Ainda não me conformo com tudo que aconteceu na minha vida. Deve ser uma piada do destino. Um castigo por algum mal que fiz no passado.
A placa de (Bem-vindo a Santa Helena) só tornou tudo real.
Aquela maldita cidade era o último lugar do mundo em que gostaria de voltar. Não nutria nenhum sentimento ou memória positiva daquele fim do mundo. Mas, apesar de tudo, voltei. Não tive outra alternativa. Todas as pessoas que conhecia moravam ali. Boas e ruins. Foram 10 anos afastado desse lugar que, igual a um fantasma, voltou para me assombrar — ou eu voltei para ser assombrado? Fica a pergunta.
Assim que o ônibus passou da entrada, não deu nem cinco minutos e vi a pequena rodoviária ao longe. Era tão minúscula, assim como tudo naquela cidade aquém do tempo.
Mesmo não gostando do lugar, não podia dizer que era feia, pois Santa Helena tinha aquele toque de simplicidade interiorana; era bonita e organizada, com um relevo mais acentuado, cercada de morros e vales que faziam os turistas se encantarem com o local.
No momento em que a lata velha estacionou na vaga destinada ao desembarque de passageiros dando um solavanco ao frear, não consegui conter as lágrimas. A tristeza guardada há meses foi descarregada naquele momento de fragilidade. Era a saudade que mais doía. Saber que não tinha mais a pessoa que mais amei aqui ao meu lado, que havia desistido de sua vida na cidade natal e abandonado parentes e amigos para seguir o sonho do único filho. Dona Isabel não foi apenas uma mãe de ouro, mas também um anjo, uma guerreira, uma companheira e muitos outros adjetivos que possam classificar a incrível mulher que foi em vida.
Lembro-me do seu sorriso cansado no leito do hospital, carregando esperança, fé e amor, não deixando de ser uma mulher fiel à sua crença. Era uma devota de Nossa Senhora Aparecida. Sua devoção não enfraqueceu nem mesmo nos momentos mais críticos do seu tratamento, seguindo firme com seu terço na mão, orando na mesma intensidade de sempre, nunca por ela, sempre para as pessoas e principalmente por mim.
Os procedimentos da quimioterapia e os remédios caríssimos que obtinha por meio do SUS eram fortes demais. Eles deveriam curá-la, mas, na prática, apenas estavam adiando sua permanência nesse plano. Não que eu fosse uma pessoa religiosa, mas ainda assim, no fundo, queria acreditar que ela estava em um lugar melhor, sem a dor e o sofrimento dos seus últimos dias de vida. Vê-la doente na maca do hospital foi tão doloroso quanto perdê-la. Aquela mulher alegre e brilhante se apagou por causa da doença terrível que chegou silenciosa; como um caroço estranho e incômodo ao toque no seio direito, mas que, após um exame de rotina, foi identificada a doença tardiamente. O maldito câncer. Fiquei sem chão. Era apenas eu e ela contra o mundo.
Após sua partida, meu mundo desabou, mas tive que seguir em frente. O mundo ainda continuava girando, não se importando com o meu luto. Nesse meio tempo, tentei manter a casa sozinho com o salário de um emprego meia-boca em uma loja de calçados no shopping, fora isso, ainda tinha a mensalidade da faculdade de direito, que logo percebi ser impossível manter devido os custos do curso, que mesmo somado à venda de brigadeiros em restaurante e pizzarias nas minhas folgas, não foram suficientes.
Faculdade.
Aluguel atrasado.
Energia.
Internet.
Alimentação.
Era demais…
Em um ato de desespero, recorri a uma antiga amiga da minha mãe do tempo de escola, Ednalva.
A mulher foi um doce, compadecendo-se da minha situação, conseguindo-me um emprego em uma padaria no centro de Santa Helena, e também um teto para me abrigar no começo dessa nova jornada — um quarto nos fundos da sua casa para que ficasse até ter condições de me manter com aluguel, comida, energia e outros gastos de um lar. O custo de vida era bem menor, portanto mais vantajoso que ficar na capital onde a depressão e o desespero ameaçavam bater à porta.
O único lado negativo de voltar para Santa Helena era saber da existência de um certo demônio chamado José — nome bíblico, que ironia — que era o homem que deveria chamar de pai. Pelo menos na teoria, pois na prática não chegou nem perto de prestar tal papel. Ele nunca esteve presente na minha infância, vivendo em portas de bares onde traía minha mãe com rabos de saia que só queriam seu pouco dinheiro suado. O mais triste era saber que ela sabia disso, mas aguentava por mim.
A gota d'água de tudo foi com a descoberta da minha sexualidade atraves de boatos de amigos e depois um flagra justo quando estava agarrado a outro colega no meu quarto, se enfurecendo, não aceitando ter, segundo suas palavras, “um filho viado desonrando a família” que piada. Logo ele, um alcoólatra fodido que vivia 24 horas na porta do bar.
Um pai ausente, pinguço e infiel. Só coisa boa o velho. Ele não tinha moral de apontar o dedo para ninguém.
A discussão foi acalorada, com minha mãe me defendendo com unhas e dentes da ignorância cega do marido, não o deixando encostar um dedo em mim. Era uma leoa defendendo seu filhote.
A separação foi mais que certa. No outro dia estávamos arrumando nossas malas sem ter um plano sequer, pegando o primeiro ônibus da manhã para ir para a capital do estado, onde ela conseguiu um emprego como professora de Língua Portuguesa em um colégio particular. Era para ter sido o nosso recomeço digno, o que até foi nos primeiros anos, até que o trem descarrilhou.
Por ter sido a segunda esposa daquele crápula, José já tinha uma filha do primeiro casamento, que, pelo que me lembro, a mãe não teve nenhuma vontade de cuidar da criança.
Apesar de receoso em reencontrá-lo, precisava recomeçar a minha vida DE NOVO. Foram cinco horas dentro daquela geringonça barulhenta, com um fedor insuportável de suor e couro velho, chegando à rodoviária, que, como dito antes, me causou uma avalanche de sentimentos. Ednalva foi quem me buscou montada em sua bicicleta parceira de longa data. Ela estranhou a minha demora para descer do ônibus, vindo ao meu encontro vendo que ainda estava no banco com os olhos vermelhos de tanto chorar.
