🚫 Propagandas te atrapalhando? Assine o plano premium por menos de R$3/mês. Saiba mais →

O elevador de serviço

Cansado destas propagandas? Assine por R$36/ano e navegue sem anúncios →
Um conto erótico de Gabriel Rocha
Categoria: Gay
Contém 4506 palavras
Data: 02/07/2026 01:52:41
Assuntos: Gay

Tomás não dormiu depois da voz.

Ficou sentado no sofá até o amanhecer, com a chave antiga sobre a mesa de centro e o corpo inteiro em estado de escuta. A madrugada foi se desmanchando devagar do lado de fora da janela. Primeiro, o preto do céu perdeu força. Depois, uma claridade cinza começou a escorrer pelos prédios vizinhos. Por fim, São Paulo voltou a tossir sua rotina: buzinas, ônibus, portas de aço subindo, vozes na calçada, passos apressados, a cidade fingindo que a noite anterior nunca tinha acontecido.

Mas o Copan não fingia.

O prédio parecia guardar o segredo ainda quente.

Tomás olhava para a chave como se ela pudesse se mexer. Era pesada, de metal escurecido, com dentes irregulares e uma haste longa demais para uma fechadura moderna. A etiqueta de papel amarelado permanecia presa por um barbante fino.

1307 — quarto.

Do outro lado:

Tomás,

não durma de costas para a parede.

A letra era a mesma da fotografia que Dante levara. Fina, inclinada, antiga. Uma letra que parecia escrita por alguém que tinha tempo e medo.

Às seis e quarenta, Tomás desistiu de tentar entender sentado. Levantou-se, lavou o rosto e foi até o quarto.

Parou na porta.

A cama continuava desfeita. O lençol embolado ao pé do colchão. O travesseiro marcado. A parede atrás da cabeceira branca, lisa, muda. Nada nela indicava a respiração da noite. Nenhuma rachadura, mancha, buraco, relevo. Apenas a superfície fria de uma parede comum.

Tomás segurou a chave com força.

— Eu não vou falar com você — disse, baixo.

A frase soou ridícula assim que saiu.

O quarto permaneceu em silêncio.

Ele se aproximou da parede. Por instinto, não encostou de primeira. Deixou a mão a poucos centímetros, sentindo o frio antes do toque. Só depois pousou os dedos no concreto.

Nada.

Nenhuma respiração.

Nenhuma voz.

Apenas frio.

Tomás riu sem humor.

— Claro. Agora você vira parede.

A resposta veio do armário.

Não em som. Em cheiro.

Quando ele abriu a porta, um odor antigo escapou lá de dentro: perfume masculino, madeira guardada, cigarro apagado, tecido úmido. Era impossível aquele cheiro ter surgido durante a noite, e ainda assim parecia recente, como se alguém tivesse acabado de sair dali.

No fundo do armário, onde antes encontrara o envelope com a fotografia, havia agora uma pequena marca na madeira. Um risco quase invisível. Tomás se ajoelhou, aproximou o rosto e percebeu que era uma fechadura.

Não uma fechadura de armário.

Uma fechadura embutida na própria parede interna.

O coração bateu mais forte.

A chave pesou em sua mão.

— Não — murmurou para si mesmo.

Mas já estava ajoelhado.

Encaixou a chave.

Ela entrou com perfeição.

Tomás girou.

A madeira estalou.

Um painel estreito, tão bem disfarçado que parecia parte do fundo do armário, se soltou devagar. Atrás dele havia um vão escuro, não maior que uma gaveta profunda. Tomás pegou o celular, acendeu a lanterna e iluminou o interior.

Havia três objetos.

Um maço de cartas amarradas com fita preta.

Uma fita cassete sem identificação.

E uma fotografia menor, dobrada ao meio.

Tomás tirou primeiro a fotografia.

Nela, Raul Montenegro aparecia sozinho, sentado no parapeito de uma janela, camisa branca aberta no peito, cigarro entre os dedos, sorriso torto. Tinha a beleza insolente de quem sabia o efeito que causava e fingia não saber. No verso, uma frase:

Para D.,

porque alguns homens não cabem no tempo que receberam.

