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O Peso do Sobrenome

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Um conto erótico de RainhaDominatrix
Categoria: Lésbicas
Contém 4207 palavras
Data: 31/07/2026 17:48:35

​A chuva castigava as amplas vidraças da mansão nos Jardins com uma fúria rítmica e incessante. Era uma daquelas noites de inverno em São Paulo onde o frio não apenas tocava a pele, mas parecia infiltrar-se nos ossos, transformando a cidade em um mar cinzento e melancólico de concreto e garoa. Dentro da residência dos Sampaio, no entanto, o clima era ditado por outras forças. Ali, o isolamento não era uma consequência do tempo, mas uma instituição cultivada.

​Marina estava sentada na extremidade da imensa mesa de mogno da biblioteca. O cômodo, forrado do chão ao teto com edições raras e ladeado por sofás de couro Chesterfield, cheirava a cera antiga, uísque envelhecido e ao perfume inconfundível de poder. O peso do sobrenome que ela adotara há três anos parecia materializar-se nas sombras daquele espaço. À sua frente, pilhas de contratos de fusões e aquisições aguardavam revisão. Seu marido, Ricardo, o primogênito e suposto herdeiro do império Sampaio, estava em Dubai. Outra viagem de negócios. Outra ausência estendida por meses.

​Com os olhos castanhos cansados, Marina esfregou as têmporas. Ela era uma mulher de beleza delicada, quase frágil. Seus cabelos escuros caíam em ondas suaves sobre os ombros tensos, e a blusa de seda pérola que vestia parecia grande demais para a sua postura encolhida. Marina sempre fora ensinada a ser dócil, a concordar, a sorrir nos jantares de gala e a não fazer perguntas difíceis. Mas o casamento não lhe trouxe a segurança prometida; trouxe-lhe, em vez disso, um abandono elegante e uma solidão que a sufocava lentamente.

​E então, havia a verdadeira dona daquele império.

​O som dos saltos ecoou no corredor de mármore muito antes de a porta dupla da biblioteca ser empurrada. O compasso era exato, sem pressa, mas carregado de um propósito incontestável. O coração de Marina acelerou, um reflexo condicionado que ela nunca conseguiu domar.

​Helena Sampaio entrou na sala.

​A matriarca estava impecável, como sempre. Aos cinquenta e poucos anos, Helena possuía uma beleza que o tempo não ousou destruir, apenas afiou. A pele clara contrastava com os cabelos negros cortados em um bob elegante e milimetricamente alinhado. Vestia um terninho de alfaiataria escura, feito sob medida, que abraçava as curvas maduras e imponentes de seu corpo com uma precisão cirúrgica. Os olhos dela, de um verde gélido e penetrante, varreram a biblioteca antes de pousarem, com o peso de uma âncora, sobre a nora.

​— Ainda na cláusula quinta, Marina? — a voz de Helena cortou o silêncio. Era um timbre aveludado, grave, mas carregado de uma autoridade que não admitia réplicas.

​Marina sobressaltou-se levemente, endireitando a postura na cadeira estofada. Suas mãos, subitamente frias, buscaram a caneta tinteiro que havia repousado sobre os papéis.

​— Eu... eu estava apenas relendo as implicações fiscais, Helena. O jargão jurídico de Ricardo é um pouco denso. — A voz de Marina saiu mais trêmula do que gostaria. Ela detestava o quanto se sentia pequena na presença daquela mulher. E, secretamente, odiava o quanto aquela pequenez lhe causava um arrepio estranho na base da nuca.

​Helena caminhou até o aparador de bebidas, servindo-se de uma dose de uísque puro. O tilintar do cristal contra o vidro foi o único som além da tempestade lá fora. Ela não ofereceu nada à nora. Era parte do jogo silencioso de poder que jogavam desde o dia em que Marina fora apresentada à família.

