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Ma Petite Princesse - 3a Temporada - XIII

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Um conto erótico de Ana_Escritora
Categoria: Heterossexual
Contém 14727 palavras
Data: 26/07/2026 13:01:15

Sinopse:

O desespero diante de uma nota abaixo da exigida deixa Nívea fora de controle, agindo impulsivamente o que terá consequências sérias.

***

Haviaque formava uma nota nove.

Fiquei alheia à toda euforia e falatório turma que comemorava as notas. Eu só conseguia olhar aquele zero. Eu tentava puxar o ar mas ele não chegava aos meus pulmões. Não tinha uma parte do meu corpo que não estremecia de desespero. Minha garganta fechou, meu coração pulava querendo sair do meu peito e meus olhos não conseguiram desviar daquele número que estava depois do ponto e do nove.

Todas as minhas chances de ser aceita na universidade de Lyon foram eliminadas. Aquela nota nove iria me perseguir para sempre. Era o meu boletim e histórico escolar que estavam arranhados naquele momento. Um simples nove ponto cinco me levaria a uma continuação de excelentes notas. Mas a nota mínima para aprovação não estava lá.

Tudo isso formou-se em forma de furacão na minha cabeça em questão de segundos, terminando em lágrimas que começaram a rolar pelo meu rosto, molhando a primeira folha em que constava o meu destino universitário, encerrado por antecipação.

- Nívea... – ouvi a Gabriele chamando pelo meu nome, me trazendo de volta ao presente, me tirando de um futuro que não existia mais pra mim... - Ah, meu Deus... Não!

- Eu estudei, Gabi! – afirmei desesperada ainda em lágrimas que não paravam de cair – Eu estudei tudo! Tudo!

- Eu sei que sim, amiga – ela me puxou para um abraço apertado onde eu repousei o meu rosto no seu ombro – Eu sei! – Sua mão acariciou minhas costas, na tentativa de me confortar. – Pelo amor de Deus, tenta ficar calma!

Àquela altura, somente meu choro e soluçar que eram ouvidos em sala de aula. Os alunos imediatamente permaneceram em absoluto silêncio.

- Calma! – Frederik levantou-se da sua mesa e pegou a minha prova –Vamos ver o que você errou!

- Eu não quero saber! – continuei a chorar no ombro da minha amiga – Não quero!

- Frederik, não fala nada! Deixa quieto! – ela pediu ao nosso amigo e virou-se para o Eric – Professor, por favor, dá uma segunda chamada pra ela! A Nívea não merece ficar com essa nota! Ela é a nossa melhor aluna!

Igual aos alunos, percebi o silêncio vindo dele. O que foi bom, porque o que estava crescendo dentro de mim em relação a ele não era bom, nada bom.

- Nívea, olha pra mim! – as mãos do Frederik apertaram de leve os meus ombros, me afastando devagar do abraço da Gabriele – Olha! – virei meu rosto molhado, soluçando e o encarei – A gente vai dar um jeito, beleza? – afirmou, limpando meu rosto – Vai dar tudo certo! Eu e você vamos conversar com a Dona Jacqueline e ver se dá pra fazer alguma coisa, entendeu?

- Senhor Bertrand, volte para o seu lugar! – ainda olhando o Frederik, ouvir a voz dele fez o meu sangue ferver – Senhorita Martin...

Ódio.

Era o que crescia dentro de mim e veio à tona quando ele me chamou pelo sobrenome. Meu rosto travou quando o encarei novamente e todos os poros da minha pele esquentaram com sua aproximação. Minha respiração acelerou e me levantei da minha mesa de forma inesperada.

- Eu não quero ouvir a sua voz... – falei em pausas, o que o deixou surpreso pela forma como eu agi – Eu não quero falar nada com você!

Eric manteve-se firme.

- Você vai me ouvir sim porque eu estou mandando! – falou sério com a autoridade que possuía – Sente-se! – ordenou.

- E eu já disse que não vou ouvir! – minha voz se alterou e arrastei minha cadeira para trás, saindo da minha mesa, ficando em pé ao lado dela, pegando aquelas folhas, amassando com as minhas mãos – Não quero ouvir, não quero falar, não quero saber de nada vindo de você!

