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Nome de Guerra

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Da série O Galpão
Um conto erótico de Mateus
Categoria: Gay
Contém 2396 palavras
Data: 09/07/2026 22:56:53

Depois daquela manhã no depósito, alguma coisa mudou entre Cristiano e eu. Não melhorou, só mudou. A diferença é importante. Continuávamos nos provocando por qualquer motivo: eu implicava com a desorganização dele, ele dizia que eu tinha mania de transformar tudo em problema.

À distância, devia parecer apenas mais uma rivalidade masculina daquelas que nascem naturalmente em qualquer ambiente de trabalho, mas havia um detalhe estranho. Sempre que discutíamos, os outros paravam para assistir, era como se esperassem um nocaute a qualquer hora entre nós.

Há homens que falam baixo porque têm educação, já Cristiano falava alto porque precisava ocupar espaço. Era como se, a cada frase, ele reafirmasse para o mundo inteiro quem era, ou quem precisava parecer ser.

Na terceira semana trabalhando juntos no galpão, eu já conhecia seus rituais. Ele chegava cedo, deixava o rádio numa estação sertaneja qualquer, pendurava a mochila num prego torto da parede e tomava o primeiro café do dia ainda em pé, olhando o movimento dos caminhões pela porta aberta. Só depois começava a trabalhar.

Naquela tarde, porém, o galpão acordara mais barulhento que o normal. Um motorista discutia com um conferente, a empilhadeira apitava sem parar, alguma marreta encontrava metal do outro lado da oficina num ritmo irritantemente constante, o cheiro de diesel parecia mais espesso que o habitual.

O galpão parecia uma chapa de aço esquecida ao sol, o calor fazia o ar tremer sobre o concreto. Os caminhões chegavam cobertos de poeira vermelha, o rádio insistia num modão antigo que falava de traição, pinga e saudade. Luquinhas apareceu abanando a própria camiseta.

— Se Deus existe, hoje ele desligou o ventilador do mundo.

Eu ri. Estava organizando uma pilha de ordens de serviço quando Sandra colocou outra pasta sobre minha mesa.

— Cristiano precisa conferir essas notas. Leva lá pra ele.

Olhei para a pasta, olhei para ela, ela fingiu não perceber.

— Vai logo antes que ele desapareça.

Encontrei Cristiano perto da oficina, ele conversava com três motoristas. Assim que me viu aproximando, cruzou os braços.

— Ih... Lá vem o chefinho.

— Falta pouco – respondi.

Os motoristas riram, ele pegou a pasta da minha mão, folheou sem olhar. Antes que eu conseguisse me afastar o suficiente, ele assobiou, como se para me chamar, e depois falou alto o suficiente para todo mundo ouvir.

— Ô, dona bicha... vem cá!

O mundo tem um jeito curioso de fazer silêncio, ele não acontece de uma vez, vai se espalhando. Primeiro um para de rir, depois outro, depois ninguém sabe exatamente onde colocar os olhos. Senti o calor subir pelo meu rosto, não era vergonha, era raiva. Olhei diretamente para ele, sem levantar a voz.

— Tá falando comigo?

— Tem outra aqui?

Alguns rapazes riram, não muito, mais por reflexo do que por graça.

— Curioso.

— O quê?

— Você passa mais tempo pensando em bicha do que eu. Mas não se preocupe, até onde eu sei, quem vive preocupado com o que os outros vão pensar é você, não eu.

Dessa vez a risada foi verdadeira. Até Luquinhas, que passava carregando uma caixa de amortecedores, teve de virar o rosto para esconder o sorriso. Cristiano deu um passo à frente, a expressão dele endureceu. Não era raiva, era algo mais complicado. Como se eu tivesse quebrado uma regra invisível. A distância entre nós diminuiu.

— Você é folgado, hein?

Sorri.

— Só acompanho o nível da conversa.

— Pena que isso não resolve tudo.

— E fazer esse tipo de piada resolve?

Ficamos próximos demais. Eu era bem uns quinze centímetros menor do que ele, mas não arredei. Não havia empurrão, não havia ameaça. Só aquela distância mínima em que dois homens decidem se vão brigar ou recuar. Ele ficou parado por alguns segundos, os olhos azuis sustentando os meus. Bonitos, bonitos de um jeito irritante. Bonitos de um jeito que me dava vontade de esquecê-los. Foi Luquinhas quem apareceu no pior, ou no melhor, momento.

