A semana não estava indo bem... Por conta da quebra na rotina, Dom tinha voltado a acordar várias vezes durante a madrugada, e Júlia e eu começamos a nos revezar. Enquanto uma levantava para cuidar dele, a outra tentava aproveitar algumas horas seguidas de sono. Funcionava até certo ponto. Pelo menos nenhuma de nós duas chegava completamente destruída ao dia seguinte.
Mas não era só isso. Eu tinha voltado para a minha realidade. Aquela realidade que apertava o meu peito sem motivo aparente, fazia meu coração ficar angustiado e transformava qualquer tarefa simples em algo muito maior do que realmente era. Minha cabeça não parava... Pensava demais, questionava tudo, antecipava problemas que nem existiam e conseguia me sabotar antes mesmo de tentar.
Depois de muito tempo, resolvi fazer terapia novamente, mas, desta vez, procurei um psicólogo que não fazia parte do meu círculo de amizades. Talvez eu precisasse de alguém que me enxergasse apenas como paciente, sem conhecer a minha história além daquilo que eu escolhesse contar.
Conversamos por bastante tempo. Analisamos os fatos, os resultados do meu trabalho, os números da clínica, da Filial, os dados do Projeto e tudo aquilo que, racionalmente, mostrava que as coisas estavam dando certo. No papel, não havia motivo para eu me sentir daquela forma. Eu mesma já tinha feito esse exercício incontáveis vezes.
O problema era justamente esse!
Eu sabia dos fatos, sabia interpretar os números, sabia identificar os pensamentos distorcidos... Já tinha tentado fazer isso comigo inúmeras vezes. Mesmo assim, nada mudava dentro de mim. A lógica continuava de um lado e a angústia do outro, como se falassem idiomas completamente diferentes. A minha cabeça era a Torre de Babel.
— Como foi? — Juh me perguntou assim que cheguei.
— Foi bom... — respondi desanimada, recebendo beijinhos dela.
— A próxima vai ser melhor ainda. — Ela disse, em um tom animado que me fez sorrir.
— Minha melhor terapia é você. — Falei, segurando seu rosto para lhe dar um beijo.
— Vou cuidar de você. Vem. — Júlia disse, me levando pela mão até a cozinha.
— Cadê nossos filhos? — Questionei, abraçando-a por trás.
— Um está dormindo... — Ela respondeu, com um ar de mistério.
— E não é Dom. — Brinquei.
— Não... Dom está com Dona Sônia. Achei que seria bom chamá-la esta noite. — Ela disse, virando-se de frente para mim, ainda dentro dos meus braços.
Como Mih passou o aniversário comigo, ficou a semana seguinte inteira na casa dos avós paternos. A gente se via sempre na saída do colégio.
Sorri, deslizei uma das mãos pela cintura dela e a conduzi alguns passos para trás, até suas costas encontrarem a parede da cozinha. Júlia me olhava sem entender muito bem o motivo daquela mudança repentina, porém bastou cruzar os olhos com os meus para perceber que eu só precisava dela. Apoiei uma das mãos ao lado do seu rosto, acariciei sua bochecha com o polegar e a beijei... Demoradamente... Por bastante tempo... Sem pressa... Sem urgência... Foi um beijo tranquilo, para silenciar a bagunça da minha cabeça por alguns instantes e agradecer por ela ser tão Juh Oliver comigo.
— O que você está planejando para esta noite, hein? — Perguntei, cercando o pescoço dela de beijinhos.
— Eu estou planejando... cuidar de você! Só isso... — Ela respondeu, sorrindo.
Sentei-me à mesa e, antes mesmo de pegar a xícara, puxei minha gatinha delicadamente para o meu colo. Ela riu baixinho, passando um braço ao redor do meu pescoço, enquanto eu me acomodava melhor na cadeira. O café já estava pronto, o pão quentinho, as frutas cortadas... Ela tinha pensado em tudo, mas, naquele momento, nada daquilo parecia mais importante para mim do que tê-la tão pertinho.