E fiz o que uma boa aluna jamais faria.

Joguei as folhas em sua direção, atingindo o peitoral, com todo o ódio que me consumia dos pés à cabeça.

Eric fechou ligeiramente o olhar por trás dos óculos ao sentir o simples golpe, observando-as caírem no chão e voltou a me encarar. O olhar sério e o rosto travado. Ali, eu e ele não éramos mais professor e aluna. O que ele ordenou a seguir finalizou o meu dia da pior forma:

- Arrume o seu material e encaminhe-se agora para a diretoria.

Foi quando o sinal finalmente tocou e podíamos ver e ouvir toda a movimentação da saída das outras turmas. Além da jovem inspetora que estava no corredor e presenciou toda a cena.

- Hã? – Gabriele perguntou com a voz histérica – Diretoria??? É sério isso???

- Espera aí professor, não é pra tanto! – Frederik saiu em minha defesa – Você não viu que a Nívea ficou desesperada com a nota que tirou??

- Você ouviu, senhorita Martin... – ele ignorou os meus amigos, continuando a me encarar – Vá agora para a diretoria. É uma ordem.

A inspetora entrou na sala e parou ao meu lado, esperando por mim.

- Tá tudo bem, Frederik. – engoli em seco, deixando cair uma lágrima.

- Eu vou com você!

- A ordem é apenas para ela, Senhor Bertrand! Sente-se! Ou prefere tomar uma advertência?

- Pois eu tomo a advertência que for – ele se impôs ao meu lado – Eu não vou deixar a Nívea sozinha!

- Range tes affaires et suis-moi*. – foi a vez da inspetora dar a ordem.

Abaixei meu olhar e comecei a arrumar minhas coisas dentro da mochila, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha, me permitindo chorar novamente. Saímos os três da sala, a inspetora na frente e Frederik ao meu lado me confortando pelos ombros.

- Eu vou explicar exatamente como tudo aconteceu.

Quais seriam as chances de eu sair ilesa após enfrentar o Eric em sala de aula?

***

Tudo havia desmoronado...

Ao mesmo tempo em que as duas secretárias da Dona Jacqueline estavam concentradas nos seus trabalhos, eu sentia seus olhares na minha direção. Com toda a certeza, elas não acreditavam que eu estava ali na recepção, sentada no longo banco de madeira na cor escura, indo parar na diretoria por ter cometido um grave ato de indisciplina. Nívea Caroline Toledo Martin, a aluna exemplar, dona das melhores notas do Lycee Saint Vincent, prestes a ser chamada para conversar com a diretora. A aluna que era um exemplo a ser seguido.

Frederik continuou ao meu lado, segurando a minha mão enquanto eu esperava ser chamada.

- Não precisa ficar com medo, Nívea. Eu vou entrar junto com você.

- Eu vou falar a verdade, Frederik.

- Eu sei, mas vamos explicar de um jeito que a Dona Jacqueline entenda e não te dê nenhuma punição.

Ouvimos a porta da diretoria se abrir e vimos a inspetora sair.

- Nívea Caroline Toledo Martin ? – ela veio na minha direção – La proviseure t'attend. Entre.**

Nossas mochilas ficaram no banco de madeira e seguimos para a diretoria. Ao entrarmos na sala, Dona Jacqueline estava em pé, entre a sua mesa e a poltrona de couro preta, e a expressão incrédula em seu rosto foi o que eu já esperava encontrar.

- Sente-se. – ela ordenou e sentei-me de frente para ela e Frederik fez o mesmo na cadeira ao lado. – Quando a inspetora Josephine entrou na minha sala e relatou tudo o que aconteceu, precisei de alguns minutos para processar.

Apenas comprimi meus lábios para não chorar mais e os olhos do Frederik voltaram-se para mim.

- Dona Jacqueline, eu posso explicar tudo!

- Eu quero ouvir dela, Frederik – ela elevou o tom de voz, sentando-se em sua poltrona – Foi isso mesmo, Nívea? Você desrespeitou o Professor Eric Schneider em sala de aula?

