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Quando o amor incomoda - 60

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Um conto erótico de Mrpr2
Categoria: Gay
Contém 2100 palavras
Data: 31/07/2026 19:11:32

Na pequena cozinha da casa alugada a pia de inox brilhava sob a luz amarelada da lâmpada única, o cheiro de detergente de limão se misturava ao de café passado horas antes. Miguel, moreno, musculoso, 1,75 m, cabelo curto e sorriso que normalmente iluminava qualquer ambiente, lavava as louças com sua camiseta branca molhada que grudava no peito definido enquanto cantarolava um pagode do seu tempo de infância, o corpo balançando no ritmo, enquanto Brian seu namorado gringo secava, guarda as louças e admirava seu namorado alegre e descontraído, mas a expressão de Miguel mudou com a entrada de Kenji.

Kenji entrou. Magro, 1,70 m, cabelo preto liso caindo sobre a testa, a pele clara de descendente de japonês contrastando com a expressão cautelosa. Vestia uma camisa oversized cinza e calça preta larga. Os olhos baixos.

Miguel parou de cantar. O sorriso morreu. A esponja na mão escorreu espuma no chão.

— Olha quem resolveu aparecer…

A voz saiu carregada de ironia, as sobrancelhas arqueadas.

— O príncipe sumido do oriente. Achei que tinha virado fumaça.

Brian, loiro, olhos verdes, 1,80 m de corpo musculoso e peito peludo à mostra pelo decote profundo da regata branca, secava um prato com um pano. O sotaque misturado inglês-português saiu imediato, a mão erguida em pedido de calma.

— Stop, Miguel. Deixa o Kenji explicar. Please.

— Ok, justo. Eu sei que estou… em débito com vocês.

Murmurou Kenji, a voz baixa, os dedos brincando nervosos com a barra da camisa.

Miguel soltou uma risada curta, amarga.

— Em “débito”? Tá pensando que a gente é o quê? Uma empresa? Ou melhor: dois putos que você usa de vez em quando e tá devendo? É isso?

Miguel virou o corpo inteiro, gesticulando com a esponja, espalhando água e espuma pela pia e pelo azulejo velho.

— Miguel, please!

Disse Brian dando um passo à frente, o peito largo tensionado, os olhos verdes piscando rápido.

Kenji ergueu as mãos, a magreza do corpo parecendo ainda mais frágil sob a luz.

— Claro que não, Miguel. Você sabe muito bem da gratidão e do carinho que eu tenho por vocês.

— Hã, gratidão? Tô vendo o quanto você é grato — Miguel limpou a mão na camiseta, o tom sarcástico cortando o ar. — Sumiu por dias, voltou com cara de quem chupou cana e agora vem com discursinho.

Brian bateu de leve no braço do namorado.

— Miguel!

— Vocês me tiraram de uma situação difícil — Kenji continuou, a voz tremendo só um pouco. — Me ajudaram de várias formas. E não só isso… eu gostei. Mais que isso, eu amei vocês. Os dois. Vocês são incríveis, cada um à sua maneira. Mas…

Miguel cruzou os braços sobre o peito molhado, o queixo erguido.

— Mas foi só chegar aqui no Brasil que soltou as asinhas, né? Eu sei, Kenji. Eu não sou bobo. O Luiz Miguel… e agora o papai hippie.

— É Luiz Felipe e Luigi — corrigiu Kenji, engolindo em seco. — Sim, confesso que meus sentimentos mudaram quando cheguei aqui. Eu não estou me eximindo. Mas ao mesmo tempo eu não consegui controlar, entende?

Miguel respirou fundo, o peito subindo. A raiva ainda estava ali, mas agora misturada a algo mais cansado.

— Olha, Kenji… como eu já te disse, eu já tinha percebido. Minha raiva não é por você ter despertado sentimentos por outros. Até porque eu sou mente aberta pra caralho. Eu vivo num trisal. Meu descontentamento é por você não ter sido honesto. Transparente. Com a gente. Entende?

Kenji baixou a cabeça. O cabelo preto cobriu os olhos.

— Desculpa… sinceramente… nem eu estava entendendo o que estava acontecendo. Com o Luiz Felipe era uma atração que foi crescendo. Mas no fundo eu sabia que não podia acontecer nada além de amizade. Afinal, ele já tem namorado, né?

Miguel soltou uma risada seca.

— Eu também já namorava o Brian quando a gente se conheceu. Isso não é impedimento.

— No seu conceito — Kenji ergueu o olhar. — Mas o Luiz Felipe e o Gustavo não pensam assim.

— Já conversou com eles?

