🚫 Propagandas te atrapalhando? Assine o plano premium por menos de R$3/mês. Saiba mais →

Capítulo 1 - As coisas que enterramos (Parte 3)

Cansado destas propagandas? Assine por R$36/ano e navegue sem anúncios →
Um conto erótico de Leandro Gomes
Categoria: Gay
Contém 2173 palavras
Data: 26/07/2026 22:20:43
🤖 Texto produzido com auxílio de inteligência artificial

O frio da madrugada pareceu mais intenso quando Akira deixou o edifício. As ruas encontravam-se quase vazias, interrompidas apenas pelo ronco distante de um carro ao longe e pelo reflexo das luzes dos semáforos sobre o asfalto úmido. Caminhou até o carro sem pressa, as mãos escondidas nos bolsos do sobretudo, enquanto tentava compreender por que aquela noite insistia em permanecer em seus pensamentos de maneira tão diferente das anteriores. Não era a primeira vez que deixava a companhia de um desconhecido antes do amanhecer. Também não seria, imaginava ele, a última. Mesmo assim, havia alguma coisa difícil de explicar.

Durante o trajeto até seu apartamento, percebeu que não conseguia recordar exatamente o momento em que a conversa deixara de ser um simples diálogo entre dois estranhos e adquirira a estranha naturalidade de pessoas que pareciam conversar havia muito tempo. Sorriu sozinho ao lembrar de um comentário espirituoso de Damiano. Logo em seguida, franziu a testa. Fazia semanas que não sorria por causa de uma lembrança recente.

Ao entrar em casa, tirou o sobretudo, colocou as chaves sobre a bancada da cozinha e permaneceu alguns minutos diante da janela da sala. O horizonte começava a adquirir os primeiros tons azulados do amanhecer, e Pittsburgh despertava lentamente para mais um dia comum.

Akira serviu-se de um copo d'água. Pela primeira vez desde o funeral de Riku, percebeu que não sentia vontade de beber. Achou curioso. Talvez fosse apenas cansaço e sono. Talvez não.

________

As semanas seguintes transcorreram com uma serenidade que lhe parecia quase suspeita. As consultas com o psiquiatra continuavam acontecendo regularmente, sempre nas manhãs de terça-feira. Aos poucos, o silêncio que dominara as primeiras sessões começou a ceder espaço a conversas mais longas, não porque a dor houvesse desaparecido, mas porque Akira finalmente encontrava palavras capazes de aproximar-se dela sem ser completamente consumido.

Numa dessas consultas, o médico fechou o bloco de anotações e perguntou:

— Ainda sente que carrega toda a responsabilidade pela morte do seu irmão?

Akira demorou a responder. Olhou por alguns segundos para a janela do consultório, onde pequenas folhas secas atravessavam a calçada impulsionadas pelo vento.

— Todos os dias. — Fez uma pausa. — Mas... já não o dia inteiro.

O psiquiatra não respondeu imediatamente. Limitou-se a assentir com discrição. Para muitas pessoas, aquela frase talvez parecesse insignificante. Para quem acompanhava um processo de luto, entretanto, era um avanço enorme. A culpa continuava presente, mas já não ocupava todo o espaço.

Ainda assim, Akira voltou à boate mais três vezes depois de seu encontro com o italiano. Não por desejo verdadeiro, nem por impulso, mas quase por hábito, como se uma parte dele insistisse em repetir o mesmo ritual na esperança de encontrar nele alguma resposta que ainda não havia surgido. Os encontros seguintes foram exatamente como os anteriores: olhares rápidos, poucas palavras, nenhum nome trocado, nenhum interesse em prolongar a presença do outro para além do necessário. Bastava um gesto discreto, uma frase curta, o convite silencioso para o banheiro, e tudo acontecia da mesma forma mecânica de sempre — boquete, penetração, sexo rápido, gozo, corpos que se tocavam sem realmente se reconhecerem, sem emoção, sem intenção de conexão.

