A tensão na enfermaria estava a um fio de navalha. O olhar do Emiliano cravado no meu exigia uma resposta que eu simplesmente não podia dar. O ar cheirava a álcool e antisséptico, sufocante, enquanto o silêncio entre nós se esticava até se tornar insuportável.
— Fala, Michel! — Emiliano insistiu, o tom de voz trêmulo, oscillando entre a desconfiança e a dor. — O que o Martins te disse no almoxarifado?!
Antes que eu pudesse inventar qualquer desculpa ou afundar de vez na minha própria mentira, a cortina da enfermaria foi puxada bruscamente.
— Recruta Emiliano! — o Cabo de dia bradou da porta, ajeitando o cinto do dólmã. — O que você tá fazendo aí enrolando? O Sargento Mello tá te chamando lá na guarda do alojamento pra cobrir a escala do Primeiro Pelotão. Agora!
Emiliano deu um pulo, assustado. Ele olhou para o cabo, bateu uma continência afobada e depois voltou os olhos para mim. A carranca de desconfiança ainda estava estampada no rosto dele, mas a urgência do serviço militar não esperava por explicações.
— A gente não terminou essa conversa — Emiliano sussurrou, a voz fria, antes de dar meia-volta e sumir pelo corredor.
Soltei o ar que nem sabia que estava segurando, afundando a cabeça no travesseiro rígido da maca. A medicação aos poucos foi me dopando, até que o cansaço acumulado me fez apagar.
Já passava das dez da noite quando o médico da guarnição finalmente assinou minha alta temporária de três dias. Caminhei arrastando os pés pelo pátio silencioso do batalhão. As luzes dos alojamentos já estavam apagadas e o toque de silêncio já havia soado há mais de uma hora.
Entrei com cuidado no alojamento do Terceiro Pelotão, ouvindo apenas o coro de respirações fundas e roncos baixos da tropa exausta.
Peguei minha toalha, uma muda de roupa limpa e me esgueirei para o banheiro nos fundos.
O banheiro coletivo estava totalmente no escuro, iluminado apenas pelo feixe amarelado da iluminação pública que entrava pelas basculantes do alto. Liguei o chuveiro. A água fria bateu nas minhas costas, fazendo meus músculos doloridos relaxarem de golpe. Fechei os olhos debaixo do jato, tentando lavar não apenas o suor e a poeira da faina, mas o cheiro do Martins, a culpa do Emiliano e o medo que me perseguia.
O som suave da porta de ferro do banheiro rangendo me fez abrir os olhos na hora.
Uma figura alta e larga cruzou a penumbra. Meu coração deu um salto no peito, mas assim que a iluminação fraca bateu no rosto dele, o pânico virou um alívio avassalador.
Era o Gustavo.
Ele trancou o trinco da porta com um clique quase imperceptível e caminhou devagar na minha direção. Gustavo ainda usava a calça do camuflado, mas estava sem camiseta, o peito largo subindo e descendo num ritmo acelerado. Os olhos dele estavam fundos, carregados de um desespero e de uma saudade violentos que ele vinha engolindo o dia inteiro.
— Michel... — ele sussurrou, a voz rouca cortando o barulho da água caindo.
— Gustavo, você tá louco? — tentei falar baixo, dando um passo para trás sob o chuveiro. — Se alguém entrar aqui...
— Foda-se! — ele cortou, dando dois passos largos e entrando direto sob o jato de água fria, sem se importar em molhar a própria farda.
Antes que eu pudesse protestar, as mãos grandes e quentes dele seguraram meu rosto com uma firmeza desesperada. Gustavo me puxou para ele, colando nossos corpos molhados. O calor do peito dele contra o meu fez meu corpo inteiro estremecer. Ele olhou para o meu curativo na testa, depois para a minha boca, e me beijou com uma urgência cega, faminta, como se estivesse me resgatando de um naufrágio.
Segurei firme nos ombros dele, cedendo completamente. O contraste da água gelada com o fogo do toque do Gustavo fez minha cabeça girar. Todas as defesas que ergui durante o dia caíram. Ele desceu os lábios pelo meu queixo, roçando a boca no meu pescoço, exatamente onde o Martins tinha tocado horas antes, mas aqui não havia manipulação — havia apenas um desejo cru e uma proteção possessiva.
— Eu vi você passando mal hoje no mato... Fiquei sabendo que o Martins te carregou naquele subsolo e quase enlouqueci na instrução, Michel — Gustavo rosnou contra a minha pele, apertando minha cintura com tanta força que deixou marcas. — Não faz mais isso comigo. Eu não aguento te ver quebrar e não poder te segurar.
