A parede riu como riem os homens que sabem exatamente onde tocar.
Não foi uma gargalhada aberta. Foi pior. Um riso baixo, íntimo, quase educado, saindo de dentro do quarto fechado, atravessando a madeira da porta, escorrendo pelo corredor do apartamento como fumaça. Tomás sentiu o som na nuca antes de entendê-lo com os ouvidos. Era um riso sem alegria, mas cheio de prazer. Prazer de ter sido visto. Prazer de ter provocado medo. Prazer de saber que, a partir daquele instante, nada entre ele e Dante poderia fingir inocência.
Dante ainda segurava a fotografia recém-passada por baixo da porta.
A imagem mostrava os dois na sala, minutos antes, durante o beijo.
O enquadramento era perfeito demais. A luz do pôr do sol atravessava os brises e marcava seus corpos com faixas de sombra. Dante segurava Tomás pela cintura. Tomás estava com uma mão no peito dele, os dedos presos ao tecido da camisa, como se precisasse confirmar que havia um coração ali. As bocas se tocavam no centro da imagem com uma delicadeza tão viva que, por um instante, Tomás sentiu vergonha.
Não pela cena.
Pela intimidade roubada.
A fotografia não parecia registro de um beijo. Parecia prova de um crime.
No verso, a frase desconhecida:
Todo desejo abre uma porta.
Tomás leu de novo, sentindo as palavras se alojarem debaixo da pele.
— Ele estava aqui dentro — disse.
Dante olhou ao redor da sala.
— Ou queria que a gente pensasse isso.
— A foto foi tirada daqui.
— Talvez.
— Dante.
— Eu sei.
Mas ele não parecia saber. Não de verdade. Havia no rosto dele uma tensão nova, diferente do medo da festa, diferente da raiva diante do nome de Daniel. Era uma inquietação mais pessoal. Como se aquela fotografia tivesse invadido não apenas o apartamento, mas algo que ele tentava manter fora da história.
Tomás percebeu.
— Você está arrependido?
Dante ergueu os olhos.
— Do quê?
— Do beijo.
A pergunta foi simples, mas deixou o ar pesado.
Do quarto, veio outro estalo.
A parede, ou o armário, ou alguma coisa atrás dos dois.
Dante não olhou para lá.
— Não.
Tomás esperou.
Dante dobrou a fotografia com cuidado, como se tocar demais na imagem pudesse aprofundar a marca.
— Estou com raiva porque ele viu.
— O beijo?
— A escolha.
Tomás sentiu a palavra bater dentro dele.
Escolha.
Era grande demais para o pouco tempo que tinham. E, ainda assim, exata demais para ser recusada.
— Você acha que foi escolha?
Dante aproximou-se um passo.
— Você acha que não?
Tomás não respondeu.
O riso atrás da porta cessou. O apartamento ficou tão silencioso que dava para ouvir um elevador distante subindo em outro bloco, uma criança chorando em algum andar, o ruído molhado dos carros lá embaixo. O cotidiano continuava grudado ao impossível, como se São Paulo fosse incapaz de suspender o expediente mesmo diante de uma assombração.
Dante passou por Tomás e caminhou até a porta do quarto.
— Não abre — Tomás disse.
— Eu só quero ver se—
— Não abre.
Dante parou com a mão perto da maçaneta.
Havia algo perigoso naquele gesto. Não porque Dante fosse imprudente, mas porque o Copan parecia entender suas falhas. Daniel fora atrás de Raul. Raul fora atrás de uma saída. César fora atrás da imagem proibida. Sérgio, ao que tudo indicava, fora atrás da fome dos outros. Cada homem naquele prédio tinha sido puxado pelo ponto exato em que mais desejava.
Tomás se aproximou.
— Dante.
Ele virou.
— Hoje não.
Dante olhou para a porta por mais um segundo, depois baixou a mão.
— Está bem.
Foi uma pequena vitória.
Pequena, mas os dois sentiram.
Tomás pegou a fotografia. A imagem dos dois beijando-se parecia mais intensa a cada vez que a via. Não havia nudez, não havia escândalo, mas havia uma exposição profunda. A maneira como Dante o segurava dizia mais do que qualquer corpo descoberto. A maneira como Tomás se entregava ao toque denunciava uma falta antiga.
— Ele quer usar isso — Tomás disse.
— Não contra o mundo.
— Contra nós.
Dante assentiu.
— César fotografava para chantagear. Sérgio talvez fotografe para abrir.
— Abrir o quê?
Dante olhou para a frase no verso.
— Portas.
À noite, ninguém dormiu direito.
Dante ficou novamente no sofá. Tomás no colchão improvisado no chão da sala. A fotografia foi guardada dentro do caderno preto, entre duas páginas em branco, como se papel pudesse conter ameaça. O quarto permaneceu fechado. De tempos em tempos, alguma coisa se mexia lá dentro: um estalo, uma respiração, um toque leve na madeira. Nenhum dos dois comentou.
O silêncio entre eles, porém, não era vazio.
Deitado no escuro, Tomás percebia Dante a poucos metros. O som contido de sua respiração. A sombra do braço caído do sofá. O desenho do corpo alongado sob o cobertor. Havia uma intimidade estranha em dividir o medo. Mais profunda, talvez, do que dividir uma cama. A presença de Dante na sala fazia o apartamento parecer menos hostil, mas também mais carregado. Como se o desejo, reprimido pela prudência, ocupasse os objetos.
