Os dias seguintes passaram devagar, devagar demais. Cristiano continuava mandando mensagens, sempre curtas, sempre fora do horário de trabalho.
“Chegou bem?”
Ou:
“Vai estudar hoje?”
Ou ainda:
“Vi um filme que lembrou você. Nem sei por quê.”
Aquilo me divertia, ele dizia que não queria compromisso, mas parecia procurar qualquer desculpa para conversar. Na sexta-feira, perto do fim do expediente, meu celular vibrou novamente.
“Tá ocupado depois?”
Respondi:
“Depende.”
Quase imediatamente veio a resposta.
“De novo esse depende?”
Sorri sozinho.
“Depende de você.”
Demorou alguns minutos. Então apareceu:
“Bora comer um pastel na feira?”
Fiquei olhando para a tela, novamente era um convite ridiculamente simples, quase infantil. Nenhum mistério, nenhuma insinuação. Só dois colegas querendo dividir um pastel depois do trabalho. Quando cheguei, ele já me esperava ao lado da moto velha.
— Achei que você não vinha – ele disse.
— Pensei que você não queria compromisso – respondi.
Ele fez uma careta.
— E não quero.
— Mas quer pastel.
— Pastel eu quero.
Começamos a rir ao mesmo tempo.
Enquanto caminhávamos entre as barracas iluminadas, percebi uma coisa curiosa. Cristiano mantinha uma distância de meio passo entre nós sempre que alguém conhecido passava, mas, assim que a pessoa ia embora, se aproximava de novo naturalmente. Não era cálculo, era reflexo. Era alguém que aprendera a sobreviver antes mesmo de aprender a amar.
Foi naquele instante que compreendi qual era o verdadeiro obstáculo entre nós. Não era a diferença de classe, nem o dinheiro, nem os estudos, nem o galpão. Era o mundo. E o mundo, às vezes, conseguia entrar dentro das pessoas antes que elas tivessem idade suficiente para decidir quem realmente desejavam ser. Quando terminamos de comer, ele limpou a boca com as mãos e olhou para mim com aquele sorriso torto.
— Amanhã minha folga começa depois do almoço.
— Tá.
— Se você quiser...
Ele parou no meio da frase, como se ainda estivesse aprendendo a fazer convites.
— ...pode aparecer lá em casa de novo.
Sorri.
— Achei que você não queria compromisso.
Cristiano revirou os olhos.
— Ô menino chato.
— Eu avisei.
Ele ligou a moto velha, o motor tossiu duas vezes antes de pegar.
— Vai ou não vai?
Olhei para ele, para o sorriso que insistia em escapar apesar de toda a pose. E respondi apenas:
— Acho que vou. Porque, pelo visto, você ainda não percebeu que já começou a se apegar também.
__________
O galpão amanheceu diferente. Não por causa do calor, que continuava subindo do concreto em plena duas da tarde, nem pelo cheiro de óleo queimado que parecia impregnado até nas conversas. O que mudava era a ausência de um corpo específico ocupando aquele espaço. Cristiano estava de folga.
Era curioso como alguém podia fazer tanto barulho mesmo quando não dizia quase nada. O rádio continuava ligado na oficina, os caminhões continuavam entrando e saindo, o Seu Zé continuava gritando por peças que ninguém encontrava, a lixadeira continuava cuspindo faíscas como um pequeno sol preso ao chão. Mesmo assim... faltava alguma coisa.
Passei a tarde inteira fingindo que não procurava um loiro alto no canto do galpão. Era ridículo. Sorri sozinho. Era exatamente por isso que eu não queria me apaixonar por ninguém, porque bastava um dia de ausência para o mundo inteiro parecer mal encaixado.
— Ô, doutorzinho.
Reconheci a voz antes mesmo de levantar a cabeça. Luquinhas. Ele surgiu encostando no batente da pequena sala administrativa como quem não queria nada, ou como quem queria exatamente alguma coisa.
Vestia a camisa azul da empresa toda aberta no pescoço, as mangas dobradas deixavam aparecer os braços magros, riscados de pequenos cortes antigos. O sorriso continuava sendo a coisa mais bonita que aquele menino carregava, bonita e perigosíssima.
— Tá trabalhando ou pensando na morte da bezerra?
— As duas coisas.
Ele riu.
— Você é engraçado demais.
Eu olhei para a cara dele, sem entender (“Sério? Desde quando sou engraçado?”, pensei). Ele apoiou os cotovelos sobre minha mesa.
— Posso te perguntar um negócio?
— Pode.
— Mas responde a verdade.
Olhei para ele por cima dos papéis.
— Depende da pergunta.
— Tá pegando o Cristiano?