- Foi sim. – abaixei o olhar confirmando.

- Mas ela não fez por maldade! – Frederik tomou a palavra – Ela ficou muito, muito nervosa com a nota que tirou. Ficou abaixo da média e começou a chorar sem parar. Foi isso!

- O que não justifica este desrespeito! Além do nosso currículo de excelência de matérias a serem ensinadas, o Lyceé Saint Vincent sempre foi conhecido por ser uma instituição de ensino séria e focada desde as anos iniciais dos alunos a ensiná-los sobre disciplina e respeito.

Foi inútil segurar as lágrimas.

- Jogar uma prova em cima de um professor como forma de agressão é algo muito grave, Nívea! Acredito que você não saiba a punição que um aluno recebe, sabe?

- Não – eu secava o meu rosto – Eu não sei.

- Três dias de suspensão! Caso haja contato físico e dependendo do teor do contato é algo passível de expulsão!

Gelei dos pés à cabeça.

- Não teve contato físico, diretora! Eu apenas joguei a prova na direção dele.

- Sim, sim. – Frederik afirmou desesperado – A Nívea não encostou no professor!

- Eu sei. Tudo o que vocês estão me relatando, a inspetora confirmou. O que não diminui a gravidade do que aconteceu.

- Dona Jacqueline, por favor. Alivia essa pra Nívea – o meu amigo pediu – A pressão das provas, estamos no último ano...

A diretora me observou seriamente como se estivesse avaliando toda aquela situação. Foram os poucos segundos mais angustiantes da minha vida. Ela respirou fundo e voltou seu olhar para o computador em sua mesa. Deu alguns cliques e, após parar em alguma página específica, pude ver o nervosismo amenizar e um pequeno sorriso em seu rosto.

- Estou diante do seu boletim deste bimestre. Todas as notas foram devidamente lançadas.

- E o que aconteceu? – perguntei com um fiapo de voz travada pelo choro.

- Sua única nota abaixo da média foi de fato em literatura francesa.

- O quê??

- É sério?? – Frederik sorria sem acreditar.

- Exato. E isso inclui três notas máximas.

- E quais foram as disciplinas? – meu coração acelerou de imediato.

- Você tirou nota dez em matemática, biologia e física.

- Fisica??

A disciplina que foi a responsável por me dar uma crise de ansiedade a qual eu não desejava para ninguém.

- Isso mesmo. – a diretora me disse, sorrindo fechado.

Tudo que estava em escombros na minha vida, começou aos poucos tomar forma novamente e eu não sabia explicar o que sentia naquele momento. Talvez alívio, talvez alegria... Porém, jamais seria totalmente genuíno pois o meu boletim ficaria manchado para sempre com aquela nota.

- Eu não posso fazer uma segunda chamada em literatura? – questionei.

- Infelizmente não adotamos essa política no Saint Vincent. Vocês estudam aqui em tempo integral o que julgamos ser suficiente para que todo o conteúdo das disciplinas seja aplicado nas provas e que elas tenham um bom rendimento por parte dos alunos. Algo que alcançamos todos os anos.

- Entendi...

- Mas, Nívea – Frederik virou meu rosto na sua direção e nos olhamos nos olhos – Você não ouviu? Se saiu bem nas provas, em todas elas.

- Quase todas, Frederik – falei triste e ele, com o rosto sério, engoliu em seco

- Pois muito bem – Dona Jacqueline respirou fundo – Prestem atenção.

Nos voltamos para ela ao mesmo tempo, atentos ao que estava prestes a dizer.

- Nívea, com exceção do que aconteceu neste bimestre em literatura, suas notas até agora foram excelentes como sempre. E é por causa delas e do seu histórico impecável de bom comportamento, que vou isentar você de uma suspensão de três dias que começaria a ser contada após as férias na primeira semana de aula.

- É mesmo? – um sorriso surgiu e senti a mão do Frederik apertar a minha.

- Deu tudo certo, Nívea. – o brilho nos seus olhos eram inegáveis - Muito obrigado, Dona Jacqueline. Eu sabia que a senhora iria entender.

- Com a condição de que isso não aconteça novamente!

