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Um conto erótico de Lore <3
Categoria: Lésbicas
Contém 3844 palavras
Data: 11/07/2026 12:57:00
Assuntos: Lésbicas

Eu não tinha tido um dia bom. Nada de extraordinariamente ruim aconteceu. Nenhuma tragédia, nenhuma notícia devastadora... Apenas um dia bastante reflexivo em relação às minhas frustrações que, se parássemos para analisar com um mínimo de honestidade, eram bem infundadas.

Tive uma reunião longa, daquelas chatas que se arrastam por horas, e você sai com a sensação de que nada de concreto foi resolvido, apenas postergado. Odeio quando esse tipo de coisa acontece, mas, naquele caso, não havia muito o que eu pudesse fazer. Quando finalizei, já era tarde da noite e o trânsito resolveu me presentear com um engarrafamento monumental. Por um bom tempo, tentei burlar a situação. Mudei de faixa umas quinhentas vezes, buzinei, cheguei a discutir com alguns motoristas que achavam que a rua pertencia apenas a eles e, quando finalmente cansei de tentar vencer uma guerra que não tinha como ganhar, simplesmente desisti. Resolvi esperar. Não havia muito o que fazer, e eu estava apenas me estressando cada vez mais, alimentando uma ansiedade que não me levaria a lugar nenhum. Respirei fundo, abaixei ainda mais o vidro e deixei o carro avançar no próprio ritmo da fila.

Foi então, ali, parada na mesma posição havia minutos intermináveis, que avistei um menino superagitado. Ele corria entre os veículos, saltitando e repetindo em alto e bom som:

— É a última! É a última!

Devia ter, no máximo, uns seis ou sete anos. Tinha os cabelos desgrenhados e uma energia que contrastava absurdamente com o meu cansaço. Aproximou-se do carro ao lado e insistiu, animado, com um ramo de flores na mão:

— É a última, tio... Leva para sua mulher, para sua irmã, para sua filha ou para sua amante!

O homem destratou a criança completamente e recusou as flores. O menino seguiu em frente rindo da situação, sempre com aquele sorriso absurdamente contagiante.

Eu já ia chegar tarde em casa de qualquer jeito. Olhei para o ramo, pensei em Júlia e concluí que não custava nada agradar a gata. Sem falar que aquela criança me encantou de um jeito que nem sei explicar direito. Ao olhar para ele, não consegui evitar uma pontada no peito. Criança àquela hora da noite, no meio do trânsito, vendendo flores em vez de estar em casa, dormindo, estudando, brincando... Apenas sendo criança.

Era uma daquelas situações que fazem a gente refletir. Conhecemos aquela realidade, vivemos nela, trabalhamos tentando mudá-la, mas, às vezes, ainda somos atingidos ao perceber a verdadeira dimensão do problema. Porque, mesmo com aquele sorriso e toda aquela persistência, existia uma vulnerabilidade que nenhuma criança deveria carregar. Era a vida adulta sendo empurrada à força para alguém que mal havia começado a viver.

— Eu quero! — falei, chamando a atenção dele com a mão.

O menino abriu um sorriso radiante e correu até a minha janela. Peguei o dinheiro, mas, antes de entregá-lo, retirei um folheto do projeto que estava no porta-luvas e o estendi junto com o valor.

— Sabe onde fica? Peça à sua mãe para levá-lo até lá amanhã. Eu vou estar lá... — pedi.

O menino deu uma olhada nas imagens do papel e começou a folheá-lo. Os gurizinhos jogando futebol chamaram sua atenção imediatamente. Ele não respondeu nada. Apenas apertou o folheto contra o peito, ergueu as flores para mim e saiu correndo em determinada direção, bastante empolgado, provavelmente para mostrar aquilo a alguém.

Olhei para as flores na mão, rindo sozinha, e percebi que elas estavam com um aspecto amassado, judiadas pelo calor e pela correria, porém ainda vivas... Igualzinhas a mim.

Cheguei em casa doida por um banho, por dar uma olhada rápida nos meus filhos, que, pelo horário, já estariam dormindo, e por me aconchegar nos braços da minha esposa. Não era pedir muito, principalmente depois de um dia escroto como aquele.

Assim que cruzei o portão, dei de cara com Júlia, que se virou imediatamente em minha direção.