— Eu sei que não. O Luiz Felipe só tem olhos pro Gustavo. Ele me vê só como amigo. Mas com o Luigi… é diferente.

Miguel arqueou uma sobrancelha, o canto da boca torcido em deboche.

— É sério, Kenji? O papai hippie?

Brian deu um tapa seco no braço de Miguel, o sotaque saindo mais carregado.

— Que feio, Miguel. I don’t like this.

Miguel revirou os olhos, mas calou a boca por dois segundos.

— Ele é carinhoso, inteligente, maduro…

— Até demais… — murmurou Miguel, e levou outro tapa.

— Aaaai! Não falo mais, hoooo! — Miguel ergueu as mãos em rendição teatral. Depois suspirou, a voz baixando. — Quer saber, Kenji? Eu já sabia que você não voltaria com a gente. Mas e aí? Vai ficar aqui na casa ou vai morar com o hip… quer dizer, com o Luigi? Já decidiu?

Kenji passou a mão no cabelo liso.

— Bom… ele vai viajar amanhã, então…

— Por que você não vai com ele? — Miguel enxugou as mãos no pano. — Semana que vem a gente vai embora mesmo.

Kenji piscou, surpreso.

— Já? Eu pensei que iam demorar mais uns meses.

— Não. Nossa volta não foi nem um pouco interessante pra gente. Quer dizer… pra mim. O gringo aqui se encantou nos primeiros meses. Ou melhor: a cada dia ele descobre alguma coisa “nova”. Uma música, um sabor, uma planta. Parece que tá num mundo novo. — Miguel lançou um olhar de canto para Brian, que sorriu sem jeito. — Mas o trabalho foi bem complicado pra mim. Pra ele foi só salário baixo mesmo.

— Mas e aí? O que deu lá no trabalho?

Miguel encostou na pia, os ombros caindo.

— Resolvi só pedir demissão. Se o salário fosse bom, se essa cidade fosse boa… mas essa vibe de não ter nada pra fazer, o povo encarando, cochichando… aí não vale a pena.

Kenji assentiu devagar.

— Entendo. Mas às vezes seria bom um processo.

— Sabe quanto tempo isso demoraria aqui no Brasil? E pra não dar em nada? Eu sei que as coisas estão avançando, direitos trabalhistas, homofobia… Se eu tivesse intenção de morar aqui, até lutaria. Faria aquela empresinha de merda fechar de tanta multa, processo e vergonha. Mas no momento eu prefiro voltar pra Londres.

Os três se olharam. O silêncio durou só um segundo. Depois Miguel abriu os braços. Kenji entrou no abraço. Brian fechou o círculo com o corpo grande e quente. O cheiro de detergente e perfume misturou-se no ar da cozinha pequena. Por um instante, a tensão baixou. Só restou o carinho, amor e amizade.

Algumas casas dali, na casa dos pais de Gustavo, o cheiro de café passado e pão de queijo esfriando enchia a sala enquanto lá fora a chuva começou a cair. Miriam, a mãe, sentada no sofá de tecido floral, torcia um pano na mão. Os olhos cansados fixos no filho.

— Gusta… você tem notícia do seu irmão?

Gustavo, com sua camisa azul-clara amassada e calça bege, estava encostado na parede. O cabelo castanho-claro caía sobre os olhos castanhos. Ele passou a mão no pescoço, desconfortável.

— Tive. Ele aprontou de novo. Brigou na academia. Partiu pra cima do Diegão por causa da Maria Eduarda.

Miriam fechou os olhos. O pano parou de se mover. Um suspiro longo, carregado de tristeza e de uma pergunta antiga: onde eu errei com o mais velho?

Algumas casas adiante, o sofá de Dona Eulália rangia sob o peso de dois corpos bem diferentes. A sala cheirava a sabão de coco e bolo de fubá. Dona Eulália, vestido florido longo, coque apertado na cabeça, passava a mão carinhosa pelos cachos castanhos de Luiz Felipe. O filho de 1,80 m, corpo de deus grego, olhos mel, sorria de lado, a camiseta branca justa no peito.

— Tá com uma carinha boa, filho…

Do outro sofá, Felipe Luiz, loiro, 1,85 m, peitoral e braços estourando a regata preta, ria estirado, as pernas abertas e o celular na mão.

— Também… esse daí deve tá com o pinto em carne viva de tanto foder o namoradinho dele. Kkkkkk!

Luiz Felipe pegou a almofada floral e atirou com precisão no peito do irmão.

— Cala a boca, animal!

Um raio iluminou do lado de fora. Dona Eulália bateu de leve na perna do filho mais velho, o tom de comédia misturado à repressão.

— Isso é coisa pra se dizer, menino?