​— O jargão de Ricardo não é denso, Marina. Ele é apenas preguiçoso. — Helena deu um pequeno gole, virando-se para encarar a mulher mais jovem. — Ele delega a burocracia para você porque sabe que você é obediente o suficiente para não questionar, e subserviente o suficiente para passar a noite em claro tentando agradá-lo, mesmo estando a oceanos de distância.

​O rosto de Marina corou violentamente. A franqueza brutal de Helena era uma lâmina afiada.

​— Ele confia em mim — tentou defender-se, embora a resposta soasse patética até para os seus próprios ouvidos.

​Helena riu. Foi um som curto, seco, desprovido de qualquer calor. Ela caminhou lentamente em direção à mesa, o olhar fixo na nora. Cada passo parecia diminuir o oxigênio do ambiente.

​— Confiança não tem nada a ver com isso. Você é conveniente, querida. Uma peça de porcelana que ele colocou na estante e que limpa o pó dos próprios ombros.

​Helena parou ao lado da cadeira de Marina. A proximidade repentina fez o cheiro da matriarca invadir os sentidos da mais nova: um perfume francês sofisticado, misturado ao aroma amadeirado do uísque e a algo inerentemente primitivo, como o cheiro de uma tempestade prestes a desabar.

​Marina prendeu a respiração. Não ousou olhar para cima, mantendo os olhos fixos na tinta preta do contrato à sua frente. As letras começaram a embaralhar.

​— Por que você sempre abaixa a cabeça quando eu falo com você? — perguntou Helena. O tom de voz havia mudado. Já não era a sogra repreendendo a nora por uma falha corporativa. Havia algo mais ali. Um comando encoberto. Uma curiosidade perigosa.

​— Eu não... eu estou apenas lendo... — Marina balbuciou.

​Uma das mãos de Helena desceu com suavidade, porém com uma firmeza implacável, pousando sobre os papéis, cobrindo as mãos trêmulas de Marina. O contato físico foi como um choque elétrico. Os anéis pesados de ouro branco e esmeralda da matriarca pressionaram os dedos finos da nora contra a mesa.

​— Solte a caneta, Marina.

​A ordem não foi gritada. Foi sussurrada, muito perto do ouvido de Marina. O corpo inteiro da mulher mais jovem reagiu antes mesmo que sua mente pudesse processar. Os dedos de Marina se abriram, deixando a caneta rolar sobre a madeira polida.

​— Muito bem. — A voz de Helena vibrou com uma aprovação que enviou uma onda de calor insuportável pelo ventre de Marina. — Agora, olhe para mim.

​A respiração de Marina estava superficial. A mente gritava que ela deveria se levantar, dar uma desculpa sobre o cansaço e trancar-se em seu quarto no andar de cima. Mas o corpo, aquele corpo que passara a vida inteira sendo moldado para obedecer, encontrou na voz de Helena a autoridade absoluta pela qual sempre ansiou secretamente.

​Lentamente, Marina ergueu o queixo.

​Os olhos verdes de Helena a perfuraram. Estavam tão próximas que Marina podia ver as minúsculas partículas de luz refletidas na íris da mulher mais velha. O rosto de Helena era uma máscara de controle absoluto, mas havia um brilho predestinado em seu olhar, a confirmação de que ela sabia exatamente o efeito que estava causando.

​— Você vive com medo — constatou Helena, o polegar deslizando levemente sobre os nós dos dedos de Marina, ainda presos sob sua mão sobre a mesa. — Medo de errar no trabalho. Medo de ser uma esposa ruim para um marido medíocre. Medo de não estar à altura do meu sobrenome.

​— Eu tento dar o meu melhor... — a voz de Marina era apenas um sopro.

​— O seu melhor é patético se você o dá para as pessoas erradas. — Helena inclinou-se um pouco mais. A tensão no ar era tão espessa que poderia ser cortada com uma faca de prata. — Você se submete a regras vazias de uma sociedade hipócrita, Marina. Aceita ser ignorada. Aceita ser um fantasma nesta casa. Mas quando eu ordeno que solte a caneta... você solta. Por quê?