Tomás leu duas vezes.

D.

Dante?

Não. Impossível. Dante não podia estar numa fotografia dos anos 1970. O homem da foto era o tio-avô, ele dissera. Mas a inicial parecia rir da explicação.

Tomás abriu o maço de cartas.

A primeira começava sem saudação.

Você me pediu para ir embora, mas eu já não sei sair daqui.

Não do Copan.

Não de você.

A letra era a mesma.

Tomás sentiu uma vertigem pequena. O tipo de tontura que vem quando uma história deixa de ser curiosidade e encosta em algo vivo.

Leu mais.

Se eu desaparecer, não acredite no que disserem.

Ninguém desaparece neste prédio.

A gente apenas muda de andar.

A frase era parecida com algo que Lúcia tinha dito.

O apartamento pareceu esfriar.

Tomás guardou tudo de volta no vão, menos a fita cassete. Virou-a nas mãos. Sem etiqueta, sem data, sem nome. Um objeto mudo. Precisaria encontrar algum aparelho para ouvi-la. Talvez Dante tivesse. Talvez Lúcia. Talvez o próprio prédio oferecesse um.

Pensar assim o irritou.

Ele havia chegado ao Copan havia menos de vinte e quatro horas e já estava raciocinando como se o edifício fosse uma pessoa.

Tomou banho, vestiu calça jeans e camiseta preta, colocou a fita no bolso e saiu.

No corredor, a luz amarela da manhã parecia menos ameaçadora. Uma criança passou correndo com mochila escolar. Um homem de chinelos carregava sacos de lixo. Uma mulher reclamava ao telefone sobre uma entrega que não chegara. O cotidiano tinha uma força vulgar, quase consoladora.

Tomás parou diante da porta 1305.

Dante.

Bateu.

Nada.

Bateu de novo.

Silêncio.

A porta abriu antes do terceiro toque.

Dante apareceu com a mesma calma irritante da noite anterior. Usava uma camisa cinza, mangas dobradas, cabelo úmido como se tivesse acabado de sair do banho. O rosto parecia descansado demais para quem invadira mistérios de madrugada.

Tomás odiou notar isso.

Odiou mais ainda notar o cheiro dele: sabonete, café, alguma coisa amadeirada e limpa.

— Você levou a fotografia — Tomás disse, sem cumprimentar.

Dante encostou-se no batente.

— Bom dia para você também.

— Devolve.

— Não.

— Dante.

— Tomás.

O modo como ele disse seu nome fez a irritação perder um pouco de força. Havia ali uma intimidade perigosa, construída em poucas horas, sustentada por uma parede que respirava e por um beijo que ambos fingiam não lembrar.

Tomás tirou a fita cassete do bolso.

Dante deixou de sorrir.

— Onde encontrou isso?

— No meu armário. Atrás de um fundo falso. Com cartas e outra foto do Raul.

Dante olhou para o corredor antes de abrir mais a porta.

— Entra.

O apartamento de Dante era maior que o de Tomás, mas igualmente antigo. Havia livros de arquitetura, plantas, fotos em preto e branco do centro de São Paulo, uma mesa cheia de papéis, réguas, lápis, amostras de tinta, pedaços de concreto catalogados em pequenos sacos transparentes. O lugar cheirava a café forte e madeira.

Na parede da sala, uma fotografia grande do Copan em construção. A curva ainda incompleta, como um esqueleto ganhando pele.

Tomás passou os olhos pelos objetos.

— Você mora aqui ou investiga um crime?

— No Copan, às vezes é a mesma coisa.

Dante pegou a fita da mão dele. Seus dedos tocaram os de Tomás por um segundo. O contato foi pequeno, mas deixou rastro. Como na noite anterior. Havia certos corpos que pareciam continuar tocando depois de se afastarem.

— Você tem onde ouvir isso? — Tomás perguntou.