- Não vai. – eu prometi – Nunca mais vai acontecer.

- Não mesmo! – Frederik prometeu junto comigo.

- No entanto, tem uma coisa que eu não posso aliviar – ela recostou-se em sua poltrona preta de couro voltando a ter uma expressão séria em seu rosto.

- O quê? – perguntei.

- Eu terei que telefonar para os seus pais e pedir para que venham ao colégio.

Os escombros mais uma vez saíram de forma.

- Por favor Dona Jacqueline, meus pais não!

- Mas por quê? – Frederik perguntou – Isso não pode ficar entre nós três?

O olhar endurecido da diretora poderia ter transformado o meu amigo em pó.

- Devo entender isso como uma tentativa de querer me coagir, Frederik?

- Não, não! – ele se justificou rapidamente – Me desculpa, não quis ofender a senhora.

- Eu já estou fazendo muito que é passar por cima da regras disciplinares do colégio para manter limpa a ficha estudantil da Nívea. Mas eu terei sim que conversar com Jacques e Helena para contar o que aconteceu. E, por ora, é apenas isso – ela pegou o telefone fixo, discou um ramal e aguardou – Por favor, entre em contato com os pais da estudante Nívea Caroline, terceiro ano, turma 3 A... Sim, diga para que venham ao Saint Vincent... Obrigada. – ela orientou em português.

E desligou.

- Agora nos resta aguardar.

- Obrigada, Dona Jacqueline – agradeci – Por não me dar a suspensão.

- Eu repito, fiz isso pelo seu histórico. Se me dão licença – ela levantou-se - vou até a sala dos professores e falar com professor Schneider. Acho que ele ainda está no colégio. Frederik, se quiser, você está liberado.

- Eu vou ficar com a Nívea até os pais dela chegarem.

- Eu só queria um pouco de água... – pedi.

- Tem um pequeno filtro ao lado da janela, fique à vontade.

- Obrigada.

Vimos ela sair e eu pude respirar um pouco.

- Nívea... – ele novamente pegou na minha mão, me olhando nos olhos – Eu vou conversar com os seus pais.

- Se eu não viajar nas férias, você já sabe o motivo.

- Não! Eu vou pedir pra eles não te colocarem de castigo, tá bom?

- Eu só quero que o dia acabe logo...

- Foi muita arrogância do professor ter enviado você pra cá! – disse indignado – Não precisava ter feito isso.

Fiquei calada. Fui até o filtro, onde havia um suporte com copo descartável e me servi. Bebi como se fosse a única água gelada de um deserto. Pensar no Eric era o que eu menos queria naquele momento.

- Você vai ficar aqui? Eu vou na portaria falar com o Evandro. Ele, a Gabi e o Patrick com certeza estão nos esperando. Mas eu volto! Não vou te deixar sozinha.

- Tudo bem. Obrigada, Frederik. – sorri agradecendo – Obrigada, de verdade. Eu queria te pedir uma coisa.

- Pode pedir! O que você quiser.

- Eu queria ficar um pouco sozinha...

- Tem certeza? Eu te faço companhia.

- Se você quer conversar com os meus pais, pode esperar por eles lá fora.

- Tudo bem. – ele sorriu – Eles não devem demorar. Vou fazer isso, então.

E me deu um beijo no rosto.

- Pode me chamar pra qualquer coisa. Estou com o celular.

- Tá bom.

Seu olhar doce e o leve carinho que fez nos meus ombros foram um pequeno alento. Era triste saber que eu não poderia voltar no tempo, exatamente para o primeiro ano e enxergar o meu amigo com outros olhos.

Embora eu nunca tivesse tal hábito, a única coisa que eu poderia fazer era rezar e pedir a Deus e ao destino para que ambos colocassem no caminho dele uma garota que tivesse o privilégio de amá-lo e que ele correspondesse a esse amor.

Tudo o que ele faz por mim, que fizesse por ela.

- Foi algo lamentável, mas a conversa que tivemos foi uma orientação da minha parte e a Nívea me garantiu que isso não irá se repetir.