O mundo fez um silêncio tão absoluto que consegui ouvir o ventilador girando sobre nossas cabeças. Não respondi, nem consegui. Luquinhas apenas me observava, sem ironia, sem julgamento. Só esperando.
— Não sei do que você tá falando.
Ele soltou uma gargalhada curta.
— Ah, sabe sim.
Continuei imóvel.
— Tá viajando.
— Tô?
Inclinou a cabeça.
— Então por que ele começou a te olhar diferente?
Engoli em seco.
— Diferente como?
— Como quem quer esconder alguma coisa.
Aquilo me atravessou mais do que deveria, porque eu também tinha percebido. Cristiano continuava grosseiro na frente dos outros, mas agora evitava me provocar. Evitava discutir, evitava até cruzar comigo por muito tempo. Era como se qualquer segundo a mais pudesse o denunciar. Luquinhas mexeu distraidamente num grampeador.
— Relaxa, não vou contar pra ninguém.
Fiquei em silêncio, ele sorriu de lado.
— Mas eu conheço homem, mais do que vocês imaginam.
Levantei finalmente os olhos.
— O que você quer dizer com isso?
— Nada.
Deu de ombros.
— Só acho engraçado quando macho faz força pra parecer macho.
A frase ficou suspensa entre nós, pesada, quase bonita. Ele caminhou até a porta, parou, voltou dois passos.
— Posso te dar um conselho?
Não respondi.
— Não confunde desejo com coragem.
Franzi a testa.
— Como assim?
Ele sorriu, dessa vez sem humor.
— Tem cara que faz qualquer coisa quando a porta tá fechada. Na rua... não segura tua mão nem atravessa contigo.
Depois saiu, fiquei olhando para a porta aberta durante vários minutos. As palavras dele continuavam andando pelo escritório muito depois de ele desaparecer. Passei o restante do expediente distraído. Errava números, arquivava documentos nas pastas erradas, assinava duas vezes o mesmo formulário. Sandra apareceu uma hora depois.
— Mateus...
— Oi?
— Você tá apaixonado?
Quase derrubei a calculadora.
— O quê?
Ela deu risada.
— Porque só apaixonado consegue errar tanta coisa simples.
Sorri sem graça.
— Deve ser sono.
— Sei.
Ela voltou para sua sala ainda sorrindo. Meu coração demorou alguns minutos para entender que continuava dentro do peito. No fim da tarde, o céu começou a ganhar aquele laranja queimado típico das cidades pequenas. Saí do galpão já sabendo para onde iria, Cristiano havia mandado uma única mensagem durante o almoço.
"Vem aqui depois."
Sem emoji, sem explicação, sem pergunta. Era o jeito dele de convidar alguém. O ônibus me deixou algumas ruas antes, preferi ir caminhando o restante do caminho. A periferia tinha outro cheiro quando o sol começava a ir embora, fumaça, água escorrendo pelos quintais, crianças correndo descalças.
Alguém ouvindo pagode num volume completamente incompatível com o tamanho da casa, uma senhora molhava a calçada enquanto conversava com a vizinha, dois cachorros disputavam um pedaço de pão. Tudo parecia sobreviver com uma dignidade silenciosa que eu nunca tinha aprendido a enxergar antes de conhecer Cristiano.
O barraco de Cristiano apareceu no fim da viela, a mesma parede sem reboco, a mesma janela pequena, a mesma lâmpada amarela acesa cedo demais. Bati duas vezes, ele abriu quase imediatamente. Vestia uma bermuda velha, estava descalço. O cabelo ainda úmido denunciava que tinha acabado de tomar banho. Por um segundo, nenhum de nós falou, só nos olhamos. E eu tive a estranha impressão de que aquele silêncio dizia mais do que todas as conversas que já havíamos tido.
— Entra.
Entrei. A casa continuava minúscula, mas já não me parecia um cativeiro. Parecia... o lugar onde Cristiano conseguia baixar a guarda. Ele fechou a porta, encostou as costas nela.
— Como foi lá no galpão?
— Estranho.
— Por quê?
Respirei fundo.
— Luquinhas sabe.
Vi seus ombros enrijecerem imediatamente, o sorriso desapareceu.
— Sabe o quê?
— Da gente.
Os olhos azuis procuraram os meus como quem tentava descobrir se aquilo era uma piada.
— Tem certeza?
Contei toda a conversa, sem exagerar, sem esconder. Quando terminei, ele passou as duas mãos pelo rosto, ficou andando pela casa estreita durante alguns segundos.
— Merda.
— Calma.
— Calma?
Ele riu sem humor.
— Você não conhece esse lugar. Se isso espalha...
Parou a frase no meio, não precisava terminar. Eu já entendia o resto, me sentei na beirada da cama.
— Ele disse que não vai contar.
Cristiano continuou parado diante da janela.
