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Viagem de Ônibus - capítulo 7 (bônus)

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Da série Ônibus
Um conto erótico de bruno
Categoria: Gay
Contém 921 palavras
Data: 31/07/2026 14:50:26

O ônibus já ficou para trás. Agora a história passa a acontecer dentro na minhacabeça. É quase um epílogo emocional.

Capítulo Bônus — A semana que não terminou

Quando entrei no Uber, achei que tudo ficaria para trás.

Sempre imaginei que as histórias terminassem quando as pessoas se despedissem. Naquela manhã descobri que algumas delas só começam quando a despedida acontece.

Durante o trajeto até minha casa, fiquei olhando pela janela sem prestar atenção nas ruas. O motorista dizia alguma coisa de vez em quando, comentando sobre o trânsito, a viagem e perguntando qual caminho eu preferia seguir. Eu respondia automaticamente, mas minha cabeça ainda estava dentro daquele ônibus.

Era como se eu tivesse desembarcado apenas com o corpo.

Minha mente permanecia algumas horas atrás.

Lembrava do calor da mão dele.

Do silêncio.

Da sensação de descanso.

Da paz.

Principalmente da paz.

Quando cheguei em casa, pensei que bastaria dormir algumas horas para tudo voltar ao normal.

Não voltou.

Acordei e a primeira lembrança que veio foi dele.

Não do rosto.

Curiosamente, o rosto era justamente o que eu menos conseguia lembrar.

Lembrava das sensações.

Do peito.

Da mão.

Do jeito como ele me fazia sentir protegido.

Durante os primeiros dias, isso começou a acontecer o tempo inteiro.

Enquanto tomava banho.

Enquanto dirigia.

Enquanto dava aula.

Enquanto treinava.

Enquanto respondia mensagens.

Bastava existir alguns segundos de silêncio para que minha mente voltasse imediatamente para aquela madrugada.

Às vezes eu nem percebia.

Quando me dava conta, já estava reconstruindo toda a viagem pela centésima vez.

“Se eu tivesse sentado ao lado dele na parada…”

“Se eu tivesse puxado assunto quando ele assistia God of War…”

“Se eu tivesse perguntado o nome dele…”

“Se eu tivesse esperado um pouco mais na rodoviária…”

Minha cabeça fabricava possibilidades infinitas.

Em todas elas a história continuava.

Na realidade, ela já havia terminado.

Foi nessa semana que descobri uma sensação que nunca tinha experimentado daquela maneira.

A rejeição silenciosa.

Ela é diferente de alguém dizer “não”.

Quando alguém nos rejeita com palavras, existe um encerramento.

Quando o silêncio responde por alguém, a mente tenta completar as lacunas sozinha.

Foi exatamente isso que aconteceu comigo.

Encontrei um perfil que acreditava ser o dele.

Meu coração acelerou.

Olhei a foto várias vezes.

A barba.

O cabelo.

O brinco.

Tudo parecia combinar.

Enviei a solicitação.

Depois esperei.

Durante horas.

Depois durante dias.

Cada notificação que aparecia no celular fazia meu coração disparar por uma fração de segundo.

Eu desbloqueava a tela esperando encontrar o nome dele.

Nunca era.

Era propaganda.

Algum grupo.

Algum aluno.

Algum amigo.

Qualquer pessoa.

Menos ele.

Passei a abrir o Instagram várias vezes por dia.

Não para publicar nada.

Apenas para verificar se havia alguma resposta.

Nada.

Alguns dias depois percebi que o perfil continuava ativo.

Vi uma curtida recente em uma publicação.

Aquilo significava que ele estava usando a rede social.

Ele apenas não tinha respondido à minha solicitação.

Foi estranho.

Não senti raiva.

Senti um vazio.

Comecei a imaginar dezenas de explicações.

Talvez não tivesse percebido.

Talvez tivesse percebido e preferido não aceitar.

Talvez tivesse medo.

Talvez estivesse protegendo o próprio relacionamento.

Talvez quisesse esquecer.

Talvez simplesmente não tivesse sentido o mesmo.

Percebi que eu nunca saberia.

E essa talvez tenha sido a parte mais difícil.

Não era o fim.

Era a ausência de uma explicação para o fim.

Mesmo assim, continuei pensando nele.

Todos os dias.

Não da maneira como as pessoas imaginam quando ouvem uma história como essa.

Eu quase nunca pensava na parte física.

Ela existia.

Mas não era ela que voltava.

O que retornava era outra coisa.

Eu lembrava da minha mão sobre o peito dele.

Do jeito como me senti quando ele a colocou ali.

Da tranquilidade que existia naquele silêncio.

Da sensação de que, por algumas horas, alguém havia cuidado de mim.

Foi então que comecei a entender que a saudade que eu sentia talvez não fosse exatamente dele.

Era da pessoa que eu havia sido naquela madrugada.

Antes daquela viagem, eu acreditava que aquela versão mais afetuosa de mim já não existia.

Achava que ela tinha ficado perdida em algum momento da minha história.

Naquele ônibus, ela apareceu de novo.

E, quando tudo terminou, senti medo de perdê-la outra vez.

Foi por isso que escrevi.

Escrevi cada detalhe.

A bala.

O carregador.

A mochila.

A blusa preta.

A calça bege.

As luzes da estrada.

O cheiro do ônibus.

Os poucos sons que lembro da voz dele.

Os olhares.

As mãos.

O caminho até as malas.

Não escrevi porque queria prender alguém.

Escrevi porque queria impedir que a memória apagasse aquela parte de mim que havia despertado naquela madrugada.

Hoje, olhando para trás, percebo que aquela semana foi uma das mais intensas da minha vida emocional.

Eu me sentia dividido.

De um lado, a culpa por tudo o que havia acontecido.

Do outro, a gratidão por ter vivido uma experiência que me fez perceber algo importante sobre mim.

Descobri que ainda precisava de acolhimento.

Que ainda queria descansar nos braços de alguém.

Que ainda desejava ser vulnerável sem medo.

E, principalmente, descobri que a minha capacidade de amar não havia desaparecido.

Ela apenas estava escondida atrás de um muro que eu mesmo havia construído ao longo dos anos.

Talvez essa tenha sido a verdadeira herança daquela viagem.

Não o encontro.

Nem a despedida.

Mas a descoberta de que, mesmo depois de tantas decepções, ainda existia dentro de mim alguém capaz de sentir com toda a intensidade.

E essa foi uma parte de mim que eu nunca mais quis perder.

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