— Ô, vocês dois...

Ele entrou entre nós, segurando uma caixa de rolamentos.

— Vocês vão marcar hora ou vão casar logo?

O galpão inteiro caiu na gargalhada. Até eu ri. Cristiano bufou, pegou a pasta.

— Vai trabalhar, moleque.

Mas reparei que as pontas das orelhas dele tinham ficado vermelhas. Virei as costas, mas, antes de entrar no escritório, ouvi Luquinhas perguntar baixinho:

— Pra que isso, cara?

Cristiano demorou alguns segundos para responder.

— Porque ele me tira do sério.

Naquela tarde, fiquei pensando na frase, não na ofensa. Ofensas a gente conhece desde menino, o que ficou ecoando foi outra coisa.

"Ele me tira do sério."

Era uma escolha curiosa de palavras. Poderia ter dito que não gostava de mim, que eu era metido, chato, arrogante. Mas não, dissera que eu o tirava do sério. Como se o problema não estivesse apenas em mim, como se alguma coisa acontecesse dentro dele toda vez que cruzávamos o mesmo corredor.

O resto da tarde transcorreu num silêncio estranho, não aquele silêncio confortável de quem já dividiu muitas horas de trabalho. Era um silêncio atento, cada um percebia exatamente onde o outro estava. Quando eu passava atrás dele, Cristiano automaticamente dava um passo para o lado, quando ele precisava alcançar uma prateleira acima da minha cabeça, dizia apenas:

— Licença.

Seco, objetivo. Ao menos dizia, no dia anterior teria simplesmente esperado que eu saísse. Pequenas mudanças são perigosas, elas quase nunca parecem importantes quando acontecem, só fazem sentido quando olhamos para trás. Depois do café, Sandra apareceu carregando uma outra pasta.

— Mateus, preciso conferir o estoque dos filtros.

Olhou para Cristiano.

— Vai com ele.

Ele respondeu apenas com um movimento de cabeça, seguimos para o depósito dos fundos. Ali dentro fazia mais calor, a claridade entrava pelas telhas translúcidas em feixes inclinados, iluminando partículas de poeira que pareciam flutuar sem pressa. Durante alguns minutos, só se ouviu o barulho das folhas da prancheta e das caixas deslizando pelas prateleiras. Foi Cristiano quem quebrou o silêncio.

— Mateus.

Continuei escrevendo na prancheta.

— Ô.

Parei sem olhar para ele.

— O quê?

Ele demorou, mas, quando respondeu, a voz já não tinha ironia.

— Você ficou bravo?

Continuei anotando um código.

— Com o quê?

— Com o que eu falei.

Olhei para ele.

— Você vive falando merda.

Ele respirou pelo nariz.

— Não responde minha pergunta.

Sorri de canto.

— Então não faça perguntas ruins.

Ele apoiou a caixa no chão.

— Você sempre é assim?

— Assim como?

— Parece que tá brigando até quando conversa.

Demorei alguns segundos para responder.

— Engraçado.

— O quê?

— Eu pensava exatamente isso de você.

Pela primeira vez desde que nos conhecíamos, Cristiano riu de verdade. Sem ironia, sem plateia. Foi uma risada curta, quase bonita.

— Então empatou.

Sorri sem humor.

— Não, você me ofendeu na frente de todos.

O silêncio voltou a se instalar entre nós. O vento trouxe cheiro de terra seca, em algum lugar, um cachorro latiu.

— Eu... às vezes falo umas merdas.

Virei o rosto, ele continuava olhando para a frente, não para mim.

— Às vezes?

Ele deu uma risada curta, cansada.

— Tá. Quase sempre.

Não respondi.

— Então isso justifica? – questionei.

Ele finalmente me encarou, os olhos azuis pareciam diferentes sem o barulho do galpão em volta. Menos duros, mais jovens, quase inseguros. Abriu a boca para responder, fechou de novo. Naquele instante, percebi uma coisa que mudaria completamente a forma como eu o enxergava. Cristiano era muito bom em atacar, mas não fazia a menor ideia do que fazer quando precisava pedir desculpas.