Dante foi até uma estante e abriu uma das portas inferiores. De lá tirou um gravador antigo.

— Claro que tem — Tomás murmurou. — Por que não teria?

— Ironia é uma defesa fraca quando você está curioso.

— Melhor que ser misterioso em tempo integral.

Dante encaixou a fita no aparelho.

Por alguns segundos, só houve chiado.

Depois, música distante.

Uma canção antiga, abafada, como se viesse de outro cômodo. Vozes ao fundo. Risadas. Copos. Alguma coisa batendo no ritmo de uma festa.

Então uma voz masculina surgiu.

Bonita.

Rouca.

Perto demais do microfone.

— Se alguém encontrar isso, não entregue a Dante.

Tomás olhou para Dante.

Ele não se mexeu.

A fita continuou.

— Dante acha que pode salvar todo mundo, mas não entende que algumas portas não querem ser abertas. O elevador de serviço não leva apenas a andares. Leva a noites. A noites inteiras. A noites que ficaram presas porque alguém desejou demais dentro delas.

Chiado.

A música aumentou por um instante.

Depois a voz voltou, mais baixa.

— Hoje é vinte e oito de julho de setenta e nove. Se eu não voltar, digam a ele que eu fui por vontade própria. Mentira. Digam mesmo assim. É mais bonito.

Um riso curto.

Triste.

— O homem da casa de máquinas me prometeu uma saída. Mas no Copan toda saída cobra aluguel.

A fita estalou.

Outra voz apareceu ao fundo.

— Raul, vem logo.

Tomás prendeu a respiração.

A voz de Raul respondeu, distante:

— Já vou.

Depois, perto do gravador novamente:

— Se o elevador parar no décimo terceiro depois das três, não entre. Se entrar, não olhe para o espelho. Se olhar, não aceite dançar com o homem que estiver atrás de você.

A gravação terminou num ruído agudo.

Dante desligou o aparelho.

O silêncio do apartamento parecia sólido.

Tomás foi o primeiro a falar.

— Você conhecia essa fita?

— Não.

— Mas conhecia a história.

— Fragmentos.

— E ia me contar quando?

— Quando você parasse de abrir coisas que não entende.

Tomás levantou.

— Ah, claro. A culpa é minha.

— Não falei isso.

— Você sabia que havia algo no meu apartamento. Sabia sobre Raul. Sabia sobre a parede. Sabia sobre os elevadores. Entrou no meu quarto de madrugada, levou uma foto e agora quer posar de guardião responsável?

Dante também se levantou.

— Eu levei a foto porque ela podia chamar coisa pior.

— Pior que uma parede respirando e uma voz dizendo meu nome?

— Sim.

A resposta veio seca.

Tomás calou.

Dante se aproximou. Não muito. Apenas o suficiente para que a conversa deixasse de ser discussão e virasse outra coisa. De novo, aquela distância perigosa. De novo, o ar estreito entre os dois.

— Você precisa entender uma coisa — Dante disse. — O Copan tem histórias demais. Algumas são só histórias. Outras aprenderam a esperar.

— Esperar o quê?

— Alguém que escute.

Tomás sustentou o olhar dele.

— E por que eu?

Dante demorou.

— Talvez porque você tenha chegado vazio o bastante.

A frase acertou mais fundo do que deveria.

Tomás sentiu raiva. Não da frase, mas do quanto ela era precisa. Havia chegado vazio, sim. Vazio de trabalho, de amor, de rumo, de futuro. Vazio o bastante para um prédio inteiro entrar.

— Você não me conhece — disse.

Dante respondeu baixo:

— Ainda não.

O ainda ficou entre eles.

Tomás percebeu que Dante olhava para sua boca. Não com a indecência de quem toma, mas com a memória de quem já tocou e se arrepende de não ter tocado mais. O corpo de Tomás respondeu antes da razão. Uma tensão subiu do estômago ao peito, espalhou-se pelos ombros, pela nuca, pelas mãos.

Ele pensou no beijo.

Na parede respirando.

