelo canto do olho, eu conseguia ver que na fila ao lado, a três metros de distância, Gustavo estava sendo examinado. Ele não perdia uma oportunidade. Mesmo em trajes menores, ele mantinha a postura de confronto, estufando o peito musculoso e olhando de soslaio para mim com um sorriso de escárnio. Ele fez um gesto obsceno rápido com a mão, imperceptível para os médicos, mas perfeitamente visível para mim e para os outros rapazes da fila.

Alguns garotos abafaram risadinhas. Eu senti uma onda de humilhação tão intensa que minha visão chegou a turvar por um segundo. A vontade era de gritar, de avançar naquele sujeito, de chorar de raiva. Mas a disciplina invisível daquele lugar já começava a moldar minhas ações. Eu engoli o orgulho, mantive os olhos fixos na parede cinza à minha frente e não reagi. Eu não ia dar a ele o prazer de me ver quebrar.

— Tudo certo. Apto para o serviço — o médico carimbou o papel com força e o entregou para mim. — Pegue suas coisas e vá para o pátio de triagem final.

O final da tarde trouxe o veredicto. O pátio principal do quartel estava coberto pela sombra do edifício do comando. O sol estava se pondo, tingindo o céu de um tom de laranja sangrento. Dos mais de quinhentos jovens que haviam entrado de manhã, cerca de cento e vinte haviam sido selecionados para formar a nova turma de recrutas.

Eu estava entre eles. Gustavo também. E Vítor também.

O sargento que nos havia recebido pela manhã, cujo nome gravado na farda era Sargento Rocha, subiu num palanque de concreto. Seus olhos passaram pela tropa de novos recrutas como um general inspecionando o campo de batalha após a vitória.

— Parabéns aos senhores — a voz de Rocha era de um sarcasmo cortante. — Os senhores acabam de perder o direito de serem civis mimados. A partir de hoje, os senhores pertencem ao glorioso Exército Brasileiro. Pelos próximos meses, suas vidas serão dor, suor e disciplina. Vocês vão aprender a odiar o despertador e a amar o hino nacional.

Ele fez uma pausa, deixando que o peso de suas palavras se assentasse no silêncio do pátio.

— Aqui dentro, não me importa quem vocês eram lá fora. Não me importa se eram ricos, se eram pobres, se eram os machões da rua ou os queridinhos da mamãe. Para mim, todos vocês são rigorosamente iguais a nada. Vocês são lama. E a minha função é transformar essa lama em tijolos para construir a defesa desta nação. Quem não aguentar o peso, que peça para sair agora. Alguém quer ir embora?

Ninguém se mexeu. O silêncio era absoluto. Eu mantive a respiração controlada.

— Ótimo. Amanhã, às seis horas da manhã, neste mesmo pátio, com o cabelo raspado na máquina um. Quem chegar um minuto atrasado vai conhecer o fundo da cela do batalhão. Dispensados!

Os recrutas começaram a se dispersar em direção à saída. O clima de euforia e medo misturava-se no ar. Muitos começavam a conversar, tentando criar laços de amizade para o que estava por vir. Eu queria apenas ir para casa e ficar trancado no meu quarto.

Enquanto caminhava em direção ao ponto de ônibus, senti uma mão pesada bater no meu ombro com força excessiva, me empurrando ligeiramente para a frente. Eu me virei rapidamente, o coração disparado.

Era Gustavo, acompanhado pelos seus três seguidores de sempre. Eles caminhavam com passos largos, dominando a calçada.

— Até amanhã, Michelzinho — Gustavo disse, com um sorriso carregado de promessas sinistras. — Garanta que vai raspar essa cabecinha direito, hein? Não vai querer que o sargento ache que você é uma menina com cabelo comprido. E prepare-se, moça. O alojamento vai ser divertido. Eu pessoalmente vou garantir que você aprenda o que é ser homem.

Os outros riram e seguiram em frente, deixando-me para trás na calçada escura.

Eu fiquei parado por alguns instantes, observando o grupo se afastar sob a luz dos postes de iluminação pública. Eu respirava fundo o ar frio da noite, tentando conter o tremor nas minhas mãos. A sensação de isolamento era avassaladora. Eu estava entrando num território onde minha própria existência era vista como uma afronta, um erro a ser corrigido ou destruído pela força.

Eles me chamavam de mocinha, de moça, de esquisito. Eles queriam que eu me sentisse pequeno, que eu desistisse. Gustavo queria me quebrar. O Exército queria me apagar.

Mas enquanto caminhava em direção ao ponto de ônibus, uma teimosia silenciosa efervescia no meu peito. Eu não ia quebrar. Se aquele lugar era um teste de sobrevivência, eu sobreviveria. Não mudando quem eu era, mas resistindo a cada opressão, um dia de cada vez. Eles me chamavam de mocinha? Pois bem, essa mocinha ia mostrar para eles o que era resistência de verdade. O ano seria longo, sim, mas eu não seria o primeiro a cair.

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