— Eu tô aqui... eu tô bem — sussurrei, enfiando as mãos no cabelo molhado dele, colando nossa testa. Ficamos ali, abraçados sob a água fria na escuridão do banheiro, sentindo a respiração um do outro desacelerar, usufruindo daquele único momento de verdade no meio de todo o inferno do quartel.
Na manhã seguinte, mesmo dispensado da faina, o som estridente da cornetagem me acordou cedo. Eu ainda estava me ajeitando na beliche quando o Plantão de Dia bateu no batente da porta.
— Recruta 114! Apresentar-se imediatamente na sala do Sargento Rocha!
Engoli em seco. Ajeitei o dólmã limpo, passei a mão pelo curativo e marchei até o pavilhão de comando. Bati três vezes na porta de madeira pesada.
— Entra! — a voz grave do Rocha ressoou lá de dentro.
Entrei e bati uma continência impecável. A sala do Sargento Rocha era abafada, cheirando a café queimado e papel velho. Rocha estava sentado atrás de uma mesa de imbuia, lendo um calhamaço de documentos. Ele demorou longos trinta segundos para levantar os olhos e me encarar. O olhar dele era como uma lâmina fria.
— Recruta Michel... — Rocha começou, apoiando os cotovelos na mesa e cruzando os dedos calejados. — O Tenente Brito me informou sobre a sua "baixa médica" no almoxarifado. Três dias de moleza no meio do período de instrução. Que beleza, não?
— Sim, senhor... ordem médica, Sargento.
— Eu sei que é ordem médica — Rocha levantou-se devagar, contornando a mesa com passos lentos, parando bem na minha frente. Ele era mais alto, e a presença dele transbordava uma autoridade intimidadora. — Mas o que me interessa não é o seu estado de saúde, 114. O que me interessa é o que tá apodrecendo o meu pelotão por baixo dos panos.
Inclinei o queixo, mantendo os olhos fixos na parede atrás dele, como manda o regulamento.
— Ontem à noite, o Recruta Dagoberto foi ouvido em depoimento antes de ir pra cela de custódia — Rocha disse, a voz num tom perigosamente baixo, a poucos centímetros do meu ouvido. — Sabia que ele me contou uma história muito interessante? Ele jurou por Deus que não te empurrou por briga de guarda. Ele disse que vocês dois discutiriam porque você andava "segredando" coisas no escuro com recrutas do Primeiro Pelotão e que ele só tentou te chamar à razão.
Senti um arrepio gélido subir pela minha espinha, mas mantive a fisionomia neutra.
— O Dagoberto tá tentando aliviar a própria barra, 114 — Rocha continuou, dando uma volta completa ao meu redor, como um predador circundando a presa. — Mas eu não sou otário. Eu sei quando tem caroço nesse angu. O Dagoberto vai mofar na detenção por agressão, mas se eu descobrir que você tá trazendo picuinha, fofoca ou qualquer tipo de desvio de conduta pra dentro do Terceiro... eu mesmo garanto que a sua vida neste Batalhão vira um inferno muito pior do que três dias de febre. Entendeu o recado, Recruta?
— Entendido, Sargento! — respondi com a firmeza que consegui arrancar da garganta.
— Fora da minha sala. Descanse na beliche e reze pra não me dar mais nenhum motivo pra olhar pra você.
No horário do almoço, caminhei até o refeitório apenas para pegar uma fruta e um suco. O refeitório estava lotado, um barulho infernal de talheres de metal batendo nas mesas de inox e conversas paralelas da tropa. Sentei-me no fundo, numa mesa isolada, tentando passar despercebido.
O barulho de um prato de alumínio batendo com força na mesa me fez levantar os olhos.
Emiliano sentou-se exatamente na minha frente. O rosto dele não tinha nada daquela leveza de antes; os olhos estavam fundos, denotando a noite mal dormida na guarda, e o maxilar estava travado. Ele segurou o garfo, mas não comeu nada. Ficou me encarando em silêncio por longos e angustiantes segundos, um olhar carregado, pesado, tentando perfurar minha mente.
— Emiliano... — tentei começar, cansado. — Se for pra gente conversar sobre ontem...
— É exatamente sobre ontem que a gente vai falar — ele me interrompeu, a voz cortante, se inclinando sobre a mesa. — Eu passei a noite inteira na guarita pensando no que aconteceu na enfermaria, Michel. Essa história não bate, cara. O Martins te ajuda, te consegue três dias de dispensa com o Tenente, e em vez de ficar grato pelo cara, você quase surta me dizendo que ele é perigoso? Que porra de história mal contada é essa?!