— Oh, minha criança! Não chora — me abraçou forte. — Você tem que ser forte, Gabriel, sei que dói, mas tudo vai ficar bem. Acredita em mim meu anjo — deu um beijo em minha testa. — Agora vem! Temos muita coisa para fazer ainda hoje. — Enxugou minhas lágrimas.
— Desculpa, Edinha… eu estou tão cansado e sozinho — funguei, desabafando finalmente com alguém. Fazia um tempo que estava fingindo ser forte, o que nunca fui.
— Eu sei, e tá tudo bem, coração — seu cuidado conseguiu aos poucos me trazer de volta. — Você está tão bonito, e como cresceu. Quando te vi pela última vez, estava tão pequeno. Desse tamanho aqui — demonstrou com a mão, o que me fez rir de verdade.
— Essa frase é tão antiga e batida — não consegui conter a risada.
— Deve ser porque estou velha — deu de ombros.
— Pode ser.
— E você ainda concorda que estou velha, rapaz?
— Foi você quem disse. Eu te acho muito jovem — brinquei.
— Hm. Agora vem! Temos que deixar suas coisas na minha casa e depois ir até o velho Cláudio, aquela múmia deve estar soltando fogo pelo nariz por estar sem o funcionário que prometi — foi me empurrando para fora do ônibus.
Assim como havia dito, a manhã foi corrida, pois, depois de estabelecido no quartinho dos fundos da sua casa, a acompanhei até a padaria na qual iria trabalhar, sendo recebido pelo tal Cláudio, um senhorzinho meio carrancudo, mas que depois percebi esconder um enorme coração.
De começo iria ficar como balconista até que me adequasse à rotina e com os clientes daquele lugar.
Aos poucos consegui construir uma rotina na nova cidade. O tempo foi passando…
Horas.
Dias.
Semanas.
Sem perceber, já estava com mais de 22 dias em Santa Helena.
O emprego na padaria era bom; o meu patrão era um pouco cabeça dura por causa da idade, mas ainda assim era um amor do seu modo. Outra coisa positiva foi que, mesmo com um tempo considerável na cidade, não havia encontrado ninguém ruim do meu passado. O que era um alívio. Nutria uma certa esperança de que não iríamos nos ver nunca, mas era sonhar demais. Sabia que cedo ou tarde me encontraria com o desgraçado do José.
No interior notícias correm rápido, infelizmente, ainda mais com um novo morador claramente homossexual morando na casa de uma viuva e trajando roupas nada masculinas, e o pior, trabalhando na padaria mais antiga e conhecida por aquelas bandas.
Enfim, mesmo um pouco nervoso, consegui me sair muito bem com o atendimento ao público, tendo experiência nos tempos da loja de calçados do shopping em que o número de clientes era bem maior. A parte da cozinha foi a mais complicada, mas, graças à minha rápida absorção e inteligência, modéstia a parte, peguei rapidamente a maneira de como eram preparados os deliciosos bolos e salgados da padaria (Bela Manhã), esses mesmo que o senhor Cláudio tratou de me ensinar pessoalmente, com o seu jeitinho doce e sensível que nem coice de mula. “Assim não, moleque!” “Está querendo queimar minha padaria?” “Quem te ensinou a ligar um forno?” “Deus tenha misericórdia de mim.” Foram algumas das frases que mais ouvi durante meu aprendizado. Estava quase desanimando quando finalmente peguei os macetes, ouvindo um "Não é dos piores" do meu chefinho centenário assim que acertei em um bolo de cenoura com cobertura de chocolate. E, sim, vindo daquele senhorzinho de 78 anos, com descendência italiana, era um elogio e tanto.
Devido a minha adaptabilidade, em poucos dias fui assumindo várias funções no lugar: desde atendente, a caixa e também como padeiro ao lado de Mariana, a neta de Cláudio.
Obviamente não recebia pelo acúmulo de funções, mas não me importava; o velho Cláudio era um patrão tranquilo. Não havia cobrança exagerada e nem perseguição, como estava acostumado na loja do shopping.
Infelizmente, nem tudo eram flores, e, apesar de ter rezado bastante, o momento do encontro aconteceu depois de um mês.
Assim que o vi entrar, meu corpo se arrepiou todo. José estava mais repugnante e medonho do que me lembrava da adolescência. Parecia 15 anos mais velho do que os seus 56 anos de vida. Tinha um corpo magro com uma barriga grande e dura; os olhos azuis que herdei dele estavam fundos, sem vida. Quase cinzas. O sorriso com falhas era amarelado devido ao consumo exagerado de cigarro e café, fora o vício principal, a maldita cachaça.
– Olha quem voltou – senti o bafo terrível assim que encostou no balcão. O homem parecia um zumbi.
— O que vai querer, senhor? — perguntei secamente, mas profissionalmente. Tinha nojo só de estar na presença dele.
— Não tá lembrando do seu velho pai, moleque? – sorriu, focando os seus olhos nos meus brincos nas orelhas e no piercing na lateral do nariz. Pude ver seu descontentamento, como se eu me importasse com sua opinião. – Ainda continua com essas ‘viadagens’. Como pude fazer uma desgraça igual a você?
— Não sou seu filho, e não se preocupe, o repugno no mesmo nível — o fitei de cabeça erguida. — Agora, se me der licença, tenho trabalho a fazer. — Disse por fim, me afastando pouco antes de reparar em um monumento humano adentrando a padaria, caminhando rumo ao José.
Ainda nervoso pelo encontro com o fantasma do meu passado, fugi para a cozinha, dando de cara com meu patrão.
— Está tudo bem, filho? — Seu Cláudio se aproximou assim que me viu de cara fechada e visivelmente abalado.
– José está lá fora, seu Cláudio. Me desculpa se não fui profissional — enxuguei minhas lágrimas que não paravam de cair.
— Quer que eu vá lá fora para mandá-lo embora? — o senhorzinho segurou meus ombros com ternura.
— Não precisa. Ele foi arrastado para fora por um homem moreno e alto — forcei um sorriso, deixando-o um pouco mais tranquilo.
— Deve ser o genro dele, Afonso. Fique longe desses homens, os dois só sabem levar problema por onde passam — me alertou.
— Pode deixar. Não tenho intenção de ter contato com ele tão cedo, sr. Claudio. Obrigado por se preocupar.