Mas, depois de Damiano, aquilo já não parecia suficiente. Talvez porque o encontro com ele tivesse sido diferente demais. Talvez porque, pela primeira vez em muito tempo, Akira tivesse sentido que havia algo além do simples alívio do tesão. Os outros homens continuavam ali, mas já não ocupavam o mesmo lugar em sua cabeça. O que antes parecia anestesia agora soava vazio. E, pouco a pouco, até mesmo a repetição perdeu o sentido.

________

O inverno chegou definitivamente. Os rios tornaram-se mais escuros sob o céu cinzento, as árvores perderam as últimas folhas e o vento obrigava os pedestres a caminharem apressados pelas ruas do centro. Akira voltou a correr algumas manhãs antes do amanhecer, retomou o hábito de cozinhar para si mesmo e, pouco a pouco, o apartamento deixou de parecer um lugar onde apenas esperava o tempo passar.

Ainda havia noites difíceis. Pesadelos continuavam surgindo de vez em quando. Em alguns deles, Riku permanecia em silêncio, apenas olhando para ele como se tentasse dizer alguma coisa que nunca conseguia terminar. Em outros, Akira corria por ruas desconhecidas sem jamais conseguir alcançá-lo. Mas havia também manhãs em que despertava sem qualquer lembrança dos sonhos. Essas eram as melhores.

Damiano voltou a cruzar seus pensamentos algumas vezes durante aquele período, mas sem grande intensidade. Às vezes bastava passar diante da boate onde haviam se conhecido. Outras vezes era uma garrafa de vinho italiano sobre a prateleira de algum mercado, ou uma música cuja melodia lhe recordava a conversa tranquila daquela madrugada.

No início, lembrava-se do sexo intenso no loft do italiano, cada detalhe do seu corpo, o calor e rigidez da vara morena, o sorriso safado, a sensação de gozo, e aí a excitação forte o fazia se entregar ao prazer solo em qualquer parte da casa: na cozinha, no quarto, na sala, no banheiro e até na varanda do apartamento. Mas não era com punhetas rápidas, e sim com aquelas bem lentas, em que ele curtia cada momento, cada toque em seu corpo e em seu pau. Curtia a mão deslizar em seus 20 cm com calma e respiração profunda. Sentia o gozo vir e voltar. Curtia seu dedo molhado de saliva ou de lubrificante invadir seu próprio cu e fazer a rola pular e ficar cada vez mais duro, até explodir, gozando fartamente.

Entretanto, com o tempo, pensava nele durante apenas alguns segundos. Depois a vida seguia. Mas jamais lhe ocorreu voltar ao loft.

__________________________

Seis meses depois do funeral de Riku, já no início da primavera, o psiquiatra permaneceu alguns instantes em silêncio antes de fechar o prontuário. Sorriu discretamente.

— Acho que está na hora de conversarmos sobre seu retorno ao trabalho.

Akira respirou fundo. Durante meses acreditara desejar exatamente aquele momento. Agora que ele finalmente chegara, percebeu que sentia algo diferente. Não medo. Respeito. Como um homem que retorna a uma estrada conhecida sabendo que já não é exatamente a mesma pessoa que a percorreu pela última vez.

Mais tarde, seu celular vibrou. Era uma mensagem do capitão:

“Te esperamos na delegacia na segunda-feira às oito. Tem muita gente feliz pelo seu retorno.”

Akira guardou o telefone no bolso. Sem perceber, sorriu. Era um sorriso discreto, mas, desta vez, verdadeiro.

Ele ainda não sabia que, ao atravessar novamente as portas da Divisão de Homicídios, reencontraria um rosto que acreditava ter deixado para sempre numa madrugada de outono. E descobriria que o destino, às vezes, tem uma curiosa maneira de concluir conversas interrompidas.