— Hoje ele não conta, amanhã ele bebe duas cervejas e conta. Depois alguém inventa mais duas coisas, depois vira verdade. Depois...
O silêncio terminou a frase, pela primeira vez desde que o conhecia, não vi raiva em Cristiano. Vi medo, um medo antigo. Aprendido, herdado. Me levantei devagar, me aproximei. Não para o abraçar, não ainda. Apenas fiquei ao lado dele, o suficiente para que nossos ombros quase se tocassem.
— Você confia em mim?
Ele demorou a responder.
— Confio.
— Então deixa eu dividir esse medo com você.
Cristiano virou o rosto, os olhos estavam cansados. Muito mais do que deveriam aos dezenove anos.
— Você fala bonito demais, Mateus.
Sorri.
— É defeito de fábrica.
Ele soltou uma risada baixa, daquelas que escapam antes que a pessoa consiga impedir. Era pequena, mas era verdadeira. E, naquele instante, achei que talvez existissem vitórias que não faziam barulho algum.
A noite caiu devagar sobre a pequena casa, lá fora, alguém ligou um rádio. Uma criança chamou a mãe para mostrar um carrinho novo, uma motocicleta passou levantando poeira pela rua estreita. Lá dentro, a tensão dos últimos dias começou, aos poucos, a dar lugar a uma intimidade silenciosa. Cristiano se aproximou outra vez, encostou de leve a testa na minha por um breve instante, como se aquele gesto simples dissesse o que nenhum dos dois ainda sabia colocar em palavras.
Não era apenas desejo, mas também ainda não era uma promessa. Era algo mais difícil de definir, algo que assustava justamente porque começava a sobreviver até mesmo quando não havia urgência, nem perigo, nem corpos tentando preencher o silêncio.
E isso, percebi enquanto ele segurava minha mão por apenas alguns segundos antes de a soltar, talvez fosse muito mais arriscado do que qualquer beijo escondido. Afinal, o maior obstáculo entre nós já não era apenas o preconceito do lado de fora, era o medo de descobrir que aquilo que começara como provocação e atração física estava, sem pedir licença, transformando dois rapazes completamente diferentes em pessoas importantes uma para a outra. E esse era um tipo de risco para o qual nenhum dos dois estava preparado.
Então, algo se partiu em Cristiano. Não foi um gesto, mas uma mudança. Ele deu um passo à frente, o seu corpo colidindo suavemente com o meu. Sua mão subiu, não para agredir, mas para agarrar a minha nuca, seus dedos se entremeando nos meus cabelos cacheados.
O beijo que se seguiu não foi doce. Era desesperado, possessivo. Era uma forma de gritar sem fazer barulho, de afirmar a sua existência contra a ameaça que nos rodeava. Nossas línguas se encontraram, numa batalha silenciosa e faminta.
Minhas mãos deslizaram pelas costas compridas de Cristiano, sentindo o calor da sua pele nua. Eu precisava disto. Precisava me sentir vivo, de me afogar no toque de Cristiano para esquecer a intromissão de Luquinhas.
Com um movimento lento e deliberado, me ajoelhei, meu joelho a tocar o chão duro. Meu olhar encontrou o de Cristiano, uma pergunta silenciosa e uma resposta incondicional. Minhas mãos tremiam ligeiramente enquanto puxavam o calção de Cristiano.
O pau de Cristiano saltou para fora, já meia bomba, sua cabeça arredondada brilhando sob a luz fraca. Me inclinei, meu hálito quente tocando a pele sensível dele. Eu não comecei com a boca. Primeiro, usei as minhas mãos.
Acariciei as coxas peludas de Cristiano, sentindo os músculos se contraírem sob o meu toque. Depois, minha atenção se focou. Peguei nos testículos de Cristiano, pesados e quentes na palma da minha mão, os massageando suavemente, roçando o meu polegar pelo escroto delicado. Cristiano soltou um gemido abafado, sua mão se apoiando no meu ombro.
Só então levei minha boca ao pau de Cristiano. Passei a língua pela base, lentamente, subindo pela veia saliente até à cabeça. O sabor era salgado, exclusivamente de Cristiano. Envolvi os lábios em torno da glande, sugando suavemente, minha língua dançando sobre o pequeno freio.
Cristiano se inclinou para a frente, seus dedos apertando o meu ombro. Eu o tomei mais fundo na minha boca, meu ritmo aumentando, minha cabeça se movendo para cima e para baixo, uma mão continuava a estimular os testículos, a outra agarrava a base do pau. Senti o corpo de Cristiano estremecer, a respiração dele se tornar ofegante.
De repente, Cristiano me puxou para cima, a sua força surpreendente. "Agora a minha vez", rosnou ele, sua voz carregada de uma urgência primal. Ele me guiou para a lúgubre cama de solteiro, o colchão de espuma velho, me deitando de barriga para cima.
