A música parou como se alguém tivesse cortado a garganta da noite.
Por um instante, ninguém se mexeu.
Tomás sentiu o peso de todos aqueles olhos sobre ele. Olhos jovens, pintados de fumaça e susto. Olhos desconfiados. Olhos bêbados. Olhos que tinham aprendido a medir perigo antes de medir beleza. A sala inteira parecia presa entre o riso e a fuga, como se cada pessoa ali soubesse exatamente onde estava a saída, mas nenhuma quisesse ser a primeira a correr.
O apartamento era o 1307.
Tomás soube sem precisar perguntar.
Não era igual ao seu, mas era o mesmo. Ou melhor: era o que o seu tinha sido antes de virar silêncio. A sala parecia maior, talvez porque houvesse menos móveis, talvez porque a juventude sempre faça os lugares parecerem mais amplos. Cortinas pesadas cobriam as janelas. Abajures espalhavam uma luz baixa, âmbar, que deixava tudo com cor de pele aquecida. Havia copos sobre a mesa, cinzeiros cheios, discos empilhados no chão, almofadas jogadas, camisas abertas, gargalhadas interrompidas no meio.
O ar era denso.
Cigarro, perfume, suor, bebida doce, café velho, sabonete, medo.
E desejo.
Desejo por toda parte.
Não um desejo vulgar, exposto de qualquer maneira, mas um desejo mais antigo, mais perigoso, quase sagrado. O desejo de quem, fora dali, precisava esconder a voz, o gesto, a mão demorando demais no ombro de outro homem. Ali dentro, porém, mesmo com medo, os corpos pareciam recuperar uma língua perdida.
Tomás viu dois homens sentados perto da janela, um encostado ao outro com naturalidade estudada. Um deles mantinha a mão sobre o joelho do outro, discreta, mas firme, como se dissesse: estou aqui, mesmo que o mundo não permita. Perto da vitrola, um rapaz de bigode sorria com a boca quase colada ao ouvido de outro. No corredor, uma mulher de olhos fortes acendia um cigarro para um homem magro que usava lenço vermelho no pescoço. Havia uma liberdade naquele apartamento, mas era uma liberdade com tranca na porta.
Raul Montenegro estava no centro de tudo.
Não apenas porque havia falado. Mas porque parecia emitir luz própria.
Usava uma camisa branca aberta no peito, mangas dobradas, calça escura, cabelo levemente comprido, pele morena sob a luz quente. O sorriso era o mesmo da fotografia, só que vivo tinha outra coisa: uma insolência macia, um prazer em existir que parecia, por si só, uma afronta.
Tomás entendeu imediatamente por que alguém poderia se perder por ele.
Raul ergueu o copo novamente, como se a tensão fosse só uma brincadeira mal conduzida.
— Respirem, meus amores. Se fossem polícia, teriam entrado sem pedir licença.
Ninguém riu de primeira.
Depois, uma risada curta escapou de alguém perto da janela. Outra veio do corredor. Aos poucos, o apartamento pareceu voltar ao movimento, mas não completamente. A música continuava parada. Os convidados ainda olhavam para Tomás e Dante como se ambos fossem uma rachadura aberta no meio da festa.
Do fundo da sala, Daniel Nogueira permanecia de pé.
O Dante de 1979.
A semelhança era mais violenta ao vivo.
Tomás olhou para Dante ao seu lado e depois para Daniel. Era como ver o mesmo homem atravessado por duas épocas diferentes. Daniel era um pouco mais jovem, talvez trinta e poucos anos. Tinha os cabelos mais longos, a barba mais marcada, a camisa azul aberta no colarinho. O rosto, porém, carregava a mesma contenção. A mesma sombra atrás dos olhos. A mesma elegância ferida.
Dante ficou imóvel.
Tomás percebeu que sua mão ainda segurava a dele.
Não soltou.
Daniel olhou para as mãos unidas. Depois para o rosto de Dante. Depois para Raul.
— Que brincadeira é essa? — perguntou.
Sua voz era quase igual.
Não idêntica. A de Daniel tinha menos cansaço e mais raiva.
Raul sorriu.
— Eu ainda estou decidindo.
— Raul.
O nome, na boca de Daniel, não era só advertência. Era intimidade. Era posse. Era súplica disfarçada de bronca.