O sofá.
O chão.
O espaço entre eles.
Em algum momento da madrugada, Tomás falou sem se virar:
— Você está acordado?
— Estou.
— Também não consegue dormir?
— Consigo. Não quero.
— Medo?
— Também.
Tomás olhou para o teto.
— O que mais?
Dante demorou.
— Se eu dormir, posso sonhar com Daniel.
— E isso é ruim?
— Depende do que ele me pedir.
Tomás ficou quieto.
Depois, perguntou:
— E se ele pedir para você não repetir a história dele?
Dante soltou uma respiração baixa, quase riso, quase dor.
— Aí talvez eu precise levantar desse sofá.
Tomás sentiu o corpo inteiro ouvir aquela frase.
A sala pareceu diminuir.
Por um instante, a distância entre o sofá e o colchão deixou de ser móvel, chão e prudência. Virou uma pergunta. Tomás poderia ter dito alguma coisa. Poderia ter chamado. Poderia ter fingido uma brincadeira para aliviar o peso. Mas havia momentos em que qualquer palavra empobrecia o desejo.
Então ficou em silêncio.
Dante também.
E o Copan, ao redor deles, respirou com seus milhares de apartamentos, como um animal velho que sabe esperar.
De manhã, Lúcia apareceu antes que eles batessem à porta dela.
Tomás abriu ainda descalço, cabelo amassado, camiseta larga. Lúcia estava no corredor com uma sacola de pão, batom vermelho e o olhar de quem não precisava perguntar para saber.
— O 1313 acendeu a luz ontem à noite — disse.
Tomás demorou a entender.
— Bom dia.
— Não tem bom dia quando o 1313 acende.
Dante surgiu atrás dele.
Lúcia olhou para os dois. Primeiro para Tomás, depois para Dante, depois para o colchão no chão da sala visível pela porta aberta.
— Continuam burocráticos?
Tomás suspirou.
— Dona Lúcia.
— Só estou dizendo que, se o prédio já está falando, vocês podiam pelo menos parar de fingir que são colegas de pesquisa.
Dante desviou o olhar.
Tomás, contra a própria vontade, sorriu.
— A senhora veio falar do 1313.
O rosto dela ficou sério.
— Vim.
Dante se aproximou.
— Está vazio há quanto tempo?
— Vazio de gente viva? Uns oito anos. Vazio de problema? Nunca esteve.
— Quem morava lá?
Lúcia segurou a sacola com mais força.
— Depende da época.
— Em 1979?
Ela olhou para o corredor, como se as portas pudessem escutar.
— Sérgio Valença usava o 1313.
Tomás sentiu a palavra “usava” em vez de “morava”.
— Usava como?
— Como homens daquele tipo usam lugares. Para receber, prometer, esconder, convencer.
— Ele era morador?
— Tinha chave.
— Isso não responde.
— No Copan, às vezes é tudo que separa o morador do fantasma.
Dante pegou a fotografia do beijo e entregou a ela.
Lúcia olhou.
A expressão dela mudou. Não surpresa. Gravidade.
— Quem tirou?
— Foi passada por baixo da porta ontem — Tomás disse. — Depois que alguém bateu e disse: “Daniel me convidou.”
Lúcia fechou os olhos.
— Sérgio.
— A senhora conheceu?
— Conheci o suficiente para não ficar sozinha com ele.
Tomás cruzou os braços.
— Quem era ele?
Lúcia entrou sem pedir e colocou a sacola de pão sobre a mesa.
— Sérgio Valença era advogado. Ou dizia ser. Tinha família importante, dinheiro antigo, amigos úteis e uma educação impecável que fazia as pessoas demorarem para perceber a crueldade. Ele não precisava gritar. Não precisava bater na mesa. Fazia pior: fazia você acreditar que já tinha perdido antes de começar.
Dante observava em silêncio.
— Ele chantageava também? — perguntou.
— César fotografava. Sérgio negociava. Mas não era só dinheiro.
— O que ele queria?
Lúcia olhou para Tomás.
— Gente.
O apartamento pareceu esfriar.
— Gente como?
— Gente bonita. Gente assustada. Gente com segredo. Gente que precisava de uma saída e aceitava qualquer porta.
Tomás lembrou-se da frase de Raul.
O homem da casa de máquinas me prometeu uma saída.
— Sérgio conhecia a entidade?
Lúcia apertou os lábios.
— Sérgio chamava aquilo de “o anfitrião”.
Dante reagiu.
— Anfitrião?
— Ele dizia que todo prédio antigo tem um dono verdadeiro. Não o síndico. Não o arquiteto. Não os moradores. Um dono feito do que as pessoas deixam para trás.
Tomás olhou para o quarto fechado.
— Desejo interrompido.
— Culpa. Medo. Segredo. Solidão. Fome. Tudo que a cidade manda engolir e a parede aprende a guardar.
Lúcia colocou a foto sobre a mesa, virada para baixo.
— Sérgio não tinha medo disso. Ele admirava. Achava belo. Achava útil.
— E Raul? — Tomás perguntou.
— Raul achava que podia enganar Sérgio. Esse era o defeito dele. Achava que charme era uma espécie de arma universal.
— Não era?
Lúcia sorriu triste.