Olhei em volta, preocupado com o tom de voz dele. Alguns recrutas das mesas vizinhas chegaram a olhar na nossa direção.
— Emiliano, por favor... baixo — pedi, num tom de apelo sincero. — Eu tô te pedindo como teu amigo de farda: não vamos falar sobre o Martins aqui. Nem agora. Se for pra gente conversar, que seja sobre qualquer outra coisa. Sobre tua família, sobre a instrução de amanhã... qualquer assunto. Mas esquece esse cara.
Emiliano soltou uma risada curta e debochada, balançando a cabeça com amargura.
— "Como teu amigo"? — ele repetiu com desdém, encarando o meu rosto. — Amigo confia no outro, Michel. A gente entrou junto nessa merda de Exército, dividiu marmita, ralação no mato... e agora você olha na minha cara com esse olhar de culpa? Você tá me escondendo alguma coisa pesada, e o pior é ver que você prefere me tratar como um estranho do que mandar a real pra mim.
Antes que eu pudesse responder a essa acusação dolorosa, Emiliano levantou-se bruscamente, pegou o prato intocado e saiu pisando fundo pelo corredor do refeitório, me deixando sozinho sob o peso de ver o meu único amigo ali dentro se afastar de mim.
De volta ao alojamento durante a tarde, o quarto estava quase vazio, exceto por mim e pelo Gustavo, que tinha recebido uma liberação de vinte minutos para trocar de coturno após o treinamento de marcha.
Eu estava sentado na minha beliche, ajeitando o curativo no espelho de bolso, quando Gustavo se aproximou, fingindo organizar o armário ao meu lado.
— O que o Emiliano queria com você no refeitório? — Gustavo perguntou em tom baixo, sem olhar para mim, mas a preocupação na voz era inconfundível. — Eu vi ele saindo furioso da tua mesa. O que tá acontecendo entre vocês?
— Gustavo, não começa... — suspirei, massageando as têmporas. — A situação com o Emiliano já tá complicada o suficiente.
— Complicada por quê? — Gustavo virou o rosto para mim, a fisionomia fechada de incômodo. — Vocês eram grudados e agora ele mal olha na tua cara? Eu fico preocupado com você, Michel. Você tá carregando problema demais nas costas e esse cara tá querendo arrumar confusão contigo por nada...
— Ora, ora... que cena bonitinha.
A voz debochada vinda da porta fez nós dois travarmos no mesmo instante.
Cardoso estava parado no batente, encostado na mureta com os braços cruzados e um sorriso maldoso no rosto. Ele olhava alternadamente para o Gustavo e para mim, franzindo a testa com um fingido espanto.
— O que é isso que eu tô vendo? — Cardoso caminhou devagar para dentro do alojamento, o som dos coturnos dele ecoando no chão de cimento. — O Recruta Gustavo, o machão do Terceiro Pelotão, tendo uma "conversa amigável" e cheia de segredinhos com o 114?
— Tá querendo dizer o quê com isso, Cardoso?
— Gustavo deu um passo à frente, a voz num tom grave e perigoso, tentando mascarar o sobressalto no peito. Ele cruzou os braços e encarou o Cardoso de cima para baixo.
— Calma, bom de briga — Cardoso riu, dando mais dois passos para dentro e apoiando a mão na beliche de ferro ao lado. Ele desviou os olhos do Gustavo e travou o olhar em mim, analisando o meu rosto machucado. — Eu só tô achando engraçado. Até semana passada você quase voava no pescoço do 114 por qualquer besteira na faxina. E agora, o cara ganha três dias de folga no ar-condicionado enquanto o pelotão rala, e você tá aqui de cochicho no ouvido dele, todo preocupado?
— Eu tô conversando sobre a escala do pelotão, seu comédia — Gustavo mentiu sem piscar, a voz fria. — O 114 tá baixado, mas o serviço não para. Alguém tem que avisar as ordens do sargento pra esse moço aqui não achar que tá em colônia de férias. Ou você quer ir lá na sala do Rocha perguntar se eu posso falar com ele?
Cardoso ergueu as sobrancelhas, soltando um assobio baixo. Ele olhou para o Gustavo, depois olhou para mim. Mantive a cabeça erguida, sustentando uma cara de tédio e irritação.
— Sei... escala de serviço — Cardoso debochou, dando um sorriso torto. — Vocês disfarçam bem. Mas fica esperto, Gustavo... o Rocha tá espumando de raiva por causa do Dagoberto. Qualquer movimentação esquisita aqui dentro e ele passa o rodo no pelotão inteiro.