Juh não disse absolutamente nada. Apenas ficou ali, fazendo carinho nos meus cabelos, na minha nuca e nas minhas costas, enquanto eu escondia o rosto na curva do seu pescoço. O cheirinho dela tem um efeito mágico em mim. Aos poucos, a minha respiração foi desacelerando e a confusão da minha cabeça começou a perder força. Roubávamos beijinhos sem motivo, bem rapidinhos e espontâneos, e não sei por quê, mas isso arrancava risadinhas de nós. Às vezes, eu apenas encostava a testa na dela e fechava os olhos por alguns segundos, aproveitando aquele silêncio confortável com a minha muiezinha.
Júlia nunca precisou de grandes discursos para me ajudar. Ela simplesmente está inteiramente presente na minha vida, e isso basta. Jamais vou conseguir explicar como o simples fato de sentir seus abraços, seus carinhos e seu perfume já faz com que eu encontre o caminho de volta à paz, no meio do caos que insistia em morar dentro de mim... Eu sou sortuda e eternamente grata por essa mulher ter entrado na minha vida.
Até ela resolver tirar o meu café!
— Amor, eu não funciono sem café. — Tentei protestar.
— Vamos fazer o teste. Você só toma pela manhã! — Ela rebateu, animada.
— Gatinha... Eu preciso de café! — Exclamei.
— Café vai deixar sua cabeça agitada. Você é médica, deveria ser mais fácil fazer você entender. — Juh falou, deitando-se apoiada nos meus braços, com um biquinho chateado nos lábios.
— É? — Perguntei, aproximando-me da sua boca.
— É... — Ela confirmou, prendendo o riso, e eu roubei mais um beijinho.
— Tá... O que eu vou tomar? — Questionei, levantando-a novamente.
— Fiz chá, tem suco de maracujá, de acerola... — Júlia ia dizendo.
— Cê vai me dar um chá, é? — Perguntei, interrompendo-a e rindo.
— De camomila. — Ela fez questão de ressaltar, também rindo.
— Poxa... Mas podia ter um incentivo, não é? Trocar meu cafezinho por chá de camomila... — Comentei, servindo-me.
— Que incentivo você quer? — Juh questionou, cruzando os braços.
— Tira a roupa. — Respondi rapidamente.
— Quê? Não... Dona Sônia pode descer aqui. — Minha gatinha me repreendeu.
— Aaah, tira a blusa. Eu mereço... — Pedi, dando um beijinho nela.
— Não... — Juh resistiu.
— Tá bom... — Concordei e voltei a beijar seu pescoço.
Puxei-a rapidamente, sem lhe dar tempo para reagir, e tomei seus lábios.
— Promete que vai tentar? — Júlia pediu.
Ignorei a pergunta, rindo e fingindo que não estava escutando. Tomei novamente sua boca em mais um beijo.
— Você é minha sobremesa? — Quis saber.
— Não... Meus peitinhos estão doloridos... Seu filho mamou pouco hoje. — Juh me explicou.
— Por que não disse logo? A gente já poderia ter feito uma compressa quentinha. — Falei, fazendo carinho em seu rosto.
— Eu já fiz, amor. Preciso mesmo é da bomba, mas antes de dormir faço isso. — Ela me disse.
Depois do banho, fomos para o quarto. Enquanto Júlia pegava a bomba para ordenhar, eu me acomodei na cama e terminei de ler algumas páginas do livro que havia começado dias antes. De vez em quando, levantava os olhos para olhar minha gatinha. No início, ela ainda fazia algumas feições discretas de incômodo, mas, conforme o leite foi saindo, seu semblante também foi mudando.
— Melhorou? — Perguntei, fechando o livro.
— Muito... — Ela respondeu aliviada, mostrando o potinho já com uma boa quantidade de leite.
Ela guardou tudo, apagou a luz do abajur e veio para a cama. Sem dizer nada, se enroscou nos meus braços, encaixando a cabeça no meu peito, e eu passei os dedos pelos seus cabelos, fazendo um cafuné demorado, enquanto sentia o carinho da ponta dos seus dedos no meu braço.
Ficamos rolando na cama por um bom tempo. A gente falava de tudo e de nada ao mesmo tempo, apenas sobre as aleatoriedades do dia a dia. De vez em quando, ela me dava um beijinho no ombro, e eu retribuía na testa. Nós estávamos visivelmente cansadas, mas o sono simplesmente não vinha.
— Tá conseguindo dormir? — Juh perguntou em um sussurro, passando a perna por cima das minhas.
— Não... — Respondi, bocejando.
— Eu também não. — Ela disse, já se aproximando mais.
