A primeira vez foi com um homem.
Conheceram-no numa boate. Ele se chamava Guilherme, trinta e poucos anos, barba feita, sorriso fácil. Dançou com Natália primeiro, depois com Sara, depois com as duas ao mesmo tempo. No fim da noite, foram para o apartamento.
Natália estava nervosa. Nunca estivera com outro homem além de Beraldo. As mãos tremiam enquanto Sara a beijava para acalmá-la.
— A gente faz junto — Sara sussurrou. — Tudo junto. Você não vai passar por nada sozinha.
Marcos foi paciente. Beijou Natália devagar, tocou seu corpo com cuidado, esperou que ela dissesse sim. Quando finalmente entrou nela, Natália fechou os olhos e sentiu algo diferente. Não era melhor do que Sara. Não era pior. Era apenas diferente. A textura, a pressão, o ritmo.
Sara estava ao lado. Beijava Natália enquanto Marcos a penetrava. Tocava seus seios. Sussurrava palavras de incentivo.
— Gostoso, amor? — perguntou.
— Gostoso — Natália respondeu, e era verdade.
Depois que Marcos gozou, ele as observou por um tempo. Natália e Sara se tocaram uma na outra, como sempre faziam, mas agora com um espectador. Havia algo de excitante naquilo. Algo de exposto. Algo de livre.
Marcos foi embora de madrugada. As duas ficaram na cama, suadas, rindo.
— Você gostou? — Sara perguntou.
— Gostei. Mas não tanto quanto gosto de você.
— Nem eu. Mas foi divertido.
— Foi.
Na semana seguinte, foi com uma mulher.
Chamava-se Fernanda, conheceram num aplicativo. Mais velha, quarenta e poucos, cabelos cacheados, corpo desenhado pela academia. Chegou no apartamento com uma garrafa de vinho e uma mala pequena — "para os brinquedos", disse.
A noite foi longa.
Fernanda sabia coisas que Natália nem imaginava. Posições, ritmos, pressões. Ensinou Natália a usar a boca de um jeito novo. Ensinou Sara a usar os dedos de forma mais precisa. O quarto ficou cheio de gemidos, risadas, pedidos de "mais".
No meio da madrugada, as três estavam exaustas, deitadas na cama desarrumada, o vinho derramado no lençol.
— Vocês são lindas juntas — Fernanda disse.
— Obrigada — Natália respondeu, com a cabeça no peito de Sara.
Fernanda foi embora no dia seguinte, depois do café da manhã. Deixou o número, disse que podiam repetir quando quisessem.
Não repetiram.
Meses se passaram. O apartamento se tornou um ponto de encontro para aventuras. Homens, mulheres, casais. Pessoas que vinham, transavam, iam embora. Algumas voltavam. A maioria não.
Natália descobriu que gostava de mulheres mais velhas, experientes, que sabiam o que queriam. Descobriu que gostava de homens jovens, cheios de energia, que a olhavam com desejo mesmo ela sendo mais velha. Descobriu que gostava de assistir Sara com outras pessoas — o jeito que Sara gemia, os rostos que fazia, a forma como seu corpo respondia a toques diferentes.
Sara descobriu que gostava de dominar. De dar ordens. De ver Natália dar prazer com outras pessoas e saber que, no final, Natália sempre voltava para os seus braços. Descobriu que gostava de ser dominada também — por mulheres fortes, por homens que sabiam o que faziam.
As orgias começaram pequenas. Dois casais amigos. Depois três. Depois uma festa no apartamento de uma amiga, com dez pessoas, corpos nus se misturando na penumbra, gemidos de todos os lados, mãos que não se sabia de quem eram.
Essa primeira orgia de Natália veio com um misto de medo e excitação. Ficou num canto no começo, só observando. Depois uma mulher se aproximou, começou a beijá-la. Depois um homem veio por trás, tocou seus seios. Depois Sara apareceu, sorrindo, e as duas se beijaram no meio de tudo.