— Isso mesmo, filho. Sabe que te considero como um neto. — Sorriu, me soltando em seguida. Voltando a atenção para a mesa da cozinha. — Apesar de queimar alguns bolos, ainda continua sendo um bom funcionário.
Bufei.
— Foi uma vez só — reclamei, caminhando até ele e roubando um pão de queijo recém saído do forno. Seu Cláudio me deu um cascudo em repreensão. Tive que correr novamente para o balcão rindo.
Tinha prometido ao velhinho que me manteria longe dos problemas daqueles homens, o que realmente fiz, só não imaginava que os problemas viriam até mim. Maldita cidade do interior!
Enfurnado em casa em pleno sábado à noite que nem um idoso de 80 anos, fui convencido por Mariana a ir até um barzinho que ela dizia ter o melhor espeto da cidade. Apesar de nunca ter frequentado esse tipo de ambiente, consegui me divertir como há muito tempo não o fazia, dançando músicas velhas, comendo carne de procedência duvidosa e bebendo cerveja barata, não percebendo o momento em que Andreia, a filha do primeiro casamento de José, chegou acompanhada do tal Afonso, o moreno que foi buscar o sogro moribundo na padaria dias atrás.
– De volta à cidade, boneca? Achei que tinha se dado bem na cidade grande. Mamãe não aguentou manter você?
Destilou seu ódio, pendurada no marido, que apenas ficou me olhando enigmático, não com nojo, mas…desejo?
— Minha vida não te interessa, garota. Se quisesse contar alguma coisa para você, eu teria ido até sua casa — respondi, olhando-a afrontosamente, a voz um pouco arrastada devido ao álcool.
Vendo o clima tenso, Afonso rodeou o seu corpo inchado devido a gravidez e o tempo de descuido consigo mesma, para não dizer que estava gorda. Para se ter uma noção do seu tamanho, fui perceber a barriga de grávida só depois que observei o movimento da mão daquele macho glorioso a contornando. Andreia era visivelmente muito feia para ele, que, mesmo sendo mais velho, ainda mantinha uma aparência jovial. O tempo havia sido cruel com ela, ou talvez, o próprio desleixo com sua aparência.
– Viadinho de merda, não dou nem um mês para estar na rua. O velho Claudio nunca que vai aceitar uma bicha inútil trabalhando na padaria dele – vociferou, inundada de um ódio infundado pela minha pessoa. Quando a conheci, era muito novo; ela ainda vivia sendo jogada de casa em casa até que a responsabilidade recaiu nas mãos de Edgar. Já era grandinho quando ela veio morar com a gente, meses antes da discussão que deu início à separação e à nossa fuga para a capital.
Após aquele encontro merda, os dois se afastaram. O tal Afonso me deixou arrepiado olhando-me de cima a baixo.
— Relaxa, essa aí é igual o pai, amargurada como se todos tivessem culpa da vida que levam — Mariana comentou assim que os dois se sentaram do outro lado do estabelecimento.
– Amargurada e gorda, né? – resmunguei, não me importando de estar cometendo gordofobia naquele momento de fúria.
– Kkk, garoto, garoto… mas não tem como negar, ela tá um pouco inchada – ela caiu na gargalhada, tomando um gole matador na latinha de cerveja.
— Não entendo o que fiz para ela me odiar dessa maneira — bufei.
— É inveja, Gabi! Ela trata várias mulheres da cidade dessa maneira. A bruaca tem um ciúme doentio do marido. Mesmo assim ele vive traindo ela quando não está por perto. Não sei como Afonso foi cair nessa furada, bonito como é – ela confidenciou, tirando-me uma risada sincera, pois claramente estava mais animada. – Mas, pensando bem, ele merece a cobra de mulher que tem, também. Afonso não pode ver um buraco e já quer meter o pau sem proteção. – Chegou à conclusão, olhando-me e apontando o indicador. – Toma cuidado com aquele lá, bonito desse jeito que é, com os olhão azul, duvido nada que ele não comece a querer jogar no outro time.
– Besteira kkk, você está bêbada já, criatura – tive que desconversar, não querendo me aprofundar naquela conversa.
– Tô falando a verdade, Gabriel, você é o gay mais bonito que já vi. Eu te pegaria se gostasse da fruta — disse em tom de flerte.
– Bêbada! Você está completamente alcoolizada, garota.
Apesar de negar, não tinha deixado de perceber o olhar faminto daquele macho. Aquilo cheirava a problema. Exatamente o que não buscava nesse recomeço de vida.
Apesar de animados, fomos embora cedo; o dinheiro havia chegado ao fim e ambos estávamos um pouco leves.
Os dias se passaram e tudo voltou ao normal, ou quase, pois um certo alguém não saia da padaria. Fiquei ressabiado com as inúmeras aparições de Afonso em horários de pouco movimento na padaria, mas o tratei como um cliente qualquer. Às vezes sentia que ele demorava demais no estabelecimento. Não fui o único a perceber isso, pois o senhor Cláudio também achou estranha a presença de Afonso que sendo um chucro macho do mato, nunca se importou com café e bolinhos. Mariana, era quem geralmente o atendia, dizendo que era um cowboy gostoso e não perderia a chance de irritar a vaca da Andreia, palavras dela.
Aquelas aparições continuaram ocorrendo, mas agora em outros horários, com Afonso aparecendo no meio da manhã e depois do trabalho, ficando no mesmo lugar por um tempo consideravelmente suspeito. Até mesmo depois de ter terminado de comer.
Mesmo ressabiado, não deixei que a presença do Afonso ou José fossem empecilho na minha vida.
Após uma semana corrida, queria curtir o meu sábado à noite, mas a minha dupla de copo tinha um encontro com um boy de outra cidade. A garota estava com um fogo que só, perguntando se anal doia porque queria testar com ele. Fiquei envergonhado, não acreditando no rumo da conversa que Mariana me levou sem preparo algum.
— Garota!
— Que foi? Você é virgem?
— Não.
— Então?
— Não vou te ensinar a dar o cu, Mariana — tive uma crise de riso, deitado na minha cama enquanto ela resmungava no celular.
— Qual é a graça de ter uma passiva como amigo e ele ser todo puritano? — continuou com o seu drama.
— Não sei o que faço com você. Quem devia estar fazendo drama sou eu, vou ter que ir sozinho no bar do Zezinho.