Luiz Felipe cruzou os braços e disse ao irmão:

— Quem tem teto de vidro deveria ficar de bico fechado, não acha não, Felipe?

Gurizão ergueu as mãos, fingindo inocência.

— O quê? O que tá acontecendo aqui? Vai me dizer que você também é homossexual, Felipe Luiz?

Dona Eulália virou o rosto tão rápido que o coque quase desfez.

— Eu não! Sai pra lá! Eu gosto é de buceta!

— Felipe Luiz!

A mãe bateu na própria coxa, escandalizada.

— Olha o palavreado! Foi assim que eu te ensinei a falar sobre as mulheres, meu filho?

Gurizão coçou a nuca, o sorriso amarelado nos lábios.

— Desculpa, mãe. Eu gosto é de moças. Doces, singelas e recatadas do lar.

Dona Eulália arqueou uma sobrancelha, o olhar de quem já tinha ouvido muita conversa fiada.

— Hum… sei. Esse rabicho com a Laura é sério mesmo? Ou é… como vocês dizem agora? Ficante?

— É… mais ou menos. A gente tá ficando, sim.

— Mais ou menos não existe, Felipe. Você tá ou não tá namorando a moça?

— Aí, mãe, é complicado… — Gurizão mudou de assunto rápido, sentando-se melhor. — Mas mudando de assunto: ficou sabendo da última do seu cunhado, mano?

Luiz Felipe já estava sentado no sofá, o corpo tenso.

— Não. O que? Ele tentou alguma coisa contra o Gustavo de novo?

— O doido partiu pra cima do Diegão dentro da academia. O maluco foi expulso e só não levou uma surra porque o Diógenes, o gerente, tava lá.

Luiz Felipe passou a mão nos cachos, preocupado.

— Será que o Tavinho já tá sabendo disso? Ele já tava triste porque o irmão tinha perdido o emprego… agora mais essa?

Gurizão assobiou baixo.

— Sério? O Eduardo foi mandado embora da fábrica? E agora? Onde ele vai arrumar emprego nessa cidade?

Dona Eulália balançou a cabeça, o vestido florido mexendo.

— Com a fama dele vai ter que ir pra Serra Dourada e olhe lá. Por isso eu digo pra vocês: estudem pra passar num concurso público. E cuidado com o jeito que tratam as pessoas. Aqui é cidade pequena. Se você espirrar na entrada, na saída já escuta um “saúde”.

— Verdade.

Murmurou Luiz Felipe.

Dona Eulália virou-se para ele, o dedo em riste, o tom de drama subindo.

— Verdade, né, senhor Luiz Felipe? Mas fica pra cima e pra baixo se agarrando com macho.

Ela bateu na perna dele de novo, mais forte agora.

— Aí mãe!

— Sabe por que seu pai teve que sair de Serra Verde? Quando ele me largou e se assumiu, não arrumou emprego nem aqui nem na região. Eu pensei que, chamando ele aqui e ele próprio te contando tudo o que passou, você se “endireitava”. Mas pelo jeito entrou por um ouvido e saiu pelo outro, né?

Luiz Felipe ergueu o queixo, os olhos mel firmes. A voz saiu calma, mas sem espaço para discussão.

— Mãe, não tem nada de errado eu namorar o Gustavo. E se caso não der certo com ele… eu não vou namorar uma mulher. Eu não me atraio sexualmente por mulheres. O que não quer dizer que eu queira ser uma. E ninguém tem nada a ver com isso.

Dona Eulália levantou-se do sofá de uma vez. O vestido florido balançou. Os olhos já marejados, a voz tremendo entre raiva, medo e uma preocupação antiga demais.

— Não tem? Faz o seguinte: senta com o seu pai e conversa com ele de novo. Mas desta vez OUVE o que ele vai falar. Não sobre os lugares que ele conheceu, ou dos aprendizados de evolução espiritual. Pergunta pra ele se foi fácil ser aceito quando descobriam que ele se deitava com homens. Pergunta quantas vezes ele foi expulso de pensões, de bares, de empregos. Pergunta quantas vezes familiares de “namoradinhos” dele já perseguiram ele pela rua. Pergunta! Aí depois você vem me dizer se as outras pessoas têm ou não algo a ver com isso.

Ela virou as costas e foi em direção ao quarto, os passos pesados no piso de tábua. A porta bateu com um estalo seco. Do lado de cá, Luiz Felipe ficou parado, a almofada ainda no colo, o peito apertado. Gurizão, pela primeira vez na noite, não riu.

O silêncio na sala era mais alto que qualquer grito, se ouvia apenas o barulho da chuva lá fora.

Autor: Mrpr2

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