Dona Jacqueline terminara de contar para os meus pais o que eu havia feito em sala de aula. Relatou de forma tranquila sem nenhum de sinal de sermão em sua voz. No entanto, os olhares de decepção da minha mãe e de fúria do meu pai foram suficientes para que a minha vontade de chorar viesse à tona novamente.

Permaneci sentada na cadeira, agarrada à minha mochila e o Frederik estava em pé, atrás de mim com as mãos em meus ombros oferecendo apoio.

- O professor Schneider ainda está no colégio? – foi o que o meu pai limitou-se a perguntar à diretora.

- Ele já saiu, precisava chegar um pouco mais cedo na universidade.

- Entendo.

- Obrigada por não punir a nossa filha, Jacqueline.

- O bom comportamento dela desde sempre pesou na minha decisão e, por ela estar no terceiro ano, não seria agradável pois isso teria influência na negativa de alguma universidade. – ela explicou e meu pai apenas assentiu.

- Vamos para casa, Nívea! – o tom seco na voz dele gelou o meu estômago.

Levantei-me da cadeira e pus minha mochila nas costas. Frederik continuou ao meu lado e seguimos na frente rumo à saída. Meus pais estavam bem atrás de nós.

Na portaria, o vento gelado cortou o meu rosto e me arrepiou dos pés à cabeça. Não havia mais quase ninguém, nenhum aluno naquele horário. No momento em que nos viram sair, Evandro, Patrick e Gabriele vieram até nós. A preocupação em seus rostos era nítida junto de uma sensação de alívio.

- E aí? – Gabriele foi a primeira a querer saber – Vai acontecer alguma coisa?

Apenas neguei com a cabeça.

- Nívea não sofreu nenhuma advertência ou punição – minha mãe explicou – Nós três vamos conversar em casa.

- Ah, que bom! Então deu tudo certo. Ou talvez quase. – minha amiga deu um meio sorriso.

- Foi por pouco hein, Nívea – Patrick brincou.

- O senhor Bertrand e a Dona Raquel já estão cientes do que houve – Evandro disse com o seu celular ainda em mãos e seu olhar na minha direção indicava algo além de tudo o que aconteceu – Precisei dizer que ficaria aqui e eles concordaram de imediato.

- Obrigada, Evandro.

- É apenas parte do meu trabalho, Helena.

- Eu posso acompanhar a Nívea até em casa? – Frederik pediu.

- Você já fez muito em ficar ao lado dela todo esse tempo – enfim, eu vi o meu pai sorrir – Não vou nunca mais esquecer disso. Mas agora vamos resolver em família.

- Tudo bem. - e ele virou-se para mim – Qualquer coisa, você pode me ligar!

- Tá bom.

Recebi um abraço de cada um dos meus amigos e apenas um carinho no ombro por parte do Evandro. Entramos no carro e após meu pai dar a partida, fazer a manobra e seguir ladeira abaixo eu tive a infeliz ideia de quebrar o silêncio.

- Papa...

- Nívea, eu não quero ouvir a sua voz.

- Vamos conversar em casa, filha.

E o silêncio voltou a ser o dono daquele momento de um dos piores dias da minha vida, durante toda a volta para casa.

A temperatura na sala de estar estava normal mas o frio, que até então não me incomodou em sala de aula, não era. O clima nublado talvez fosse o motivo.

- Eu vou para o meu quarto... – segui para o corredor.

- Você não vai à lugar algum! – paralisei ao ouvir a voz do meu pai elevada pela raiva – Sente-se já aqui! – me virei e o vi apontando para o sofá com o rosto.

Engoli em seco, fiz o que ele ordenou e colocou-se em pé na minha frente, ficando separado apenas pela mesa de centro.

- Cheguei à conclusão de que eu e sua mãe fomos feitos de imbecis durante todos esses anos.

- O quê?

- Exatamente isso! Porque eu estou aqui diante de uma baderneira inconsequente! E não a filha a qual eu pensei que fosse uma princesa!

- Pai, não é isso... – as lágrimas voltaram a cair sem que eu sentisse.

- Jacques, calma! – minha mãe ficou ao lado dele e o amparou pelo braço – Cuidado com o que você vai falar!

