Tomás chegou ao Copan numa tarde em que São Paulo parecia ter sido lavada por dentro.
A chuva caía fina, persistente, dessas que não fazem barulho de tempestade, mas entram no corpo como pensamento ruim. Pela janela do táxi, a Avenida Ipiranga brilhava escura, coberta de poças, faróis e passos apressados. A cidade inteira parecia escorrer: pelos vidros dos ônibus, pelas marquises, pelas fachadas antigas, pelos ombros das pessoas que atravessavam a rua com sacolas, pastas e guarda-chuvas cansados.
Ele vinha com duas malas, uma mochila, um caderno preto e a sensação incômoda de estar chegando atrasado à própria vida.
Quando o táxi parou, Tomás olhou para cima.
O Copan não parecia um prédio. Parecia uma onda imóvel. Uma curva imensa de concreto cortando o centro da cidade, cheia de janelas, grades, plantas, cortinas, roupas no varal, luzes acesas no meio da tarde. A fachada ondulada dava a impressão de que o edifício respirava com São Paulo; não se impunha sobre a cidade, mas se enroscava nela.
Havia qualquer coisa de corpo naquele desenho.
Um corpo antigo, habitado demais, cheio de dobras, segredos, cansaços e memórias.
Tomás sempre achara o Copan bonito de um jeito difícil. Não bonito como os prédios novos, limpos e sem culpa. Bonito como uma cicatriz. Como uma boca que já disse coisas demais. Como um homem mais velho sentado sozinho no balcão de um bar, carregando no silêncio uma história que ninguém teve coragem de perguntar.
O motorista abriu o porta-malas.
— É aqui mesmo?
Tomás demorou um segundo antes de responder.
— É.
A palavra saiu baixa, quase sem convicção.
Desceu. A chuva entrou pela gola da camisa, molhou o cabelo, grudou o tecido nas costas. Ele puxou a primeira mala, depois a segunda, ajeitou a mochila no ombro e ficou por um instante parado diante da entrada, sendo atravessado pelo movimento do térreo.
Gente entrava e saía como se o prédio fosse uma estação, uma rua, um bairro inteiro enfiado dentro de concreto. Havia cheiro de café, fritura, pão quente, cigarro antigo, produto de limpeza e roupa úmida. Uma mulher passou rindo ao telefone. Um entregador equilibrava sacolas. Dois homens discutiam baixo perto da portaria. Um cachorro pequeno latiu para a própria sombra no piso brilhante.
Tomás respirou fundo.
Trinta e quatro anos. Jornalista cultural. Solteiro. Exausto de escrever sobre a cidade como se estivesse sempre do lado de fora dela.
A ideia era simples: passar três meses morando no Copan para escrever uma série de reportagens sobre o edifício. Histórias de moradores, memórias do centro, arquitetura, solidão, vizinhança, decadência, renascimento, essas palavras bonitas que editor adora colocar em chamada de domingo.
O apartamento era de um amigo que se mudara para Lisboa e deixara tudo mobiliado. “Fica lá, escreve, bebe, conhece gente estranha. Copan sempre dá história”, ele dissera, rindo pelo telefone.
Tomás não sabia se queria histórias.
Talvez quisesse desaparecer dentro de uma.
Na portaria, um homem de cabelo branco conferiu seu nome em uma lista impressa. Tinha olhos pequenos, atentos, desses que parecem nunca olhar diretamente, mas percebem tudo.
— Tomás Azevedo?
— Sou eu.
O porteiro entregou-lhe um envelope com a chave e uma folha dobrada.
— Bloco B. Décimo terceiro andar. Apartamento 1307.
Tomás ergueu os olhos.
— Décimo terceiro?
— Aqui tem de tudo, senhor.
O modo como ele disse aquilo impediu qualquer piada.
Tomás pegou o envelope.
— Essa folha é o quê?
— Regras do condomínio.
Ele abriu enquanto caminhava para os elevadores. A maior parte era comum: silêncio depois das vinte e duas horas, cuidado com encomendas, descarte correto do lixo, proibição de deixar objetos no corredor, aviso sobre manutenção. Mas no rodapé da página, escrito à mão com caneta azul, havia uma frase que parecia não pertencer ao restante do documento.