Cristiano se ajoelhou no chão, entre as minhas pernas. Mas em vez de ir para o meu pau já duro, ele agarrou o meu quadril e me levantou, me expondo completamente. Senti uma onda de calor e vulnerabilidade percorrendo o meu corpo.
Então, eu o senti. O calor do hálito de Cristiano contra a minha bunda, um momento de pura antecipação. Depois, a língua de Cristiano, úmida e ousada, fez contato. Foi um choque elétrico. Cristiano começou a me lamber, sua língua a traçar círculos lentos em volta do meu cuzinho apertado, antes de pressionar, de forma firme e deliberada.
Arqueei as costas, um gemido incontrolável escapando dos meus lábios. Já havia sentido isso antes, mas com Cristiano era extraordinariamente íntimo, sujo, incrivelmente bom. Ele trabalhou sua língua em meu cuzinho com uma maestria assustadora, sua língua a entrar, a sair, a explorar, sua barba por fazer roçando a minha pele sensível, aumentando a sensação para níveis quase insuportáveis. As mãos de Cristiano seguravam as minhas nádegas, me abrindo mais, me tomando para si, me possuindo com a boca.
Quando Cristiano finalmente se afastou, eu estava tremendo, o meu corpo a arder, balbuciando palavras ininteligíveis. Cristiano subiu na cama estreita, se deitando ao meu lado. Nossos corpos se colaram, pele com pele, quentes e suados.
Nos beijamos novamente, um beijo profundo e lento, no qual eu podia saborear a mim mesmo na boca de Cristiano. Nossas mãos encontraram a pica um do outro, duras e pulsantes. Começamos a nos masturbar mutuamente, nossos movimentos sincronizados, nossos polegares espalhando o líquido pré-gozo pelas nossas cabeças inchadas. Nossos beijos se tornaram mais desordenados, nossos suspiros mais fundos, nossos corpos se movendo em uníssono.
Cristiano deslizou a sua mão livre pelas minhas costelas, descendo até à a minha bunda. Um dos seus dedos, ainda molhado de sua saliva, se pressionou contra o meu cuzinho relaxado. Eu não resisti. Na verdade, me empurrei contra o seu dedo, um convite silencioso.
Cristiano entrou lentamente, seu dedo a se afundar dentro de mim. Ele o moveu, o curvando, encontrando aquele ponto dentro de mim que fez uma explosão de prazer irromper na minha virilha. "Mais", sussurrei, a minha voz um pedido rouco.
Cristiano adicionou um segundo dedo, me esticando, me preparando. O ritmo dele era constante, dominante. Ele estava no controle total. Eu era apenas um corpo a responder, a me entregar. Depois, os dedos desapareceram. Cristiano se posicionou entre as minhas pernas, o seu cacete grosso e duro pressionando contra a minha entrada. Ele olhou para mim de baixo para cima, seus olhos azuis contra os meus olhos castanhos, cheios de medo e desejo.
Com um empurrão lento e implacável, Cristiano entrou. A sensação de ser preenchido, de ser dilatado até o limite, me fez prender a respiração. Havia uma pontada de dor, mas era rapidamente substituída por uma onda de prazer profundo e avassalador.
Cristiano começou a se mover, primeiro com golpes curtos e profundos, depois com um ritmo mais longo e poderoso. Cada empurrão era uma afirmação, cada movimento uma reivindicação. As suas mãos seguravam a minha bunda com tanta força que iam deixar marcas.
Ele me fodia com uma fúria contida, sua respiração ofegando junto ao meu ouvido. Eu só conseguia o abraçar, o envolvendo com meus braços e pernas. O mundo exterior, Luquinhas, o medo, tudo desapareceu. Só existia aquele barraco, aquele corpo sobre o meu, aquele prazer brutal e glorioso dentro de mim.
Eu senti o orgasmo a crescer nas minhas entranhas, uma pressão quente que se espalhava pelas minhas coxas e estômago. Agarrei o meu próprio pau, me masturbando freneticamente ao ritmo dos golpes de Cristiano.
Com um grito abafado contra o ombro de Cristiano, explodi, meu sêmen a jorrar quente sobre a minha barriga e peito. A contração dos meus músculos ao redor da pica de Cristiano foi o empurrão final. Cristiano deu mais alguns golpes profundos e brutais, antes de se imobilizar, seu corpo tremendo violentamente enquanto ele gozava, me enchendo com o seu calor.
Nós ficamos assim por um longo momento, colados um ao outro, suando, ofegando, nossos corpos tremendo com as reminiscências do prazer. O medo ainda estava lá, à espreita lá fora, mas por agora, na escuridão quente do barraco, nós tínhamos apenas um ao outro.