​A pergunta pairou no ar, pesada, quase cruel em sua intimidade. Marina sentiu os olhos marejarem, não de tristeza, mas de uma vulnerabilidade excruciante. Ela estava sendo dissecada. Todas as suas defesas, as máscaras de nora perfeita, de esposa dedicada, estavam sendo arrancadas sem piedade pelas mãos daquela mulher.

​— Porque... porque a senhora manda — Marina respondeu, a voz embargada, os olhos incapazes de desviar da força gravitacional que era Helena Sampaio.

​— Eu mando — repetiu Helena, saboreando as palavras. O polegar dela deixou a mão de Marina e subiu lentamente, roçando a lateral do braço da jovem, passando pela seda da blusa, até tocar o maxilar tenso. O toque foi gelado e quente ao mesmo tempo. — E você gosta de obedecer. Não é, Marina? Não para Ricardo, que não sabe o que fazer com você. Mas para alguém que saiba exatamente como conduzi-la.

​O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Lá fora, um trovão rasgou o céu de São Paulo, fazendo as vidraças vibrarem, mas dentro da biblioteca, a tempestade era inteiramente silenciosa e devastadora.

​Marina engoliu em seco. Mentir para Helena era impossível. Mentir para si mesma, agora, sob aquele toque imperioso, tornou-se insustentável. A vergonha lutava contra um desejo primitivo de rendição total. Ela estava sentada na cadeira do escritório, no coração da casa da família de seu marido, prestes a ceder a um pecado que destruiria tudo o que conhecia. E, aterrorizante, ela queria isso mais do que qualquer coisa.

​— Sim — a confissão escapou dos lábios de Marina, acompanhada de uma lágrima solitária que desceu por sua bochecha.

​Os olhos de Helena escureceram. A confirmação foi a faísca que faltava. Em um movimento fluido e sem hesitação, a matriarca agarrou o encosto da cadeira de Marina e a girou de frente para si. Marina soltou um pequeno ofego ao ver-se presa entre as pernas da mesa e o corpo imponente de Helena.

​— Levante-se — ordenou Helena, a voz rouca, despida da polidez aristocrática de instantes atrás.

​As pernas de Marina tremiam, mas ela obedeceu. Ao ficar de pé, percebeu que Helena era apenas alguns centímetros mais alta, mas a presença da mulher a fazia sentir-se minúscula.

​Helena levou as duas mãos ao rosto de Marina. Os dedos fortes ergueram o queixo da nora, forçando-a a manter o contato visual. Havia posse na forma como ela a segurava. Uma reivindicação silenciosa e absoluta.

​— Não me chame mais de 'senhora', a menos que eu exija — murmurou Helena, os lábios a milímetros dos de Marina, o cheiro de uísque inebriando o ar entre elas. — Você não pertence mais a Ricardo. Você não trabalha mais para ele. Daqui em diante, nesta casa, você responde a mim. Você entendeu?

​Marina sentiu os joelhos fraquejarem. A intensidade da submissão que inundou seu peito era uma droga potente, anestesiando todo o medo e substituindo-o por um êxtase cego. Ela não era mais uma esposa negligenciada. Ela tinha um propósito. Ela tinha uma dona.

​— Sim... Helena.

​O sorriso de Helena foi predatório e satisfeito. Ela reduziu a última fração de espaço que as separava.

​Quando os lábios de Helena tomaram os de Marina, não houve gentileza, nem pedidos de permissão. Foi um beijo de conquista. Dominante, profundo e avassalador. Marina arfou contra a boca da mulher mais velha, suas mãos instintivamente subindo para agarrar os ombros do terno de alfaiataria, buscando apoio para não desabar.