— Às vezes era só isca brilhando.
Dante foi até a janela. A manhã batia nos brises, desenhando linhas claras no chão.
— O que aconteceu no 1313?
Lúcia demorou antes de responder.
— O que sempre acontece em apartamentos onde alguém promete liberdade sem perguntar o preço.
Tomás se irritou.
— Lúcia, por favor. Sem frase enigmática agora.
Ela o encarou.
— Você acha que quer detalhes.
— Quero.
— Então escuta. Sérgio levava homens para lá. Alguns iam por vontade própria. Outros por medo. Outros porque Raul dizia: “conversa com ele, talvez ele ajude”. Havia bebida, música, proposta de viagem, dinheiro, trabalho, proteção. E havia uma porta no quarto do 1313 que não deveria existir.
Dante virou-se.
— Porta para onde?
— Para um corredor que não aparecia na planta.
— A casa de máquinas?
— Não. O caminho até ela.
Tomás sentiu a chave no bolso, mesmo sem tocá-la.
— O 1313 é acesso.
— Foi — Lúcia disse. — Depois da noite da festa, Daniel tentou arrombar aquele apartamento. Queria encontrar a câmera de César, o filme, qualquer coisa que provasse quem tinha destruído Raul. Mas o 1313 já estava vazio.
— Vazio como?
— Móveis cobertos, copos limpos, cinzeiros lavados, cama arrumada. Como se nunca tivesse havido ninguém. Só uma frase escrita no espelho do banheiro.
— Qual?
Lúcia olhou para Dante.
— “Eu não levo ninguém. Eu apenas recebo quem já queria entrar.”
O silêncio que veio depois pareceu ter peso.
Dante apoiou as mãos no parapeito da janela.
— E agora a luz acendeu.
— Sim.
— Alguém entrou no 1313.
Lúcia olhou para a porta.
— Ou voltou.
O apartamento 1313 ficava no outro extremo do corredor.
Tomás não tinha reparado nele antes. Talvez porque a porta fosse igual às outras. Talvez porque, como quase tudo no Copan, só aparecesse quando queria ser notado.
Naquela manhã, ela parecia mais nova que as demais. A madeira estava lustrada. O número 1313 brilhava como se tivesse sido polido recentemente. Havia um capacho escuro no chão, sem frase, sem desenho. Apenas retangular, limpo, discreto.
Dante, Tomás e Lúcia pararam diante dela.
— Não batam — Lúcia disse.
Tomás olhou para ela.
— A senhora nos trouxe até aqui para não bater?
— Trouxe para vocês verem.
— Ver o quê?
Ela apontou para a base da porta.
Por baixo dela, escapava uma linha de luz.
Amarela.
Quente.
De dentro do apartamento vinha música baixa.
Não uma música antiga dessa vez. Algo contemporâneo, instrumental, elegante. Piano e ruído eletrônico, como trilha de bar caro. Havia também cheiro de café recém-passado.
— Parece ocupado — Tomás disse.
— Parece — Lúcia respondeu.
Dante aproximou-se da porta.
Lúcia segurou seu braço.
— Eu disse para não bater.
Antes que ele respondesse, a fechadura girou.
Os três recuaram.
A porta abriu devagar.
Do lado de dentro, apareceu um homem.
Não era velho. Não era exatamente jovem. Talvez quarenta e poucos, mas com um rosto difícil de datar. Alto, pele clara, cabelo escuro penteado para trás, barba muito bem feita, camisa branca de linho, calça escura. Tinha uma beleza controlada, sem excesso. O tipo de beleza que não pedia atenção; exigia.
Seus olhos foram primeiro para Lúcia.
— Dona Lúcia — disse, sorrindo. — Quanto tempo.
O rosto dela endureceu.
Tomás sentiu um frio subir pela coluna.
— Você não devia estar aqui — ela disse.
O homem inclinou a cabeça, educado.
— Quase ninguém devia, não é?
Dante se colocou ligeiramente à frente de Tomás.
O homem percebeu. Seus olhos passaram por Dante sem grande interesse e pousaram em Tomás.
Aí o sorriso mudou.
Não aumentou. Aprofundou.
— Tomás Azevedo.
Tomás sustentou o olhar com esforço.
— E você é?
— Sérgio.
Lúcia soltou o ar devagar.
— Valença?
O homem riu baixo.
— Hoje não. Hoje os nomes precisam de menos peso.
— Então?
— Sérgio basta.
Dante falou:
— Você está morto.
Sérgio olhou para ele, quase entediado.
— Esse prédio torna essa palavra muito imprecisa.
Tomás sentiu o corredor se estreitar. A luz amarela do 1313 parecia mais forte que a luz do corredor, como se o apartamento tivesse outro sol. Lá dentro, ele viu uma sala elegante, limpa demais, com móveis escuros, estantes, abajures, quadros sem paisagem definida. Nada de poeira. Nada de abandono.
— Como entrou? — Dante perguntou.
— Pela porta.
— Quem te deu chave?
Sérgio sorriu.
— As perguntas da sua família continuam administrativas.
Dante avançou meio passo.
Tomás segurou seu pulso.
Não por medo de Dante. Por medo do que Sérgio queria provocar nele.
Sérgio notou o gesto.
— Que bonito — disse.
Tomás soltou Dante imediatamente.
— Não começa.