Raul deu alguns passos até eles. A sala abriu caminho para sua passagem, como se ele fosse dono não do apartamento, mas da noite. Parou diante de Tomás primeiro. Olhou-o de cima a baixo, não de modo grosseiro, mas com uma curiosidade tão direta que fez Tomás sentir a própria pele despertar.
— Você é ainda mais bonito fora do espelho — Raul disse.
Dante apertou a mão de Tomás.
— Não provoca.
Raul virou o rosto para ele.
— Eu? Nunca.
Daniel se aproximou.
— Quem são eles?
Raul olhou para Dante com ironia.
— Um deles é você com mais silêncio.
Dante respondeu antes que Tomás pudesse impedir:
— E você é Raul Montenegro.
A sala esfriou.
Algumas pessoas trocaram olhares.
Raul inclinou a cabeça, divertido.
— Isso eu sou desde que nasci. Você fala como se meu nome fosse notícia.
— Para nós é.
Daniel estreitou os olhos.
— Para nós quem?
Tomás sentiu que precisava assumir algum controle antes que tudo se partisse.
— Eu sou Tomás. Ele é Dante.
Daniel reagiu ao nome.
Pouco.
Mas reagiu.
Dante também percebeu.
— Dante? — Daniel repetiu.
Raul riu baixo.
— Bonito, não? Até o futuro tem bom gosto para tragédias.
Daniel deu um passo em direção a Raul.
— O que você fez?
— Nada ainda.
— Raul.
— Daniel.
Os dois nomes se tocaram no ar como duas mãos que não podiam se tocar em público.
A música voltou de repente.
Não porque alguém tivesse colocado a agulha no disco. A vitrola simplesmente retomou de onde havia parado, soltando uma canção lenta, cheia de metais e melancolia. O som pareceu atravessar as pessoas. Algumas conversas recomeçaram. Alguém aumentou a risada por nervosismo. Um casal voltou a dançar no canto.
Mas Daniel continuava encarando Raul.
— Cozinha — Daniel disse.
Não foi convite. Foi ordem.
Raul sorriu para Tomás.
— Não suma.
— Difícil — Tomás respondeu. — Acho que a saída acabou de ir embora.
Raul gostou da resposta.
— Inteligente também. Que desperdício.
Daniel segurou o braço de Raul e o levou pelo corredor.
Dante observou os dois desaparecerem.
Só então soltou a mão de Tomás.
A ausência do toque foi imediata.
Tomás olhou para os próprios dedos, como se tivessem perdido temperatura.
— Você está bem? — perguntou.
— Não.
— Resposta honesta. Evoluímos.
Dante não sorriu.
Seus olhos continuavam presos ao corredor por onde Daniel e Raul haviam saído.
— Ele tem meu rosto.
— Você tem o rosto dele.
— Não ajuda.
— Não era para ajudar.
Dante passou a mão pela nuca, inquieto pela primeira vez desde que Tomás o conhecera.
— Minha família dizia que Daniel tinha desaparecido. Só isso. Uma vergonha antiga. Um nome evitado em almoço. Eu vi fotos, documentos, recortes. Mas vê-lo assim...
— Vivo.
— Antes de deixar de estar.
Tomás olhou ao redor.
A festa havia retomado uma aparência de normalidade, mas a presença deles ainda causava ondas. Pessoas olhavam de canto. Cochichavam. Um rapaz magro, de olhos muito pretos, passou por Tomás e sorriu como se soubesse mais do que dizia.
— Vocês são amigos do Raul? — perguntou.
Tinha talvez vinte e poucos anos, cabelo cheio, camisa estampada aberta no peito, uma beleza nervosa.
— Depende do tempo verbal — Tomás disse.
O rapaz riu.
— Aqui ninguém depende de tempo verbal. Só de chave, sorte e silêncio.
— Qual é seu nome?
Ele hesitou.
Depois respondeu:
— Hoje? André.
— Hoje?
— Nome é coisa perigosa, querido. A gente usa o que pode.
Aquilo deu título à noite antes mesmo de Tomás perceber.
A festa dos homens sem nome.
André ofereceu um copo a Tomás.
Dante interceptou.
— Não bebe.
André ergueu as sobrancelhas.
— Que marido chato.
— Ele não é meu marido — Tomás disse rápido demais.
André olhou para os dois, demorando-se na distância que havia entre eles. Ou na falta dela.
— Ainda não?