​Helena explorou a boca da nora com a mesma maestria e implacabilidade com que comandava sua empresa. Saboreou o gosto de hortelã e do medo inicial que se derretia, transformando-se em uma entrega ardente. Uma de suas mãos desceu pelas costas de Marina, puxando a cintura da jovem com força contra o próprio corpo, prensando-a de forma possessiva.

​Marina gemeu baixinho, o som perdido no beijo. O corpo inteiro tremia de alívio e excitação. Toda a repressão de anos, toda a angústia daquela mansão fria, esvaía-se enquanto ela se permitia ser completamente dominada. A língua de Helena ditava o ritmo, exigindo passagem, exigindo resposta, exigindo tudo. E Marina entregou. Ela abriu mão de si mesma ali, no meio da biblioteca, cercada pelos pilares da tradição que acabavam de desmoronar.

​Quando Helena finalmente quebrou o beijo, a respiração de ambas estava pesada. Marina mantinha os olhos fechados, a cabeça levemente inclinada para trás, os lábios inchados e entreabertos, parecendo exatamente o que ela havia se tornado: uma peça requintada, moldada pelas mãos da matriarca.

​Helena observou a obra-prima diante de si. Passou as costas da mão pelo rosto corado de Marina, ajeitando uma mecha de cabelo escuro atrás da orelha da jovem, um gesto que contrastava a ternura com a posse estrita.

​— Abra os olhos — comandou.

​Marina obedeceu no mesmo instante, os cílios úmidos revelando um olhar devoto, completamente hipnotizado.

​— Arrume a mesa — instruiu Helena, a voz recuperando a frieza aveludada, embora seus olhos queimassem com uma promessa que não deixava margem para dúvidas. — Deixe os contratos organizados. Depois, suba para o meu quarto. Não bata na porta. Apenas entre e espere por mim.

​O contraste entre a formalidade do comando prático e a obscenidade do convite fez um frio delicioso percorrer a espinha de Marina. Ela assentiu, incapaz de articular qualquer palavra, a respiração ainda descompassada.

​Helena deu as costas, arrumando os punhos do paletó com a habitual elegância inabalável. Caminhou em direção à porta dupla de mogno sem olhar para trás. Seus passos ecoaram pelo corredor, sumindo aos poucos, até que o único som que restou na biblioteca foi, novamente, o da chuva açoitava a cidade.

​Mas, pela primeira vez em anos, Marina não se sentiu sozinha na mansão Sampaio. Com as mãos trêmulas, mas impulsionada por uma subordinação que lhe dava vida, ela começou a empilhar os papéis de seu marido. O peso do sobrenome ainda existia, mas agora, quem segurava as correntes era a única mulher pela qual ela estava disposta a se curvar.

O som do próprio coração ecoava nos tímpanos de Marina, pesado e frenético, competindo em intensidade com o tamborilar violento da chuva contra as enormes vidraças. Ela estava sozinha novamente na biblioteca, mas a ausência de Helena não trazia alívio; ao contrário, deixava um vácuo no ar, uma eletricidade estática que fazia os pelos de seus braços se eriçarem. A presença da matriarca parecia ter impregnado a madeira, os livros de capa de couro e o próprio oxigênio que Marina tentava, a custo, puxar para os pulmões.

​As mãos da jovem ainda tremiam levemente quando ela se debruçou sobre a mesa de mogno para cumprir a primeira ordem. Seus dedos, pálidos e finos, começaram a reunir as dezenas de páginas de contratos e memorandos que Ricardo havia deixado para trás. Ao olhar para a assinatura do marido em um dos papéis, Marina sentiu um calafrio de estranheza. A caligrafia de Ricardo — sempre tão apressada, tão arrogante e, ao mesmo tempo, tão desprovida de substância — agora lhe parecia a relíquia de uma vida passada. Uma vida que havia terminado há poucos minutos, no instante em que os lábios de Helena tomaram os seus com a força de um furacão.