Voltamos ao trabalho, mas alguma coisa tinha mudado. As palavras já não batiam como antes, elas começavam a ricochetear. No fim do expediente, o céu ameaçava chuva, os caminhões saíam um a um, levantando um cheiro de terra molhada antes mesmo de a água cair.

Eu esperava meu pai na calçada quando Cristiano apareceu, girando as chaves da moto no dedo. Parou ao meu lado, nenhum de nós falou imediatamente. Ele chutou uma pedrinha para o meio-fio.

— Ô...

Olhei para ele.

— Você leva tudo muito a sério.

— E você acha que tudo é brincadeira.

Ele deu de ombros.

— É mais fácil.

— Pra quem?

A pergunta ficou suspensa entre nós. Pela primeira vez, Cristiano não encontrou uma resposta rápida, apenas olhou para a rua. Os ombros, normalmente firmes, pareciam um pouco mais baixos, como se estivesse cansado. Muito mais cansado do que um rapaz de dezenove anos deveria estar.

Meu pai dobrou a esquina naquele instante, o carro reduziu a velocidade diante da calçada. Abri a porta. Antes de entrar, ouvi Cristiano dizer, quase sem olhar para mim:

— Amanhã eu pago o café.

Franzi a testa.

— Tá me devendo?

Ele sorriu daquele jeito enviesado que começava a me desconcertar.

— Ainda não.

Subiu na moto dele e foi embora na chuva, se encharcando todo. Fiquei observando a lanterna vermelha desaparecer no trânsito da avenida. Era estranho. Naquela manhã, ele me chamara de "dona bicha" diante de todo o galpão. Naquela tarde, oferecera um café como quem estende uma bandeira branca.

Cristiano parecia construir pontes usando as mesmas mãos com que, minutos antes, tentava levantar muros. E talvez o mais perigoso não fosse a confusão dele, talvez fosse perceber que eu já começava a querer entendê-la.

_________

Descobri, cedo demais, que certas palavras permanecem no corpo por mais tempo do que qualquer hematoma.

"Dona bicha."

Às vezes eu tinha alguns flashs da nossa discussão: Cristiano não precisou gritar, ao contrário, disse quase rindo, diante de meia dúzia de colegas, enquanto empilhavam caixas de peças num canto do galpão. O apelido veio acompanhado daquele sorriso enviesado que eu ainda não sabia decifrar. Não era um sorriso de quem odiava, também não era de quem gostava. Era pior, era de quem precisava provar alguma coisa para os outros.

A cena se repetia na minha cabeça, antes de dormir. Conseguia ouvir o som de algumas gargalhadas, lembro que alguém bateu na lataria de um caminhão como se tivesse ouvido a melhor piada da semana. Outro dia, alguém repetiu o apelido só para prolongar a graça.

Eu continuei trabalhando, foi a única vingança digna que encontrei. Não responder, não olhar. Não dar a ninguém o espetáculo que esperavam, mas meu silêncio tinha peso. Eu sentia isso. Era um silêncio que fazia mais barulho do que qualquer discussão.

Na tarde seguinte o galpão parecia ainda maior. O cheiro de óleo queimado impregnava as roupas, o concreto devolvia o calor do sol, e o rádio velho insistia numa moda sertaneja melancólica sobre alguém que sempre ia embora tarde demais. Cristiano passou por mim duas ou três vezes. Na primeira, não disse nada. Na segunda, deixou cair um pacote de abraçadeiras de nylon perto dos meus pés.

— Foi mal.

Nem esperou resposta. Na terceira, nossos ombros quase se tocaram enquanto cruzávamos o corredor estreito entre duas prateleiras metálicas. Ele diminuiu o passo.

— Você ainda tá bravo?

Continuei andando.

— Não.

— Tá mentindo.

Parei. Olhei para ele pela primeira vez no dia.

— Você queria que eu fizesse o quê?

Ele enfiou as mãos nos bolsos.

— Sei lá...

— Brigasse?

Silêncio.

— Chorasse?

Outro silêncio.