Na boca de Dante no escuro, lenta, quente, real demais.

Deu um passo para trás.

— Eu vou falar com Lúcia.

Dante pareceu aceitar a fuga.

— Ela vai mentir.

— Mais que você?

— Melhor que eu.

Tomás foi até a porta.

— Dante.

— Sim?

— Quem era o D. da fotografia?

A pergunta ficou suspensa.

Dante não respondeu.

Tomás saiu.

Lúcia abriu a porta do 1310 segurando um pano de prato e uma expressão de quem já esperava por ele.

— Achou a chave — disse.

Tomás ergueu as sobrancelhas.

— A senhora sabe da chave.

— Neste andar, meu filho, segredo tem parede fina.

Ela o deixou entrar.

O apartamento de Lúcia parecia pertencer a várias décadas ao mesmo tempo. Imagens de santos, plantas, móveis escuros, fotografias antigas, uma televisão pequena ligada sem som, cheiro de alho refogado e talco. Na parede da sala, havia um quadro do Copan visto de longe, a curva recortada contra um céu laranja.

— Senta — ela disse.

Tomás sentou.

— Quem foi Raul Montenegro?

Lúcia continuou dobrando o pano de prato.

— Um homem bonito demais para ser prudente.

— Ele morou no meu apartamento?

— Morou.

— Morreu lá?

— Não.

— Dante disse que desapareceu.

— Dante gosta de palavras que não fecham portas.

— E a senhora?

Ela finalmente se sentou diante dele.

— Eu gosto das que trancam.

Tomás colocou a fita cassete sobre a mesa.

Lúcia olhou para o objeto e perdeu a cor.

— Onde você achou isso?

— No fundo falso do armário.

— Você ouviu?

— Ouvi.

Lúcia fechou os olhos por um instante.

— Então ele começou.

— Ele quem?

Ela abriu os olhos.

— O prédio.

Tomás passou a mão pelo rosto, cansado.

— Eu preciso que alguém diga uma frase que faça sentido.

— Faz sentido demais, Tomás. Esse é o problema.

Lúcia levantou-se e foi até uma cômoda. Abriu uma gaveta, tirou uma caixa de metal e colocou sobre a mesa. Dentro havia fotografias antigas, recortes de jornal, convites de festas, bilhetes, chaves sem identificação.

Pegou uma foto e entregou a ele.

A imagem mostrava um grupo de pessoas em um salão. Jovens, bonitos, vestidos como se estivessem tentando ser livres em uma época que cobrava caro por isso. Homens de camisas abertas, mulheres de cabelo armado, cigarros, copos, olhos brilhando. No canto, Raul Montenegro ria com a cabeça jogada para trás.

E ao lado dele estava o homem idêntico a Dante.

— Esse é o tio-avô dele?

— Daniel Nogueira — Lúcia disse. — Todo mundo chamava de Dante.

Tomás sentiu algo se deslocar.

— Dante?

— O Dante de agora tem o nome dele.

— E parece com ele.

— Mais do que deveria.

— O que aconteceu com Daniel?

Lúcia olhou para a janela.

— Amou Raul.

A simplicidade da resposta tornou tudo mais triste.

— E?

— E naquela época isso já era perigo suficiente. Mas eles quiseram mais. Quiseram viver como se o mundo fosse permitir.

Ela pegou outra fotografia. Daniel e Raul no terraço do Copan, encostados lado a lado, próximos demais, mas sem se tocar. A cidade atrás deles parecia mais baixa, mais jovem. Raul olhava para a câmera. Daniel olhava para Raul.

— Eles faziam festas? — Tomás perguntou.

— Não só eles. Havia encontros. Apartamentos abertos depois da meia-noite. Música baixa. Cortinas fechadas. Homens que durante o dia usavam aliança, gravata, sobrenome, e à noite vinham para cá respirar.

Respirar.

A palavra atravessou Tomás.

Lúcia percebeu.

— O seu apartamento era um desses lugares.

— O 1307?