​Ela alinhou as bordas dos documentos com uma precisão quase obsessiva. Não o fazia por zelo aos negócios da família Sampaio, e definitivamente não o fazia por Ricardo. O fazia porque ela havia mandado. A constatação fez um calor submerso, líquido e pecaminoso irradiar de seu baixo ventre. A submissão, que durante toda a sua vida fora um fardo, uma exigência opressora da alta sociedade paulistana que a tratava como um adorno, havia subitamente se transformado em sua maior fonte de libertação. Ser a esposa perfeita era exaustivo; mas ser a posse obediente de Helena Sampaio parecia a coisa mais natural e inebriante do mundo.

​Com a mesa perfeitamente impecável, Marina alisou a saia de seda e caminhou em direção à porta dupla. Ao sair da biblioteca, o silêncio do resto da mansão a engoliu. Os corredores largos, com seus pisos de mármore carrara e iluminação amarelada de arandelas antigas, pareciam testemunhas silenciosas de sua caminhada até a escadaria principal.

​A cada degrau que subia, ladeada pelos imensos retratos a óleo dos ancestrais da família Sampaio, o ar ficava mais rarefeito. Homens de semblante severo e mulheres de olhares apáticos a observavam de suas molduras douradas. Aquela era uma dinastia construída sobre aparências, casamentos arranjados e segredos trancados a sete chaves. A ironia não escapou a Marina: ela, a nora escolhida a dedo por sua linhagem dócil e sem escândalos, estava prestes a profanar o coração daquela casa, entregando-se de corpo e alma à viúva que governava o império.

​Ao chegar ao segundo andar, o corredor afundava-se na penumbra elegante, e o som da tempestade parecia mais distante, abafado pelos grossos tapetes persas que absorviam o som de seus passos. Ela parou diante da imensa porta dupla de carvalho escuro. O quarto principal. O santuário de Helena.

​Não bata na porta. Apenas entre e espere por mim.

​A ordem ecoou em sua mente, um mantra que a impedia de fugir. A educação de Marina, lapidada desde a infância, gritava que era um absurdo, uma invasão inadmissível invadir os aposentos da matriarca sem anunciar-se. Mas a nova regra, a única que importava agora, sobrepunha-se a qualquer convenção. Com a respiração presa, ela abaixou a maçaneta de metal maciço e empurrou. A porta cedeu com um clique macio e sem ruídos.

​Marina entrou e fechou a porta atrás de si com o mesmo cuidado. O quarto era vasto, uma extensão da própria dona: imponente, sofisticado e intimidador. As paredes eram revestidas de um papel de parede em tons profundos de vinho e chumbo, e o piso de madeira corrida sustentava uma cama colossal de pilares escuros, coberta por lençóis de algodão egípcio e mantas de veludo negro. Havia lareira, poltronas de couro capitonê e uma penteadeira com perfumes em frascos de cristal. O aroma do ambiente era inebriante — a mistura exata do perfume amadeirado de Helena, o frescor de lírios brancos e o cheiro seco da lenha guardada.

​Ela não sabia o que fazer a seguir. Helena não dissera onde esperar. Deveria sentar-se na poltrona? Esperar de pé? A dúvida a imobilizou no centro do tapete, a poucos metros da beira da cama. Marina decidiu não se mover. Permaneceu de pé, as mãos entrelaçadas à frente do corpo em uma postura de recato e antecipação, os olhos baixos. Os minutos se arrastavam como horas. O suspense era uma tortura calculada, um jogo psicológico que esgarçava seus nervos e a deixava perigosamente à beira de um colapso de desejo.

​Foi então que o ruído sutil da maçaneta girando cortou o silêncio.