Tomás sentiu calor no rosto.
Dante pegou o copo e colocou sobre uma mesa.
— Estamos procurando uma saída.
André achou graça.
— Todos estamos.
— Do apartamento.
— Ah. Essa é mais fácil.
— Então?
André apontou para a porta.
Dante foi até ela e tentou abrir.
A maçaneta não girou.
André sorriu com pena.
— Eu disse mais fácil. Não disse possível.
Tomás aproximou-se.
— A porta não abre?
— Abre quando a noite deixa.
— E quando ela deixa?
André olhou para a vitrola.
— Quando termina a música certa.
— Que música?
— Ninguém sabe antes de tocar.
Dante voltou para perto de Tomás.
— Isso não faz sentido.
André soltou uma risada curta.
— Você entrou num elevador que trouxe seu rostinho bonito para 1979 e está exigindo sentido?
Tomás gostou dele.
Dante, claramente, não.
— Você conhece Raul bem? — Tomás perguntou.
O sorriso de André diminuiu.
— Quem conhece Raul bem se machuca.
— E Daniel?
— Daniel já nasceu machucado. Raul só deu endereço.
Antes que pudessem perguntar mais, um grito abafado veio da cozinha.
Não era grito de medo. Era discussão.
Dante caminhou imediatamente para o corredor. Tomás foi atrás.
A cozinha era estreita, iluminada por uma lâmpada branca que deixava tudo mais cru. Raul estava encostado na pia, copo na mão. Daniel estava diante dele, tenso, os dedos fechados como se segurasse uma vontade antiga de tocar ou sacudir o outro.
— Você chamou isso? — Daniel dizia.
— Eu não chamei nada.
— Mentira.
— Você adora quando eu minto. Diz que minha boca fica bonita.
Daniel avançou um passo.
— Não brinca comigo.
Raul perdeu o sorriso.
E foi a primeira vez que Tomás viu nele algo além de charme.
Cansaço.
Medo.
— Eu estou tentando salvar você — Raul disse.
Daniel riu sem humor.
— De quê?
— De mim.
O silêncio que veio depois era íntimo demais para testemunhas.
Tomás sentiu que deveria recuar. Dante, porém, permaneceu parado, como se não conseguisse sair.
Daniel olhou para a porta e viu os dois.
— Fora.
Raul virou-se também.
— Não. Eles ficam.
— Raul.
— Eles vieram porque ainda estamos presos.
Daniel ficou pálido.
— Cala a boca.
— Não adianta. Olha para eles. Olha para ele.
Raul apontou para Dante.
— Você sabe o que é isso?
Daniel não respondeu.
— É o que acontece quando uma história não termina direito.
Dante deu um passo para dentro da cozinha.
— O que aconteceu com vocês?
Daniel olhou para ele como se a pergunta doesse fisicamente.
— Nada aconteceu ainda.
— Vai acontecer hoje.
A frase de Dante caiu como um copo quebrado.
Raul fechou os olhos por um segundo.
— Então é hoje mesmo.
Tomás sentiu um calafrio.
— Vinte e oito de julho de 1979.
Raul abriu os olhos.
— Você ouviu a fita.
— Ouvi.
Daniel olhou para Raul.
— Que fita?
Raul levou o copo à boca, mas não bebeu.
— Uma despedida covarde. Eu devia ter caprichado mais.
Daniel segurou o pulso dele.
O gesto foi rápido. Mas não foi apenas raiva.
A mão de Daniel envolveu a pele de Raul com uma familiaridade que fez o ar da cozinha mudar. Raul olhou para os dedos em seu pulso. Depois para Daniel. Por um segundo, tudo o que havia entre eles ficou visível: desejo, mágoa, dependência, medo, ternura, exaustão.
— Não faz isso comigo — Daniel disse, baixo.
Raul respondeu no mesmo tom:
— Eu já fiz.
Tomás desviou os olhos.
Não por pudor. Por respeito.
Havia intimidades que eram mais nuas do que corpo.
Dante, porém, não conseguia desviar. Talvez porque visse ali uma parte da própria história. Talvez porque Daniel fosse seu fantasma de sangue. Talvez porque Raul tivesse exatamente o tipo de beleza que arrasta homens para portas erradas.
Raul soltou o pulso com delicadeza.
— A festa precisa continuar.
Daniel parecia prestes a quebrar.