— O amigo, na próxima a gente vai junto e bebe até aquele bar cair nas nossas cabeças.
— Fechou, gata!
— Tá marcado! Agora deixa eu lavar minha garota para receber a piroca daquele gostoso.
— Tchau Mariana!
Desliguei antes que ouvisse mais barbaridades. Ao contrário de Mariana, que iria aproveitar a noite ao lado de um macho gostoso, eu iria ficar sozinho na beira de um bar que nem um velho solitário. Fiquei até com inveja dela.
Arrumado, fui a pé até o barzinho que fica quase na saída da cidade, escolhendo um banco próximo a churrasqueira onde Ronaldo, conhecido de Ednalva, assava as carnes enquanto bebericava sua cerveja.
Era muito estranho tudo que estava vivendo nesse pouco tempo na cidade. A correria da padaria era tanta que nem havia reparado que não sentia mais que estava sozinho no mundo. Mariana, Ednalva e seu Cláudio eram uns anjos mesmo, fazendo de tudo para que não ficasse remoendo o luto. Voltar a Santa Helena foi um acerto.
Nessas divagações, consumi três latinhas em poucos minutos, o que deixou minha barriga cheia. A tão temida primeira ida ao banheiro ao beber me venceu. Não tive outra escolha a não ser me levantar da cadeira e adentrar o bar, esbarrando em alguns bêbados jogando sinuca no pequeno salão.
Tudo normal, até que dei de cara com uma pessoa que encontrei saindo no momento em que toquei a maçaneta.
— Ah, desculpe, vi que estava só encostado e pensei estar liberado — fui educado, mesmo notoriamente nervoso. Afonso estava fechando a braguilha da calça surrada do trabalho.
— Tá livre, princesa – lançou-me um sorriso provocativo, analisando-me de cima a baixo.
— Obrigado.
— Tu curte pau, moleque? – ele esticou o braço até segurar o batente, impedindo a passagem. Fiquei paralisado por alguns segundos com a pergunta direta.
— Oi?
— Não finja de burro ou desentendido – aproximou-se como um predador prestes a devorar sua caça.
— Não quero problema, cara.
Travei meu olhar no momento em que sua mão foi parar no volume majestoso marcado na calça, apertando-a com força.
— Sua irmã não abre as malditas pernas há meses depois que ficou prenha — senti seu hálito de cerveja próximo ao meu rosto, percebendo que não havia apenas manjado seu pau, mas sim admirado na cara dura.
— Que merda é essa cara? — Pousei as mãos no seu peitoral, sentindo os músculos duros daquela região.
— Vai, princesinha, só uma mamada na minha pica e a gente para — ele encaixou na minha perna, se esfregando nas minhas coxas como um cachorro no cio procurando uma fêmea.
Ele não recebeu uma resposta verbal. Estava com tesão nas alturas pelo tempo na seca, me entregando como se fosse uma puta, não me importando com as consequências de me entregar para aquele homem, movendo minha mão direita para baixo, apertando seu membro grosso por cima da calça jeans. Afonso estava quente, duro e pulsante.
O homem rosnou assim que, cansado de apenas sentir seu pau no tecido, minha mão adentrou sua cueca, apertando-o com firmeza. Afonso suspirou pesado, olhando para cima em um ato de pura excitação e descontrole.
— Mãozinha leve e sem calo de serviço, né, putinha? – me olhou malicioso, rodeando meu corpo com os dois braços fortes, movendo o quadril de encontro à minha mão que o masturbava lentamente. O tarado estava fodendo meus dedos.
— A gente está há muito tempo aqui fora – alertei, tendo um segundo de razão. Afonso também entendeu na hora.
Após dar uma espiada no corredor que dava para a área das mesas de sinuca no interior do bar, Afonso me puxou pelo braço para dentro do banheiro, trancando a porta na chave. O lugar era pequeno e sufocante, com dois mictórios sujos na parede e um vaso aparentemente entupido devido à altura da água dentro de uma cabine sem porta.
Enquanto ele guardava a chave no bolso da calça, cheirei minha mão direita que, nesse momento estava com o odor característico do seu pauzão toda melada com o líquido pegajoso do pré gozo.
— Cai de boca no cacete, sua bicha — deu a ordem como um macho escroto, empurrando minha cabeça na direção do volume marcado no meio das pernas. A frente da calça estava molhada devido ao tanto que ele soltou de pré-gozo.
Não me importei com a rudeza que ele utilizava. Estava embriagado, de tesão, e um pouco, mas bem pouco, de álcool.
De joelhos, fiquei de cara com a fivela do cinto que brilhou como uma estátua do Oscar próximo do meu rosto; era imensa e pesada, com um homem montado em um cavalo que estava com as pernas da frente jogadas para o alto em uma pose épica. Tive dificuldade de soltar de início, mas, após uma ajuda de Afonso, dei conta de desafivelar o couro seco do cinto, abrindo a braguilha da sua calça jeans azul-marinho e o liberando finalmente da cueca. O homem era grande… até demais…. iria ficar dolorido se o resolvesse inteiro no cu.
– Bora viado, larga de frescura e bota meu pau na boca! — Exclamou revoltado, ansioso para ter minha boca trabalhando no seu mastro.
— Tá na seca, cowboy? — provoquei, afundando meu nariz no matagal de pelos pubianos das suas bolas.
Afonso rosnou, enchendo a mão grande com o meu cabelo, puxando para que olhasse para ele. O maldito ainda teve coragem de cuspir no meu rosto assim que fiquei totalmente submisso, ajoelhado para ele e preso em suas mãos. Os meus olhinhos de gato pidão destruíram um pouco sua marra, suavizando a pegada e me liberando para saborear seu pau do modo que quisesse.
— Vamos ver quem é melhor para mamar uma rola. Tua irmã é bem fraca nisso – confidenciou, movendo o quadril para os lados, fazendo o seu membro balançar perante os meus olhos cheios de cobiça.
Após seu comentário, me endireitei no chão sujo do banheiro, segurando o seu membro cavalar como se fosse a coisa mais preciosa do planeta — e, naquele momento, realmente era —, tratando-o com uma devoção imprópria.