​Marina retesou todos os músculos do corpo. A porta abriu-se e Helena entrou. A matriarca não parecia ter pressa, mas a mudança em seu visual fez a respiração de Marina falhar miseravelmente. Helena havia retirado o paletó do terninho. Estava apenas de calça de alfaiataria preta e uma blusa de seda branca. Os primeiros botões da blusa estavam abertos, revelando um vislumbre elegante de sua pele madura e do colo perfeitamente hidratado. As mangas estavam arregaçadas até os cotovelos, conferindo-lhe um ar menos corporativo, mas infinitamente mais predatório.

​Helena encostou a porta com um estalo definitivo. O som foi o equivalente ao fechamento das grades de uma jaula.

​Sem dizer uma palavra, a matriarca caminhou lentamente pelo quarto. O salto de seus sapatos havia sido substituído pelo som silencioso de seus pés descalços sobre a madeira, o que apenas aumentava a sensação de que havia uma leoa circulando sua presa. Helena parou a cerca de dois passos de Marina, os olhos verdes gélidos varrendo a figura trêmula da nora dos pés à cabeça.

​Marina não ousou erguer o olhar. Manteve os olhos fixos na fivela prateada do cinto de Helena, o peito subindo e descendo de forma errática.

​— Você não se sentou — observou Helena. O timbre aveludado e grave era um contraste com o barulho agudo da tempestade lá fora.

​— A senh... — Marina se interrompeu bruscamente, lembrando-se da ordem explícita na biblioteca, as bochechas corando com o quase deslize. Ela engoliu em seco. — Você não me ordenou que sentasse, Helena.

​Um pequeno sorriso de canto curvou os lábios pintados de vermelho escuro de Helena. Havia uma satisfação genuína e possessiva ali.

​— Excelente. Vejo que sua capacidade de aprendizado é tão boa quanto a sua obediência — murmurou Helena, dando mais um passo à frente, destruindo completamente a bolha de espaço pessoal de Marina. O calor do corpo da mulher mais velha emanava no ar. — Levante a cabeça. Olhe para mim.

​Marina obedeceu imediatamente. Ao encontrar o olhar intenso de Helena, sentiu uma vertigem. A força contida naqueles olhos verdes era o suficiente para subjugar impérios inteiros, e no entanto, toda aquela atenção devoradora estava focada única e exclusivamente nela.

​Helena ergueu a mão direita. Seus dedos compridos e frios roçaram a lateral do pescoço de Marina, traçando a linha sensível da mandíbula até chegar aos cabelos. Com movimentos lentos e deliberados, Helena começou a desfazer o penteado arrumado da nora. Retirou os grampos ocultos um a um, deixando que as ondas escuras e sedosas de Marina caíssem como uma cascata bagunçada sobre os ombros.

​— Você passou os últimos três anos tentando se encaixar neste molde patético que Ricardo criou para você — a voz de Helena era um sussurro hipnótico, os dedos desembaraçando os fios escuros com uma firmeza possessiva. — Uma esposa troféu. Muda. Cega. Sem desejos próprios. Quão sufocante tem sido, Marina? Viver como uma sombra nesta casa?

​— Tem sido uma morte lenta — Marina confessou, a voz embargada pela emoção, a vulnerabilidade rasgando o peito. A verdade absoluta escapava de seus lábios sem nenhum filtro. Ela não conseguia mentir para Helena.

​— Eu sei. Eu vi. Desde o dia em que ele a trouxe para o jantar de noivado, eu vi a chama em seus olhos sendo apagada pela mediocridade do meu filho — Helena desceu a mão, traçando o decote sutil da blusa de seda de Marina. O toque fez a jovem arfar, os olhos fechando-se involuntariamente. — Mas a culpa não foi apenas dele. Você aceitou. Você se curvou diante da fraqueza dele, quando tudo o que o seu corpo e a sua mente queriam era se curvar diante de uma verdadeira força.

​Os olhos de Marina se abriram, marejados, suplicantes.

​— Sim — ela sussurrou, a confissão nua e crua.

​Helena parou o movimento de sua mão e fixou o olhar no de Marina. O ar no quarto pareceu congelar.