- Cuidado???? – a raiva era evidente nele – Ela age feito uma delinquente que vai parar na diretoria e quer que eu tenha cuidado??? Quando ela completar dezoito anos, eu e você vamos parar aonde? Em uma delegacia?

- Nossa filha não é nenhuma delinquente, pelo amor de Deus!

- Pois agiu como se fosse!

- Nívea, você sabe bem o que fez? – minha mãe me fez colocar os pés no chão - Desrespeitou um professor em sala de aula!

- E não foi qualquer professor! Foi o professor Schneider! Uma pessoa que frequenta a nossa casa, tornou-se amigo da família!

- Eu fiquei desesperada com a minha nota, por isso eu fiz aquilo! Por favor, me perdoem!

- Filha – ela veio até mim e sentou-se do meu lado – Eu e o seu pai conversamos com você por inúmeras vezes sobre isso, que iria se sair bem durante as provas e foi o que aconteceu.

- Mãe, mas eu tirei um nove!

- E por acaso, isso seria motivo de decepção para nós dois? Realmente você pensou isso?

Apenas abaixei a cabeça e limpei as minhas lágrimas.

- Mas é óbvio que ela não pensou! – meu pai continuava a esbravejar - A única coisa que pensou foi em nos envergonhar a ponto de sermos chamados na escola.

- Non, papa ! – neguei chorando - Isso não é verdade! Eu nunca quis isso!

Minha mãe continuava a me olhar com tristeza mas eu também pude enxergar um pouco de pena.

- O nosso erro foi nos tornarmos permissivos demais com ela, Helena! Teve de tudo e é assim que ela retribui! Chegar ao ponto de quase tomar uma suspensão por mau comportamento! O orgulho que eu sentia por ter uma filha como você tornou-se decepção!

Eu não sabia mais o que dizer, o que pensar. Em questão de pouco tempo eu havia decepcionado os meus pais por agir impulsivamente, diante de uma nota considerada ruim para os padrões exigidos pelo Lycee Saint Vincent.

Receber uma suspensão ou ser o alvo dos olhos furiosos do meu pai? Sinceramente, eu não sabia o que era pior.

Minha mãe me abraçou mas não o suficiente para amenizar o frio que eu sentia. Senti apenas conforto e segurança naquele gesto. Ainda assim tudo estava longe de terminar de forma tranquila.

- Helena, por acaso você tem o contato do professor Schneider?

- Devo ter no meu celular. – ela pegou sua bolsa e buscou pelo seu aparelho. Deslizou o dedo na tela e buscou pelos contatos, entregando ao meu pai.

Ele tirou o próprio celular do bolso e saiu da sala caminhando lentamente, com dois aparelhos em mãos olhando com atenção para eles.

- O que vai fazer, papa?

- Fica quieta pois você não está em condições de perguntar nada! – disparou enquanto caminhava pelo corredor dos quartos.

- O que você fez foi muito grave, filha – minha mãe falou baixo e secava as minhas lágrimas – Correu o risco de ser expulsa!

- Eu sei... – minha garganta estava seca – Mas eu senti muita raiva dele naquela hora.

- A culpa não foi do seu professor...

Pra mim foi culpa dele, sim!

Continuamos abraçadas e após alguns minutos ouvi os passos do sapato social do meu pai aproximar-se e parar atrás do sofá que ficava de frente para a TV.

- Consegui falar com o seu professor. – ele manteve-se sério, devolvendo o celular da minha mãe – E vamos consertar todo esse estrago. Vai ser apenas o tempo de você tomar um banho e trocar de roupa. Vamos hoje mesmo na universidade. Você deve um pedido de desculpas a ele.

Custei a acreditar no que estava ouvindo.

- Não! - Fiquei de pé, sentindo o meu corpo estremecer – Eu não vou fazer isso!

- Nívea... – minha mãe me pegou pela mão.

- É isso ou a sua viagem de férias está cancelada! – sua voz voltou a se alterar e ele ergueu o seu celular na altura do rosto – Embora já seja tarde da noite em Lyon, basta um telefonema agora para o seu tio!

- Filha, obedece o seu pai!