— Eu não comecei nada. Vocês chegaram à minha porta.
— Sua porta? — Lúcia perguntou. — O 1313 nunca foi seu.
— Nenhum apartamento é de ninguém por muito tempo, Lúcia. Você sabe disso melhor do que todos.
Ela ficou pálida.
Sérgio abriu mais a porta.
— Entrem. Faço café.
— Não — Dante respondeu.
Sérgio manteve os olhos em Tomás.
— E você?
A pergunta parecia simples. Mas Tomás sentiu nela uma pressão delicada, quase física. A voz de Sérgio tinha uma textura estranha. Não era hipnose no sentido barato. Era pior: ele falava como se já conhecesse a resposta secreta antes que a pessoa a confessasse.
Tomás sentiu vontade de entrar.
Não por confiança. Por curiosidade.
E por outra coisa que detestou admitir.
Sérgio era atraente de uma forma fria, perigosa. Não havia nele o calor ferido de Dante, nem a vida aberta de Raul. Havia cálculo. E Tomás percebeu o quanto a inteligência, quando misturada ao perigo, podia simular desejo com eficiência cruel.
Dante percebeu também.
— Tomás.
O nome, na voz dele, trouxe Tomás de volta.
— Não vou entrar.
Sérgio sorriu como se a recusa também fosse uma forma de convite.
— Ainda.
Lúcia deu um passo para trás.
— Fecha essa porta.
— Por quê? Está com medo de eu contar?
— De você mentir.
— Mentira é só uma verdade que aprendeu a se vestir melhor.
Tomás apontou para a fotografia do beijo, que Dante carregava no bolso.
— Foi você que tirou?
Sérgio olhou para ele com prazer.
— Ficou bonita.
Dante fechou a mão.
— Você estava dentro do apartamento.
— Eu estava onde havia abertura.
— Que abertura?
Sérgio olhou para a pequena distância entre Tomás e Dante.
— Vocês sabem.
Tomás sentiu raiva.
— Todo desejo abre uma porta?
— Exatamente.
— Então a culpa é nossa?
Pela primeira vez, o sorriso de Sérgio diminuiu.
— Culpa é uma palavra pobre. Muito religiosa. Eu prefiro possibilidade.
— Você usou César.
— César queria ver. Eu dei a ele o que olhar.
— E Raul?
Sérgio ficou em silêncio por um segundo.
O nome de Raul parecia irritá-lo. Ou comovê-lo. Era difícil saber.
— Raul queria salvar Daniel.
— E você ofereceu uma saída.
— Eu ofereci aquilo que ele pediu.
Lúcia falou com nojo:
— Você ofereceu desaparecimento.
Sérgio olhou para ela.
— Para alguns homens daquela época, desaparecer era mais gentil do que ser revelado.
— Você não tem o direito de transformar medo em salvação.
— Todos fazem isso, Lúcia. Famílias, igrejas, jornais, governos. Eu apenas fui mais honesto no preço.
Tomás sentiu o estômago revirar.
— Qual era o preço?
Sérgio voltou os olhos para ele.
— Permanecer desejável.
A frase foi tão estranha que ninguém respondeu de imediato.
— O que isso significa? — Dante perguntou.
— Raul tinha medo de virar cadáver, escândalo, vergonha, notícia pequena em jornal. Eu ofereci outra forma de permanência. Ele seria lembrado sempre no auge. Jovem. Belo. Procurado. Desejado. Nunca reduzido ao que fizeram com ele.
— Preso — Tomás disse.
— Guardado.
— Preso.
Sérgio sorriu.
— Você fala como alguém que ainda acredita que liberdade é estar do lado de fora.
Dante se aproximou mais.
— Onde está Raul?
— Em muitos lugares.
— Onde?
— Onde ainda o desejam.
Tomás lembrou do reflexo no elevador. Da festa. Do sorriso de Raul. Do cheiro de tabaco, bebida doce e pele aquecida. Um homem transformado em aparição e isca. Um homem sempre jovem porque nunca pôde continuar vivendo.
— Você é o anfitrião? — Tomás perguntou.
Sérgio riu.
Dessa vez, o som não pareceu humano por completo.
— Não. Eu fui apenas um bom inquilino.
Atrás dele, dentro do apartamento, uma sombra passou.
Alta.
Magra.
Quase tocando o teto.
Lúcia deu um passo para trás.
Dante viu. Tomás também.
Sérgio permaneceu na porta, tranquilo.
— Ele quer conhecer você — disse a Tomás.
— Quem?
— Você sabe.
A voz do elevador voltou à memória.
Eu também gostei de você, Tomás.
Dante segurou o braço de Tomás.
Desta vez, não disfarçou.
— Acabou a conversa.
Sérgio olhou para a mão de Dante no braço dele.
— Cuidado, Nogueira. Sua família tem mania de segurar homens que já estão olhando para a porta.
Dante ficou imóvel.
A frase acertou o lugar certo.
Tomás sentiu a mão dele apertar um pouco mais. Não doía. Mas havia medo ali. Um medo que vinha antes dele, antes dos dois, antes do presente.
Tomás cobriu a mão de Dante com a sua.
E não tirou.
Sérgio observou o gesto.
Pela primeira vez, algo em seu rosto pareceu endurecer.
— Corajoso.
— Não — Tomás disse. — Só cansado de gente morta tentando narrar meu desejo.