Curioso para saber a cor da glande, puxei o prepúcio para baixo, percebendo o tom rosado escuro da pele com a uretra pingando de desejo. Não contive o meu próprio corpo ao perceber o seu líquido escorrendo, lambendo a parte de baixo da glande até engolir a ponta toda, resgatando todo o pré gozo acumulado para logo depois engolir a ponta do seu membro em movimentos rotativos. Estava fazendo um maravilhoso boquete parafuso, chupando, lambendo e punhetando ele com a fome de mil putas.
– CARALHO! – Rosnou igual um animal enraivecido. Ele sabia que não podíamos fazer sons muito altos para que nenhum enxerido fosse capaz de ouvir, mas não conseguiu se controlar.
Não bastasse o som molhado da sucção dos meus lábios no seu caralhão grosso que mal cabia na boca, também chupei suas bolas peludas, o deixando no limite. O cretino não poupou na pegada, dando tapas no meu rosto que possivelmente deixariam marcas.
– Engole mais… isso, porra! Tá no meio já do meu cacete – era incapaz de se manter em silêncio devido ao tesão que se instalava a cada centímetro seu sumindo dentro da minha boca. Aquele macho estava realmente sem sexo há muito tempo. Um mero toque no seu pau o fazia delirar como um adolescente em sua primeira experiência sexual.
Afonso era um macho naturalmente gostoso e atraente. Não precisava de muitos motivos para saber do porquê minha irmã o escolheu como marido. Ele era o exemplo de um macho em seu esplendor e glória.
Aos 31 anos, Afonso exibia um físico primoroso, não daqueles fabricados em treinos de academia, era algo que só muito serviço pesado no campo podia oferecer a um homem. Adquirindo ao longo dos anos ombros largos e costas firmes e marcadas no tecido da camiseta polo, somado a isso, os braços fortes acostumados a sentir o impacto da lâmina da enxada na terra seca do cerrado mato-grossense que não era brincadeira. Fora a força do punho acostumado a bater estacas no cercado do gado. A pele morena era queimada de sol, brilhando com as gotículas do próprio suor como se fosse uma miragem pornográfica de um macho saboroso.
Os cabelos, quase sempre amassados devido ao boné, eram pretos e cortados em degradê, o deixando másculo.
Afonso era um macho para ninguém botar defeito. Pelo menos na parte externa. Pois, de resto, era o típico bruto do interior, cuspindo falas machistas como se fosse algo natural e aceitável.
Mas, apesar da consciência do que estava fazendo, e com quem, não podia negar o quanto aquele macho duro no final do dia, socado dentro de uma calça jeans surrada e apertada, de botina nos pés e boné na cabeça, fazia meu lado de putinho aflorar.
O safado percebeu meus olhares nada discretos pelo início do seu abdômen enquanto o chupava, que, mesmo não sendo definido devido a grandes quantidades de cervejas, se mantinha reta graças ao trabalho árduo e exaustivo que não o deixava engordar. Um equilíbrio perfeito.
Afonso, impaciente, não esperou eu me acostumar com seu tamanho na boca, segurando meu rosto dos dois lados e fodendo como se fosse um cu. As lágrimas foram descendo em cascata enquanto ele se esbaldou no prazer de ter o pau socado em um orifício quente e molhado.
— Porra, que boca gostosa — se curvou para frente, agarrado na minha cabeça, ao mesmo tempo que empurrava sua pica para dentro da minha garganta. Perdi a noção de tudo ao meu redor, saboreando seu pau no seu ritmo.
Assim que seu corpo começou a estremecer e ele arfou pesado, soube que iria gozar.
Os primeiros jatos vieram grossos, direto na garganta. Fui engolindo tudo sem precisar mandar, contente pelo serviço, gostando daquela sensação gostosa de fazer um macho gozar.
— Profissional em chupar rola, né, cadela? — elogiou. — Ninguém pode saber dessa porra, me ouviu? — me puxou bruscamente pelo pescoço, assumindo um tom de ameaça que nada tinha a ver com o clima de luxúria de segundos antes.
— Sim. Ouvi! — balancei a cabeça.
— Que bom. Vou sair primeiro, depois que eu estiver longe você vaza — me soltou, se vestindo e saindo sem me olhar.
Aquela noite dormi que nem um anjo. Relembrando cada segundo do que havia feito naquele banheiro insalubre. Era um segredo só nosso. Não precisava me preocupar que não iria acontecer de novo. Um encontro qualquer de aplicativo de foda, estava acostumado com sexo sem compromisso. Não era o primeiro casado que pegava mesmo.
— Ficou sabendo do babado? — Mariana veio até a cozinha toda afobada.
— Não, qual?
— Tão dizendo que o Afonso tá metido com rolo lá pras bandas do garimpo, e é coisa séria de mulher casada e desvio de dinheiro — foi se atropelando toda com a fofoca.
— Você acha que ele pode estar se metendo com roubo? — parei o que estava fazendo, realmente interessado na fofoca.
— Afonso apesar de gostoso nunca foi flor que se cheira. Não sei como que ta vivo até hoje.
— Não imaginava.
— Poise.
— Ta afim de ir até a praça comprar sorvete? — mudei de assunto. Não podia pensar nesse homem depois de tudo que fizemos.
— Não posso, o Luiz convidou a família para fazer um churrasco na casa dele. Tenho que ajudar — falou descontente.
— Problemas ainda com a futura sogra? — ri.
— Aquela mulher é uma cascavel, Deus me livre — se benzeu, dramática.
— Vou ter que ir sozinho, de novo — fingi estar aborrecido. — Isso que dar ser solteiro e amigo de casal.
— Fica pra próxima gatinho.
— Tranquilo.
Enquanto comprava um pote de napolitano na única sorveteria da cidade, ouvi alguns cochichos das funcionárias do lugar sobre o Afonso, com uma delas afirmando que ele não saia mais do bar do zezinho e que havia brigado com a mulher. Até o José estava no meio. A situação na família parecia estar tensa. Um clima nada saudável para uma gestante.
Pensativo com todas aquelas informações sobre o homem, paguei a minha conta e sai, voltando para casa.
Faltavam três quarteirões para chegar na casa de Ednalva quando ouvi o som de pneus freando atrás de mim, me deparando com o cretino na sua S10.
Não precisei de poucos segundos para perceber que ele havia bebido bastante, sorrindo exageradamente.
— Entra!
Mandou.
— Não precisa, Afonso. Estou querendo caminhar um pouco — inventei qualquer desculpa.