Evite os elevadores de serviço depois das três.
Tomás parou no meio do caminho.
Leu de novo.
A letra era fina, inclinada, antiga.
Olhou para trás, procurando o porteiro, mas ele já atendia outra pessoa.
Um arrepio pequeno subiu por sua nuca. Não era medo ainda. Era aviso. O tipo de incômodo que o corpo sente antes da cabeça formar uma explicação.
Guardou a folha no bolso.
O elevador chegou com um suspiro metálico.
Dentro dele, o espelho parecia cansado. Devolvia as imagens com uma leve distorção, como se demorasse meio segundo a reconhecer os rostos. Tomás entrou com as malas. Uma senhora de sacolas entrou depois. Um rapaz com fone de ouvido se apoiou no canto. Um homem de terno molhado olhava fixamente para o celular.
O elevador começou a subir.
No terceiro, o homem desceu.
No sexto, a senhora.
No décimo, o rapaz.
Tomás ficou sozinho.
O silêncio dentro do elevador era diferente do silêncio do térreo. Mais fechado, mais íntimo. O som dos cabos, o tremor leve da cabine, o cheiro de metal antigo e perfume acumulado nas paredes.
Ele encarou o próprio reflexo.
Cabelo escuro molhado, barba por fazer, camisa azul grudada nos ombros, olheiras que não eram só de sono. O rosto de alguém que ainda tentava parecer inteiro por educação.
Então o espelho embaçou.
Não por completo. Apenas uma névoa fina, no centro, como se alguém tivesse acabado de respirar contra o vidro.
Tomás franziu a testa.
A névoa cresceu por um segundo. Atrás de seu reflexo, apareceu outro rosto.
Masculino.
Pálido.
Bonito de um jeito triste.
Antes que Tomás pudesse entender, o elevador deu um solavanco e as portas se abriram.
Décimo terceiro andar.
Ele saiu depressa, puxando as malas atrás de si.
O corredor era comprido, estreito, de luz amarela. Portas iguais, tapetes diferentes, números metálicos, vasos pequenos, cheiro de comida vindo de algum apartamento. Ao longe, uma televisão ligada. Mais perto, o som de uma torneira. Em algum lugar, alguém ria, mas o riso pareceu terminar rápido demais.
O apartamento 1307 ficava quase no fim do corredor, perto de uma janela basculante que dava para um vão interno. Tomás colocou a chave na fechadura. Ela resistiu. Tentou de novo. Dessa vez, girou com um estalo seco.
Quando abriu a porta, o apartamento estava escuro.
Não era grande. Sala pequena, cozinha estreita, quarto, banheiro. Móveis simples, um sofá cinza, uma mesa redonda, estante vazia, cortinas bege, piso frio. Havia caixas deixadas pelo amigo, uma luminária torta, um quadro sem graça na parede. A janela da sala dava para uma vista recortada do centro: prédios, antenas, fios, janelas acesas, a cidade sobreposta a si mesma.
Tomás entrou.
O cheiro era de lugar fechado, mas havia algo por baixo. Lavanda antiga, poeira, umidade e uma nota metálica, quase como chave molhada.
Deixou as malas perto do sofá, abriu a janela e a cidade entrou inteira. Buzinas, motores, vozes distantes, chuva, sirene, vida.
— Pronto — disse em voz baixa.
Mas a palavra não se espalhou pelo apartamento. Caiu no chão.
Ele passou a tarde desfazendo as malas.
Colocou as roupas nas gavetas, os livros na estante, o notebook sobre a mesa. Guardou o café na cozinha, o vinho barato em cima da pia, o caderno preto ao lado da cama. O quarto era o cômodo mais simples e, ainda assim, o mais estranho. A parede atrás da cama parecia mais fria que as outras.
Tomás encostou a mão nela.
O frio atravessou sua pele.
Não era uma parede apenas gelada. Era como tocar a testa de alguém morto.