Lúcia olhou para ele quase com orgulho.
Dante também.
Sérgio, porém, sorriu de novo.
— Veremos.
A porta do 1313 começou a fechar.
Antes de desaparecer atrás dela, Sérgio disse:
— À noite, Tomás. Venha sozinho. Eu devolvo a parte da história que Lúcia escondeu e Dante não tem coragem de saber.
— Eu não vou.
— Claro que vai.
A porta fechou.
A luz desapareceu sob a fresta.
A música parou.
O corredor voltou a ser apenas corredor.
Por alguns segundos, ninguém falou.
Então Lúcia disse:
— Ele está mais bonito.
Tomás olhou para ela, incrédulo.
— Essa é a sua observação?
— Beleza é informação, meu filho. Fantasma que volta mais bonito voltou mais perigoso.
Dante ainda segurava o braço de Tomás.
Lúcia reparou.
— E você, solta ou assume.
Dante soltou.
Tomás sentiu a ausência, mas não comentou.
Passaram o restante do dia tentando descobrir algo sobre Sérgio Valença.
Dante tinha arquivos. Muitos. Pastas sobre o Copan, recortes de jornal, registros antigos, fotografias de moradores, plantas, documentos de reformas, cópias de atas. Tomás se surpreendeu com o volume.
— Isso é pesquisa ou obsessão? — perguntou.
Dante, sentado no chão da sala do 1307 cercado de papéis, respondeu sem levantar os olhos:
— Em famílias silenciosas, obsessão é só pesquisa com fome.
Tomás gostou da frase.
Anotou.
Dante percebeu.
— Não coloca isso em livro.
— Tarde demais.
Encontraram pouco sobre Sérgio. Um nome em uma lista de condôminos de passagem. Uma nota social de 1978 mencionando um advogado chamado Sérgio Valença em evento no centro. Um recorte sobre um escritório fechado de forma abrupta. Nenhuma morte. Nenhum obituário. Nenhum registro claro de desaparecimento.
— Ele sumiu sem sumir — Tomás disse.
— Ou alguém limpou.
— Lúcia disse que ele tinha família importante.
Dante passou uma folha para ele.
— Valença aparece aqui. Fundação cultural, imóveis, doações, clubes.
Tomás leu.
— Dinheiro antigo.
— Dinheiro antigo costuma ter excelente serviço de apagamento.
No fim da tarde, encontraram uma fotografia.
Não estava nas pastas. Surgiu dentro do caderno de Tomás quando ele abriu para anotar. Os dois viram ao mesmo tempo.
A foto mostrava o interior do 1313 em 1979.
Sérgio estava sentado em uma poltrona, uma taça na mão. César Aranha aparecia em pé ao fundo, com a câmera pendurada no pescoço. Raul estava perto da janela, de costas, a camisa branca iluminada pelos brises. E Daniel, no canto, olhava para Sérgio com ódio.
Mas o detalhe mais inquietante estava no espelho atrás da poltrona.
Nele, a entidade aparecia como uma forma escura atrás de Sérgio, com uma mão pousada em seu ombro.
No verso, uma frase:
Ele não servia ao anfitrião.
Ele queria tomar o lugar dele.
Dante leu em voz alta.
— Sérgio queria tomar o lugar da entidade.
Tomás sentiu o corpo todo gelar.
— Então o que voltou no 1313?
Nenhum dos dois respondeu.
À noite, Dante insistiu para ficar.
Tomás não recusou.
Não disseram que era por medo. Não disseram que era por desejo. Não disseram quase nada. Às vezes, o corpo entende antes da linguagem, e os dois pareciam ter aceitado essa zona de silêncio.
Fizeram café. Comeram pão com manteiga da sacola de Lúcia. Organizaram papéis. O apartamento estava com luz baixa. O quarto permanecia fechado. Do lado de fora, o corredor parecia tranquilo demais.
Por volta das onze, Tomás foi à cozinha lavar as xícaras.
Dante apareceu atrás dele.
— Você está pensando em ir.
Tomás não se virou.
— Ao 1313?
— Sim.
— Estou pensando em não ir.
— Isso não me tranquiliza.
Tomás apoiou as mãos na pia.
— Ele disse que sabe algo que Lúcia escondeu.
— Ele sabe dizer exatamente o que faz você querer abrir a porta.
— E se for verdade?
Dante ficou perto. Perto o bastante para que Tomás sentisse o calor dele às costas.
— Verdade também pode ser isca.
Tomás fechou a torneira.
O silêncio da cozinha era pequeno, doméstico, quase comum. Isso o tornou mais perigoso. Dante estava atrás dele, sem tocar, mas presente em cada centímetro de ar. Tomás viu o reflexo dos dois no vidro escuro da janela: ele de camiseta preta, Dante de camisa cinza, ambos marcados pela luz fraca da cozinha. O reflexo parecia uma fotografia antes de ser tirada.
— Ele sabe provocar você também — Tomás disse.
— Eu sei.
— Quando falou que sua família segura homens que já olham para a porta.
Dante ficou quieto.
Tomás se virou.
Estavam muito próximos.
— Eu não sou Raul.
— Eu sei.
— E você não é Daniel.
Dante olhou para ele com uma tristeza quase irritada.
— Eu sei disso também.
— Sabe?
— Saber não impede o sangue de repetir medos antigos.