— Sim. Raul dizia que ali os homens podiam deixar o mundo do lado de fora.

— E o que deu errado?

— O mundo entrou.

Lúcia guardou a foto.

— Em julho de setenta e nove, houve uma festa. Muita gente. Mais do que o normal. Alguém convidou alguém que não devia. Houve briga, ameaça, chantagem. Naquela noite, Raul entrou no elevador de serviço e não voltou mais.

— Morreu?

— Não encontraram corpo.

— E Daniel?

— Procurou por ele até enlouquecer de tanto procurar. Depois também desapareceu.

Tomás sentiu a nuca esfriar.

— No elevador?

Lúcia não respondeu.

— O que existe nesse elevador?

— O que sobrou daquela noite.

— E o homem da casa de máquinas?

Lúcia fez o sinal da cruz, discreto, automático.

— Não chame assim.

— Foi o Raul que chamou na fita.

— Raul gostava de provocar o que devia temer.

— Quem é ele?

Ela se levantou, encerrando a conversa antes de responder.

— Tem coisa que fica mais forte quando ganha nome.

Tomás riu, irritado.

— Vocês todos falam igual. Frases bonitas, respostas pela metade.

Lúcia voltou-se para ele.

— Porque resposta inteira mata gente curiosa.

Ele respirou fundo.

— O elevador de serviço ainda funciona?

— Funciona.

— E depois das três?

O rosto dela endureceu.

— Não faça isso.

— Eu nem disse que faria.

— Não precisa. Você tem cara de quem confunde aviso com convite.

Tomás ficou de pé.

— Raul falou na fita que, se o elevador parar no décimo terceiro depois das três, eu não devo entrar.

— Então obedeça.

— E se for a única forma de entender?

Lúcia se aproximou, segurou o braço dele com força surpreendente.

— Meu filho, entender não salva ninguém. Às vezes só dá nome ao buraco antes da queda.

Tomás olhou para a mão dela em seu braço.

Por um instante, não viu uma senhora. Viu uma jovem de outra época, talvez dançando em uma sala cheia de fumaça, observando homens que se amavam com medo e invejando neles a coragem. Lúcia sabia mais do que dizia porque talvez também tivesse deixado algo naquela noite.

— A senhora estava na festa — ele disse.

Ela soltou o braço.

— Vá embora, Tomás.

— Lúcia.

— Vá.

Ele foi.

Passou o resto do dia tentando trabalhar, mas tudo que escrevia parecia pequeno diante do que tinha descoberto. As palavras comuns falhavam. “Edifício icônico”, “moradia vertical”, “marco da arquitetura moderna”, “microcosmo urbano”. Tudo correto. Tudo morto.

O Copan que Tomás conhecia agora não cabia em legenda de foto.

Ao entardecer, saiu para caminhar pelo térreo. Precisava de gente, movimento, barulho. Comprou café, fingiu olhar vitrines, observou moradores, ouviu pedaços de conversas. Um casal discutia condomínio. Uma senhora reclamava do elevador. Dois rapazes riam perto da entrada, ombros quase encostados, aquela alegria suspensa de quem ainda não sabe se a amizade permite mais.

Tomás pensou em Raul e Daniel.

Quantos homens tinham atravessado aquele térreo fingindo que não tremiam por dentro? Quantos tinham subido em silêncio para apartamentos onde poderiam, por algumas horas, existir sem legenda? Quantos beijos tinham sido interrompidos por batidas na porta, por medo, por polícia, por culpa, por casamento, por religião, por família, por sobrevivência?

Talvez fosse isso que o prédio guardava.

Não fantasmas no sentido banal.

Desejos interrompidos.

À noite, Dante bateu à sua porta.

Tomás abriu.

Dante estava de jaqueta preta, a mesma da madrugada anterior. Trazia no rosto a expressão de quem já decidiu algo e não está feliz com a decisão.

— Você falou com Lúcia — disse.

— Falei.

— Ela mandou você ficar longe do elevador.

— Mandou.

— E você vai obedecer?

Tomás cruzou os braços.