Respirei fundo e pensei em tudo o que poderia acontecer. Não era apenas sobre o castigo. Pensei na minha família em Lyon que viajaria para a Itália em comemoração à formatura do meu primo. Pensei na minha melhor amiga que há meses estava ansiosa por essa viagem. E em especial nos meus amigos os quais estariam juntos de mim por uma semana em Paris.

- Por uma simples curiosidade, perguntei ao professor Schneider quais foram as questões que você errou e ele me contou.

- Pai, por favor, eu não quero saber! – lembrar daquela nota escrita na prova fez com que eu me sentisse pior do que eu já estava.

- Ele não vai falar nada, filha – minha mãe levantou-se do sofá e ficou ao lado dele – Vamos esperar por você para irmos conversar com o seu professor.

Peguei a minha mochila e segui para o meu quarto, me livrando do meu uniforme. Não sei dizer quanto tempo fiquei debaixo da água fria, mas foi o bastante para não surtar ainda mais.

Saí do banho, enrolada na toalha, com o meu corpo inteiro estremecendo e não conseguia controlar o bater de dentes. Me sequei e troquei de roupa com dificuldade, colocando uma calça jeans escura, blusa de mangas longas e um moleton, os dois na cor cinza. Calcei um par de tênis e mal conseguia pentear os cabelos.

Cheguei na sala e meus pais estavam à minha espera. Ao me olhar novamente, minha mãe aproximou-se de mim e tocou no meu pescoço e no rosto.

- Eu sabia...

- O que houve? – meu pai questionou.

- Quando eu te abracei, senti você um pouco quente e agora tenho certeza. Está com febre emocional.

Ele ficou calado.

- Tá tudo bem, mãe. Vamos logo. – pedi.

- Tem certeza? Podemos ir amanhã.

- Eu entro em contato com o professor Schneider novamente e marcamos outro dia da semana.

- Se for pra resolver, vamos hoje. – insisti.

E que eu tivesse controle suficiente para não esmurrar o Eric depois de ele ter acabado com a minha vida universitária.

Chegar no pátio daquele campus universitário fez com que um sentimento me dominasse por completo: a tristeza.

Como se eu não estivesse mais triste por tudo que acontecera naquele dia, observar aquele ambiente com jovens um pouco mais velhos que eu, sentados em grupos, caminhando a passos rápidos, conversando e rindo, me fez sentir ainda pior.

Talvez eu nunca viveria aquilo no próximo ano quando estivesse com dezoito anos. Me perdi nos meus pensamentos por não sei quantos minutos. Foi quando eu senti a mão da minha mãe no meu ombro e me virei para ela e o meu pai.

- Confirmei na recepção e o professor Schneider está no quarto andar do pavilhão de ciências humanas. Sala 402. – meu pai disse.

- Não vai demorar nada, filha – minha mãe acariciou o meu rosto – Mas é justo que você se desculpe com ele.

Achei melhor ficar quieta. Só queria que aquilo tudo terminasse.

Seguimos os três até o prédio e cada passo era uma espécie de caminho para uma sala de tortura. Estava tudo bastante tranquilo, uma movimentação até normal. Ao chegar no andar que meu pai havia falado, meu coração começou a disparar feito louco. Era medo, angústia, raiva... Tudo misturado em meio ao meu corpo quente devido à febre.

Minha mãe segurou na minha mão e ao chegarmos na porta, ela estava aberta e eu travei totalmente ao vê-lo. Eric estava em pé na sua mesa e no instante em que nos viu, seu rosto endureceu. Não era raiva e sim, espanto. Luciana estava de costas para nós e virou-se quase que ao mesmo tempo. A sua turma estava em total silêncio concentrada em uma prova.

Ele não disse nada e apenas veio ao nosso encontro, fechando a porta da sala atrás de si mesmo. Nossos olhares se cruzaram e a raiva de poucas horas atrás ainda estava dentro de mim.

- Não precisavam ter vindo... – ele quebrou o silêncio daquele momento constrangedor.

- De modo algum isso poderia passar em branco, professeur – meu pai afirmou – O que a Nívea fez com você foi inadmissível.