— Está gostando? — Sara perguntou, aos gritos, por cima da música.
— Estou — Natália respondeu, e riu. Riu de alegria. Riu de liberdade.
Elas transaram com um casal naquela noite. O homem por cima de Natália. A mulher por cima de Sara. Depois trocaram. Depois ficaram os quatro juntos, uma confusão de braços, pernas, bocas, línguas.
No fim, Natália e Sara se encontraram no meio da cama. O suor escorria pelos seus corpos. A maquiagem borrada. Os cabelos uma bagunça.
— Eu te amo — Natália disse.
— Eu te amo mais — Sara respondeu.
E transaram mais uma vez, só as duas, enquanto os outros dormiam ou transavam ao redor.
Aconteceu outra vez. E outra. E outra.
Cada aventura, cada nova pessoa, cada orgia, ao invés de afastá-las, as aproximava. Era paradoxal. O sexo com outros não diminuía o amor; aumentava. Como se cada experiência compartilhada fosse um tijolo a mais na construção da confiança.
— Eu não tenho ciúmes — Natália disse, certa noite, depois de uma orgia particularmente intensa. — É estranho. Eu deveria ter ciúmes. Mas não tenho.
— Por que você acha?
— Porque eu sei que no final você está comigo. Você pode transar com quem quiser. Pode gozar com quem quiser. Mas quem você ama sou eu. E quem te ama sou eu.
Sara sorriu. Abraçou Natália.
— É exatamente isso.
Elas criaram regras tácitas. Nada de segredos. Nada de encontros sozinhas sem o conhecimento da outra. Nada de repetir com a mesma pessoa muitas vezes, para não criar vínculos. E, acima de tudo, a prioridade sempre era as duas. O casal. A base.
Funcionou.
Funcionou melhor do que qualquer relacionamento que qualquer uma das duas já tivera.
A paixão entre elas não diminuiu. Pelo contrário. Cada vez que Natália via Sara ser desejada por outra pessoa, seu próprio desejo aumentava. Cada vez que Sara via Natália prazer com alguém novo, sentia uma onda de amor e excitação.
— A gente tá ficando maluca — Natália riu, uma manhã, tomando café na cama.
— Maluca boa?
— Maluca ótima.
Sara se aproximou. Beijou o ombro de Natália. A tatuagem da flor. A pele macia.
— Eu nunca imaginei que pudesse ser tão feliz — disse.
— Nem eu.
— Você acha que isso vai durar?
Natália olhou para Sara. Os olhos escuros. O rosto que ela amava. O corpo que conhecia melhor do que o seu próprio.
— Não sei — respondeu. — Mas enquanto durar, eu vou aproveitar cada segundo.
— Cada segundo.
O café esfriou. O dia clareou. O mundo lá fora continuava.
Dentro do apartamento, duas mulheres se amavam. E, de vez em quando, convidavam outras pessoas para amar junto.
Mas sempre voltavam uma para a outra.
Sempre.
Foram três anos e meio desde a fuga. Natália não tinha notícias de Daniel. Não sabia se ele tinha se formado, se arrumado outra namorada, se ainda morava com Beraldo. As poucas vezes que tentou contato, as mensagens ficaram sem resposta. As ligações caíam na caixa postal. Ela desistiu. A ferida estava aberta, mas só restava aprender a conviver com ela.
O encontro aconteceu por acaso.
Foi numa sexta-feira à noite. Natália e Sara estavam num bar da cidade vizinha, um lugar descontraído, com música ao vivo e luz baixa. Dançavam coladas, como sempre faziam. O vestido de Natália era curto, vermelho, decotado. O cabelo curto estava bagunçado de tanto dançar. O salto alto a deixava mais alta do que Sara, que se agarrava à sua cintura, os olhos fechados, a boca aberta.