Tomás levou a mão ao rosto dele.
O gesto surpreendeu os dois.
Tocou primeiro a barba baixa, depois a lateral da mandíbula. Dante fechou os olhos por um segundo, como se aquele toque fosse mais difícil de suportar que todos os horrores da semana.
Tomás falou baixo:
— Então vamos fazer diferente.
Dante abriu os olhos.
— Como?
— Não me segura por medo. Me chama pelo nome.
A frase ficou suspensa.
Dante segurou a mão de Tomás contra o próprio rosto e virou a boca para dentro da palma. O toque foi mínimo. Quase nada. Mas Tomás sentiu como se uma parte dele tivesse sido beijada em segredo.
— Tomás — Dante disse.
O nome saiu sem pressa.
Sem fantasma.
Sem parede.
Sem fotografia.
Apenas nome.
Tomás se aproximou e o beijou.
Desta vez, não houve susto nem queda. O beijo nasceu da escolha que ambos vinham adiando. Começou lento, quase cuidadoso, como se os dois precisassem reaprender o corpo fora do pânico. Dante pousou as mãos na cintura de Tomás, não para prendê-lo, mas para estar ali. Tomás sentiu a firmeza dos dedos, o calor atravessando o tecido, a respiração de Dante se aprofundando quando suas bocas se abriram.
O desejo veio vivo.
Não vulgar. Não apressado.
Vivo.
Estava no modo como Dante o trouxe para perto, no corpo dos dois encontrando espaço na cozinha estreita, no leve impacto das costas de Tomás contra a pia, na mão que subiu pela nuca, no arrepio que respondeu antes da razão. Dante beijava com uma contenção que parecia sempre prestes a falhar. Tomás percebeu isso e gostou. Havia beleza na delicadeza, mas havia verdade também na fome que ela tentava educar.
Dante afastou a boca para respirar, mas continuou perto.
— Eu quero você — disse, quase contra os lábios dele.
A frase atravessou Tomás inteira.
Não era cantada. Não era posse. Era constatação.
O apartamento pareceu ouvir.
Em algum lugar, a parede estalou.
Tomás não olhou.
— Então fica — respondeu.
Dante tocou a testa na dele.
— Eu estou ficando.
Talvez tivessem continuado. Talvez, naquela noite, enfim, o desejo tivesse deixado de ser apenas ameaça e virado abrigo.
Mas alguém bateu à porta.
Três toques.
Espaçados.
Educados.
Tomás fechou os olhos.
— Eu vou matar um fantasma.
Dante soltou um riso baixo, nervoso, e se afastou com dificuldade.
Na sala, a fotografia do beijo havia reaparecido sobre a mesa.
Só que agora havia outra imagem ao lado.
Recém-tirada.
Tomás e Dante na cozinha.
O instante exato antes do beijo.
No verso:
Ele chama pelo nome.
Eu chamo pela falta.
A batida veio de novo.
Dante foi até a porta.
Tomás o acompanhou.
Pelo olho mágico, o corredor estava vazio.
No chão, diante da porta, havia um envelope preto.
Dante abriu.
Dentro, um cartão.
A letra era de Sérgio.
Tomás,
você quer saber por que Raul entrou no elevador?
Então pergunte a Dante por que Daniel convidou Sérgio.
E pergunte a Lúcia por que ela deixou César fotografar.
À meia-noite, 1313.
Venha sozinho ou receba apenas a versão dos sobreviventes.
Tomás leu em silêncio.
Dante pegou o cartão de sua mão.
— Não.
— Dante.
— Não.
— Você ouviu a parte sobre Lúcia?
— Ouvi a parte sobre armadilha.
— E se houver algo que mude tudo?
— Então vamos descobrir juntos.
Tomás olhou para ele.
— Ele disse sozinho.
— Fantasma não dita regra de visita.
Tomás quase sorriu.
Mas o cartão começou a escurecer nas mãos de Dante. As letras se mexeram, reorganizando-se diante dos dois.
A nova frase surgiu devagar:
Se vier acompanhado, o 1313 abre para quem você teme perder.
Dante soltou o papel como se queimasse.
No corredor, uma porta se abriu.
Não a deles.
A do 1313.
A luz amarela apareceu ao longe.
Tomás sentiu algo puxá-lo por dentro.
Não uma força física. Uma falta. Uma curiosidade. Um desejo de resposta que se parecia perigosamente com fome.
Dante percebeu.
— Olha para mim.
Tomás olhou.
— Fica — Dante disse.
Era exatamente a palavra errada.
Fica.
Não porque fosse ordem. Porque tinha medo dentro dela.
Sérgio sabia.
O corredor inteiro pareceu esperar.
Tomás respirou fundo.
— Eu volto.
Dante endureceu.
— Tomás.
— Não é por ele.
— É por quê?
Tomás olhou para a porta iluminada no fim do corredor.
— Porque eu preciso saber se a história que a gente está tentando salvar também foi construída em cima de mentira.
Dante parecia prestes a dizer algo, mas se conteve. Talvez lembrasse o que Tomás dissera na cozinha. Não me segura por medo. Me chama pelo nome.
Então chamou.
— Tomás.
A voz veio baixa.
Doía mais que ordem.
Tomás se aproximou e beijou Dante rapidamente. Não foi um beijo de desejo. Foi promessa. Ou tentativa.