Retirou a mão rápido.
— Ótimo — murmurou. — Apartamento com personalidade.
Tentou rir sozinho, mas não conseguiu.
Sentou-se na cama, abriu o caderno e escreveu na primeira página:
COPAN — HISTÓRIAS POSSÍVEIS
Depois ficou olhando para a frase.
Acrescentou:
1. O prédio como organismo.
Gostou.
O Copan como corpo. Elevadores como veias. Corredores como artérias. Apartamentos como órgãos privados. Janelas como olhos. Paredes como pele. Um corpo onde milhares de vidas entravam e saíam, deixando calor, cheiro, mancha, memória.
Antes que pudesse continuar, bateram à porta.
Tomás não esperava ninguém.
Foi abrir.
Do lado de fora havia uma senhora baixa, de cabelos brancos volumosos, vestido estampado e batom vermelho. Segurava um prato coberto com pano de copa.
— Você é o novo do 1307.
Não era pergunta.
— Sou. Tomás.
— LúciaTrouxe bolo.
Ela entrou antes que ele convidasse, como se tivesse intimidade não com ele, mas com o apartamento. Tomás ficou segurando a porta aberta por um segundo, surpreso, depois fechou.
— Obrigado. Não precisava.
— Precisava. Apartamento vazio fica malcriado se não recebe comida no primeiro dia.
Lúcia colocou o prato sobre a mesa e olhou em volta. Não com curiosidade, mas com reconhecimento. Seus olhos passaram pela sala, pela janela, pela cozinha, pelo corredor que levava ao quarto.
Quando viu a cama pela porta aberta, perdeu um pouco do sorriso.
— Você vai dormir ali?
— Na cama? Pretendo.
— Hm.
— Tem algum problema?
Ela olhou para ele.
— Todo quarto tem um lado certo para dormir.
— E esse lado não é perto da parede?
— Depende da parede.
Tomás esperou que ela explicasse. Lúcia apenas puxou uma cadeira e se sentou.
Ele tirou o pano do prato. Bolo de fubá. Ainda morno.
— Café? — perguntou.
— Aceito.
Enquanto preparava o café, Tomás sentia os olhos dela sobre o apartamento. Não sobre ele. Sobre o lugar. Como se esperasse que algum móvel se mexesse.
— A senhora mora aqui há muito tempo?
— Desde quando o centro ainda fingia que tinha futuro.
— Isso é bastante tempo.
— O bastante para saber que o Copan não gosta de gente apressada.
Ele sorriu.
— Estou escrevendo sobre o prédio.
— Jornalista?
— Sim.
— Pior ainda.
— Pior por quê?
Lúcia pegou a xícara com as duas mãos.
— Porque jornalista pergunta. E o Copan responde.
Tomás apoiou-se na pia, interessado.
— Então ele fala?
— De vários jeitos. Cano batendo. Porta abrindo. Elevador parando onde não foi chamado. Vizinho que aparece só no reflexo. Barulho de festa em apartamento vazio.
A naturalidade dela era perturbadora.
— A senhora está tentando me assustar?
— Não. Se eu estivesse, falaria a verdade.
Tomás serviu o café.
— Na portaria me deram uma folha com as regras. Tinha uma frase escrita à mão.
Tirou o papel do bolso e mostrou.
Lúcia leu.
O rosto dela ficou sério.
— Quem escreveu isso?
— Achei que fosse parte das regras.
— Não é.
— Mas a senhora conhece esse aviso.
Ela dobrou o papel com cuidado.
— Todo prédio grande tem suas manias.
— Evitar elevador de serviço depois das três é uma mania bem específica.
Lúcia devolveu a folha.
— Três da manhã é uma hora ruim. Não é mais noite, ainda não é dia. Muita coisa se aproveita disso.
Tomás sentiu o primeiro prazer verdadeiro desde que chegou: o prazer da pauta se abrindo. Havia algo ali. Talvez lenda, talvez superstição, talvez apenas teatro de moradora antiga. Mas era bom. Era vivo.
— E o que acontece nos elevadores de serviço?