— Você veio como vizinho, investigador ou babá?

Dante entrou sem pedir, como se a discussão já tivesse licença.

— Vim porque às três da manhã o elevador de serviço vai parar neste andar.

O estômago de Tomás contraiu.

— Como você sabe?

— Porque a fita apareceu. A chave apareceu. Você apareceu.

— Isso não é resposta.

— É o máximo que eu tenho.

Tomás fechou a porta.

— Você quer que eu vá?

— Não.

— Mas acha que eu vou.

— Sim.

— Então veio me impedir?

Dante olhou para ele.

— Vim com você.

A frase derrubou algo dentro do apartamento. Por um segundo, Tomás esqueceu o medo e sentiu apenas a presença de Dante ali, sólida, próxima, voluntária. Era diferente de salvá-lo. Diferente de controlá-lo. Era entrar junto.

— Por quê? — perguntou.

— Porque Raul falou para não entregar a fita a Dante.

— E você é Dante.

— Não aquele.

— Mas talvez o prédio não saiba a diferença.

Dante sorriu sem alegria.

— O prédio sabe mais do que nós dois.

Ficaram em silêncio.

A noite avançou lentamente. Os dois ficaram na sala, sem acender todas as luzes, como se luz demais fosse ofensa. Tomás abriu vinho, mas quase não beberam. Dante contou pouco. Disse que estudava restauração, que passara anos pesquisando o Copan, que sua família evitava falar de Daniel Nogueira, que o desaparecimento dele fora tratado como vergonha antes de ser tratado como tragédia.

— Vergonha por quê? — Tomás perguntou, embora soubesse.

Dante girou a taça entre os dedos.

— Porque algumas famílias preferem um morto respeitável a um homem vivo e verdadeiro.

Tomás sentiu a frase descer devagar.

— E você?

— Eu o quê?

— Sua família sabe de você?

Dante olhou para ele.

— Sabe o suficiente para não perguntar.

— Isso é triste.

— É prático.

— Nem sempre dá para viver de praticidade.

— Dá para sobreviver.

Tomás percebeu que a resposta tinha idade dentro dele.

— E você quer só sobreviver?

Dante não respondeu de imediato.

O silêncio os aproximou mais que qualquer gesto. Havia entre os dois uma corrente que não precisava de toque para existir. A cada pausa, o beijo da noite anterior voltava. Não como lembrança romântica, mas como corpo. A boca. A mão na nuca. O calor sob a camiseta molhada. O modo como o medo e o desejo tinham se misturado até parecerem a mesma coisa.

Dante apoiou a taça na mesa.

— Você faz perguntas perigosas.

— Sou jornalista.

— Não. Jornalista faz pergunta para os outros. Você faz pergunta que volta.

Tomás sorriu.

— Isso foi quase bonito.

— Foi quase um aviso.

Às duas e cinquenta e oito, as luzes piscaram.

Tomás e Dante se olharam.

O apartamento ficou em silêncio.

Às três em ponto, um som metálico atravessou o corredor.

O elevador de serviço.

Subindo.

Tomás levantou.

Dante também.

Nenhum dos dois disse nada.

Saíram para o corredor. A luz amarela parecia mais fraca do que de costume. Todas as portas estavam fechadas. O andar inteiro parecia prender a respiração.

Ao fundo, perto da área de serviço, havia uma porta que Tomás ainda não tinha notado direito. Mais estreita que as outras, pintada de bege, com uma placa pequena: SERVIÇO.

Atrás dela, o elevador chegou.

Um sino antigo soou.

Dante segurou o braço de Tomás.

— Quando abrir, não olhe direto para o espelho.

— Por quê?

— Porque Raul disse para não olhar.

— E você acredita nele?

— Acredito em avisos de mortos.

A porta do elevador abriu.

A cabine era menor que as sociais. Tinha paredes metálicas, piso gasto, luz branca fraca e um espelho manchado no fundo. O cheiro era de ferro, poeira e algo doce, quase perfume antigo.

