Capítulo XVI - Cavalo gentil
— Acho que foi só sorte... De todo modo, é bom que não tenha derrubado seu sangue em minhas roupas.
Disse Epona, que, já tendo pedido para eu me prostrar, terminava de analisar as roupas entregues.
— Tá, levanta o rosto agora! Estava me segurando tanto para fazer isso, Potrinho...
Ela tirou minha coleira e despejou a água do balde — a mesma que usaria para encher minha cumbuca — direto no meu rosto para ajudar a limpar o sangue.
— ... mas você levantar o tom comigo foi a desculpa perfeita para matar esse desejo. Sabe qual desejo, Potrinho?
Respondi com a voz trêmula e involuntariamente espaçada. Os choques, seguidos do corte e da água gelada, faziam meu corpo ter pequenos espasmos:
— Me agredir, Senhora? Cortar minha carne?
— Hahaha... não, Potrinho... o corte é só uma necessidade. Fiz com precisão, não com prazer. Espera um minuto.
Epona foi até o banheiro, destrancou-o e voltou com uma caixinha metálica e algodão:
— Ama tanto Ártemis, né? Vou te contar uma história... Ela me fez usar essas coleiras para punir, sabia?
Balancei a cabeça negativamente.
— Gosto assim, que fale só quando não puder usar seu corpo... Olha pra cima. Mantém o caralho do teu rosto parado! Isso.
Epona tirou do bolso uma pequena lanterna e começou a analisar minha ferida...
— Como eu dizia, Ártemis me deu essas coleiras porque eu adorava cortar meus animaizinhos só para poder fechar os cortes! Você não sabe o tesão que me dá cortar carne para depois costurar... Comecei costurando tecidos mortos, sabe... Mas, quando fiz em vivos, não quis parar mais!
Epona segurava a lanterna com a boca e passava uma linha em uma agulha extremamente fina... Sua precisão e seu tesão eram coisas inconcebíveis para mim... Para mim, tesão sempre fora descontrole, sempre fora emoção... Segurando a agulha sem tremer, aproximou a mão do meu rosto e pude ver seus pelos eriçados...
Involuntariamente, fechei os olhos ao sentir o toque frio da agulha. Epona parou, soltou a lanterna em suas coxas e disse:
— Não é para mexer seu rosto, caralho! Quer que a titia passe talquinho de novo? É o medo de uma agulhazinha que vai te fazer perder Ártemis?
Ela estava me provocando, e eu quebraria meu acordo com o leitor se mentisse que não funcionava. Epona sabia bem onde e como apertar... mas não era só isso. Ao abrir os olhos, vi que ela aquecia a agulha com um isqueiro... o tesão pelo controle, pela precisão, também tinha seus descontroles e surtos.
Com um pano que havia dentro da caixinha, ela limpou o excesso de sangue e iniciou o procedimento... A agulha quente foi como um beliscão... Se Epona não fosse tão precisa, tenho certeza de que apagaria ou, ao menos, confirmaria que era um bebezão... Resisti por conta dela, não minha...
— Agora que terminou, vai chorar, Potrinho? Hahahaha. Ai, Potro, que delícia, sua pele é tão mole e macia como eu imaginava, e você é tão patético, tão sem vida... No morto consigo a máxima precisão, no vivo o máximo tesão, e de algum modo você conseguiu combinar os dois!
Disse enquanto me dava dois tapinhas na cara. Epona estava muito falante... ofegante:
— Olha, Potro, nem deveria te confessar isso, mas desde que botei os olhos em você, desde que fiz seus primeiros exames... olha aqui...
Epona pegou o terrível caderninho vermelho e, saltando algumas páginas, segurou-o aberto com uma mão bem à frente do meu rosto:
— Desenhei você inteirinho. Um estudo do seu corpo e dos seus cortes; tenho certeza de que posso amputar sua mão ou pé e encaixar de volta quase tão bem quanto estava antes...
Era perturbador como Epona conseguira me desenhar tão bem e, ao mesmo tempo, inserir linhas pontilhadas como se estivesse fazendo um guia de cortes para um açougue. Fazia muito tempo que eu não sentia esse tipo de medo... Sua fala, para piorar, não carregava uma ameaça; entregava uma confissão.
Epona recolheu seu caderno e me fitou... pude ver a decepção em seu rosto.
— Ficou com medo... todos ficam!
Ela encarava meu pau que, pela primeira vez desde que eu estava próximo a Epona, estava folgado na cinta... era como um pássaro protegido de um gato faminto em sua gaiola.
Epona guardou as coisas e as levou ao banheiro; voltou falando em seu tom mais distante, mais profissional:
— Potro, começaremos amanhã seu verdadeiro treinamento. Farei como pediu; não irei mais tolerar o fracasso do seu corpo e da sua mente. Extrairei dele o que for preciso...