Lúcia bebeu um gole de café.
— Depende de quem entra.
— E se eu entrar?
— Você acabou de chegar. O prédio ainda está decidindo o que fazer com você.
A frase ficou no ar.
De algum lugar dentro do quarto veio uma pancada.
Seca.
Tomás virou o rosto.
— Foi do apartamento ao lado?
Lúcia não respondeu.
A segunda pancada veio mais baixa. Depois um arranhão curto, como unha em madeira.
Tomás caminhou até a porta do quarto. A parede atrás da cama parecia igual. Branca, fria, muda.
— Reforma? — perguntou.
— Não.
— Vizinho?
— Também não.
Ele se virou. Lúcia já estava de pé.
— Preciso ir.
— Agora?
— Tenho coisas no fogo.
— A senhora disse que ia me contar—
— Eu não disse nada.
Ela foi até a porta. Antes de sair, olhou para ele de um jeito quase maternal, mas sem ternura suficiente para confortar.
— Se ouvir alguém respirando atrás da parede, não responda.
Tomás sentiu a pele dos braços se arrepiar.
— Por quê?
Lúcia abriu a porta.
— Porque tem coisa que só entra quando a gente convida.
E foi embora.
O apartamento ficou maior depois que ela saiu.
Tomás comeu um pedaço de bolo em pé, na cozinha, tentando rir da própria inquietação. Não conseguiu. À noite, trabalhou um pouco. Abriu arquivos, leu textos antigos sobre o edifício, anotou ideias. Mas a concentração escapava. A todo momento, seus olhos iam para o corredor do quarto.
A chuva engrossou.
Às dez, ele tomou banho.
A água quente ajudou. O banheiro encheu de vapor. Tomás apoiou as mãos na parede azulejada e deixou o corpo relaxar. Havia algo estranho em tomar banho num lugar novo, especialmente sozinho: o corpo parecia mais exposto, mais consciente de si. A própria pele, molhada e iluminada pela lâmpada fraca, parecia pertencer a alguém que ele ainda estava conhecendo.
Quando saiu, vestiu apenas uma camiseta larga e uma cueca. Serviu vinho. Sentou-se no chão da sala, encostado ao sofá, olhando a cidade pela janela. As luzes dos outros apartamentos formavam pequenas cenas: uma mulher passando roupa, um homem sem camisa fumando, uma sombra atravessando uma cortina, um casal discutindo sem som.
Tomás sempre gostara de janelas alheias.
Não pelo voyeurismo barato, mas pela possibilidade de imaginar. Cada janela era uma frase sem continuação. Um fragmento. Um corpo que desaparecia antes do sentido.
Pensou em solidão.
Não a solidão dramática, de filme. A solidão comum, cotidiana. A de comer em pé. A de rir de uma mensagem e não ter para quem mostrar. A de acordar de madrugada e perceber que ninguém sabe que você acordou.
Havia meses que não se envolvia com ninguém de verdade.
Tivera encontros, claro. Aplicativos, bares, camas rápidas, conversas que começavam com desejo e terminavam com educação. Corpos que se tocavam sem fazer história. Homens bonitos, interessantes, até gentis. Mas havia sempre uma ausência depois. Como se o toque não chegasse onde deveria.
Tomás sentia falta de ser desejado com demora.
Não apenas escolhido. Não apenas consumido. Desejado como quem lê um texto difícil. Com atenção, pausa, risco.
Pensar nisso o irritou.
Bebeu o resto do vinho, fechou a janela e foi para o quarto.
Dormiu mal.
Sonhou com o corredor do décimo terceiro andar. Só que, no sonho, o corredor não terminava. As portas se repetiam. A luz piscava. Em algum lugar, uma festa tocava música antiga, abafada pelas paredes.
Uma mão segurava a sua.
Mão masculina. Forte. Quente.
Tomás não via o rosto do homem. Apenas sentia os dedos entrelaçados aos seus. A mão o guiava pelo corredor e, a cada porta, uma voz sussurrava:
— Aqui também.
Ele acordou às três e dezessete.