Tomás sentiu o corpo hesitar.

A fita voltava à cabeça.

Se o elevador parar no décimo terceiro depois das três, não entre.

Se entrar, não olhe para o espelho.

Se olhar, não aceite dançar com o homem que estiver atrás de você.

Dante entrou primeiro.

Tomás entrou depois.

As portas se fecharam.

A cabine ficou apertada para os dois. Ou talvez fosse a madrugada tornando tudo íntimo. Dante estava ao lado dele, perto demais, ombro quase encostado ao seu. Tomás manteve os olhos baixos, fixos nos botões.

— Para onde? — perguntou.

Os números no painel estavam apagados.

Todos, menos um.

S.

Subsolo.

— Não aperta nada — Dante disse.

O elevador desceu.

Lento.

Tomás sentiu o estômago subir. As paredes vibravam. O som dos cabos parecia mais alto do que deveria. Não olhou para o espelho. Olhou para a mão de Dante, para os dedos tensos, para a linha do pulso, para a respiração contida.

— Você está com medo — Tomás disse.

— Estou.

— Achei que você fosse mais acostumado.

— Coragem não é ausência de medo. É péssima administração dele.

Tomás soltou uma risada baixa, nervosa.

O elevador parou.

As luzes apagaram.

No escuro, o corpo de Dante encostou no dele.

Não houve movimento brusco. Apenas proximidade. O ombro, o braço, a lateral da perna. O ar ficou quente demais dentro da cabine. Tomás sentiu a respiração de Dante perto do seu rosto, como na noite anterior.

— Não olha — Dante sussurrou.

— Não estou olhando.

— Nem se ouvir.

— Ouvir o quê?

Do espelho veio uma música.

Baixa.

Antiga.

Um samba-canção, talvez. Ou uma música estrangeira tocada em vitrola ruim. Depois, risadas. Copos. Vozes. Festa.

Tomás fechou os olhos.

A mão de Dante encontrou a dele no escuro.

Desta vez, não pareceu acidente.

Os dedos se tocaram primeiro com cautela. Depois se prenderam.

A pele de Dante estava quente.

Tomás sentiu aquele gesto com uma intensidade absurda. Não era beijo. Não era corpo contra corpo. Era só uma mão segurando a sua dentro de um elevador parado entre andares. Mas havia momentos em que um toque pequeno carrega tudo que ainda não pode acontecer. O medo. A vontade. A promessa. O risco.

— Dante — Tomás sussurrou.

— Estou aqui.

A resposta bateu nele de um jeito inesperado.

Estou aqui.

Talvez fosse isso que ele procurava havia meses sem saber. Não alguém que explicasse. Não alguém que salvasse. Apenas alguém que dissesse, no escuro, sem garantia nenhuma: estou aqui.

A luz voltou.

Fraca.

Azulada.

Tomás cometeu o erro antes de perceber.

Olhou para o espelho.

Atrás deles havia um homem.

Não Dante.

Não Tomás.

Um homem de camisa branca aberta no peito, cabelo escuro, olhos claros, sorriso torto. Raul Montenegro. Igual à fotografia. Jovem. Vivo. Bonito de um jeito quase cruel.

Ele estava encostado no fundo da cabine, entre os reflexos dos dois.

— Vocês demoraram — disse.

Tomás virou-se.

Não havia ninguém atrás deles.

Apenas o espelho.

Raul continuava refletido.

Dante apertou a mão de Tomás.

— Não fala com ele.

Raul sorriu mais.

— Ele fala por mim agora? Que deselegante.

Tomás sentiu a garganta seca.

— Raul?

Dante fechou os olhos, como quem vê uma queda acontecer.

O sorriso de Raul mudou. Tornou-se triste por um segundo.

— Ainda lembro do meu nome na boca de um homem bonito.

As luzes tremeram.

O elevador voltou a descer, mas agora depressa demais. O painel enlouqueceu: 12, 8, 3, S, 17, 5, 13, números impossíveis, andares inexistentes. A mão de Dante segurava a de Tomás com força.