O tom podia ser profissional, mas, após tudo o que havia acontecido, comecei a ter dúvidas sobre o que estava fazendo ali, de quatro e de costas para ela.
— ... Como sabemos que um bicho se tornou adulto? Quando ele consegue cumprir sua função. Na natureza, procriar; na sociedade, trabalhar. Como futuro Escravo Sexual de Ártemis, as duas funções se combinam...
Epona falava com a precisão de um palestrante... ela não poderia estar falando aquilo pela primeira vez. Será que, nem em um dos meus momentos mais profundos, eu conseguia ser original?
— ... Para ensinar e também medir o seu progresso, dividi a função do Cavalo em três momentos: o Cavalo gentil, o Cavalo rebelde e o Cavalo companheiro. Quando conseguir performar esses três momentos e, mais do que isso, conseguir performar os três de maneira integrada de acordo com a vontade de sua Senhora, poderá tentar a sorte com Ártemis...
Epona sabia que minha Vontade era fraude, mas via na fraude um caminho... enumerava as coisas, no entanto, para alimentar o meu verdadeiro e tacanho espírito de cordeiro que precisava de ordem e procedimento...
— ... como Cavalo gentil, você precisa antecipar o que sua cavaleira quer e entregar, sempre que possível, mais do que ela pede. Começaremos por aí, pois sua natureza parece moldada a progredir bem nessa Doma...
Epona completava o primeiro círculo em volta de mim:
— ... como Cavalo rebelde, você precisa instigar sua cavaleira a impor sua Doma, lembrar a ela que você é Vivo e que ter sua posse não é entrega e sim Domínio! Por fim, como Cavalo companheiro, você precisa ser uma extensão do corpo da cavaleira, uma arma que aumenta o Poder dela...
Lembrei-me do dia da Invasão e tive dificuldade para engolir...
— ... Será a Doma mais difícil, dada a sua covardia!
Parou à minha frente e recomeçou os cuidados como se fosse mais um dia normal... era, em verdade, o último.
Capítulo XVII – Cavalo Gentil
Recolhido em meus aposentos... protegido pelo meu cobertor do monstro que podia puxar e devorar meu pé, começava a entender o que havia acontecido...
Como Epona podia ter escondido de mim sua faceta psicótica? Suas ameaças, por não soarem como nada além de seu íntimo desejo, devoravam minha mente.
Até ali, eu pensava nela como uma rígida professora... depois, passei a vê-la como uma figura trágica: alguém que preparava seres ridículos para se aproximarem de uma Deusa, enquanto ela própria seguia afastada da divindade a quem jurara servir.
A Epona que se apresentara diante de mim já não cabia mais nessas descrições... Sair para treinar passou a carregar o signo dúbio de estar me expondo a um predador.
Tentei dormir, imaginando que o treino do dia seguinte seria mais difícil do que todos os demais... encontrei refúgio na ilusão... Talvez, como professora, Epona precisasse recobrar o controle através do medo. Suas ações impositivas anteriores não tinham surtido o efeito disciplinar que ela esperava (?)... talvez, como devota do Templo, Epona, como uma asceta, não se entregaria às suas pulsões... dormi. Antes não o tivesse feito.
Sem o controle da narrativa, minha mente foi puxada para o centro de gravidade que a dominava: o horror. Sonhei que estava no laboratório... mas ele estava estranhamente mais claro e brilhante.
Deitado em uma maca, podendo apenas mexer a cabeça, vi-me cercado por cortinas que desciam do teto e encobriam meus braços e minhas pernas completamente...
Não os sentia; apenas ouvia barulhos metálicos seguidos de choques nos nervos... como quando se bate o cotovelo e ele não dói, mas vibra...
O rosto de Epona apareceu acima das cortinas... coberto de sangue. Seu sorriso agora era completado por uma fileira de dentes pontiagudos...
— Estou acabando, Potrinho, só mais um pouco...
Tentei me sacudir, mas não consegui sair do lugar. De repente, as cortinas se abriram e testemunhei a cruel inversão que Epona fizera em mim. Com os braços trocados de lugar com as pernas, acordei gritando de horror e batendo a testa no teto.
(Caligrafia diferente, definitivamente Epona)
“Este pesadelo é o delírio tacanho de uma mente leiga, incapaz de compreender a elegância da anatomia humana. Jamais desperdiçaria meus recursos com uma transposição ortopédica tão grotesca; permutar membros superiores e inferiores é um absurdo biomecânico incompatível com as vias neurais e fadado à necrose imediata por falência vascular.
No entanto, chegará o dia em que Ártemis me concederá a chancela para o verdadeiro procedimento: a anastomose parabiótica total entre dois espécimes. Com os novos protocolos imunossupressores que venho desenvolvendo, tenho convicção de que a minha próxima quimera superará a barreira da rejeição hiperaguda, mantendo viabilidade hemodinâmica e atividade cerebral por muito além daquele frustrante limiar de 72 horas.”