Mas o homem estava irredutível, abrindo a porta pelo lado de dentro, oferecendo novamente a carona da qual não pedi.
Devido à sua insistência, entrei no carro, forçando minha visão para a estrada assim que notei que ele estava descamisado, apenas vestido com as calças jeans de rotina e com as botinas nos pés.
Ao contrário dos outros dias, Afonso estava bem tagarela, fazendo perguntas sobre minha sexualidade, querendo saber se eu sempre dei ou comia na relação. Também queria saber se gostava de tomar porra direto da pica dos outros machos, igual fiz com ele. Ou se curtia tapas e xingamentos. O cretino perguntava tudo em tom de zombaria, querendo me diminuir pela minha sexualidade. Não rebati grosseiramente, apenas fiquei em silêncio. Às vezes entrava na onda, falando que amava picas grandes entrando no meu cu e me arrombando gostoso, metendo até gozar. E para fechar com chave de ouro, claro, provoquei dizendo que ele não fazia meu tipo, pois gostava de macho de verdade, com pau grande e grosso. O tiro foi certeiro. O ego do metido a cowboy falou mais alto, freando o carro em uma parte desértica da estrada. A escuridão imensa da floresta engolia o carro. Só os faróis baixos cortavam o breu.
Só fui perceber naquele momento que estávamos bem longe da cidade.
Estava pronto para reclamar, quando olhei para o lado, me deparando com sua pica apontando para cima que nem um tronco.
O cretino teve a audácia de manipular o membro enquanto me olhava, arregaçando o prepúcio, revelando a cabeçorra que chupei semanas antes. Aquilo devia ser alguma ironia da vida. Dar uma pica daquelas para um macho escroto igual Afonso. Era intimidador. Era grande, medonho e, ao mesmo tempo, hipnotizante.
Engoli seco assim que o cheiro da sua rola empesteou o carro, que estava com todos os vidros fechados. Fiquei levemente zonzo com aquele odor tão rico. Era um perfume másculo que nublou a parte racional da minha mente.
Afonso sorriu ladino, percebendo que havia vencido assim que todo e qualquer sinal de rebeldia sumiu do meu corpo.
Após um tempo, ele trocou a mão que manipulava o pau duro e babão, esticando o braço até agarrar o topo da minha cabeça, prendendo os fios. Dizendo: — Faz dias que tô querendo matar a saudade da sua boca na minha pica, viadinho — ele puxou minha cabeça, empurrando meu rosto de encontro à sua virilha.
Fiquei perdido ao ficar cara a cara novamente com aquele mastro repleto de veias calibrosas, pulsando igual a um coração, esperando o calor de um corpo para saciá-lo.
Ele era imenso e nada carinhoso. A minha sorte era ter experiência com machão do seu tipo e com picas maiores.
Atrevido, estiquei a língua para saborear o mel translúcido que escorria da glande, o que o desestabilizou. Senti que seus dedos afrouxaram no meu cabelo, o que me deu chance de me arrumar melhor no banco para poder saborear aquela carne pulsante e quente da qual tanto desejei ter tido outra oportunidade de chupar, mesmo negando até a morte.
Estava com mais da metade da piroca presa na garganta quando fui puxado bruscamente pelo cabelo. Afonso estava suado e, puta que pariu, gostoso demais no banco do motorista.
— O que foi?
— Hoje não quero gozar na sua boca — falou após regular a respiração. — Vem aqui fora, cadela. Quero essa bunda empinada enquanto você fica deitado no banco.
— Não é perigoso bicho? — Tive que falar o meu medo. Aquela região era repleta de onças.
— Precisa ficar com medo, não. Aqui você tem um homem te cuidando — bateu no peito que nem um troglodita. Revirei os olhos, saindo do carro e dando a volta até o seu lado.
Assim que fiquei na sua frente, Afonso girou o meu corpo e me empurrou pela nuca até estar deitado desajeitado no banco traseiro. Apenas minhas pernas ficaram de fora na terra vermelha. O meu traseiro também ficou do lado externo, exposto para aquele macho rude. A escuridão da estrada encobria o nosso pecado naquela hora da noite. Com as calças e cuecas arriadas até o meio das pernas, assim como Afonso, de barriga no banco traseiro do carro, ele mirou seu pau cavalar no meu buraco, forçando rudemente, rasgando minha carne como um touro impaciente. Não havia escapatória para tal dominação. Era uma foda crua e selvagem. Meu rabo ardia como se tivesse enfiando brasa a cada centímetro dentro. O cheiro de couro velho impregnou meu nariz ao afundar meu rosto no banco, sufocando os meus gemidos que estavam altos.
– Aí, Afonso! Sua pica é muito grande, puta que pariu! — Choramingava, aumentando o desejo absurdo daquele homem.
Ele não parou com meus apelos, socando fundo no meu rabo, me deixando todo trêmulo a cada investida de seu quadril. Ele era um ogro sem piedade. A carne rija dentro do meu ânus era como um soco do qual me fazia contorcer todo.
– Nasceu viado, agora aguenta rola, porra! Vou te engravidar com meu leite no fundo dessa bucetinha apertada de viado — vociferava, empurrando minha cabeça de encontro ao estofado, e com a outra segurando meu quadril. Fiquei nessa posição por um longo tempo.
Não houve preparo; a camisinha esquecida por ambos deixou tudo pele na pele, o que resultou no meu cuzinho recebendo toda sua gala despejada nas minhas entranhas. Afonso ainda ficou brincando com o aperto do meu rabo em sua circunferência.
O maldito, assim que ficou satisfeito, puxou a rola sem cuidado algum, o que me tirou um gritinho agudo.
— Cuzinho gostoso — elogiou, dando um tapa na minha bunda avermelhada. Ele se afastou contente, se arrumando enquanto eu tentava me recompor.
Dolorido e humilhado pelo desejo daquele homem, fui para casa em silêncio. A sua carona foi uma tortura, pois a estrada era repleta de buracos, o que fazia o carro trepidar e enviar fisgadas no meu cu arregaçado.
Tinha que dar um fim a essa coisa que estava acontecendo entre nós. Não podia ter problemas em uma cidade tão pequena. Teria que me policiar, principalmente com aquela obsessão doentia do Afonso, que me fez parar de participar de eventos e ir ao barzinho do Zezinho com Mariana.
Minha rotina era de casa para o trabalho, e só. Não queria ser perseguido por um macho igual ao Afonso.