Soube a hora porque o celular acendeu sozinho sobre a mesa de cabeceira.
Logo depois, a energia acabou.
O escuro veio inteiro.
Não foi uma simples falta de luz. Foi como se o apartamento tivesse fechado os olhos. A geladeira calou. O ventilador parou. A cidade continuou acesa lá fora, mas dentro do quarto havia uma sombra densa, colada aos móveis, às paredes, ao lençol.
Tomás ficou imóvel.
Então ouviu.
Primeiro, um som baixo.
Depois, outro.
Inspirar.
Pausa.
Expirar.
Vinha da parede atrás da cama.
Era uma respiração.
Humana. Lenta. Cansada.
Tomás sentiu o coração subir para a garganta. O corpo inteiro ficou atento, como se cada poro tivesse ouvido. A parede respirou de novo. Mais fundo.
Lembrou-se de Lúcia.
Se ouvir alguém respirando atrás da parede, não responda.
Ele não respondeu.
Saiu da cama devagar, vestiu a camiseta que estava no chão, atravessou o quarto no escuro e foi para a sala. A respiração continuou por alguns segundos, depois parou.
Foi então que bateram à porta.
Três toques.
Espaçados.
Educados.
Tomás não se mexeu.
Os toques vieram outra vez.
Caminhou até a porta. Olhou pelo olho mágico.
Um homem estava no corredor.
Alto. Camiseta branca sob uma jaqueta escura molhada. Cabelo curto, barba baixa, uma lanterna pequena apontada para o chão. A luz de emergência recortava seu rosto em azul e sombra.
Tomás abriu com a corrente presa.
— Pois não?
O homem ergueu os olhos.
E foi absurdo, mas a primeira coisa que Tomás notou foi sua boca.
Não porque sorrisse. Pelo contrário. Era uma boca contida, quase severa, dessas que parecem guardar palavras e outras coisas mais perigosas que palavras.
— Você ouviu? — o homem perguntou.
A voz era baixa. Grave sem esforço.
— Ouvi o quê?
O homem olhou para dentro do apartamento.
— A parede.
Tomás demorou a responder.
— Quem é você?
— DanteO vizinho ao lado.
Tomás soltou a corrente.
— Tomás.
— Eu sei.
— Como sabe?
— O prédio comenta.
Aquilo deveria soar ridículo. Não soou.
Tomás abriu a porta.
— Você ouviu do seu apartamento?
— Ouvi do seu.
Havia frases que não deveriam ser ditas de madrugada. Aquela era uma delas.
Dante entrou.
O apartamento pareceu mudar com a presença dele. Não era apenas beleza, embora Dante fosse bonito de uma forma discreta e perigosa. Era o modo como ocupava o espaço. Como se conhecesse os cantos, as sombras, o ar. Como se o apartamento não o surpreendesse.
A jaqueta molhada brilhava nos ombros. Um fio de chuva descia do cabelo até o pescoço e se perdia na gola da camiseta. Tomás notou isso com uma atenção que o constrangeu.
— Você estava na rua?
— No terraço.
— Às três da manhã?
— Você estava ouvindo uma parede respirar. Todo mundo tem seus hábitos.
Tomás quase riu.
— Justo.
Dante passou pela sala com a lanterna. A luz tocou a mesa, o caderno aberto, a garrafa de vinho, o sofá. Parou por um segundo na frase escrita por Tomás.
O prédio como organismo.
— Boa imagem — Dante disse.
— Você lê cadernos alheios?
— Só quando eles ficam abertos para mim.
— Isso é invasivo.
— Morar no Copan também.
Foram para o quarto.
A cama estava desfeita. O lençol guardava a forma do corpo de Tomás. O travesseiro ainda tinha o afundado da cabeça. Havia uma intimidade involuntária naquela cena, e Tomás percebeu Dante percebendo. O quarto parecia pequeno demais para os dois.
Dante aproximou-se da parede atrás da cama e encostou a mão aberta no concreto.
Ficou quieto.
Tomás parou ao lado dele.
A respiração veio.