Raul, no espelho, aproximou-se.

Seu reflexo chegou tão perto que Tomás sentiu um perfume antigo: tabaco, suor limpo, bebida doce, pele aquecida por dança. Um cheiro vivo. Humano.

— Não aceitem a versão dele — Raul disse.

— De quem? — Tomás perguntou.

Dante puxou-o para trás.

— Tomás.

Raul olhou para Dante pelo espelho.

— Ele tem os mesmos olhos, mas não sabe usá-los.

Dante empalideceu.

— O que você quer?

Raul inclinou a cabeça.

— Sair.

A cabine deu um tranco violento.

As portas se abriram.

Mas não para o subsolo.

Abriram para música.

Para fumaça.

Para calor.

Tomás viu primeiro a luz amarela de abajures, depois o movimento de corpos. Uma sala grande, cheia de gente. Homens e mulheres bebendo, rindo, dançando perto demais. A decoração era antiga. As roupas, os cabelos, os copos, tudo pertencia a outra época. Um disco girava em algum canto. A fumaça de cigarro deixava o ar espesso. Cortinas pesadas fechavam as janelas. Havia perfume, suor, bebida, medo e liberdade misturados no mesmo ar.

O Copan de 1979.

Tomás soube antes que alguém dissesse.

Dante soltou sua mão.

Ou tentou.

Tomás segurou de volta.

Dante olhou para ele.

E naquele segundo, antes de saírem da cabine, havia mais intimidade naquela mão presa do que no beijo da noite anterior. Porque o beijo podia ter sido impulso. A mão, não. A mão era escolha.

Raul apareceu do lado de fora do elevador.

Agora não como reflexo.

Carne.

Sorriso.

Olhos.

— Bem-vindos — disse.

Atrás dele, alguém chamou:

— Raul, fecha essa porta e vem dançar!

Raul olhou para Tomás, depois para Dante.

— Cuidado com o que desejam aqui dentro. O Copan costuma conceder.

Estendeu a mão para Tomás.

Dante falou baixo:

— Não aceite.

Tomás olhou para a mão de Raul.

Depois para a sala.

Homens dançavam juntos tentando fingir que era brincadeira. Um deles ria encostado ao pescoço do outro. Dois se beijavam no canto, escondidos pela sombra de uma cortina. Um rapaz de bigode, camisa aberta e olhos febris passava entre os convidados com uma bandeja de copos. Havia desejo por toda parte, mas não vulgaridade: era desejo como sobrevivência, como desafio, como última forma possível de verdade.

Tomás sentiu o peito apertar.

Aquela festa não era apenas uma festa.

Era um coração antigo batendo dentro do prédio.

Raul ainda esperava.

— Vem — disse ele. — Antes que a noite lembre que acabou.

Tomás não pegou sua mão.

Mas saiu do elevador.

Dante veio junto.

As portas se fecharam atrás deles.

E o som foi definitivo.

Como uma fechadura.

No meio da sala, Raul Montenegro ergueu um copo, sorriu para alguém que Tomás ainda não podia ver e anunciou:

— Meus amores, temos visitantes do futuro.

A música parou.

Todos olharam para Tomás e Dante.

Então, no fundo da sala, um homem idêntico a Dante se levantou.

Daniel Nogueira.

O Dante de 1979.

Seu rosto perdeu a cor ao ver os dois.

Raul, sem tirar os olhos de Tomás, sussurrou:

— Agora sim a festa pode terminar.

Curta uma leitura sem interrupções.
Conheça o plano sem propagandas (R$36/ano — menos de R$3/mês) →
Siga a Casa dos Contos no Instagram!

Este conto recebeu 3 estrelas.
Incentive Gabssp a escrever mais dando estrelas.
Cadastre-se gratuitamente ou faça login para prestigiar e incentivar o autor dando estrelas.

Comentários

Foto de perfil genérica

mundo invertido. medos,sonhos e questão

0 0
Cansado destas propagandas? Assine por R$36/ano e navegue sem anúncios →