Com a vida social nula, tive que me contentar apenas com o trabalho, procurando meios de modernizar a padaria do seu Cláudio, postando o dia a dia dos funcionários, clientes e nossos produtos. O perfil ficou lindo. Não me importei de deixar tudo muito gay, pois o meu patrão provavelmente nem devia saber mexer no Instagram.
Foi por causa desse anúncio que a padaria começou a receber viajantes que passavam pela rodovia, e numa dessas idas e vindas, conheci Joaquim, um mulato careca, de sorriso branco e perfeito.
Na nossa longa conversa, descobri que ele trabalhava como representante de vendas e que era solteiro, e o mais importante, Bissexual.
Joaquim era um homem gigantesco, parecia mais um soldado que um vendedor, era intimidador à primeira vista, mas logo essa visão era quebrada com seu bom humor e simpatia. Ele era realmente atraente. A pele retinta era repleta de tatuagens. O cabelo era baixo, dando para ver o couro cabeludo. Ele me explicou que mantinha os cabelos bem curtos por escolha própria, o que era verdade, pois ele realmente não tinha sinais de entradas e nem queda de cabelo.
A gente conversou a manhã toda, com Mariana aplaudindo de longe, percebendo as intenções dele. No final trocamos o número de celular; ele era engraçado e tinha um corpo de dar inveja. Nem Afonso tinha aquele físico.
— Eu apoio — Mariana disse assim que Joaquim foi embora.
— Apoia o que garota? — desconversei.
— Você e o Michael B.Jordan brasileiro. A rola daquele negão deve ser assustadora — a sua mente maliciosa foi por outros caminhos.
— Vai trabalhar menina!
— Não deixe esse mulato escapar, ouviu? Tá difícil macho desse tipo aí — apontou para mim.
— Tá bom, maluca!
Joaquim voltou outras vezes à cidade, parando na padaria e jogando conversa fora por um longo tempo. Isso porque a gente conversava pelo WhatsApp também e em outras redes sociais. Essa aproximação não deu em outra coisa. Acabei com ele na cama de um motel na rodovia. Ele era romântico, apesar de visivelmente louco para me enrabar com força quando senti o peso da sua mão na minha bunda, mas, sabendo do tamanho do seu dote, me deu o tempo necessário até poder socar a seu modo.
Por ser um monstro, Joaquim não poupou nos carinhos, beijos e também no lubrificante, me penetrando pouco a pouco, sentindo o meu corpo se acostumar com seu tamanho. Foi a primeira vez que me senti amado no sexo.
— Joaquim… caralho! — Lacei sua cintura com as pernas ao sentir toda sua rola dentro do meu rabo, que o apertava forte.
— Tá tudo bem? — perguntou preocupado, deitando-se sobre o meu corpo para me beijar.
— Me fode!
Havia dor, mas ela se juntava a um tesão incrível e também à forma carinhosa como me possuía. Ao mesmo tempo que ele acertava profundamente o meu corpo, Joaquim também me beijava e abraçava o meu corpo como se quisesse me recompensar por deixá-lo se saciar no fundo do meu cuzinho. Não percebi nem o momento em que gozei, pois ele aumentou o ritmo, empurrando meu corpo com as estocadas até que não suportou mais segurar o orgasmo e gozou com jatos potentes de esperma dentro de mim. Meu pauzinho soltou o leite sem eu tocar nele.
No final daquela foda intensa, Joaquim me deitou com a cabeça em seu peitoral, fazendo um carinho maravilhoso nas minhas costas com sua mão imensa.
Ficamos nesse chamego pelo final de semana todo em que ele estava ali. Até que, na segunda, ele teve que ir embora cedo, prometendo voltar na próxima sexta para repetirmos tudo novamente.
Não teve outra, fiquei a semana toda ansioso, nem prestando atenção nas mensagens de Afonso. Ele era alguém que não queria mais na minha vida.
Devido as minhas recusas de ligações, fui revê-lo no final do expediente de quarta-feira, quando me abordou na rua, oferecendo carona. Iria negar, mas ao perceber vários olhares de curiosos, entrei na S10.
Estava tudo tranquilo quando, sem avisar, ele mudou a rota, seguindo até uma estrada afastada da cidade.
— Afonso, me deixe descer! O que você está fazendo, porra? — percebi o momento em que abriu a braguilha.
— Estava com saudades, princesa — sorriu o galanteador, tirando o cacete de dentro da cueca.
Em segundos estava com a rola grossa para fora, puxando minha cabeça na direção do seu mastro duro. Tentei escapar e pedir para que parasse, mas levei um tapa no rosto, o que me deixou zonzo. Percebi que nem se quisesse venceria esse homem no soco. Ele era imenso; só aquela palmada aberta quase me fez desmaiar, imagina um soco. Tive que ceder, torcendo para que gozasse logo e me deixasse em paz. Mero engano.
Ele estava sedento como nunca. Nem mesmo depois que gozou na minha boca, seu pau arrefeceu. Me puxando do banco que nem uma boneca de pano, deixando minha bunda no seu colo.
– O tal Joaquim fode igual eu, putinha? – perguntou após se encaixar no meu rego, procurando minha entrada.
Fiquei assustado ao perceber que ele estava me vigiando esse tempo todo com o Joaquim.
A sua obsessão, somada ao ciúme doentio, cegou-o da dor que me fazia passar com socos fortes na costela, tapas doloridos e a própria forma como estocava rudemente meu rabo. Sufoquei o choro mordendo meu antebraço; não queria dar a ele o prazer de me ouvir gemendo.
— Tu vai parar de se encontrar com aquele preto sujo, me ouviu? Tu já tem macho para foder teu rabo — ordenou após puxar o pau melado de porra de dentro do meu rabo. — Ou resolvo do meu jeito, viado de merda! — mostrou um revólver que tinha debaixo do banco do motorista. Engoli seco.
Precisava resolver esse problema de alguma maneira. Mas como? De todo modo, estava errado ao ser amante do marido da minha “irmã”.
— Que foi lindo. Está com a cabeça nas nuvens? — Joaquim perguntou. Estávamos no meu quarto deitados na cama.
Tínhamos acabado de fazer amor. Isso mesmo. Amor! Coisa que Afonso não saberia fazer.