— Você vai encontrar ele?
— Vou.
— Depois do que ele pediu?
— Principalmente depois do que ele pediu.
Dante interveio:
— Quem?
Raul olhou para ele.
— O homem da casa de máquinas.
A lâmpada da cozinha piscou.
No apartamento, a música falhou por um segundo.
Daniel fechou os olhos.
— Não fala esse nome.
— Isso não é nome — Raul disse. — É endereço.
Tomás lembrou-se da fita.
O homem da casa de máquinas me prometeu uma saída.
Mas no Copan toda saída cobra aluguel.
— Que saída? — Tomás perguntou.
Raul sorriu, mas sem alegria.
— A única que homens como nós tinham naquela época.
— Fugir?
— Desaparecer com alguma dignidade.
Daniel bateu o copo sobre a pia.
— Isso não é dignidade. É morte com decoração.
Raul virou-se para ele com fúria repentina.
— E ficar é o quê? Esperar te levarem? Esperar teu pai descobrir? Esperar teus amigos rirem? Esperar me baterem na rua? Esperar você casar com alguma moça triste e me visitar nas quintas como quem comete um pecado doméstico?
Daniel absorveu cada palavra como golpe.
— Eu ia contar.
Raul riu.
— Para quem? Para sua família? Para o mundo? Para o porteiro?
— Para você.
A raiva de Raul oscilou.
Daniel se aproximou.
— Eu ia te pedir para ir embora comigo.
Raul parou de respirar.
Tomás sentiu o mundo ao redor diminuir.
— Quando? — Raul perguntou.
— Hoje.
O ruído da festa parecia distante agora.
A cozinha virou o centro secreto do edifício.
Raul olhou para Daniel como se, por um segundo, toda sua coragem tivesse perdido função. Sem ironia, sem pose, sem o brilho insolente. Apenas um homem diante da possibilidade de ser amado de volta com a mesma violência com que amava.
— Hoje? — repetiu.
Daniel assentiu.
— Depois da festa.
Raul passou a mão pelo rosto.
— Você escolheu a pior noite para virar herói.
— E você escolheu a pior para virar lenda.
Eles ficaram próximos.
Próximos demais.
Tomás sabia que deveria olhar para outro lugar, mas não conseguiu. Daniel levantou a mão e tocou o rosto de Raul. Não foi um carinho suave. Foi um toque desesperado, como se precisasse confirmar que ele ainda era carne, que ainda podia ser impedido, convencido, amado.
Raul fechou os olhos.
A boca de Daniel tocou a dele.
O beijo começou com raiva.
Depois se desmanchou em outra coisa.
Não havia nada vulgar ali. Era um beijo de homens que tinham brigado com o mundo inteiro e ainda não sabiam se venceriam um ao outro. Daniel segurou Raul pela cintura, puxando-o contra si. Raul resistiu por um segundo, talvez por orgulho, talvez por medo de ceder. Depois cedeu. As mãos dele subiram pelas costas de Daniel, agarraram o tecido da camisa, prenderam-se ali como se a roupa fosse a última borda antes da queda.
Tomás sentiu o próprio corpo responder à cena não como desejo simples, mas como comoção física. Havia uma beleza quase insuportável em ver dois homens se amando no limite do desastre. A pele se arrepiava não apenas pelo calor, mas pelo perigo que fazia cada gesto parecer definitivo.
Dante virou o rosto.
Tomás percebeu.
— Está tudo bem?
— Não sei.
A resposta veio crua.
Na cozinha, Raul afastou-se primeiro.
Respirava mal.
Daniel encostou a testa na dele.
— Não vai — pediu.
Raul abriu os olhos.
— Se eu não for, ele vem.
— Que venha.
— Você não sabe o que está dizendo.
— Eu sei que prefiro enfrentar qualquer coisa a te perder para um elevador.
Raul sorriu triste.
— Você fala como se tivesse escolha.
A campainha tocou.
Não a da porta principal.
Um som mais antigo, mais seco.
Vindo de dentro do apartamento.
Todos congelaram.
A música parou novamente.
Da sala veio um silêncio pesado.
Depois, a voz de André:
— Raul?
Raul se afastou de Daniel.
A campainha tocou de novo.
Dante olhou para Tomás.
— Isso é o elevador.
Raul passou entre eles.
— A noite está andando.
Daniel segurou seu braço.