— Eu volto — repetiu.
Saiu antes que coragem virasse dúvida.
O corredor parecia mais comprido do que de manhã.
A cada passo, a luz do 1313 ficava mais quente. A música baixa voltou. Piano, ruído eletrônico, algo parecido com respiração transformada em melodia. Tomás sentia Dante atrás dele, parado à porta do 1307, mas não olhou. Se olhasse, talvez voltasse.
Parou diante do 1313.
A porta estava entreaberta.
— Sérgio?
A voz veio de dentro.
— Entre, Tomás.
Ele entrou.
O apartamento cheirava a café, madeira escura e perfume caro. A sala estava iluminada por abajures. Tudo era bonito demais, limpo demais, calculado demais. Nas paredes, fotografias em preto e branco do Copan: corredores vazios, elevadores, janelas, brises, portas entreabertas. Em uma delas, Tomás reconheceu a si mesmo dormindo no chão da sala.
Sentiu náusea.
Sérgio estava perto da janela, segurando uma taça.
— Você veio.
— Vim ouvir.
— Não. Veio confirmar que ainda manda em si mesmo.
Tomás ficou perto da porta.
— Fala.
Sérgio sorriu.
— Direto. Gosto disso em você. Dante gosta também, embora finja preferir prudência.
— Não fala dele.
— Por quê? O nome dele abre você.
Tomás não respondeu.
Sérgio caminhou pela sala com calma.
— Daniel convidou Sérgio porque Raul pediu.
— Por quê?
— Porque Raul queria uma fotografia.
Tomás franziu a testa.
— Das festas?
— Não. Do anfitrião.
A sombra no espelho. A imagem da casa de máquinas. César tinha fotografado a entidade.
— Raul queria provar que aquilo existia?
— Raul queria negociar.
— Com o quê?
Sérgio parou diante dele.
— Comigo.
Tomás sentiu o estômago apertar.
— Raul queria que você tomasse o lugar do anfitrião.
— Inteligente, não?
— Louco.
— Homens apaixonados raramente são bons administradores do impossível.
— Por que Raul faria isso?
Sérgio se aproximou mais.
— Porque o anfitrião queria Daniel.
A frase atravessou Tomás como lâmina.
— Não.
— Sim. Daniel era o alvo. Não Raul. O anfitrião gostava da culpa dele, da fome dele, da vergonha herdada, da vontade de ser outro homem e ainda assim voltar para a família no domingo. Daniel era perfeito. Raul apenas se ofereceu no lugar.
Tomás sentiu o quarto girar devagar.
— Para salvar Daniel.
— Finalmente.
— E você?
— Eu vi oportunidade.
— De tomar o lugar da entidade.
Sérgio sorriu.
— Eu preferia dizer: negociar uma promoção.
Tomás sentiu nojo.
— Você transformou amor em contrato.
— O amor já é contrato. Só finge ser milagre.
— Você não sabe nada sobre amor.
Pela primeira vez, Sérgio pareceu realmente incomodado.
— Eu sei mais do que você imagina.
Ele se aproximou.
Tomás recuou, mas a porta atrás dele se fechou sozinha.
— Abre.
— Ainda não terminei.
A voz de Sérgio ficou mais baixa.
— Raul não era santo. Daniel não era apenas vítima. Lúcia não era apenas testemunha. César não era apenas fotógrafo. Todos abriram alguma porta naquela noite.
— E você?
Sérgio sorriu devagar.
— Eu entrei.
As luzes piscaram.
Por um segundo, Tomás viu o apartamento mudar.
A sala elegante desapareceu e surgiu uma versão antiga do 1313: fumaça, cortinas, copos, fotografias espalhadas sobre uma mesa, César tremendo com a câmera na mão, Raul discutindo com Sérgio, Daniel batendo na porta, Lúcia chorando no corredor.
Depois tudo voltou ao presente.
Tomás respirava mal.
— O que você quer de mim?
Sérgio chegou perto demais.
Não tocou.
Mas sua presença tinha textura. Fria, perfumada, envolvente. Uma intimidade fabricada. Ele olhou para Tomás como se já soubesse cada solidão que havia nele. Cada noite sem resposta. Cada cama esquecível. Cada desejo de ser visto com demora.
— Quero que você escreva direito — Sérgio disse.
— Raul já pediu isso.
— Raul quer ser lembrado como amor. Lúcia quer ser perdoada como testemunha. Dante quer salvar Daniel para salvar a si mesmo. Eu quero algo mais simples.
— O quê?
— Ser compreendido.
Tomás soltou uma risada incrédula.
— Você está me pedindo empatia?
— Estou oferecendo verdade.
— Em troca de quê?
Sérgio levantou a mão.
Desta vez, tocou o rosto de Tomás.
Os dedos eram frios.
Tomás ficou imóvel. Não por desejo. Por choque. O toque era delicado, quase elegante, mas havia nele uma invasão profunda, como se Sérgio não tocasse a pele, e sim a falta.
— Em troca de entrada — Sérgio sussurrou.
A sala escureceu.
No vidro da janela, Tomás viu o reflexo da entidade atrás de Sérgio.
Alta.
Magra.
Paciente.
A mão dela pousava no ombro do homem, exatamente como na fotografia.
Mas então Tomás percebeu algo.
Sérgio não estava servindo à entidade.
Estava preso a ela.