Os beijinhos que ela deu no meu pescoço foram mudando de temperatura. Antes eram leves. Naquele momento, começaram a ficar molhados e mais demorados. Sentia o calor da boca dela marcando a minha pele e acabei rindo quando levei uma mordida que me arrepiou inteira.
— Oh, delícia — Brinquei.
— Você... — Ela respondeu, rindo baixinho, e já puxava minha blusa para cima.
Eu levantei os braços para ajudar e Juh desceu a boca pelos meus seios, sugando com vontade, alternando de um para o outro enquanto eu passava as mãos pelos cabelos dela. Ficou ali por um tempo, chupando forte, massageando, até que eu me derreti inteira e pedi por mais.
— Tira o short — Ela falou, levantando o rosto.
Obedeci a minha gatinha, levantei o quadril e tirei a peça, jogando-a para longe de nós. Júlia desceu, beijando tudo que a sua boca conseguisse tocar. Suspirei fundo, segurando o lençol com uma das mãos e a cabeça dela com a outra quando senti que ela havia se encaixado entre as minhas pernas, ela começou a me chupar devagar, circulava a língua no meu clitoris cheia de provocação, e eu fui me perdendo, deixando as pernas caírem de vez para os lados. Gozei bem gostosinho com aquela língua maravilhosa dentro de mim.
Júlia se ajeitou ao meu lado, sorrindo com aquele ar de quem tinha se divertido, mas ainda não tinha terminado.
— Espera aí — Ela disse, levantando da cama.
Foi até a nossa caixa de brinquedos, pegou uma cinta e voltou para perto. Juh me olhou sedenta, depois se deitou por cima de mim, sentindo meu corpo que pegava fogo por baixo do dela. Pincelou a pontinha, subindo e descendo, me provocando ao máximo, super atenta a tudo, observando as minhas reações. Ela mordia o lábio inferior, cruzava os olhos com os meus e ria baixinho vendo eu entrar em colapso de tanto desejo.
— Você tá se divertindo, né? — Perguntei.
— Muito — Minha gatinha respondeu, e finalmente me penetrou.
Juh começou a se movimentar devagar, e eu passei as pernas por cima das costas dela, a puxando cada vez mais para dentro, enquanto a safada aumentava ainda mais o ritmo. Segurei seu rosto entre as mãos e a beijei com toda a vontade que eu estava, chegando novamente no meu ápice.
— Agora sim... Acho que a gente consegue dormir... — Júlia disse, depois de algum tempo.
— Dormir? — Questionei, virando-me para ela.
— Amanhã a gente brinca mais, amor. — Júlia disse, rindo.
Se Juh enfiasse uma estaca no meu coração, doeria menos... Porém, não questionei muito. Afinal, ela estava com dor. Minha gatinha deitou sobre o meu peito, encaixando a cabeça bem acima do meu coração. Fiquei em silêncio, passando os dedos pelos seus cabelos, enquanto observava sua cabeça subir e descer no ritmo da minha respiração.
— Amor, eu sou boa de cama? — Ela perguntou do nada e me olhou nos olhos.
— Ótima! — Respondi, rindo.
— Eu estou falando sério... — Juh insistiu.
— E eu estou respondendo sério, meu amor... Você é perfeita! — Exclamei.
— Justifique sua resposta. — Ela pediu, virando o corpo de frente para mim.
— Que isso? Uma prova? — Brinquei, rindo. Porém, Júlia não esboçou sorrisinho algum.
Respirei fundo antes de abrir a boca. Conhecia aquela expressão de Juh o suficiente para saber que ela não estava fazendo uma pergunta por curiosidade. Ela realmente queria ouvir a minha resposta e, dependendo das palavras que eu escolhesse, aquela conversa tinha tudo para tomar um rumo completamente diferente. Eu precisava responder com sinceridade, mas também com cuidado, porque havia perguntas que nunca eram apenas perguntas e um deslize poderia virar uma discussão.
— Amor... Por que isso agora? Você me conhece e sabe me deixar satisfeita, não só na cama, mas na vida. — Falei, fazendo carinho em seu cabelo.
— Huuuum... — Ela comentou, em um tom reflexivo.
— Huuuum o quê? O que foi que eu falei de errado? E, novamente... Por que isso agora? — Questionei.