Baixa.
Profunda.
Dessa vez, tão próxima que parecia sair da própria pele da parede.
Dante fechou os olhos.
— Está mais forte hoje.
— Hoje?
— Às vezes acontece.
— Você sabia?
— Sabia que podia acontecer.
— E achou melhor não avisar?
Dante abriu os olhos.
— O apartamento nem sempre aceita aviso.
Tomás olhou para ele.
— Você fala como se o apartamento fosse uma pessoa.
— Não. Pessoa é simples demais.
A parede respirou outra vez.
Tomás deu um passo para trás, mas esbarrou em Dante. O contato foi rápido: suas costas contra o peito dele, o calor atravessando a camiseta fina, a firmeza do corpo atrás do seu. Ainda assim, algo nele respondeu antes do medo. Uma onda baixa, física, quase vergonhosa pela rapidez.
Dante não se afastou de imediato.
Tomás também não.
Por um instante, ficaram unidos por acaso — ou pela desculpa do acaso. O escuro, a parede, a madrugada, tudo parecia conspirar contra a distância. A mão de Dante tocou de leve o braço dele, talvez para firmá-lo, talvez para pedir licença, talvez porque também tivesse sentido.
O toque foi breve.
Mas Tomás o sentiu inteiro.
Virou-se.
Ficaram frente a frente.
A lanterna falhou uma vez. Na escuridão curta, a respiração de Dante tocou a boca de Tomás. Quando a luz voltou, nenhum dos dois havia recuado.
Dante olhava para ele com uma atenção quase dolorosa. Não era o olhar de quem apenas deseja. Era pior. Era o olhar de quem reconhece.
— O Copan faz isso — ele disse.
— Isso o quê?
— Aproxima.
Tomás tentou pensar em uma resposta inteligente. Não encontrou.
A parede respirou de novo.
Dante ergueu a mão. Parou a poucos centímetros do rosto dele.
— Posso?
A pergunta foi baixa. Simples. Necessária.
Tomás não respondeu com palavra.
Apenas inclinou o rosto.
O primeiro contato não foi exatamente um beijo. Foi a promessa dele. A boca de Dante roçou a sua com uma lentidão que parecia teste, cuidado e provocação ao mesmo tempo. Tomás sentiu o calor antes da pressão. Sentiu o cheiro de chuva na pele dele, o vinho ainda presente na própria boca, a barba curta raspando de leve.
Depois Dante o beijou de verdade.
Sem pressa.
Sem violência.
Com uma firmeza que fez o corpo de Tomás esquecer a prudência.
A mão dele pousou na nuca de Tomás, dedos entrando no cabelo, segurando-o como quem impede uma queda. Tomás segurou a camiseta de Dante na altura da cintura. O tecido estava frio, mas por baixo havia calor. Pele viva. Respiração viva. Um homem real no meio de uma noite impossível.
O beijo se aprofundou.
Não havia vulgaridade, mas havia clareza. Havia desejo no modo como os corpos se aproximavam, no peito encostando ao peito, na pausa curta para respirar, na boca que voltava procurando mais. Tomás sentiu o próprio corpo acender com uma intensidade que não vinha apenas de Dante. Vinha do quarto, da parede, da cidade inteira comprimida ao redor deles.
Como se aquele beijo não pertencesse só aos dois.
Por um instante, Tomás teve uma visão.
O mesmo quarto em outra década.
Cortinas fechadas. Música baixa. Dois homens rindo com medo. Uma camisa aberta às pressas. Uma mão calando uma boca para que o gemido não atravessasse a parede. Um beijo vivido como crime e salvação.
A visão passou rápido.
Tomás se afastou primeiro.
A testa de Dante ficou quase encostada à sua. Os dois respiravam mal.
— Isso também acontece? — Tomás perguntou.
— O quê?
— O prédio aproxima e os vizinhos se beijam?
Dante sorriu pouco.
— Nem todos.
— Só os escolhidos?
— Só os descuidados.
Tomás sentiu vontade de beijá-lo outra vez.
Mas Dante olhou para a parede, e o quarto esfriou.