— Ai, eu queria terminar antes de você chegar. — Ela disse isso enquanto me envolvia em um abraço.

Olhei ao redor, desorientada e já derretendo por ela ter me recebido daquele jeito. A borda da piscina estava iluminada por pequenas velas, espalhadas estrategicamente. Dentro da água, boiava uma piscina inflável enorme, ocupando praticamente toda a área rasa, recheada de cobertores fofos e almofadas. Na borda, havia uma tábua de frios caprichada e um jarro de suco.

Fiquei ali, com aquela mulher linda e cheirosa nos braços, beijando incessantemente o pescoço dela enquanto me questionava, quase em desespero:

QUE DATA IMPORTANTE EU ESQUECI, MEU DEUS? EU SÓ TENHO ESSAS FLORZINHAS AQUI!!!

— Eu não vou fingir, amor... O que eu esqueci? — perguntei, já exagerando na quantidade de selinhos, como se fosse uma forma de pedir perdão.

— Então você esqueceu... — Juh comentou, divertindo-se.

— Admito. Esqueci. E o pior é que ainda não lembrei... Tenho florzinhas do sinal. Você me perdoa? — perguntei, roubando mais um beijinho.

— Você não esqueceu nada. Eu é que fiquei sem nada para fazer e fui colocar essa piscina inflável aqui. Quando percebi, já tinha montado um programinha para a gente ficar observando o céu. — Ela respondeu, rindo de mim e pegando as flores.

— Te amo, neném. — Falei, fazendo carinho no rostinho dela.

— Te amo, meu amor. — Júlia respondeu.

— Então eu vou tomar um banho e já volto para te aproveitar. — Disse e já fui entrando em casa.

Dei uma olhadinha nos meus filhotes, que já estavam em sono profundo, e fui para o meu banho. Geralmente, em dias assim, eu demoro bastante. Contudo, não queria deixar minha gatinha esperando e me apressei.

Quando retornei, Juh estava de costas para mim, tão distraída ajeitando os cobertores dentro da piscina inflável que nem me ouviu chegar. Parei bem atrás dela, sorrindo sozinha, toquei sua cintura e minha gatinha se assustou de verdade. Deu até um pequeno pulo e soltou uma risada envergonhada, levando a mão ao peito.

— O que foi? — perguntei, abraçando-a por trás e rindo do susto.

— Amor, entra primeiro para ver se não molha. Eu não tinha pensado nessa parte... Não quero me molhar, não. — Ela respondeu, apontando para a piscina inflável com uma carinha de quem acabara de descobrir um defeito em seu incrível projeto.

— E eu quero? — perguntei, rindo dela e achando o pedido a coisa mais fofa do mundo.

— Vai. Qualquer coisa, eu seco seu cabelo depois. — Juh falou, empurrando-me de leve na direção da borda.

Fui com todo o cuidado do universo. Também não estava a fim de tomar outro banho. Coloquei primeiro um pé dentro da estrutura, depois o outro para manter o equilíbrio. Consegui, aos poucos, abaixar o corpo até me deitar entre as almofadas, vencendo a batalha contra o próprio centro de gravidade. Júlia ria de tudo, tapando a boca com as mãos e se segurando para não tentar se juntar a mim.

— Agora vem. — Chamei, estendendo a mão.

Ela hesitou por um segundo, depois foi entrando toda desengonçada. Tentou colocar uma perna, perdeu o apoio, agachou-se depressa para não capotar para o lado e acabou caindo de bunda, provocando um pequeno balanço que fez a gente flutuar um pouco mais rápido e nós explodimos em risadas.

Ficamos ali por um tempo só de bobeira, sem dizer nada. Apenas o barulho da água e o crepitar das velas ao redor. Eu estava muito feliz por, depois de tanto estresse, ter um lugar para descansar. Júlia encostou a cabeça em meu ombro, passei o braço por sua cintura, e ficamos envolvidas em carinho, pele contra pele, silêncio contra silêncio, ela e eu, boiando no nosso pequeno universo particular.

— Achei que você ia chegar irritada, e você veio com flores. — Ela disse e cheirou o ramo.