__________________

A primavera chegou discretamente, quase sem anunciar sua presença, como se tivesse apenas decidido permanecer um pouco mais do que o inverno permitia, e, embora o frio ainda não tivesse desaparecido por completo de Pittsburgh, já se percebia uma mudança sutil no ar, nas árvores que lentamente recuperavam o verde e na luz das manhãs, que voltava a se estender sobre a cidade por mais tempo do que nos meses anteriores.

Naquela segunda-feira, Akira despertou antes mesmo que o despertador tocasse. Permaneceu alguns instantes deitado, olhando para o teto do quarto, como fazia desde a morte de Riku, mas, pela primeira vez em muitos meses, o silêncio não lhe pareceu insuportável. Estava com uma forte ereção matinal. Colocou a mão dentro da cueca boxer preta, massageou o pau por uns instantes, mas respirou fundo, afastou o cobertor e levantou-se com uma calma que ainda lhe parecia estranha, embora já não fosse dolorosa.

Enquanto preparava o café, percebeu que suas mãos já não tremiam. Era um detalhe pequeno. Talvez insignificante para qualquer outra pessoa. Para ele, entretanto, significava muito mais do que poderia explicar em palavras, porque havia meses em que até mesmo segurar uma xícara exigia dele uma espécie de esforço silencioso, quase humilhante, e agora, sem que percebesse de imediato, aquele gesto simples voltava a acontecer com naturalidade.

Tomou o café observando a cidade através da janela da cozinha. O trânsito começava a ganhar movimento, ônibus cruzavam as avenidas ainda úmidas pela chuva da madrugada e alguns corredores aproveitavam o início fresco do dia às margens do Allegheny, enquanto Pittsburgh despertava lentamente, com a mesma indiferença de sempre e, ainda assim, com uma beleza que Akira só agora parecia capaz de notar novamente.

Depois voltou ao quarto. Abriu o guarda-roupa. O paletó escuro permanecia exatamente onde o deixara cinco meses antes, como se tivesse aguardado pacientemente o momento em que ele enfim se sentiria pronto para retomá-lo. Retirou-o do cabide com um cuidado quase cerimonial. Vestiu a calça e a camisa. Ajustou a gravata. Prendeu o coldre sob o braço. Por último, retirou o distintivo da pequena caixa de madeira onde permanecera guardado durante toda a licença.

Ficou alguns segundos observando aquele pedaço de metal. Quantas vidas haviam mudado por causa dele? Quantas ainda mudariam?

Guardou-o no bolso interno do paletó. Era hora de voltar.

O prédio da Divisão de Homicídios parecia exatamente igual. As mesmas paredes de concreto. As mesmas janelas espelhadas. O mesmo movimento de viaturas entrando e saindo do estacionamento. No entanto, ao atravessar a porta principal, Akira teve a curiosa impressão de estar visitando um lugar completamente novo, como se o tempo que passara longe tivesse alterado não o edifício, mas a maneira como ele próprio o enxergava.

— Nakamura!

A voz ecoou pelo corredor antes mesmo que pudesse localizar quem a chamara.

Um investigador com o cabelo grisalho aproximou-se sorrindo e apertou-lhe o ombro com a familiaridade de quem já o conhecia há anos.

— Achei que você tinha desistido da gente.

Outro policial apareceu logo em seguida.

— Bem-vindo de volta, parceiro.

Os cumprimentos multiplicaram-se naturalmente. Alguns lhe deram um abraço rápido. Outros limitaram-se a um aperto de mão. Havia um carinho sincero na forma como era recebido, e aquilo lhe trouxe uma sensação inesperada de pertencimento, como se, apesar de tudo o que havia acontecido, ainda houvesse um lugar reservado para ele ali.

Durante meses acreditara que retornaria ao trabalho como um estranho. Descobriu, com certo alívio, que continuava fazendo parte daquela família imperfeita. Foi então que ouviu uma voz conhecida atrás de si.