— Nada, deixa para lá. — Júlia falou, deu-me um selinho e me abraçou como se fosse dormir.
— Você não acha isso injusto comigo? — Perguntei.
— Foi porque... Eu fui almoçar com Sabrine, né? Ela estava com um pouco de dor porque... — Júlia começou a contar, mas parou.
Entendi o teor da conversa e imaginei que ela tivesse ficado com vergonha.
— Alguém macetou ela à noite? — Perguntei, rindo.
— Isso... Uma mulher. Só que ela estava toda entusiasmada porque... A moça ficou por cima dela por uns trinta minutos. Eu não falei nada, mas isso é o seu normal, não é? Aí parei para pensar que eu não consigo e talvez isso te faça falta... — Ela respondeu, um pouco chateada e tropeçando nas palavras.
— Oxe, amor! Que comparação é essa? Eu, por acaso, preciso de todo esse tempo? Você não levou em conta as nossas preferências, percebeu? Você conhece todo o meu corpo, meus gostos... Sabe do que eu preciso. Não faz nem sentido essa conversa. — Falei para ela.
— Mas você consegue mesmo assim. — Juh insistiu.
— Porque eu sei que você gosta de ter o meu corpo por cima do seu, de sentir o meu peso, de sentir minhas mãos te abraçando enquanto a gente transa gostosinho... A gente se conhece, e é por isso que é tão gostosinho, entende? Do mesmo jeito que você sabe que eu adoro ver e ouvir o que seu corpo tem a dizer e, mesmo não curtindo muito falar, abre essa boquinha para dizer o que eu quero ouvir. — Expliquei.
— Sabe o que é chato? É que eu não tinha essa percepção. Para mim, eu era normal... Me sinto uma idiota por não ter um parâmetro. — Júlia disse, encostando o rosto em mim.
— Oh, gatinha... Você está se preocupando com isso à toa... Não é uma questão de tempo. Vai muito além disso, e você faz tudo muito bem. Não fique se comparando, porque cada pessoa tem seus próprios gostos, e o importante é que a gente se entende direitinho. — Tentei mais uma vez.
— Tá... É melhor nós irmos dormir. — Juh falou desanimada e deitou sobre o travesseiro.
— Não fica assim, neném. — Pedi, chegando mais pertinho dela.
— Amor, é porque não é só isso... Parece que eu não vivi um monte de coisas que todo mundo viveu. Aí, as coisas que eram para ser de conhecimento geral não me atingem. — Ela disse, sem paciência.
— Deixa eu ver se entendi... Você gostaria de ter tido experiências com outras pessoas antes de ter me conhecido? — Perguntei, numa boa.
Na minha cabeça, era uma dúvida normal que eu poderia ter, e, se Júlia confirmasse, eu não ficaria chateada. Quando a conheci, ela tinha apenas vinte anos e nunca foi segredo a maneira como tinha vivido até ali. Tanto que virou uma piadinha ela dizer que eu a havia libertado de uma torre.
O que eu não sabia era que a minha dúvida acabaria sendo a pior combinação de palavras possível, porque ela imediatamente me olhou completamente ofendida com o meu questionamento.
— É o quê??? Não acredito que você está me perguntando isso, Lore!!! — Ela disse e levantou irritada, indo em direção ao banheiro.
Fiquei deitada em completo estado de "what the fuck?".
Não entendi nada e não consegui convencê-la a me escutar. Então, também me irritei com a falta de comunicação que aconteceu entre nós.
Não fazia sentido... Eu tinha feito uma pergunta genuína, sem malícia, e ela explodiu do nada. Esperei alguns minutos e não aguentei. Acabei levantando e indo até a porta do banheiro.
— Amor... — Chamei baixinho.
Nada.
— Júlia! — Insisti, batendo de leve com dois dedos na porta.
— Vai dormir, Lorena! — Ela respondeu, com a voz abafada.
— A gente precisa conversar... — Falei, encostando a testa na porta.
— Eu não quero conversar agora. — Juh respondeu, brava.
Respirei fundo, sentindo o peito apertar de novo. Aquela sensação de angústia voltava, mas, dessa vez, misturada com frustração.
— Você não pode simplesmente sair, bater a porta e achar que isso resolve alguma coisa. — Tentei, mantendo a calma nas palavras, embora a voz quisesse tremer.
