O sol das 14 horas entrava pelas frestas da escuna, quente e dourado, como se zombasse do que havia acontecido. O barco balançava suavemente ancorado no manguezal, a água ao redor agora calma e cristalina. As roupas encharcadas ainda estavam amontoadas no canto, e os corpos nus se espalhavam pelo convés como náufragos que conseguiram se salvar numa ilha deserta. Pequenos crustáceos andavam pelo casco da escuna, pássaros cantavam alegremente, saracuras caminhavam pelo mangue em busca de alimentos.
Naiara foi a primeira a despertar.Seus olhos se abriram lentamente, a visão embaçada pelo cansaço e pela confusão. Ela sentiu o peso de um braço sobre sua cintura, a respiração quente de alguém em seu pescoço. Virou a cabeça e viu Tony. Seu coração parou por um segundo.Tony, com a mão ainda repousando sobre a barriga dela.
Naiara olhou para o próprio corpo nu, seios expostos,as marcas de dedos em sua pele. Lembranças fragmentadas começaram a surgir. Ela então colocou a mão na boca,arregalou os olhos
- Meu Deus… o que…o que aconteceu??
Beatriz acordou em seguida, sentada com as costas apoiadas no tórax de Jemerson. Seu corpo também estava nu, e seu olhar percorreu a cena. Cauê, caído ao lado dela, ainda dormindo,Jamile abraçada a Diego, como se ainda buscasse calor, enquanto seu pauzão amolecido estava em cima do pescoço de Bianca, que estava deitada nas pernas da tia. Jemerson, com a cabeça na armação que sustentava o leme, o corpo exposto,Sheila, aninhada entre as pernas dele.e Breno utilizando o quadril de Íris como travesseiro. Levantou a cabeça e viu Naiara sentada,com uma cara melancólica.Beatriz puxou o ar com um soluço.
- Que porra foi essa…
Naiara começou a chorar. Seu pranto foi suficiente pra acordar os demais.Pouco a pouco,cada um que despertava se dava conta do que havia acontecido.Os rostos eram de incredulidade.Bianca se sentou de repente, as mãos cobriram os seios, como se isso pudesse apagar o que tinha acontecido.Jamile se afastou de Diego rapidamente, como se as costas dele tivesse pregos. Seu rosto estava pálido, os olhos arregalados.
Jamile: Nós…nós… nós fizemos isso? Fizemos mesmo?
Scheila(gritando): Foi a tempestade!Foi o medo! Perdemos o controle!
Breno:Caralho,velho…que loucura foi essa!
Íris: Isso não foi uma escolha,não foi!
Bianca: Não foi forçado, ninguém forçou ninguém,aconteceu!!
Naiara: EU NÃO QUERO SABER!ISSO FOI ERRADO!MUITO ERRADO!
Jemerson: Todos calmos, não adianta esse falatório!Nós passamos por uma tempestade, perdemos o controle, e fizemos coisas que não faríamos em sã consciência. Isso foi um acidente!
Naiara: Acidente??Isso não foi um acidente, Jemerson! A gente não tropeçou e caiu nas pernas uns dos outros!
Jemerson:Foi o pânico!Tava todo mundo assustado,as coisas foram acontecendo…uma coisa levou a outra.Não há culpados aqui!
Jamile: Isso não é desculpa!Sou mãe!Tenho um filho. E agora... agora eu fiz isso. Eu traí a confiança dele. Eu fiz coisas que ele nunca vai entender...Eu sou uma pessoa ética! Eu nunca faria isso! NUNCA!
O choro sacudia seu corpo,que agora,tremia de vergonha.Scheila tentou toca-la para acalma-la,mas a sua ação foi abrupta.
Jamile: NÃO TOCA EM MIM!Já não basta o que houve aqui???Eu estou com vergonha de mim mesma. Me sinto…nojenta…
Scheila(bastante sentida):Eu só quis…ajudar…precisamos de conforto...Eu passei meses tentando reconstruir minha vida… e me envolvi com…meus alunos...
Beatriz(chorando):Gente,para!Eu pensei que ia morrer!Foi horrível!Acho que a gente fez isso pra se proteger!Por favor, para…ahhhhhhhhhhh…
Tony: Meu Deus,isso não some de uma hora pra outra!Puta merda,tô me sentindo um lixo!
Diego: Rapaz, isso é inacreditável.
Naiara: Meu Deus,o Genildo…como olhar pra ele (muito choro)
Íris: Gente,por favor,temos que aprender a lidar com isso,não tem jeito!Somos adultos,não vamos fazer com que isso vire um drama maior do que já está sendo!
Naiara (aos berros):Eu não consigo fazer isso!Olhar ele…beijar ele…sabendo…que fiz isso.
Jemerson: Para de se martirizar!Isso foi fruto do pânico,você viu a violência da tempestade que enfrentamos???
Naiara: Isso é fácil pra quem vai voltar pra casa e fingir que isso não aconteceu!Eu tenho um namorado que não veio!Que não sabe nada do que se passou aqui!Vocês sabem como conviver com isso diariamente,ao lado da pessoa que ama???