Os olhos dele, no reflexo, não eram de poder.
Eram de fome.
Fome antiga.
Insaciável.
Tomás recuou com força.
— Você não quer sair.
Sérgio ficou imóvel.
— Você quer alguém que deseje você o bastante para te puxar.
O rosto dele se fechou.
— Cuidado.
— Foi isso que tentou com Raul?
— Cuidado, Tomás.
— Raul não te desejou.
O silêncio que veio depois foi terrível.
Sérgio ergueu o rosto devagar.
A beleza controlada se quebrou por um segundo, revelando algo cru por baixo. Humilhação. Raiva. Uma ferida mantida elegante por décadas.
— Raul desejava todo mundo.
— Mas amava Daniel.
Sérgio deu um tapa em Tomás.
Não forte o bastante para derrubá-lo. Forte o suficiente para apagar o ar.
Tomás levou a mão ao rosto.
A sala escureceu ainda mais.
Do outro lado da porta, veio a voz de Dante:
— Tomás!
Sérgio sorriu.
— Ele veio.
A maçaneta girou, mas a porta não abriu.
Dante bateu.
— Tomás!
A entidade no reflexo pareceu crescer.
Sérgio se aproximou de Tomás e sussurrou:
— Vamos ver se ele sabe chamar pelo nome ou se ainda prefere segurar.
Tomás olhou para a janela.
Os brises projetavam sombras na parede.
Entre as linhas, surgiu uma figura.
Raul.
Não inteiro. Apenas sombra. O rosto quase formado.
Ele levou um dedo aos lábios.
Depois apontou para a mesa.
Tomás olhou.
Sobre ela, havia uma câmera antiga.
A câmera de César.
Tomás não pensou. Correu, pegou o objeto e virou-se para Sérgio.
— Era isso que você queria esconder.
Sérgio avançou.
A porta do 1313 se abriu com violência.
Dante entrou.
Não como Daniel teria entrado, Tomás pensou. Não cego, não destruído, não implorando.
Dante entrou chamando:
— Tomás!
O nome atravessou o apartamento.
As luzes estouraram.
Sérgio recuou como se o som tivesse queimado.
Dante chegou até Tomás e segurou seu rosto, viu a marca do tapa, os olhos escuros de raiva.
— Ele te tocou?
— Estou bem.
— Tomás.
— Estou bem.
Dante olhou para Sérgio.
Dessa vez, não havia medo antigo em seu rosto.
Havia presente.
— Acabou.
Sérgio riu, mas o riso falhou.
— Você acha que entrou porque quis?
Dante pegou a mão de Tomás.
— Eu entrei porque ele chamou antes de sair.
Tomás entendeu.
O beijo rápido na porta.
A promessa.
Eu volto.
Talvez aquilo também fosse uma porta.
Mas uma porta aberta pelos dois.
Dante puxou Tomás para fora do apartamento. Tomás segurou a câmera contra o peito. Sérgio não os seguiu. Ficou no meio da sala, enquanto a sombra da entidade crescia atrás dele.
Antes de atravessarem a porta, Sérgio disse:
— A câmera mostra quem realmente abriu.
Tomás parou.
Dante tentou puxá-lo.
— Vamos.
Sérgio sorriu.
— E mostra quem fechou por fora.
A porta do 1313 bateu sozinha.
Tomás e Dante ficaram no corredor.
A luz amarela desapareceu sob a fresta.
Por alguns segundos, só havia o som dos dois respirando.
Dante tocou o rosto de Tomás, no lugar do tapa.
— Ele machucou você.
— Já passou.
— Não passou.
Tomás olhou para ele.
Havia tanta raiva e cuidado no rosto de Dante que algo dentro dele cedeu.
— Você me chamou pelo nome.
Dante engoliu seco.
— Você ouviu?
— Ouvi.
— Então volta comigo.
Tomás assentiu.
Voltaram para o 1307 sem soltar as mãos.
Dentro do apartamento, Lúcia estava esperando.
Sentada à mesa.
Como se soubesse.
Quando viu a câmera de César, ficou branca.
— Onde encontraram isso?
Tomás colocou a câmera sobre a mesa.
— No 1313.
Lúcia fechou os olhos.
Dante perguntou:
— O que tem no filme?
Ela demorou a responder.
— Se ainda for o mesmo filme, tem a última fotografia da festa.
— A fotografia de quem abriu a porta?
Lúcia não olhou para ele.
— Não.
— Então de quê?
Ela abriu os olhos.
E pela primeira vez desde que Tomás a conhecera, parecia realmente culpada.
— De quem pediu para César fotografar.
A câmera, sobre a mesa, disparou sozinha.
Um flash branco tomou a sala.
Quando a luz passou, uma nova fotografia apareceu entre os dedos de Tomás.
A imagem ainda estava se revelando.
Primeiro, sombras.
Depois, formas.
Depois, rostos.
O corredor do décimo terceiro andar em 1979.
A porta do 1307 aberta.
Raul de um lado.
Sérgio do outro.
César ao fundo com a câmera.
E Lúcia, jovem, no centro da imagem, segurando a maçaneta.
No verso, uma frase surgiu lentamente:
Nem todo traidor queria trair.
Lúcia começou a chorar em silêncio.
E, pela primeira vez, o Copan inteiro pareceu prender a respiração para ouvi-la confessar.