— Não.
Raul olhou para a mão dele.
— Se me ama, não me segura assim.
Daniel soltou como se tivesse sido queimado.
Raul voltou para a sala.
Tomás e Dante seguiram.
A atmosfera da festa havia mudado. Ninguém ria mais. Os convidados estavam parados, alguns com copos na mão, outros junto às paredes. No centro da sala, a vitrola girava sem música. As cortinas pareciam respirar, infladas por um vento que não vinha de janela nenhuma.
A porta do apartamento estava aberta.
Do lado de fora, o corredor do décimo terceiro andar se estendia escuro.
Mas não era o mesmo corredor.
As lâmpadas piscavam. As paredes pareciam mais longas. Ao fundo, a porta do elevador de serviço estava aberta, revelando uma cabine sem luz.
Raul caminhou até a entrada do apartamento.
Daniel veio atrás.
— Se você sair por essa porta, eu vou junto.
Raul virou-se.
— Não.
— Sim.
— Daniel, pela primeira vez na vida, me obedece.
— Nunca fui bom nisso.
Os dois se encararam.
A festa inteira assistia.
Tomás sentiu Dante ao seu lado. Muito perto. Suas mãos não se tocavam, mas havia uma tensão ali, como se ambos soubessem que qualquer gesto pequeno poderia se tornar grande demais.
A situação toda era um espelho.
Raul e Daniel.
Tomás e Dante.
1979 e 2026.
O prédio dobrando o tempo para repetir uma pergunta.
Quem você tenta salvar quando entra no escuro?
Raul olhou para Tomás.
— Você escreve, não escreve?
Tomás estranhou.
— Como sabe?
— Você tem cara de quem transforma dor dos outros em frase bonita.
Tomás não conseguiu responder.
Raul aproximou-se e lhe entregou algo.
Uma chave pequena.
— Então escreve direito.
— O quê?
— Que nós existimos.
A frase atingiu a sala.
Algumas pessoas desviaram o olhar. Outras sustentaram, como se também precisassem ouvir aquilo.
Raul continuou:
— Não escreve só que morremos, desaparecemos, fomos caçados, escondidos, envergonhados. Escreve que dançamos. Que rimos. Que desejamos. Que fomos belos, insuportáveis, covardes, corajosos, ridículos, apaixonados. Escreve que a gente teve corpo. Porque é sempre isso que tentam apagar primeiro.
Tomás fechou os dedos ao redor da chave.
— Eu prometo.
Raul sorriu.
— Promessa de escritor vale pouco, mas às vezes é tudo que sobra.
Dante deu um passo à frente.
— Raul, se você entrar nesse elevador, desaparece.
Raul olhou para ele com estranha ternura.
— Meu bonito, eu já desapareci. Você só está vendo o momento em que isso começou.
Daniel empurrou Dante para o lado e segurou Raul pelo rosto.
— Olha para mim.
Raul olhou.
Daniel tinha os olhos molhados, mas não chorava.
— Eu vou com você.
— Não.
— Eu vou.
— Você precisa ficar.
— Para quê?
Raul tocou o peito de Daniel, bem sobre o coração.
— Para lembrar.
Daniel riu, quebrado.
— Isso é castigo.
— Eu sei.
— Raul.
— Meu amor.
A palavra saiu baixa.
Mas todos ouviram.
Meu amor.
Naquele apartamento onde muitos nomes eram falsos, aquela era a única identidade verdadeira.
Daniel beijou Raul de novo.
Desta vez, não havia raiva.
Havia despedida.
O beijo foi lento, profundo, cheio de uma ternura que parecia arrancar o ar de quem assistia. Raul segurou o rosto de Daniel com as duas mãos. Daniel o puxou pela cintura. Não havia pressa, apesar do perigo. Ou talvez justamente por causa dele. O tempo pareceu se curvar para dar aos dois alguns segundos roubados. A boca, a respiração, o rosto encostado, a mão tremendo na nuca, o corpo inteiro dizendo o que o mundo não deixava dizer em voz alta.
Tomás sentiu os olhos arderem.
Dante, ao lado dele, estava imóvel.
Quando Raul se afastou, Daniel tentou segui-lo.
Raul colocou a mão em seu peito.
— Fica.
— Eu não consigo.
— Consegue. Você sempre conseguiu coisas horríveis.
Daniel fechou os olhos.