Beijaram-se na pista. Não um beijo rápido, de casal discreto. Um beijo lascivo, de língua, de mão na nuca, de corpo colado. As bocas se moviam num ritmo que mais parecia transa do que beijo. Natália mordeu o lábio de Sara. Sara gemeu. Estavam no próprio mundo, embriagadas de vinho e desejo.
Até que Natália abriu os olhos.
E viu Daniel.
Ele estava parado na entrada do bar, com dois amigos. Uma cerveja na mão. A boca aberta. O rosto pálido.
Os olhos dele estavam fixos nelas. Nos beijos. Nas mãos de Sara nas costas de Natália. No vestido vermelho. Na tatuagem no ombro. Em tudo.
Natália congelou.
— O que foi? — Sara perguntou, sentindo o corpo de Natália endurecer.
— Daniel — Natália sussurrou.
Sara se virou. Os olhos das duas se encontraram com os dele.
O mundo pareceu parar. A música continuou, mas elas não ouviam. As pessoas dançavam ao redor, mas elas não viam.
Daniel largou a cerveja no chão. Afastou-se dos amigos. Atravessou o bar em passos largos. Quando chegou perto, Natália viu seu rosto de perto. Estava o mesmo, porém, mais magro. Os olhos fundos, cheios de uma raiva que ela nunca tinha visto.
— Mãe??— ele disse. A palavra saiu como um cuspe.
— Daniel…
— Não. Não vem com "Daniel" não.
Sara deu um passo à frente, protegendo Natália.
— Daniel, deixa a gente explicar…
— Explicar o quê? — ele ergueu a voz. Pessoas ao redor começaram a olhar. — Que você roubou minha namorada? Que minha mãe fugiu com uma vagabunda??
— Não fala assim com ela! — Natália disse, a voz firme.
— Não fala assim? Você largou meu pai!Você me abandonou! Você destruiu a nossa família!E quer me dizer como falar?
A raiva subiu pelo corpo de Natália como um fogo. Não era a raiva de quem se sente culpada. Era a raiva de quem foi reprimida a vida inteira e não aceita mais.
— Sua namorada? — Natália repetiu, rindo sem humor. — Daniel, você nunca teve Sara. Ela nunca foi sua. Ela ficou com você porque estava destruída. Porque não tinha onde morar. Porque precisava de um teto. Você era um porto seguro, não um amor. Outra coisa: eu fui viver uma nova vida e deixei dois homens adultos!! Que tinham condições de se reerguer e continuar suas vidas. Não impedi ninguém de ser feliz! Porque eu fui buscar uma felicidade que não existia! Sinto ter que partir como aconteceu, mas não havia outra opção! Não tinha como encarar o que houve, seriamos perseguidas!
Daniel empalideceu.
— Que diabos você tá dizendo??
— Que nunca houve amor entre vocês dois, você estava iludido. O que aconteceu entre nós duas foi totalmente inesperado, mas foi a prova de que Sara procurava algo e, infelizmente, não era você! Filho… lamento dizer,mas você acabou sendo apenas uma ponte para o que ocorreu entre nós duas. Chato dizer isso,mas a realidade é que me descobri quando o sentimento entre nós duas era evidente e floresceu.
— Mãe…
— Posso ser sua mãe ainda,mas quem fala aqui não é a mulher que lhe pariu. É a que decidiu viver sem mentiras. E falo tudo isso porque você é mais um homem doutrinado por aquela igreja… que não consegue enxergar o que nós necessitamos de verdade.
Daniel estava sem palavras. Os amigos dele, atrás, não sabiam onde se meter. As pessoas no bar já estavam todas olhando.
Sara interviu.
— Daniel — ela disse, com uma voz calma que contrastava com o caos —, escuta. Meu amor por você era confuso,não sabia como nominar,mas não era algo legítimo. Desculpa. Eu devia ter sido honesta desde o começo. Mas você também não me amava tanto assim. Em certo momento, achava que você gostava da idéia de me ter, de conquistar a garota convertida. Sinto dizer isso, mas nossa relação era muito fria e acho que isso me mostrou que dentro daquela casa… existia alguém que poderia me valorizar.
