Eu marquei a consulta pelo aplicativo sem colocar meu sobrenome completo. Só “Paulo”. Horário das 16h40, último da tarde. Fisioterapia esportiva, avaliação postural e de mobilidade. O endereço era um consultório pequeno a duas quadras da praia, no litoral.
Quando ela abriu a porta da sala, parou dois segundos.
— Não…
A voz saiu baixa, quase descrente. Depois o sorriso veio inteiro, daqueles de quem não espera e se alegra de verdade.
— Paulo?
— Oi, Nini.
Ela riu, passou a mão no cabelo e deu dois passos pra frente, como se fosse me abraçar e tivesse segurado no último instante.
— Meu Deus. Quantos anos?
— Uns quinze, se contar direito.
— Você sumiu. Foi pro intercâmbio e nunca mais…
— Voltei. Há um tempo já. Só não avisei ninguém.
O consultório era limpo, claro, com uma maca no centro, espelho de corpo inteiro e uma mesa pequena com prancheta. Ela vestia uma calça de moletom cinza clara e uma blusa esportiva justa, azul-marinho. Cabelo preso num rabo de cavalo alto, sem maquiagem, pele morena de quem vive perto do mar. Os olhos eram os mesmos de quando a gente sentava no fundo da sala no fundamental.
— Senta aí — ela disse, ainda sorrindo. — Você tá… diferente.
— Diferente como?
— Não sei. Mais… resolvido.
Eu tirei a camisa sem ela pedir. Era parte da avaliação. Ela pegou a prancheta, mas os olhos demoraram um segundo a mais do que o necessário no peito e nos ombros. Eu notei. Ela também notou que eu notei.
— Gira de lado. Agora de costas. Flexiona o tronco.
As mãos dela eram firmes, profissionais. Apertavam ombro, desciam pela coluna, testavam a amplitude do quadril. Quando pediu pra eu deitar de bruços, a voz saiu um pouco mais baixa.
— Você treina?
— Treino.
— Dá pra ver.
A avaliação durou quase quarenta minutos. No final ela anotou algumas coisas, recomendou dois exercícios e guardou a prancheta.
— Consulta paga? — perguntei.
— Esquece. Dessa vez é por conta da casa.
— Não precisa.
— Precisa sim. Você apareceu do nada depois de quinze anos. Deixa eu pelo menos não te cobrar.
Saímos juntos. O sol já estava mais baixo. Ela trancou o consultório e parou na calçada.
— Você vai embora agora?
— Não tenho horário.
— Então vem. Eu sempre caminho até a praia depois do último paciente. Descarrego a cabeça.
Aceitei.
A praia estava quase vazia naquela hora. O vento vinha frio do mar. Ela tirou a blusa esportiva sem cerimônia e ficou só de top de academia, depois puxou o moletom e revelou o biquíni por baixo. Fio dental preto, minúsculo, o tecido fino marcando o formato da bunda firme e levantada. As alças do top eram finas. O corpo dela era de quem trabalha em pé o dia inteiro e ainda encontra tempo pra se mexer: cintura estreita, pernas definidas, pele dourada.
Ela não pediu desculpa pelo biquíni. Só jogou a roupa numa cadeira de plástico de um quiosque fechado e foi andando na areia molhada. Eu caminhei ao lado.
— E a vida? — perguntei.
— Trabalhando. Muito. Atendo de manhã no consultório, à tarde faço visita em dois times de base da região. No fim de semana ainda pego uns particulares.
— E o resto?
Ela deu um meio sorriso sem humor.
— O resto é o Diego.
Eu fiquei em silêncio, esperando. Ela continuou depois de alguns passos.
— A gente está junto desde o segundo ano do ensino médio. Mora junto faz seis anos. Ele é gente boa. Não me trata mal. Só…
— Só o quê?
— Só está confortável. Tem um emprego de escritório que paga o suficiente pra ele. Não quer concurso, não quer mudar de área, não quer nada. Quando eu falo em abrir meu próprio espaço, ele apoia com a boca e muda de assunto. Quando eu falo em juntar dinheiro pra um curso fora, ele fala que “a gente já tá bem”.
Ela chutou uma concha na areia.
— Eu acordo cinco e meia. Ele acorda às oito. Eu chego em casa nove da noite. Ele já jantou e está no sofá. Não é briga. É só… silêncio. E esse silêncio está me deixando brava comigo mesma.
O vento mexia o cabelo dela. O biquíni subia um pouco a cada passo, mostrando mais da curva da bunda. Eu não comentava. Só andava.
— Você parece bem — ela disse de repente, olhando de lado. — De verdade. Cara de quem resolveu as coisas.
— Resolvi algumas.
— E solteiro?
— Namoro. Mas não é o tipo de coisa que impede a gente de conversar.
Ela soltou uma risada curta.
— Você sempre foi assim. Direto sem ser grosso.
Paramos perto da água. O sol já estava quase sumindo. Ela cruzou os braços sob o peito, como quem sente frio, mas não se mexeu pra vestir a blusa.
— Sabe o que é estranho? — ela falou. — Eu fico feliz quando vejo gente que saiu daqui e deu certo. De verdade. Não é inveja. É… vontade. Vontade de ter escolhido diferente em algum momento.
— Ainda dá tempo.
Ela olhou pra mim.
— Dá?
— Dá. Às vezes a gente só precisa lembrar que existem outras possibilidades. Que o que está confortável não necessariamente é o que a gente merece.
Ela não respondeu logo. Ficou olhando o horizonte. O vento trazia o cheiro de maresia e o barulho leve das ondas.
— Você sempre soube falar as coisas de um jeito que fica na cabeça — murmurou.
Eu sorri de canto.
— Só estou dizendo o que já está aí. Você trabalha demais. Tem ambição. Tem corpo, tem cabeça, tem disciplina. Às vezes a gente se acostuma tanto com o que é “ok” que esquece de perguntar se ainda cabe.
Ela respirou fundo, como se quisesse responder e tivesse engolido a frase. Depois se abaixou, pegou a blusa e o moletom, mas não vestiu. Ficou só segurando.
— Preciso ir. Diego vai estranhar se eu demorar.
Caminhamos de volta em silêncio até o quiosque. Ela se vestiu por cima do biquíni, o tecido fino ainda marcando por baixo da calça de moletom. Antes de se despedir, parou na minha frente.
— Foi bom te ver, Paulo. De verdade.
— Foi bom te ver também.
— Se precisar de mais alguma sessão… me avisa. Eu encaixo.
— Vou precisar.
Ela sorriu de novo, aquele sorriso de quem está feliz e ao mesmo tempo inquieto. Depois virou e foi embora pela calçada, o cabelo balançando, a bunda marcada sob o tecido claro do moletom.
Eu fiquei olhando até ela sumir na esquina.
A semente estava plantada.