– Tô pensando longe, desculpe. Coisas ruins que fiz e quero esquecer — respondi.
– Posso fazer você esquecer — me abraçou todo animado.
– Então faz.
Os seus toques no meu corpo acenderam o fogo novamente. Ficamos assim nesse lance por meses, me sentindo seguro, pois Afonso havia sumido do mapa.
Ednalva me disse que, com a abertura de um novo garimpo, Afonso ficou ocupado com seus esquemas, o que me deu um tempo com Joaquim, mas que não durou, pois logo voltou a me cercar assim que se acertou.
Ele apareceu numa sexta à noite na porta da casa de Ednalva, estava estressado, buzinando loucamente. Por causa disso, fiquei com medo de um barraco por estar em um relacionamento com um homem casado na minha porta, deixando o entrar. Afonso sorriu de orelha a orelha, me pegando por trás assim que passou pela porta do pequeno quarto, encoxando-me com seu pau duro. Tentei intervir, mas ele era mais forte.
— Que saudades dessa sua pele cheirosa — fungou meu pescoço. — Lá no garimpo não tem nada parecido com você.
— Afonso, a gente não pode mais. Eu tô saindo com outro cara e você é casado com a filha do José — tentei contornar aquela situação.
— Eu cheguei primeiro, esse tal Joaquim vai ter que sumir ou já sabe, né, viado? Eu mato aquele preto com um tiro na testa — ameaçou.
A sua ameaça pairou no ar. Ele seria mesmo capaz de matar uma pessoa? Não fazia ideia.
– Afonso…
— Xiiiiu, puta! Trabalhei que nem escravo essa semana, preciso de um buraco quentinho para enterrar meu caralho.
— Sua mulher está em casa…
Ainda tentei discutir, mas ele era insistente, baixando minha bermuda e pincelando o pauzão no meio do meu rego à procura da minha entrada. A foda foi seca e bruta, como sempre. Ele se importava apenas com o próprio tesão.
Fiquei parado à mercê das suas investidas, não percebendo a porta se abrir e Joaquim entrar de supetão, flagrando o que se desenrolava ali naquele momento. Vi a dor da traição no seu olhar e a raiva juntas.
Afonso continuou dentro e me mantendo no lugar com a mão apertando meu pescoço, sorrindo vitorioso por acabar com algo que estava se tornando divino.
— Joaquim, espera! — gritei, tentando me soltar das garras de Afonso e correr atrás dele, que deu meia volta.
— Tu não vai a lugar nenhum, viado — Afonso me apertou ainda mais forte. — Ele foi embora.
Com raiva do que estávamos fazendo, tentei acertar um soco no seu rosto, mas ele interceptou, puxando meu braço para trás e torcendo, imobilizando-me no lugar.
Em um ato de desespero, pisei duro no seu pé com o calcanhar, o que o fez berrar de dor e me soltar.
Agora com os braços livres novamente, escapei do seu agarre, dando um soco em seu rosto de qualquer jeito, depois corri até a porta gritando por Joaquim; foi nesse momento que Afonso me passou uma rasteira, derrubando-me no chão. Fiquei sem ar com a batida forte de peito aberto no piso frio.
Afonso me carregou, xingando o tempo todo até o meu quarto, onde me jogou de bruços na cama, montando por cima, apontando o pauzão no meu buraco e entrando com força. Solucei ao saber que tinha perdido um homem que amava e, ainda por cima, deixei um nojento se apossar da minha liberdade. A esperança tinha ido embora quando ele começou a me foder e me agredir. Senti um impacto forte nas costelas, estava perdido, iria morrer nas mãos de um maníaco, quando, por um milagre, seu peso caiu de lado. Vi o momento em que Joaquim o pegou pelo pescoço, desferindo um soco no seu nariz. Foram uns 10 no total, até que eu saísse da cama e o tirasse de cima do ensanguentado Afonso no chão, com a respiração afetada pelos golpes.
A polícia apareceu minutos depois com Ednalva preocupada ao ouvir os gritos. Toda a situação virou um circo.
O olhar de julgamento dos vizinhos e dos policiais era cruel, como se Afonso não estivesse errado.
Joaquim estava furioso, principalmente ao saber das chantagens e ameaças de Afonso. A repercussão foi tanta que ficou insalubre viver naquela cidade. Novamente me vi obrigado a mudar de cidade. Ednalva lamentou, dizendo que era um filho para ela, mas que entendia minha decisão e que torcia pela minha relação com Joaquim.
Andreia e José por um milagre não vieram bater de frente comigo.
A despedida foi bem emocionante. Dona Ednalva chorou bastante, assim como Mariana que manchou minha camisa de tantas lágrimas. Eu estava igual.
Anos depois….
Em uma visita de vendas acompanhado de Joaquim, fui até a casa de Ednalva. Ela e Mariana não me deixaram em paz em nenhum momento, me metralhando com informações do tempo que estive fora. Umas fofoqueiras. O Joaquim até dormiu no meu colo de tanto que falavam.
A cidade havia se tornado um palco de acontecimentos estranhos depois da minha partida. A primeira foi a separação da minha irmã com Afonso, algo tão intenso que até a polícia apareceu na casa depois de muita gritaria.
A situação que já não era boa, piorou ainda mais com o falecimento de José. A bebida finalmente havia vencido o velho.
O pior veio depois, com o sumiço estranho de Afonso, que gerou muita fofoca na cidade. O corpo dele foi encontrado em um estado severo de decomposição dias depois jogado em um desfiladeiro. Um grupo de viajantes o encontrou ao iniciar uma trilha no local. A polícia nunca de fato chegou a uma conclusão da sua morte; o que se tem são boatos, que envolvem roubo e disputas no garimpo. Aquilo era comum naquelas bandas. Os garimpeiros tinham poder absoluto. Tinham dinheiro suficiente para silenciar autoridades e também impor medo na população.
Apesar de odiar de coração aquela gente, nunca desejei nada de ruim para eles, até mesmo Afonso. No final, Andréia ficou sozinha, uma coisa que não desejava para ninguém, pois havia ficado por um tempo assim.
Estava agradecido pela vida que tinha ao lado de Joaquim que era um ótimo marido. A gente se entendia bem. Às vezes brigávamos por motivos fúteis como toalha fora do lugar, mas logo estávamos de chamego. Ele era minha família e o amor da minha vida.
Fim.