Raul saiu para o corredor.
O elevador de serviço esperava.
A cabine escura parecia uma boca aberta.
Tomás segurou a chave pequena com força.
— Dante — sussurrou.
— Eu sei.
Mas ele não sabia o quê.
Talvez que precisavam impedir. Talvez que não podiam. Talvez que algumas tragédias, quando revisitadas, não querem ser alteradas; querem apenas ser testemunhadas.
Raul parou diante do elevador.
Do interior da cabine veio uma voz.
Masculina.
Baixa.
Quase gentil.
— Você demorou.
Raul endireitou os ombros.
— Eu estava dançando.
— Sempre vaidoso.
— Sempre faminto.
A voz riu.
Tomás não via ninguém dentro da cabine. Apenas escuridão.
Daniel deu um passo para fora do apartamento.
Dante o segurou.
Foi estranho ver Dante segurando Daniel, como se um homem impedisse o próprio passado de se destruir. Daniel tentou se soltar.
— Me larga.
— Se você for, talvez tudo piore.
— Ele é meu.
A frase saiu crua, desesperada.
Dante respondeu baixo:
— Então sobreviva para dizer isso.
Daniel parou.
Raul entrou no elevador.
As portas começaram a se fechar.
Daniel gritou:
— Raul!
Raul olhou para ele pela fresta.
E sorriu.
Não o sorriso insolente.
Outro.
Um sorriso pequeno, nu, quase menino.
— Em outra vida, Daniel.
As portas se fecharam.
O elevador desceu.
A festa ficou imóvel.
Por alguns segundos, ninguém respirou.
Então as luzes do corredor apagaram uma a uma.
A escuridão avançou em direção ao apartamento como água.
Os convidados começaram a se mover ao mesmo tempo. Pânico contido, cadeiras arrastando, copos caindo, murmúrios, alguém chorando. André apareceu ao lado de Tomás.
— Agora vocês precisam ir.
— Para onde? — Tomás perguntou.
— Para quando vocês pertencem.
— Como?
André apontou para a vitrola.
O disco girava sozinho.
— Quando a música certa tocar.
— Você sabe qual é?
André sorriu triste.
— Raul sabia. Mas Raul acabou de escolher teatro.
Daniel estava parado na porta, olhando o corredor vazio.
Dante se aproximou dele.
— Daniel.
O homem virou devagar.
Ver os dois frente a frente era quase insuportável.
Daniel olhou para Dante como se só agora entendesse de verdade.
— Você é meu sangue?
Dante assentiu.
— Sim.
— Eu sobrevivo?
Dante hesitou.
A pergunta era simples e cruel.
— Por um tempo.
Daniel compreendeu a resposta inteira.
— Eu encontro ele?
Dante não respondeu.
Daniel riu baixo, com os olhos cheios d’água.
— Que família covarde a nossa, hein?
Dante pareceu atingido.
— Eu tentei descobrir sobre você.
— Descobrir não é o mesmo que lembrar.
— Eu sei.
Daniel olhou para Tomás.
— Ele é seu?
Tomás ficou sem reação.
Dante respondeu:
— Não.
Daniel encarou a pequena distância entre os dois, a tensão, a história ainda começando.
— Então pare de desperdiçar tempo.
Dante não disse nada.
Tomás sentiu a frase entrar nele como calor.
Da vitrola começou uma nova música.
Lenta.
Grave.
Uma canção de amor antiga, arranhada, quase deformada pelo tempo.
André arregalou os olhos.
— É essa.
O apartamento começou a tremer.
As paredes respiraram.
Todas ao mesmo tempo.
Não era uma única respiração agora. Eram muitas. Homens, mulheres, amantes, vizinhos, mortos, vivos, todos os que tinham passado por ali e deixado parte do ar dentro do concreto.
O quarto do 1307 abriu sozinho.
Lá dentro, a parede atrás da cama estava rachada.
Não fisicamente.
Era uma rachadura de sombra. Um corte vertical no ar, mostrando do outro lado não tijolo, mas o interior metálico de um elevador.
Dante pegou a mão de Tomás.
Sem hesitar.
— Vamos.
Tomás olhou para Daniel.
Ele permanecia na sala, destruído, mas de pé.
— E ele?
Daniel ouviu.
— Eu fico.
— Mas—
— Alguém precisa ficar para que vocês possam encontrar o resto.