— Tem uma coisa que você precisa saber sobre este apartamento.
— O quê?
— O último morador morreu aqui.
O silêncio entrou entre os dois.
— Morreu como?
— Oficialmente, coração.
— E não oficialmente?
Dante recolheu a mão da nuca dele.
— Ele dizia que havia alguém respirando atrás da parede.
Tomás olhou para o concreto.
A parede estava quieta agora.
— Quem era?
— Raul Montenegro.
O nome fez Dante mudar de expressão. Pequeno detalhe, mas Tomás percebeu. Uma sombra atravessando o rosto.
— Você conheceu?
— Não do jeito comum.
— Existe outro jeito?
— Aqui, sim.
Antes que Tomás pudesse insistir, veio um ruído do armário.
Madeira contra madeira.
Depois, um riso.
Baixo.
Masculino.
Perto demais.
Tomás virou-se.
O armário estava fechado.
Dante segurou a lanterna com mais força.
— Não abre.
Naturalmente, Tomás abriu.
O armário estava quase vazio. Dois cabides tortos, uma caixa de sapatos antiga, um cheiro de roupa guardada que não deveria estar ali. No fundo, colado à madeira, havia um envelope amarelado.
Tomás pegou.
Dante deu um passo à frente.
— Não.
— Agora ficou tarde para mandar.
Dentro do envelope havia uma fotografia.
Três homens em uma festa.
A imagem era antiga. Talvez fim dos anos 1970. Talvez começo dos 1980. Havia fumaça no ar, copos sobre uma mesa, uma cortina pesada ao fundo. Os três homens estavam próximos demais para serem apenas amigos, embora a fotografia tentasse fingir que sim.
O primeiro sorria para a câmera. Bonito, vivo, insolente. Cabelo escuro, camisa aberta no peito, olhos brilhando como se desafiasse o mundo a dizer não.
— Raul — Dante disse.
Tomás olhou para ele.
— O morador que morreu?
— O morador que desapareceu.
— Você disse que ele morreu.
— Eu disse o que contaram.
O segundo homem da foto estava de perfil, olhando para Raul com uma ternura quase insuportável. A mão dele repousava na cintura de Raul, discreta, mas íntima. O rosto estava parcialmente queimado por uma mancha de luz.
O terceiro fez Tomás prender a respiração.
Era Dante.
Ou alguém idêntico a ele.
Mais jovem talvez. Ou talvez não. O mesmo olhar. A mesma boca. A mesma sombra guardada no rosto.
— Que brincadeira é essa? — Tomás perguntou.
Dante não respondeu.
Pela primeira vez desde que entrara, parecia assustado.
— Onde você encontrou isso?
— No armário.
— Não estava aí antes.
— Como você sabe?
Dante tirou a foto da mão dele, mas Tomás segurou firme. Os dedos dos dois se tocaram sobre o papel. O desejo, que ainda rondava a pele, se misturou a outra coisa: perigo.
— Quem é esse homem? — Tomás perguntou.
Dante encarou a foto.
— Meu tio-avô.
— Ele é igual a você.
— Eu sei.
— E o que uma foto dele está fazendo no meu armário?
— Essa é a pergunta errada.
— Qual é a certa?
Dante olhou para ele.
— Por que apareceu agora?
A energia voltou de repente.
A lâmpada do quarto acendeu com um estalo. Tomás piscou, incomodado pela claridade. A geladeira tornou a funcionar na cozinha. Um elevador passou ao longe. Alguém deu uma risada em algum apartamento. Tudo normal.
Normal demais.
Tomás virou a fotografia.
No verso, havia uma frase escrita à mão.
Evite os elevadores de serviço depois das três.
A mesma frase da folha da portaria.
Abaixo, em letra menor:
Ele sobe quando quer descer.
Tomás sentiu um frio subir pelas costas.
— Quem é “ele”?
Dante guardou a fotografia no bolso da jaqueta.
— Amanhã eu explico.
— Não. Agora.
— Agora você está cansado.
— Eu estou acordado, assustado e muito irritado.