​— Dê-me a sua mão esquerda — ordenou a matriarca.

​O comando foi seco, cirúrgico. Marina, com o coração batendo na garganta, ergueu a mão trêmula, oferecendo-a. Helena segurou o pulso fino da nora com uma força inabalável, não o suficiente para machucar, mas o bastante para deixar absolutamente claro quem detinha o controle. Com a outra mão, Helena segurou o dedo anelar de Marina, onde repousava a pesada aliança de ouro cravejada com um pequeno diamante – o selo do compromisso com Ricardo Sampaio.

​O olhar de Helena não vacilou enquanto ela segurava o anel.

​— Este pedaço de metal é uma farsa. É um contrato que você assinou com um fantasma. Ele não a protege, não a consome, não a possui — as palavras de Helena eram dardos afiados, venenosos e dolorosamente verdadeiros. — Nesta casa, sob este teto, eu sou a única que detém o poder de possuir alguma coisa.

​Com um movimento lento, contínuo e sem nenhuma hesitação, Helena puxou a aliança do dedo de Marina. O atrito do metal contra a pele parecia queimar, não pela força, mas pelo peso simbólico do que estava acontecendo. O elo de seu casamento, sua segurança social, sua identidade perante o mundo... tudo estava sendo arrancado.

​Helena segurou a aliança entre o polegar e o indicador por um breve segundo, antes de soltá-la. O anel de ouro despencou, batendo contra o piso de madeira em um ruído metálico e oco, antes de rolar até desaparecer sob a sombra de uma poltrona.

​Marina ofegou, uma lágrima espessa transbordando e descendo por sua bochecha. Não era dor; era o alívio esmagador daquele fardo sendo removido. O vazio em seu dedo anelar parecia pulsar.

​— Você não é mais a esposa do meu filho. Você não é a nora perfeita da sociedade paulistana. Você é minha. — Helena não gritou, mas o peso da declaração fez o quarto inteiro vibrar. — Apenas minha. Para moldar. Para usar. Para ensinar o que é a verdadeira rendição.

​A possessividade na voz de Helena quebrou a última barreira de contenção de Marina. Os joelhos da jovem fraquejaram e cederam. Ela desabou lentamente em direção ao chão, não como alguém que desmaia, mas como alguém que encontra o seu devido lugar no mundo. Marina caiu de joelhos sobre o tapete felpudo, exatamente aos pés de Helena.

​Lá de cima, a matriarca não recuou. Ela olhou para a mulher ajoelhada à sua frente com a satisfação sombria e orgulhosa de uma deusa recebendo o tributo de sua devota mais fiel.

​Marina baixou a cabeça, as mãos apoiadas no chão ao lado das pernas longas e esguias de Helena. O tecido frio da calça de alfaiataria roçava seu rosto. Ela estava à mercê daquela mulher. Todo o seu futuro, todo o seu corpo, sua sanidade mental, agora pertenciam a Helena Sampaio. E não havia lugar no mundo em que ela preferisse estar.

​Lentamente, Helena abaixou a mão, os dedos enredando-se profundamente nos cabelos soltos e escuros de Marina. Ela agarrou os fios com força, puxando a cabeça da jovem para trás com um solavanco firme, obrigando-a a expor a garganta nua e vulnerável e a olhar diretamente para o alto.

​O rosto de Marina estava banhado em lágrimas silenciosas, os lábios entreabertos, a expressão tomada por um misto de medo reverencial e pura adoração.

​— Tire essa blusa — comandou Helena, a voz rouca e gutural, os olhos escurecidos pelo desejo e pelo poder absoluto. — E mostre-me o que me pertence.

​Enquanto a tempestade rugia do lado de fora, açoitado o telhado da mansão, Marina, com as mãos trêmulas de antecipação cega, alcançou o primeiro botão de sua blusa de seda, iniciando sua verdadeira vida na obediência.

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