A porta se abriu. Júlia estava encostada na pia, de braços cruzados, o rosto vermelho e os olhos brilhando, porque claramente tinha chorado... Ela não estava apenas irritada, estava magoada.
— Resolve, sim. Porque, se eu ficar ali, vou falar coisas que não tenho certeza se quero dizer. — Ela respondeu, seca.
— Então fala... Mas fala comigo, não some... — Desafiei, entrando no banheiro e fechando a porta atrás de mim.
— Você realmente não entende, né? — Ela sacudiu a cabeça, rindo sem graça. — Lore, eu me abri para você agora. Falei que me senti uma idiota, que me sinto insegura, e você me pergunta se eu queria ter transado com outras pessoas antes de você?
— Não foi isso que eu quis dizer. — Me defendi. Mas, quando as palavras saíram da boca dela, entendi como as minhas haviam soado.
— Foi exatamente isso que você disse! Parece que você não entendeu que a questão nunca foi querer outras pessoas. A questão é eu me sentir incapaz, inexperiente, ao lado de todo mundo. E aí você sugere que eu deveria ter... Você minimizou o que eu estava sentindo e ainda transformou isso em algo que eu sequer cogitei. — Juh disse, irritada.
Fiquei parada, sem uma resposta pronta.
— Que merda... — Suspirei depois de algum tempo, passando a mão pelo rosto.
— É... — Ela concordou.
— Desculpa pelo que eu disse, tá? — Pedi.
Minha gatinha apenas acenou positivamente com a cabeça.
Ficou um climão, mas ergui os braços para ela. Recebi um abraço e nós fomos dormir.
Acordei com algumas batidas na porta do quarto. Ainda meio sonolenta, ouvi o chuveiro ligado e percebi que Júlia já estava tomando banho. Antes que eu conseguisse levantar, escutei uma voz do outro lado da porta.
— Mãe? Sou eu... — Era Kaique.
— Espera só um minutinho, filho! — Respondi, ainda com a voz de quem tinha acabado de acordar.
Levantei da cama, peguei o roupão que estava pendurado atrás da porta e o vesti rapidamente. Assim que abri, encontrei Kaique já uniformizado para o colégio, mochila nas costas e o cabelo ainda úmido, provavelmente depois de um banho apressado.
— Ai, meu Deus... Eu dormi demais? Estamos atrasados? O despertador não tocou... — Falei, já agoniada.
— Não. Eu quero chegar mais cedo para ter mais alguns minutos com a Mih. — Ele explicou.
— Ahhh... Tá com saudade? — Perguntei, sabendo a resposta.
— Muita. — Kaká confirmou.
— Eu também... Vou tomar um banho rápido e logo iremos. — Disse a ele.
— A senhora pode tomar café no caminho? Eu preparo! — Quis saber.
— Posso... Claro... — Confirmei, rindo da pressa dele.
Fechei a porta do quarto e segui para o banheiro. Quando estendi a mão para a maçaneta, Júlia abriu a porta por dentro e nós quase nos esbarramos. Ela ainda estava com os cabelos molhados, enxugando as mãos na toalha.
— Bom dia, gatinha... — Falei, sem jeito.
— Bom dia, amor... — Ela respondeu no mesmo tom.
O silêncio que veio em seguida foi desconfortável demais. Nenhuma de nós duas sabia muito bem como agir depois da conversa da noite anterior. Júlia apenas se aproximou, deixou um selinho rápido nos meus lábios, quase automático, e saiu do banheiro para terminar de se arrumar.
Tomei um banho rápido e, quando voltei para o quarto, encontrei minha gatinha de costas para o espelho, tentando fechar o macacão atrás do pescoço. Aproximei-me sem dizer nada, afastei delicadamente seus cabelos e encaixei o fecho no lugar. Antes de soltar o tecido, deixei um beijo discreto em seu pescoço. Ela apenas virou um pouquinho o rosto, lançou-me um breve olhar de agradecimento e continuou se arrumando. O clima ainda estava estranho, mas, pelo menos, nenhuma de nós tinha deixado o carinho de lado.
— Kaká quer chegar mais cedo para ficar mais tempo com a Mih. — Informei, rindo.
— Bonitinho... — Juh disse, entre risos.