— Eu estava muito... E tudo começou a melhorar quando comprei essas flores. Comprei de um molequinho na rua, e ele tinha uma energia tão contagiante que tive que trazê-las para você... Mesmo elas estando amassadinhas. — Falei, fazendo carinho no meu amô.

— Amei, e elas estão perfeitas. — Juh disse e me beijou.

Contei para Júlia a história do menino das flores e como aquele encontro tinha transformado completamente o meu fim de noite. Comentei que esperava vê-lo no Projeto no dia seguinte porque, quem sabe, aquela visita pudesse ajudá-lo de alguma forma. Juh concordou, dizendo que também torcia para que ele aparecesse. Depois, nossa conversa acabou entrando nas diferentes realidades que coexistiam na mesma cidade. Era estranho pensar que, enquanto nós estávamos ali, boiando em uma piscina inflável na frente de casa, cercadas de conforto, segurança e tranquilidade, havia uma criança, ou melhor, várias, passando a noite no meio do trânsito, trabalhando quando deveriam estar apenas vivendo a própria infância. Às vezes, bastavam alguns quilômetros para separar dois mundos completamente diferentes.

— Você montou isso para a gente olhar as estrelas, e nenhuma de nós duas deu uma olhadinha para o céu. — Falei, dando vários beijinhos até chegar ao pescoço dela.

— Verdade... Adoro conversar com você sobre tudo... — Juh confirmou e me abraçou.

Descobrimos, da pior e mais engraçada forma possível, que sair daquela piscina era muito mais difícil do que entrar. Minha gatinha foi a primeira a tentar. Levantou e perdeu o equilíbrio umas cinco vezes. Precisou se apoiar na borda para conseguir colocar os pés no chão sem despencar dentro da água. Eu ria tanto da cena que mal conseguia ajudá-la. Quando finalmente Juh conseguiu sair, estendeu a mão para mim, toda convencida, como se tivesse acabado de cravar a última bola de um tie-break em uma final olímpica contra a Itália. Segurei firme, tentei levantar e quase a puxei de volta para dentro comigo. Nós duas caímos na gargalhada. Depois de mais algumas tentativas completamente fracassadas, consegui sair também, ainda de mãos dadas com ela, comemorando o nosso grande troféu.

— Pena que não fizemos um registro. — Comentei.

— Poxa, amor, era para a gente ter tirado pelo menos uma foto mesmo. — Ela respondeu.

— Da próxima vez, nós tiraremos. — Confirmei, e entramos.

Mais tarde, já deitadas na cama, acomodadas debaixo das cobertas e muito mais confortáveis do que na nossa aventura aquática, Júlia comentou que o aniversário dos meninos estava se aproximando.

— O que você já pensou? — Perguntei, me encaixando no meu amô.

— Vamos viajar? — Ela questionou, mais como um pedido do que como uma pergunta.

— Hummm... Tenho que olhar... — Eu ia dizendo, contudo, Juh me interrompeu.

— Não bate com nada. Já olhei sua agenda e liguei para a sua secretária. — Júlia afirmou, me fazendo rir.

— Então, para onde vamos? — Perguntei.

— Acho que eles querem ir a um parque aquático, e é bom porque dá para levar Dom tranquilamente. — Ela explicou.

— Pronto, então. Decidido. Ideia perfeita, ainda mais depois da viagem no nosso iate esta noite. — Brinquei.

— Adorei passar um tempinho diferente com você, de verdade. — Juh falou, fazendo carinho em mim.

— Eu também, meu amor. Obrigada por isso. — Disse e a beijei.

Acreditei piamente que íamos dormir logo em seguida, porém não foi o que aconteceu. Quer dizer, minha gatinha pegou no sono rapidinho, ali agarrada a mim, mas eu permaneci acordada. Por mais que me sentisse fisicamente relaxada, minha cabeça voltou a trabalhar.

Peguei o celular na tentativa de me distrair e acabei tendo uma boa ideia: registrar o nosso momento no feed do Instagram. Fui às câmeras, tirei um print da tela, recortei os horários em que ficamos ali curtindo uma à outra, transformei o vídeo em um minuto e postei com a legenda: "Porque em ti eu consigo encontrar um caminho, um motivo, um lugar pra eu poder repousar, meu amor". É um trechinho de uma música de que eu gosto e combinou muito bem com o que eu estava sentindo depois daquele dia. Eu tinha sido acolhida tão bem que nem fazia sentido não estar dormindo igualzinha à minha muié, que havia capotado.