Jemerson: Entendo seu lado,mas você precisa compreender que ninguém aqui se orgulha do que fez,então todos vão se resguardar e processar tudo de modo a seguir em frente,porque é isso que se faz quando um problema surge! Não houve crime aqui!Houve um grupo tentando sobreviver a uma tormenta anormal!Ponto!
Jemerson estava muito nervoso, como ele não costumava ser
Jemerson: E se encherem o saco perguntando como foi o passeio,ele foi cancelado por causa da tempestade. Ficamos ancorados no mangue, esperando a chuva passar, e ninguém fez nada. É essa a história.
Após um silêncio sepulcral,lentamente o grupo foi se movendo. As roupas foram vestidas em silêncio, os olhos evitavam olhar pro lado.Naiara puxou a camiseta sobre a cabeça com movimentos mecânicos, sem olhar para ninguém; Jamile enfiou o vestido azul, as mãos ainda tremendo; Breno vestiu a camisa aberta, os dedos trêmulos.Cada um foi se arrumando de modo automático,cabeça cheia como um saco de confetes.
A viagem de volta foi silenciosa,o sol brilhava, o mar estava calmo, e a tarde era linda, nenhuma nuvem no céu,nenhum sinal de que houve um dilúvio bíblico horas atrás. A natureza parecia ter apagado tudo.
Mas dentro da escuna, o silêncio pesava como uma pedra.Scheila soluçava baixinho, os olhos fixos no horizonte;Beatriz tinha o rosto enterrado nas mãos;Bianca olhava para o mar sem vê-lo;Cauê e Breno estavam sentados em cantos opostos,Jemerson sério,Íris recostada em seu ombro,Diego atirando pedrinhas no mar;Tony fingia cochilar,Jamile com as mãos no peito,como se estivesse prevendo um infarto;Naiara sozinha num canto,como uma garotinha abandonada numa casa mal assombrada.
Quando a marina foi se aproximando, um alívio amargo tomou conta de todos. Quando a escuna já estava a poucos metros do caís,Jemerson falou incisivo.
- Peço que não comentem nada do que aconteceu. Não sei se isso é o correto,ou se é o justo,mas será honesto conosco. Isso está sendo incompreensivel pra gente,imagine pra quem não estava naquela agonia,se protegendo da tempestade.Agora temos que ser fortes,todos…especialmente vocês duas.
Jamile e Naiara,as mais sentidas por motivos óbvios,eram as pessoas a quem Jemerson direcionava a voz.
- Tentem ressaltar que não há vilões aqui,que todos passamos por maus bocados,e o que quer que tenha nos impulsionado,não partiu de qualquer decisão consciente.Somos primeiramente sobreviventes,mais do que tudo.
Todos se olharam,como se guardar aquele segredo fosse um acordo tácito,e mais que isso,uma segunda sobrevivência.Dessa vez,a sobrevivência da própria dignidade.
Um a um, foram saltando. Faltava pouco para as 16 horas,retorno até mesmo antes do previsto.Não houve “tchau”,"até logo", "bye bye” nem qualquer despedida protocolar. Somente olhares que solicitavam silêncio. Silêncio ali,silêncio em casa,silêncio para eternidade.
Jamile e Naiara partiram pra casa. Durante o caminho,resignação,cansaço,conformidade.Longe de tudo,o reconhecimento de que protegerem a si significava proteger a todos. Inclusive Genildo…Mas tinha uma indagação também “se isso fosse relatado para alguém,como acreditariam?”. Melhor: “como acreditariam que isso ocorre sem uma combinação prévia?”.Não tinha alternativa.O segredo seria a melhor companhia e a mais verdadeira necessidade.
As duas desembarcaram. Naiara não poderia ir pra casa e deixar Jamile sozinha encarando um inocente Genildo que as esperava com provavelmente mil e uma perguntas.
Jamile:Eu nunca escondi uma coisa importante do meu filho…nunca precisei
Naiara:Nem eu escondi algo tão sério dele…meu Deus…como isso vai ser difícil…
Jamile: O dia hoje foi de provações. Já sofremos emoções demais...Temos que passar por mais uma. Não podemos piorar o que já foi ruim.
Naiara: Seja o que for que enfrentaremos, digo com toda certeza…não desejo isso que passamos pra ninguém.E fico feliz… que o Genildo não estava lá…
Jamile: Sim, sim… não se deseja nada de tão desconcertante...
Se deram as mãos, dando forças uma pra outra. Caminharam. Abriram a porta de casa.Não choravam,mas o semblante era de abatimento.Genildo estava na cozinha,comendo uma maçã.
- Olha só,minhas sereias chegaram!
As duas riram sem graça.Era bom reencontrá-lo.Naiara o abraçou forte,demonstrando saudade e alívio. Jamile deixava as coisas na sala.
- E aí,como foi o passeio?
Naiara ia responder,mas Jamile voltou da sala
- E você,como está?Melhor?
- Ah,já estou de boa. Tomei um remédio,comi uma salada,tô bebendo bastante líquido…Mas não dava pra ir não,lá pelas onze horas,a barriga ainda sacolejava…mas e aí?como foram as coisas?
Jamile: Choveu por aqui?