Nesse momento, a porta do quarto se abriu novamente e Kaique entrou carregando Dom no colo. Ninho chorava inconsolavelmente, agarrado aos cabelos do irmão com as duas mãozinhas, enquanto Kaká fazia uma careta de dor, tentando, sem muito sucesso, desprender seus dedos dos próprios fios. Ele caminhou até a cama e acomodou Dom no colchão com todo o cuidado do mundo. Assim que foi colocado ali, meu filho continuou choramingando, ainda emburrado por algum motivo que, naquele momento, só existia na cabecinha dele.
— Me bagunçou todo. Vou ter que arrumar meu cabelo de novo. — Kaká reclamou.
— "Oh, mamães, me deem um irmãozinho, por favor." — Brinquei, imitando-o, e ele riu.
Pensamos que era o chorinho de toda manhã, quando ele acordava. Porém, Ninho não quis mamar e permaneceu naquele chorinho chatinho, como se algo estivesse incomodando, todo agoniado. Então Júlia começou a ficar preocupada, passando a mão por todo o corpinho dele para ver se encontrava alguma coisa.
— Deixa eu ver. — Falei, pegando-o no colo.
Examinei-o e parecia estar tudo nos conformes. Então pensei que poderia ser uma dor de cabeça, uma gripe chegando ou, em um pior cenário, a garganta inflamada.
— Deixa a mamãe olhar sua garganta, deixa... — Fui conversando com ele enquanto acendia a lanterna do celular.
Assim que a luz iluminou sua boquinha, encontrei a resposta para todo aquele sofrimento matinal. Os quatro dentinhos de baixo estavam prestes a nascer de vez. Ainda não tinham rompido a gengiva, mas ela estava levemente inchada, um pouquinho avermelhada e bem sensível. Passei a ponta do dedo com todo cuidado pela região e Ninho reclamou na mesma hora, afastando o rostinho e voltando a choramingar. Sorri de canto, aliviada por finalmente entender o motivo daquele incômodo. Não era garganta, nem gripe chegando... Meu neném estava apenas enfrentando mais uma etapa do crescimento e, para ele, aqueles dentinhos insistindo em aparecer deviam estar incomodando bastante.
— São os dentinhos dele. — Expliquei.
— Cadê? — Juh perguntou, tentando ver.
— Acho que são estes quatro aqui. — Mostrei a ela.
— E agora??? — Júlia quis saber.
— Um analgésico para a dor e congela um pouco de leite antes de oferecer. Isso ajuda a diminuir essa agonia. — Respondi.
— Melhor eu não ir trabalhar hoje. Vou avisar o pessoal aqui. — Juh comentou mais para si mesma do que para mim e ligou para o colégio.
— A gente ia lá no Projeto hoje, caraaa... — Falei com meu bebezinho.
Ele segurou meu dedo e continuava bastante incomodado, tadinho.
— Vamos outro dia... Suas mamães vão cuidar de você, tá? — Disse-lhe, dando um beijinho.
Fui até Júlia com ele, e ela o pegou no colo.
— Amor, se você achar que precisa ir, pode ir, porque hoje é o meu dia livre. Eu só ia dar um pulo lá no Projeto com ele, mas consigo deixar para outro dia. — Informei.
— Ele está febril ou é impressão minha? — Júlia perguntou.
Toquei nele e, realmente, Dom estava um pouco quentinho.
— A mesma medicação que ele vai usar para a dor serve para a febre. Não deve subir mais do que isso. — Expliquei.
— Não acha melhor a gente ir ao médico? Eu não estou me sentindo segura, sem saber direito o que tenho que fazer. — Ela disse.
— Vamos observar primeiro como ele reage às nossas tentativas? Se não melhorar, nós vamos. Pode ser? — Perguntei.
Ela concordou, parecendo mais tranquila.
Kaká voltou com seus cachinhos bem alinhados, e nós dois fomos para o colégio. Assim que chegamos, ele perguntou se Milena já havia chegado, e o segurança disse que não. Uns minutinhos depois, ela parou na frente dele, que estava apoiado no meu colo.
Kaká deu um pulo e a abraçou.
— Deu certo!!! — Ela festejou.
— Eu ia fazer nossa mãe chegar mais cedo, porém aconteceu tanta coisa hoje de manhã. Dom agora vai ter dentes! — Kaká se apressou em contar a novidade.