— Ou agradecesse a sua falta de educação?

Cristiano desviou os olhos, foi curioso. Eu estava acostumado a imaginá-lo maior do que realmente era, mas, naquele instante, ele parecia apenas um rapaz de dezenove anos tentando esconder alguma coisa atrás da própria arrogância.

— Eu tava só zoando.

— Você sempre está.

Ele respirou fundo.

— Lá em casa a gente fala assim.

— Então talvez esteja na hora de aprender outro jeito.

Não esperei resposta, fui embora antes que minha coragem desistisse de mim. Passei o restante da semana convencido de que aquilo encerraria qualquer possibilidade de aproximação entre nós. O problema era que o destino parecia ter um humor particularmente perverso. Na sexta-feira, Sandra resolveu reorganizar parte do estoque.

— Mateus, você fica responsável pela conferência.

Olhou para Cristiano.

— E você ajuda.

Pensei em protestar, Cristiano também, mas nenhum dos dois abriu a boca. Durante quase três horas trabalhamos lado a lado. Sem discussão, sem piadas, sem apelidos. Só o som das caixas deslizando pelo piso áspero e o risco constante de nossos braços se encontrarem quando buscávamos a mesma prateleira.

Foi aí que percebi uma coisa estranha, Cristiano era desajeitado para pedir licença. Quando precisava passar, simplesmente diminuía a velocidade, esperando que eu percebesse sua presença. Como quem evitava encostar, ou como quem tinha medo de encostar demais.

No intervalo do café, me sentei sozinho perto do portão. Meu lanche era o mesmo de sempre. Pão com queijo, um refrigerante pequeno. Cristiano apareceu alguns minutos depois e se sentou no meio-fio. Não ao meu lado, nem longe. Naquela distância cuidadosamente calculada que permitia conversar sem parecer que queria conversar.

— Você lê muito?

Olhei para ele.

— Por quê?

— Te vejo sempre com livro debaixo do braço.

— Eu gosto.

Ele fez um gesto afirmativo.

— Nunca fui bom nisso.

— Em ler?

— Em estudar.

Sorri.

— São coisas diferentes.

Ele deu uma risada baixa.

— Pode ser.

Ficamos alguns segundos olhando os caminhões entrarem e saírem do pátio. Depois perguntou:

— Você quer fazer faculdade de quê mesmo?

Contei de novo. Ele ouviu de verdade, sem interromper, sem brincar. Quando terminei, ele comentou:

— Deve ser bom saber onde quer chegar.

A frase ficou pairando entre nós, porque eu tive a impressão de que Cristiano não sabia. Talvez nunca tivesse sabido.

Na segunda-feira seguinte, aconteceu uma pequena comoção no escritório. Meu celular recebeu uma notificação de mensagem. Número desconhecido.

“Boa tarde”.

Franzi a testa.

“Descobri seu telefone. Não pergunta como kkk”

Olhei discretamente para o galpão através da janela, Cristiano descarregava algumas caixas como se nada estivesse acontecendo. Outra mensagem.

“Ainda tá bravo?”

Levantei os olhos, na mesma hora ele olhou para o escritório. Muito rápido, quase imperceptível, mas olhou. Respondi apenas:

“Depende”.

Demorou quase cinco minutos.

“Do quê?”

“Do motivo de você ter mandado mensagem”.

Vi quando ele pegou o celular escondido atrás de uma pilha de pneus. Sorriu, guardou, pegou de novo. Digitou bastante, apagou, digitou outra vez. Meu telefone recebeu nova notificação.

“Queria conversar sem esse monte de gente ouvindo”.

Li três vezes, não parecia a mesma pessoa que me chamara de "dona bicha" poucos dias antes, ou talvez fosse justamente a mesma. E esse era o problema. Antes que eu respondesse, outra mensagem chegou.

“Se você tiver coragem... aparece lá em casa. A gente conversa”.

Fiquei olhando para a tela como quem tenta decidir se uma porta recém-aberta leva a um jardim ou a um precipício. Lá fora, Cristiano continuava trabalhando, nem sequer levantou a cabeça. Como se aquela mensagem não tivesse acabado de deslocar, silenciosamente, o eixo inteiro da nossa história.

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