Genildo: Choveu,mas não tanto, uma chuva forte,mas que não demorou muito.
Naiara: Lá choveu a beça. Praticamente não teve passeio. Depois de duas horas que saímos,Jemerson teve que parar num manguezal.Teve trovoada,chuva forte.
Genildo: Caramba!Rolou tudo isso?Trovoada?
Jamile: Sim,Genildo… O mangue era denso,nos protegeu. Mas ficamos lá…por bastante tempo.
Naiara: Depois saímos,tudo nublado ainda…Demos uma voltinha…mas não paramos em lugar nenhum.Quando retornamos,Jemerson achou o mar agitado… e veio muito devagar.
Naiara até se assustou de como aquela história brotou da mente dela.Jamile também ficou um pouco surpresa.Ela tava praticamente encenando.E bem.Mas Genildo queria mais.
Genildo: Realmente vocês voltaram até cedo, achei que chegariam no finalzão da tarde...Mas e aí?Quem conversou com quem? A professora gostou da senhora? O Cauê aprontou alguma? A Bianca ficou tímida? O roteiro era bonito?
Jamile: Genildo,não houve roteiro!Tava…tudo nublado,a chuva foi forte,em certos momentos…até assustou.
Naiara: Não foi legal…Demos uma volta na escuna por um mar agitado,num dia feio e chuvoso.Foi isso.
Genildo: Porra…e ficaram fazendo o que?
As duas se entreolharam rápido.
Jamile:Conheci sua professora,a Scheila… simpática.
Genildo: Ah, legal! Eu sabia que vocês poderiam se dar bem
Naiara: No mais, conversamos trivialidades,Íris fez uma dinâmica para nos apresentarmos,coisas básicas… mas não tomamos banho de mar,não houve fotos,na verdade…todo mundo tava querendo voltar pra casa já.
Genildo: Mas… esse tempo todo só…navegando e esperando a chuva passar?
Naiara: Genildo…não dá pra ficar falando tudo,TUDO… conversamos,notamos que ia chover,Jemerson mudou a rota,foi pra uma área de manguezal…isso tomou bastante tempo.Tinha gente no celular,gente cantando algo,lendo livro…Estávamos preocupados na chuva que vinha e em buscar abrigo.E também,Genildo,era um passeio…pelas águas…não era um carnaval.
Jamile: Isso!A chuva veio,teve alguns trovões,ficamos embaixo de uma vegetação,rodeados de árvores…eu conversava com Scheila,os meninos conversavam, bebiam, escutavam um som que estava baixo…nada demais.
As duas conversavam se movimentando pela cozinha, pegando água, lavando copo, evitando ficar falando isso olhando diretamente pra Genildo.
Genildo: Nossa,que chato!Desculpem dizer isso, mas…ainda bem que não fui.Achei que tivesse sido um passeio tranquilo. E eu pensei o tempo todo como estava sendo.
“Graças a Deus você não foi.Nunca me perdoaria se você tivesse no meio…daquele bolo…comigo!” pensou Jamile
Naiara: Depois pensamos em algo melhor,ok?Bem,eu só vim ver você mesmo, eu queria ir pra casa.Vim ver se você estava bem,
Genildo: Liguei pra vocês umas 13 horas,mas parecia estar sem sinal…
Jamile: Estavamos… saindo do mangue… eu acho…por aí
Genildo: Nossa,levaram esse tempo todo no mangue?
Naiara: Genildo,foi um saco…quer dizer…conversamos,mas…nada do que não papeamos no bar.É isso. Não saiu como combinado, foi tudo muito…sei lá, trivial, não sei…Na verdade, não sei como funciona um passeio de escuna. O tempo não ajudou… é isso.
Jamile: Bem,vou tomar banho… Depois como alguma coisa e vou dar uma relaxada no meu quarto.Com licença.
Genildo: Uma pena não curtirem tanto…
Naiara: Bem,vou pra casa.Amanhã a gente se fala.
Genildo: Eu ia pedir pra você ficar aqui,mas vou guardar minhas energias pra amanhã.
Naiara: Tchau,beijo!
Naiara saiu e ficou satisfeita em não transparecer nada,mas ao mesmo tempo desconfortável por ter que mentir e enganar o namorado.Mas não restava nada. A partir dali era agir asism mesmo,até tudo aquilo ir se depurando com o tempo. De qualquer modo,a naturalidade com que falava passou a assustá-la.Era como se ela estivesse protegendo a honra não só dela,mas do grupo todo. Como se estivesse subordinada a invocar uma força que pairava sobre ela,lhe dando a liberdade de salvaguardar quem passou por aquele dia assombroso.Sabia que aquele era apenas o primeiro de muitos momentos em que precisaria esconder o próprio sofrimento.
Já Jamile,chorou no banho.Por ter que esconder tudo,mas também por se meter numa estripulia daquela na escuna. Curiosamente,não vinha a mente a todo momento o que houve,parecia que a memória queria protegê-la.A necessidade de guardar aquilo parecia menos nefasta.A questão maior era precisar enrolar o próprio filho,que teria que conviver com todos que se meteram naquela enrascada grupal.
(continua...)