Capítulo III
Dos primeiros dias — seja lá quantos foram —, a viagem para meu destino derradeiro foi a mais estranha e difícil de rememorar.
As doses dos remédios já tinham sido acertadas, o primeiro medicamento fora trocado por uma série de outros mais fracos, mas sem riscos maiores. O resultado desse uso constante de múltiplos medicamentos me fez perder completamente a capacidade de distinguir o que foi sonho, o que foi real e também os híbridos oníricos.
Pensando aqui com certa frieza, consigo jogar algumas imagens e recordações para o campo da imaginação, por insólitas que são. Porém, essa reconstrução não dá conta das sensações reais que sacudiram meus nervos.
Lembro que tudo se iniciou com muito vento. O frio cortava minha carne e as pontas dos meus dedos ardiam e pareciam queimar. Creio que caminhei e, como se fosse uma caixa, fui jogado em um lugar gelado, mas sem vento.
Quando a vertigem passou, houve um silêncio prolongado. Ouvi gritos e ouvi disparos. Pensei em me deitar, mas assim que o fiz percebi que o ar me faltava. Me debatia em um lago completamente vermelho que parecia arder em chamas.
Houve ajuda: alguém ou algumas pessoas me retiraram desse lugar. Enquanto me secavam, vi uma figura extremamente alongada. Tamancos pretos, pernas muito compridas e, antes que chegasse ao topo de tal quimera, um baque... apaguei novamente.
Meus pais e meus amigos começaram a vir à minha memória. A sensação de que não os veria mais me paralisou. Mas a paralisia não era por saber ter abandonado minha vida, mas antes era a de alguém que recebe um prêmio e se sente incapaz de aceitar a realidade.
O frio me tomou todo o corpo, mas estava decidido a abrir os olhos e finalmente acordar... acordei.
Diferentemente do meu último despertar e de meus estados delirantes anteriores, agora estava acordado. Tive o ímpeto de levantar, mas dessa vez bati a cabeça contra um teto extremamente baixo.
Em meio à palha, completamente pelado e com acesso a um pote com água, eu estava no que viria a ser minha cocheira no Estábulo.
Do chão ao teto não deveria haver mais de um metro. Uma porta de madeira fabricada com precisão fechava minha cocheira e apenas pelos seus pequenos vãos a luz invadia esse lugar, que seria completamente escuro de outro modo.
Tentei me virar de bruços para tentar ficar de quatro e conseguir me levantar minimamente para me aproximar da porta. Dei-me conta de que estava limpo e completamente depilado.
Engatinhei até a porta e tentei olhar por uma das frestas. Vi apenas uma outra porta semelhante à minha a uns 5 ou 6 metros de distância.
Diante de todos os acontecimentos em minha viagem e das memórias que no momento se apossavam de mim, fiquei desesperado. Onde estaria? Onde estaria minha Deusa?
Sem conseguir usar minhas mãos para bater na porta de maneira forte, me virei para tentar usar minhas pernas. Após alguns chutes, ouvi latidos. Fiquei assustado; a força dos latidos e sua profusão indicavam cães de guarda perigosos.
Após um tempo, os cachorros se silenciaram completamente. Antes que tomasse coragem para voltar a tentar arrebentar a porta, ouvi passos. E então:
— Parece que o potrinho finalmente acordou! Se acalma, filhote, tua dona deixou você sob meus cuidados!