— Péssima combinação para entender este prédio.
Tomás se aproximou.
— Você entra no meu apartamento de madrugada, fala que minha parede respira, me beija, rouba uma foto impossível e quer ir embora?
Dante ficou imóvel.
A menção ao beijo mudou o ar.
O quarto, que havia esfriado, voltou a guardar calor. O beijo ainda estava ali, inacabado, suspenso entre eles. Tomás sentia a própria boca levemente sensível, como se a memória de Dante tivesse ficado impressa nela. Dante olhou para sua boca por um segundo curto demais para ser confissão, longo demais para ser acidente.
— Eu não roubei — disse Dante.
— Está no seu bolso.
— Estou impedindo que você faça perguntas para a pessoa errada.
— Pessoa?
Dante não respondeu.
Tomás riu, sem humor.
— Você é sempre assim?
— Assim como?
— Misterioso de propósito.
— Não é de propósito.
— Então é natural?
— Infelizmente.
Apesar do medo, Tomás sorriu.
Dante caminhou até a porta. Antes de sair, parou.
— Durma na sala hoje.
— Por causa da parede?
— Por causa do que pode responder se você sonhar perto dela.
A frase tirou qualquer ironia de Tomás.
— Dante.
Ele virou.
— O que existe aqui?
Dante demorou.
Quando respondeu, sua voz pareceu vir de um lugar mais antigo que o corredor.
— Memória demais.
Saiu.
A porta se fechou com delicadeza.
Tomás ficou sozinho no quarto aceso.
Sozinho, mas não como antes.
Foi até o banheiro e lavou o rosto. No espelho pequeno, viu o próprio reflexo. Os olhos estavam mais abertos. A boca, um pouco vermelha. Tocou os lábios com dois dedos e sentiu raiva de lembrar com tanta precisão.
Dante era um estranho.
Um estranho que mentia bem, sabia demais e beijava como se tivesse esperado anos.
Tomás voltou ao quarto. A parede estava silenciosa, branca, comum. Mesmo assim, obedeceu. Pegou o travesseiro e o lençol, apagou a luz e foi para a sala.
Deitou-se no sofá estreito.
A cidade ainda brilhava molhada do lado de fora. A chuva tinha parado. Em algum lugar, uma ambulância cortou a madrugada. O Copan estalava em ruídos pequenos, íntimos: canos, portas, passos, elevadores. Um prédio vivo. Um corpo cheio de gente. Um corpo cheio de mortos.
Tomás tentou dormir.
Não conseguiu.
O desejo ainda estava nele, baixo e insistente, como uma febre educada. Não era apenas vontade. Era perturbação. Havia algo no beijo de Dante que não terminava quando a boca se afastava. Algo que continuava andando pela pele, abrindo gavetas, acendendo quartos.
Às quatro e pouco, ouviu o elevador.
Subindo.
O som metálico atravessou a parede da sala.
Subindo.
Parou no décimo terceiro.
Tomás prendeu a respiração.
As portas se abriram em algum lugar do corredor.
Silêncio.
Depois, passos.
Lentos.
Pararam diante do 1307.
Algo foi empurrado por baixo da porta.
Tomás ficou imóvel por alguns segundos. Então levantou-se devagar, aproximou-se e olhou pelo olho mágico.
O corredor estava vazio.
Abaixou-se.
No chão havia uma chave antiga, presa a uma etiqueta de papel amarelado.
Na etiqueta, escrito à mão:
1307 — quarto.
Tomás virou a etiqueta.
Do outro lado, a mesma letra da fotografia.
Tomás,
não durma de costas para a parede.
Ele sentiu o sangue esfriar.
Atrás dele, dentro do quarto fechado, a parede respirou outra vez.
Desta vez, junto com a respiração, veio uma voz masculina, rouca e doce, quase sorridente:
— Finalmente.
Tomás não se moveu.
A chave pesava em sua mão como se tivesse sido feita para abrir algo que, até aquela noite, permaneceria melhor trancado.
E no corredor vazio, o elevador de serviço começou a descer sozinho.