Dante apertou os olhos.
— Que resto?
Daniel caminhou até Tomás e pegou sua mão. Colocou nela outro objeto: um botão de elevador antigo, redondo, com a letra S gravada.
— A casa de máquinas não fica em cima — Daniel disse. — Esse foi o primeiro truque.
Tomás fechou os dedos ao redor do botão.
— Fica no subsolo?
Daniel sorriu sem alegria.
— Fica onde o prédio guarda aquilo que caiu.
O tremor aumentou.
André gritou da sala:
— Agora!
Dante puxou Tomás em direção ao quarto.
Antes de atravessarem a rachadura, Tomás olhou uma última vez para a festa.
Viu André acendendo um cigarro com as mãos trêmulas.
Viu casais se separando por medo e depois se buscando de novo.
Viu mulheres recolhendo copos, homens chorando em silêncio, gente tentando decorar o rosto dos outros antes que a memória fosse proibida.
Viu Daniel parado no centro da sala, olhando para o lugar onde Raul estivera.
Então Daniel virou-se para Dante e disse:
— Não vire só um homem que sobrevive.
Dante fechou os olhos por um segundo.
Depois atravessou a rachadura com Tomás.
O mundo virou metal, sombra e queda.
Eles estavam de volta ao elevador de serviço.
A cabine tremia, descendo rápido. As luzes piscavam. O espelho no fundo estava coberto de vapor, como se alguém respirasse contra ele do lado de dentro.
Tomás ainda segurava a mão de Dante.
Desta vez, nenhum dos dois fingiu que era necessário.
— Você ouviu o que ele disse? — Tomás perguntou.
Dante olhava fixamente para os números enlouquecidos no painel.
— Ouvi.
— Sobre desperdiçar tempo.
Dante virou-se.
A cabine era pequena demais. A noite era impossível demais. O medo era grande demais. Talvez por isso, quando Dante se aproximou, Tomás não recuou.
O beijo veio diferente do primeiro.
Menos pergunta.
Mais resposta.
Dante segurou o rosto de Tomás com as duas mãos e o beijou como quem acabara de ver uma vida inteira ser perdida por hesitação. Tomás sentiu o impacto daquele gesto no corpo todo: a firmeza dos dedos, a boca quente, a respiração irregular, o peito de Dante contra o seu. Não havia suavidade excessiva, mas havia cuidado. Não havia vulgaridade, mas havia fome. Uma fome triste, humana, urgente.
O elevador despencava ou subia; já não dava para saber.
Tomás agarrou a camisa de Dante, sentindo o tecido amassar sob seus dedos. O beijo se aprofundou, ganhou calor, perdeu a vergonha. Por um instante, não havia Raul, Daniel, casa de máquinas, morte ou tempo. Havia apenas dois homens tentando provar que ainda estavam vivos.
Quando se afastaram, Dante encostou a testa na dele.
— Isso foi desperdício? — Tomás perguntou, sem fôlego.
Dante passou o polegar pela lateral de seu rosto.
— Não.
A palavra mal saiu.
Mas ficou.
O elevador parou.
As portas se abriram.
Do lado de fora estava o corredor do décimo terceiro andar em 2026.
Silencioso.
Vazio.
Frio.
Tomás e Dante saíram.
O apartamento 1307 estava com a porta aberta.
Lá dentro, tudo parecia como antes. Sofá, mesa, janela, caderno. Mas sobre a mesa havia uma coisa que não estava ali quando saíram: um copo antigo, ainda úmido, com marca de batom vermelho na borda e cheiro de bebida doce.
Ao lado dele, um bilhete.
Tomás pegou.
A letra era de Raul.
Vocês viram a festa.
Agora descubram quem convidou o homem errado.
Dante leu por cima do ombro dele.
No corredor, atrás dos dois, o elevador de serviço fechou as portas.
Antes de descer, uma voz saiu de dentro da cabine.
A mesma voz masculina, gentil e escura.
— Eu também gostei de você, Tomás.
Dante virou-se imediatamente.
As portas já estavam fechadas.
O elevador desceu.
Tomás permaneceu imóvel, sentindo o beijo ainda vivo na boca e o medo começando a ocupar o espaço deixado por ele.
Sobre a mesa, o copo antigo trincou sozinho.
E, de dentro da rachadura no vidro, saiu uma única gota de sangue.