Permaneci alguns minutos tentando pegar no sono. Contudo, por mais confortável que estivesse, minha cabeça continuava funcionando em um ritmo completamente diferente do meu corpo. Eu já estava quase desistindo quando ouvi o chorinho baixinho de Dom pelo corredor. Nem chegou a ser um choro desesperado; era mais uma reclamação manhosa de quem havia resolvido anunciar para a casa inteira que estava acordado.

Senti Júlia se mexer ao meu lado. Minha gatinha abriu os olhos, ainda completamente sonolenta, e me viu fazendo menção de levantar.

— Não, amor. Você está cansada. — Júlia tentou.

— Tranquilo, gatinha. Estou sem um pingo de sono. — Respondi, sem deixá-la levantar.

Júlia ainda insistiu com o olhar por alguns segundos, claramente querendo ir, mas o sono venceu a discussão antes mesmo que ela encontrasse argumentos. Fiz um carinho em seu rosto, esperei vê-la acomodar novamente a cabeça no travesseiro e saí praticamente na ponta dos pés.

Entrei no quartinho de Dom já imaginando o que encontraria. Ninho estava acordado, porém longe de estar agitado. Assim que me aproximei do berço, ele virou o rostinho na minha direção e fez aquele biquinho inconfundível procurando a mamadeira. Ri sozinha porque, no fundo, eu já desconfiava que fosse exatamente isso. Naquela fase, ele só acordava de vez em quando durante a madrugada e, quase todos os dias, seguia dormindo até de manhã. Naquela noite, contudo, resolveu fazer uma pequena pausa apenas para mamar.

Preparei a mamadeira e me sentei na poltrona com meu príncipe no colo. Bastou encostar o bico em sua boquinha para todo aquele chorinho desaparecer. Dom ficou completamente quietinho, mamando com os olhinhos quase fechados, enquanto eu fazia carinho em seus cabelinhos e observava seu rostinho relaxar outra vez. Às vezes era impressionante como um bebê conseguia mudar de humor em questão de segundos. Era só isso que ele queria. Conseguiu e pronto.

Não demorou praticamente nada. Assim que terminou a mamadeira, ele já voltou a pesar nos meus braços, vencido pelo sono novamente. Esperei só mais um pouquinho antes de colocá-lo no berço, ajeitei seu paninho do jeitinho de que ele gostava e fiquei alguns segundos olhando meu pequeno dormir, como se nem tivesse acordado minutos antes.

Minha ideia era voltar para a cama logo em seguida, mas, quando passei pela escada, percebi que o sono continuava sem dar as caras. Resolvi descer e ficar um pouco na sala para ver se a cabeça desacelerava. Peguei o celular e, assim que a tela acendeu, vi uma mensagem do meu irmão. Ele havia enviado um print da minha postagem no Instagram.

— Uma piscina na piscina. Isso foi ideia de Juh? — Lorenzo dizia.

— Dela mesma. E eu estava precisando de um tempinho assim com minha muié. — Respondi.

— Tenho que ir ao sítio para dar uma desopilada com Sarah também, ou vou enlouquecer. — Confessou meu irmão.

— Está rolando alguma coisa sobre a qual você queira conversar? — Quis saber.

— Pessoalmente a gente conversa. — Ele desconversou.

— Quer vir aqui? — Perguntei.

Então me toquei do horário. Pelo visto, não fui só eu quem perdeu o sono naquela madrugada.

— Estou indo. Prepara uma dose de whisky. — O folgado pediu.

Esperei Lorenzo sentada na varanda. Apenas abri o portão e o recebi com uma garrafa de whisky e dois copos. Fiz companhia apenas na primeira dose. Não estava com vontade de beber, muito menos de acordar com dor de cabeça. Meu irmão, por outro lado, parecia precisar mais daquela garrafa do que da minha companhia. Depois do primeiro gole, deixei a bebida ao alcance dele e fiquei apenas observando Lorenzo caminhar distraidamente pelo quintal, olhando tudo o que Júlia havia preparado.

— Vou experimentar essa piscina inflável. — Ele falou, aproximando-se da borda.