— Pra morder vocês dois. Nhac! — Brinquei, apertando a barriga dos dois.
— Mãe, que saudade!!! — Milena disse, abraçando-me.
— Saudade também, meu amor. — Falei, dando beijinhos nela.
— A mamãe ficou com Dom? Ele não está bem por causa dos dentinhos? — Ela perguntou.
— Isso. Os dentinhos ainda não nasceram, mas estão incomodando. — Expliquei.
Ficamos mais uns cinco minutos conversando e pedi que eles entrassem para não perderem o horário.
Voltei para casa e encontrei Dom dormindo de bruços na nossa cama, todo fofinho, com os bracinhos para cima e uma roupinha leve de sapinho.
— Ele mamou bem pouquinho e dormiu. — Juh falou, surgindo atrás de mim.
— Comprei mais forminhas de picolé. — Falei, mostrando a sacola na minha mão.
— Obrigada... — Ela agradeceu, pegando-a.
Dei dois passos e me aproximei devagar. Quando encostei nela, Júlia não recuou, mas também não me abraçou.
— Eu não quis dizer que você deveria ter tido outras experiências... O que eu quis perguntar, mas claramente errei em tudo, foi se você sente falta de ter vivido mais. Se isso realmente te incomoda. E, se incomoda, a gente conversa. Mas eu não quis te ofender, nem sugerir que a gente é pouco. — Falei, segurando levemente sua cintura.
Ela desviou o olhar, focando em Ninho.
— Eu sei que você não quis... Mas escutar isso da sua boca doeu. Ficou parecendo que você estava concordando com a minha insegurança, em vez de tentar me ajudar com ela. — Júlia disse, com a voz mais suave.
— Nunca... Nunca! Você não é inexperiente, você não é idiota. Você é minha gatinha, a melhor parceira deste mundo. E, se alguém fez você sentir o contrário, inclusive eu, essa pessoa está errada. — Falei com firmeza, segurando seu rosto com as duas mãos e fazendo seus olhos encontrarem os meus.
Juh pareceu relaxar.
— Eu só queria que você tivesse entendido na hora. — Ela confessou, baixinho.
— Eu também... Me explica devagar que eu acompanho, mas não some, por favor. Eu não aguento você longe... — Disse-lhe, limpando uma lágrima do seu rosto com o polegar.
Ela finalmente me encarou de verdade. Os braços cruzados caíram, e suas mãos foram parar na minha cintura.
— Eu não fui longe... Só fui para o banheiro naquela hora... — Júlia brincou.
— Longe demais. — Rebati, beijando a pontinha do nariz dela.
— Eu te amo, tá, amor? Desculpa também. Eu me exaltei demais, e não era para tanto. — Ela disse.
— Eu também te amo, gatinha... Mas só vou te desculpar à noite, quando sua experiente máquina de sexo começar os trabalhos! — Brinquei, e ela riu, apertando o abraço.
Anos depois, confessei a ela que não tinha entendido muito bem aquele dia. Apenas segui o fluxo para a gente se resolver logo. 🤣
Naquela noite, nós realmente fizemos a festa. Mas, antes que qualquer coisa acontecesse, Júlia apareceu no quarto completamente nua e, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo, começou a me fazer algumas recomendações.
— Promete que vai se cuidar? Tentar não se agitar muito para conseguir dormir bem? E evitar cafeína, pelo menos depois das oito da noite? — Ela perguntou.
Eu até escutava a voz dela, mas minha atenção já tinha ido embora fazia tempo. Tudo o que eu conseguia acompanhar era minha gatinha caminhando lentamente em minha direção, subindo na cama, engatinhando até mim e me hipnotizando com seus truques.
— Prometo... Prometo tudo isso... — Respondi, sem desviar os olhos dela.
Assim que as palavras saíram da minha boca, puxei minha gatinha para os meus braços com urgência, incapaz de fingir que ainda existia qualquer outro assunto mais importante naquele momento.
Obviamente Dom ficou bem. É uma fase chatinha, mas faz parte. Uns dois dias depois, nós já tínhamos desenvolvido outras técnicas para ajudá-lo.
E os dentinhos? A primeira vítima foi o peitinho da mamãe.
Não é por nada, não... Mas eu nunca mordi o peito dela para machucar! 🙂↔️