As palavras foram entrando em Daniel como facas. Ele olhava para Sara, para Natália, para o chão, para lugar nenhum.
— Você é um cara legal, Daniel, mas não era observador, nunca tentou me conhecar a fundo. Éramos distantes. Porque namorar bastava. Não tinhamos profundidade. Sinto se lhe usei de alguma forma, mas eu estava certa… de que havia naquele ambiente… alguém que me despertou… e está aqui a prova mais crua. São mais de três anos vivendo uma felicidade plena, absoluta.
Natália, por fim, falou.
- Daniel… foi triste como tudo aconteceu, mas eu já não era a mesma. Não pude escapar disso. E sinto demais… por você presenciar como estou amando alguém mais do que nuinca.
Daniel deu um passo para trás. O rosto, que antes estava vermelho de raiva, agora estava pálido de vergonha.
Seus olhos marejaram.
Ele olhou para Natália. Depois para Sara. Depois para os amigos, que desviavam o olhar.
Ninguém falou nada.
Daniel virou-se. Atravessou o bar em passos cambaleantes. Empurrou a porta. Saiu.
Pela janela do bar, Natália o viu parado na calçada, os ombros sacudindo. Ele chorava. Depois se afastou, andando rápido, sem olhar para trás.
Os amigos foram atrás.
O bar voltou ao normal. A música continuou. As pessoas voltaram a dançar. Alguns olhares curiosos ainda se dirigiam às duas mulheres, mas logo se dispersaram.
Natália sentou numa cadeira. As pernas tremiam.
— De alguma forma, isso teria que acontecer… algum dia…mesmo assim...
— Por favor, meu amor, não fique assim. Isso vai servir pra ele compreender que nossa relação é real. E forte.
— Verdade.
Sara sentou ao lado. Pegou a mão de Natália.
— Você está bem?
— Não sei. Acho que não. Mas vai ficar.
— Vai.
Ficaram em silêncio por um longo tempo.
O vinho na mesa estava quente. Nenhuma das duas bebeu.
— Ele vai ficar bem? — Natália perguntou.
— Uma hora, sim. Talvez procure terapia. Talvez aprenda melhor sobre o amor. Talvez nunca mais queira ver a gente. Qualquer coisa, tá bom.
Natália apertou a mão de Sara.
— Eu amo você.
— Eu também amo você.
Natália riu. Um riso nervoso, triste, aliviado.
— Acho que dissemos o necessário
— Sim, fomos honestas
Depois pediram a conta. Foram para casa. Subiram as escadas do apartamento de mãos dadas.
Naquela noite, não transaram. Não tiveram vontade.
Apenas ficaram abraçadas na cama, olhando o teto.
— A vida é estranha — Natália disse.
— Muito estranha.
— Eu nunca imaginei que falaria pra meu filho que abandonei a família pra viver o amor com uma pessoa por quem ele se apaixonou...
— Depois do que passamos, até que as coisas não foram tão trágicas
Ficaram em silêncio.
— Você acha que ele vai nos odiar para sempre? — Natália perguntou.
— Talvez. Ou talvez um dia ele entenda.
— Entender o quê?
— Que a gente só estava tentando ser feliz.
Natália virou o rosto. Beijou Sara. Não um beijo lascivo, desses que davam no bar. Um beijo suave, de boa noite, de amor.
— Boa noite, meu amor.
— Boa noite.
Dormiram abraçadas.
Lá fora, a cidade continuava.
Daniel continuava andando pelas ruas, sem rumo, tentando processar a visão que tivera e o que ouvira daquelas mulheres que ele tanto gostava.
Foi uma noite dura.
Mas talvez, pensou Natália antes de dormir, fosse uma noite necessária.
O tempo diria.