Cardoso deu um tapinha de leve no ferro da beliche, deu meia-volta e caminhou devagar para o fundo do alojamento.
Gustavo soltou o ar devagar pelos dentes, a mandíbula dura. Ele trocou o coturno sem dizer mais uma única palavra, sabendo que qualquer sussurro a mais seria um prato cheio para o Cardoso. Mas antes de pegar o fuzil e sair pela porta do alojamento para voltar para a instrução, ele me deu um olhar rápido — um aviso mudo de que o chão sob os nossos pés estava ficando cada vez mais fino.
Eu me deitei de costas na beliche, encarando o teto de concreto.
Minha cabeça era uma bomba-relógio: o Emiliano chateado por me ver guardando segredo, o Cardoso desconfiando da aproximação repentina com o Gustavo, o Rocha nos ameaçando por causa do Dagoberto... e, pairando sobre tudo isso como uma sombra silenciosa, o Martins, esperando pacientemente o momento em que eu estaria totalmente isolado para vir cobrar a dívida do almoxarifado.
Ao fim da tarde, a trombeta soou chamando todo o Batalhão para o Campo de Instrução Externo. O alojamento do Terceiro Pelotão ficou em um silêncio sepulcral. Sem a tropa, o grande pavilhão parecia uma caverna de concreto e ferro.
Eu estava deitado na minha beliche, encarando o teto e tentando organizar os meus pensamentos, quando ouvi o som de passos ritmados no corredor. Não eram coturnos de instrução pesados. Ergui o corpo devagar, com o coração acelerando sem motivo aparente.
Uma sombra alta cortou o batente da porta.
Era o Martins.
Ele não usava fuzil e nem equipamento de campo. Estava apenas com a calça do camuflado e uma camiseta verde-oliva justa ao corpo. Ele caminhou para dentro do alojamento com uma calma predatória, com aquele sorriso de canto que fazia meu estômago dar nós. Ele não deveria estar ali. O Primeiro Pelotão estava em escalas de serviços, mas o Martins sempre achava um jeito de dobrar as regras.
— Martins? — me sentei bruscamente na beirada da beliche, o corpo tenso. — O que você tá fazendo aqui?
— Eu consegui uma troca de escala rápida para checar o alojamento — ele me interrompeu com a voz macia, pausada, o som das palavras ecoando nas paredes vazias. Ele parou a um passo de mim. — Queria ver como meu recruta preferido estava se recuperando. Três dias de folga... aproveitando bem, Michel?
— Eu tava descansando até você entrar — respondi, tentando parecer firme, mas a proximidade dele fazia meu peito arfar.
Martins deu mais um passo, ficando bem entre as minhas pernas abertas enquanto eu continuava sentado na cama. Ele se inclinou devagar, apoiando uma das mãos no ferro da beliche superior, me encurralando por completo. O cheiro do perfume dele tomou conta do meu espaço.
— Você não parece grato — ele murmurou, a voz descendo para um tom grave, perigoso. Ele ergueu a outra mão e colocou a ponta dos dedos no meu pescoço, exatamente onde a minha pulsação estava descontrolada. — Se não fosse por mim, você estaria ralando no mato agora com a cara queimando de febre. Eu cuidei de você, Michel. E acho que tá na hora de você me mostrar um pouco de consideração.
— Para, Martins — tentei empurrar o peito dele com as duas mãos, mas meu corpo ainda estava fraco pela febre recente. Ele mal se moveu. — Por Favor...Pode entrar alguém aqui!
— Não tem ninguém aqui — ele sussurrou contra o meu rosto. A mão dele desceu do meu pescoço para o meu peitoral, os dedos quentes apertando o tecido da minha roupa. — Ninguém vem aqui a essa hora.
Martins se inclinou mais, colando o peito dele no meu, pressionando meu corpo contra a cama. Ele usou a coxa para afastar as minhas pernas, buscando um contato físico cru, direto, sem espaço para fuga. Ele deslizou a boca para o lado do meu pescoço, roçando os lábios na minha pele meio febril.
Eu estava paralisado. Uma parte de mim lutava desesperadamente para empurrá-lo, tomada pelo pavor das ameaças do Rocha, mas a exaustão e a própria tensão que o Martins exercia sobre mim faziam minha resistência parecer hesitante, sufocada.
— Deixa eu aproveitar essa folga com você... — ele sussurrou no meu ouvido, a mão dele descendo com audácia para a minha cintura, me puxando contra ele.
— Michel? Você tá aqui? — a voz do Emiliano soou da entrada do alojamento.
Meu sangue congelou nas veias.
[Continua - EP 14 será lançado na madrugada do dia 01, espero que gostem] ❤️