— Olhe lá, porque sem álcool já foi difícil para mim. — Aconselhei, observando-o.

Lorenzo começou a tirar os sapatos e já se preparava para entrar quando, de repente, hesitou. Virou-se devagar na minha direção com uma expressão desconfiada, como se tivesse acabado de lembrar de uma informação muito importante.

— Cês não transaram aqui, não, né? — Ele quis saber, e eu caí na risada.

— Pelo amor de Deus, não, rapaz... Oxe... — Respondi.

— Sei lá, é bom perguntar... Você é uma pessoa de quem a gente pode esperar tudo nesse sentido. — Meu irmão disse.

Antes mesmo que eu respondesse qualquer coisa, ele simplesmente se jogou lá dentro sem pensar duas vezes, caindo de costas, já deitado, com as mãos atrás da cabeça, como se estivesse se acomodando em uma espreguiçadeira. A piscina inflável deslizou pela água com tanta velocidade que foi parar quase do outro lado da piscina. Lorenzo abriu os braços para recuperar o equilíbrio enquanto a estrutura balançava de um lado para o outro, e eu gargalhava da insanidade dele. Era impossível levar aquele homem a sério.

Depois que a piscina finalmente parou de passear pela água e ele conseguiu se acomodar entre as almofadas, encostei na borda da piscina e olhei para ele.

— Agora fala o que está rolando. — Questionei, entregando o copo em sua mão.

— Nada parece andar direito na minha vida... Porra, a adoção do nosso filho ou da nossa filha está parada. Toda vez que eu me iludo acreditando que meu pai vai confiar mais em mim e em Loren, praticamente sofremos uma regressão. Dá vontade de largar tudo e sair louco com Sarah por aí... — Meu irmão falou, batendo a mão com força na água.

O que eu sentia era parecido, contudo, sem os motivos.

— Quando foi a última vez que você sentiu que as coisas estavam andando direito? — Perguntei, sem tirar os olhos dele.

Lorenzo demorou alguns segundos para responder. Ficou encarando o céu enquanto girava o whisky devagar dentro do copo.

— Acho que nem lembro mais... — Comentou, sem paciência.

— Você falou da adoção, do nosso pai... Mas isso é o que está acontecendo. O que eu quero saber é outra coisa... O que, de verdade, está pesando tanto aí dentro? — Perguntei.

Ele soltou um riso sem humor e passou a mão pelo rosto.

— A sensação de que eu nunca consigo provar que sou suficiente. Parece que estou sempre esperando a aprovação de alguém. Quando não é do juiz, é do meu pai. Quando não é dele, é de outra pessoa qualquer. E eu cansei, véi... Cansei de viver esperando alguém dizer se agora eu posso fazer alguma coisa ou não. — Meu irmão desabou.

Fiquei alguns instantes em silêncio. Às vezes, o silêncio faz bem, e eu gosto de não disputar espaço com o pensamento das pessoas.

— Você reparou que, em nenhum momento, falou de Sarah? Nem do bebê que vocês querem adotar. Você só falou de quem precisa te aprovar. Talvez seja justamente isso que esteja te prendendo... Enquanto a sua vida continuar dependendo da validação de outra pessoa, qualquer negativa vai parecer uma sentença quando, na verdade, é só um obstáculo... — Falei mais ou menos isso, andando de um lado para o outro.

Lembro de reparar que Lorenzo abaixou a cabeça, respirou fundo e tomou mais um gole do whisky.

— Eu odeio quando você faz isso... — Ele falou, revirando os olhos, mas em um tom divertido.

— Isso o quê? — Perguntei, curiosa.

— Faz eu perceber umas coisas que eu estava me esforçando para fingir que não existiam. — Meu irmão respondeu e se jogou na piscina com roupa e tudo, me fazendo rir.

— Relaxa. Amanhã você não vai lembrar de uma palavra. — Brinquei.

— Não vou trabalhar amanhã. Vou nadar até essa sensação passar. — Ele disse, começando a bater os braços.

— Eu vou gravar, porque, senão, ninguém vai acreditar em mim. — Disse-lhe e comecei a registrar tudo com o celular para enviar no nosso grupo do WhatsApp.