— Ainda consegue chegar antes das oito.

Akira sorriu antes mesmo de se virar.

O capitão Robert Callahan aproximava-se pelo corredor. Os cabelos já quase completamente brancos contrastavam com a postura firme de quem passara décadas comandando investigações difíceis, e havia poucas pessoas capazes de compreender Akira sem exigir explicações, sem tentar arrancar dele mais do que estava disposto a oferecer, e o capitão era uma delas.

Os dois apertaram as mãos. Depois trocaram um caloroso abraço.

— É bom ter você de volta.

— Também é bom estar aqui.

O capitão observou-o durante alguns segundos. Como todo bom investigador, parecia notar detalhes que escapavam aos demais.

— Está melhor.

Akira assentiu.

— Acho que sim.

— Ainda bem.

Fez um gesto para que o acompanhasse.

— Venha. Tenho alguém que quero apresentar.

Caminharam pelo corredor principal da divisão. Enquanto seguiam em direção à sala de investigações, o capitão comentou casualmente:

— Recebemos um reforço durante sua licença. Um detetive muito bem recomendado. Transferência recente.

Akira ouviu sem dar muita importância.

— De onde?

— Meadville.

Pararam diante da porta da sala. O capitão sorriu discretamente.

— Acho que vocês vão trabalhar muito bem juntos.

Empurrou a porta. Lá dentro, alguns investigadores organizavam relatórios enquanto outros conversavam em torno de uma mesa repleta de fotografias e mapas. De costas para a entrada, um homem alto examinava um quadro de evidências. Vestia camisa branca de mangas dobradas e calças sociais escuras. Ao ouvir o barulho da porta, virou-se lentamente.

Primeiro os olhos, depois o sorriso. Aquele mesmo sorriso tranquilo, seguro, quase preguiçoso. Por um instante, o tempo pareceu abandonar a sala.

Akira permaneceu imóvel. Seu coração acelerou de maneira absurda, como se tivesse acabado de reconhecer alguém que jamais esperava voltar a encontrar.

O homem aproximou-se calmamente, estendendo a mão.

— Damiano Bianchi.

Fez uma breve pausa.

Os olhos permaneceram presos aos de Akira por um segundo a mais do que seria considerado normal. Então acrescentou, com absoluta naturalidade:

— Acho que seremos parceiros.

Akira demorou um instante para apertar aquela mão. O toque foi breve e profissional. Mas bastou para que a lembrança daquela madrugada de outono atravessasse sua memória com a força de um raio.

Damiano não demonstrava qualquer constrangimento. Nenhum sinal de surpresa exagerada. Apenas aquele sorriso discreto, impossível de interpretar.

O capitão olhava de um para o outro sem perceber absolutamente nada.

— Akira Nakamura. Nosso melhor detetive. Tenho certeza de que vocês formarão uma excelente equipe.

Se o capitão pudesse enxergar alguns centímetros abaixo da superfície daquela apresentação, talvez percebesse que, naquele exato instante, duas histórias completamente diferentes acabavam de colidir.

Há pessoas que chegam sem fazer barulho, quase pedindo licença para existir em nossa história, e talvez sejam justamente essas as mais difíceis de esquecer. Naquela manhã, Akira acreditou estar apenas apertando a mão de um novo colega de trabalho. Mas o destino, meu caro leitor, possui um curioso defeito: nunca revela o último capítulo a quem ainda está vivendo o primeiro.

Curta uma leitura sem interrupções.
Conheça o plano sem propagandas (R$36/ano — menos de R$3/mês) →
Siga a Casa dos Contos no Instagram!

Este conto recebeu 0 estrelas.
Incentive LeandroMineiro a escrever mais dando estrelas.
Cadastre-se gratuitamente ou faça login para prestigiar e incentivar o autor dando estrelas.

Comentários

Cansado destas propagandas? Assine por R$36/ano e navegue sem anúncios →