Depois de quase transformar minha piscina em uma raia olímpica, Lorenzo finalmente desistiu de nadar contra o amanhecer. Ainda rindo da cena, entrei rapidamente em casa, peguei uma toalha e joguei na direção dele. Meu irmão a segurou no ar com uma habilidade que definitivamente não demonstrava dentro da água. Enquanto ele secava o cabelo e espremia a barra da camisa completamente encharcada, fui arrastando duas cadeiras para perto da piscina. Pela primeira vez desde que ele havia chegado, percebi que seus ombros pareciam um pouco menos pesados e que sua expressão estava mais relaxada.

— Sobre a empresa... Você sabe que eu acho muito injusto vocês ainda não estarem mandando na porra toda, não é? Tanto pelo mérito que vocês dois têm quanto pelo descanso do nosso coroa. — Falei, batendo no ombro dele.

— Eu sei... Eu vejo vocês conversando... — Lorenzo disse, mas agora mais calmo.

— E sobre a adoção... Demora mesmo. Eu entendo essa dor da espera, porém também compreendo a burocracia. Estamos falando de um ser humano. — Falei.

— Estamos pensando em partir para a busca ativa também, por ser mais ágil. — Meu irmão disse, com um sorrisinho.

— Que bom! Eu apoio qualquer decisão. Só quero ver essa família crescendo cada vez mais! — Exclamei, feliz.

— Uns sete, oito, nove anos é uma idade legal, não é? Não vejo a hora. Espero que dê certo, de coração mesmo. — Ele disse, me encarando nos olhos.

— Você já é um paizão. — Afirmei, apertando o rosto dele.

Quando olhei para o céu, já era manhã. Percebemos que havíamos atravessado a madrugada inteira conversando. Lorenzo se despediu de mim justamente quando Marcela, Érica e Dona Sônia chegavam para iniciar a rotina da casa. As três estranharam encontrar meu irmão saindo pelo portão tão cedo e brincaram, perguntando se ele tinha vindo trazer o café. Nós dois rimos. Conferi as horas e faltava exatamente uma hora para o meu despertador tocar. Balancei a cabeça, rindo sozinha da ironia. Eu tinha passado tanto tempo tentando dormir que já nem fazia mais sentido tentar naquele momento.

Entrei no quarto e minha gatinha seguia em seu soninho profundo. Deitada meio de bruços, com um dos braços dobrado sobre o travesseiro, o rosto meio enterrado no tecido e o cabelo espalhado como se ela tivesse colocado cada fio propositalmente em cada lugar. O lençol tinha descido até a cintura, deixando as costas nuas à mostra, e até a forma como essa mulher respira é sexy... Deixa a minha boca salivando somente em pensar.

~ Inclusive agora, enquanto escrevo 🤤

Fiquei parada por alguns segundos, encostada na porta, sentindo algo familiar acender dentro de mim. Depois de uma noite inteira sendo cuidada por ela, sendo amada por ela, sendo recebida daquele jeito mágico, eu só conseguia pensar em uma coisa: Devolver... E devolver com gosto! Afinal, minha gatinha havia arrasado na surpresa da noite passada, e eu não sou de ficar devendo nada, principalmente prazer a minha esposa.

Cheguei devagar, tirando a minha roupa, e me deitei na cama sem fazer o menor barulho. Me aproximei por baixo do lençol, beijando sua perna, subindo devagar pela coxa, sentindo sua pele reagir, mesmo sem ela acordar de imediato. Quando finalmente me posicionei entre suas pernas, escutei ela soltar um gemidinho baixinho, com o corpo já reconhecendo o que estava acontecendo. Olhei para cima e a contemplei abrindo os olhos, rindo para mim. Logo iniciei um oral com vontade de comer e pelo sorrisinho safado que recebi, ela acordou doidinha para me dar.

PS: O garoto esteve lá no Projeto. Embora ele não se enquadrasse nos critérios para ingressar, conseguimos dar um jeitinho para que participasse das atividades e orientamos seus responsáveis sobre alguns direitos aos quais eles nem sabiam que tinham acesso.

Não acho ético me aprofundar no assunto, mas, se eu quiser visitá-lo em sua casa, hoje em dia, é possível! ❤️

(E joga bola pra caraaaaalho ⚽)

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