- Era o mínimo que podíamos fazer – minha mãe completou e apertou a minha mão.

O olhar do Eric sobre mim estava carregado de culpa, no fundo eu sentia que era isso. E também preocupação. Aquilo precisava acabar de uma vez por todas.

- Eu... Eu queria te pedir desculpas pelo que aconteceu, professor... – engoli em seco – Não foi certo o que eu fiz... Eu te desrespeitei e danifiquei a prova.

O que mais eu poderia dizer? Foi o pedido de desculpas mais óbvio.

- Não se preocupe, senhorita Martin... Eu também sinto muito por ter feito o que eu fiz.

- Você fez o correto, professor – minha mãe disse – Em sala de aula, a Nívea é sua aluna.

- Eu e Helena lamentamos muito por tudo isso que aconteceu, de verdade. Estamos profundamente envergonhados.

- Tenho certeza de que tudo vai ficar bem.

- Eu espero que isso não afete a bonita amizade que surgiu entre você e a nossa família – ele continuou - Quero muito que continue frequentando a nossa casa.

- Não vai afetar. De modo algum.

Foi quando o meu pai novamente virou-se pra mim.

- Espero que nunca mais eu e sua mãe tenhamos que passar por isso novamente! Você entendeu, Nívea Caroline?

Apenas assenti com a cabeça.

- Eu poderia muito bem ter cancelado sua viagem de férias mas não o fiz por duas razões. Pela Melissa que é sua amiga, se dedicou e muito por se sair bem nas provas e principalmente pelo Frederik que praticamente implorou para que eu não a castigasse assim que o encontramos na porta do Saint Vincent. É por ele que eu estou fazendo isso!

- Eu já entendi, papa ! Por favor, eu quero ir pra casa...

- Vamos sim, filha – minha mãe pousou a mão no meu pescoço e na minha testa – Ela está ardendo em febre, Jacques.

Eric continuou a me encarar e seus olhos se transformaram em desespero porque sabia não poderia fazer nada. Ali ele era um professor universitário e não o homem que vivia um romance com sua aluna do ensino médio.

- Vocês não querem levá-la até a enfermaria? – ele sugeriu – Pode ser alguma coisa grave.

- É apenas uma febre de fundo emocional – minha mãe esclareceu – No ano passado aconteceu a mesma coisa. Não é nada grave.

- Não vamos mais tomar o seu tempo, professor. Percebi que está aplicando prova para os seus alunos. – meu pai, felizmente, estava terminando tudo aquilo – Mais uma vez, lamentamos muito – e lhe estendeu a mão.

Eric apenas retribuiu o gesto, o cumprimentando porém seus olhos não desviaram de mim. Ficou preocupado comigo ao ouvir sobre a minha febre. Ele deveria se preocupar era com a minha vida universitária que foi encerrada antes mesmo de começar, isso sim.

Minha mãe se despediu dele e de mim ele recebera apenas uma despedida seca:

- Até a volta às aulas, professor.

Ele entendeu perfeitamente o que eu quis dizer. E não disse nada.

Na cobertura da família Bertrand, Simon e Denise mostravam-se bastante preocupados com o que aconteceu com a jovem que em, seus sonhos, poderia ser a namorada perfeita para o único filho do bem-sucedido casal. Principalmente após Simon entrar em contato com Jacques e ele então, explicar o que havia acontecido no fim daquele dia. E isso deixou Frederik mais indignado do que já estava.

- Eles não precisavam ter feito isso! A Nívea ir se desculpar com o professor?

- Meu filho, eles fizeram o certo – a mãe ponderou – O fato do professor de vocês ter se tornado amigo das nossas famílias não dá o direito de ele ser desrespeitado.

- Sua mãe está certa, Frederik. Mas por outro lado, eu posso entender a Nívea pelo menos em partes. E o que ela mais precisa neste momento é do seu apoio.

- Ela ficou desesperada – o representante de turma travou o rosto, caminhando pela sala – E não merecia ter sido punida.

- Tente falar com ela amanhã. Ou quem sabe faça uma visita à ela antes de vocês viajarem.

Frederik ficou pensativo por uns instantes e sorriu quando uma ideia lhe veio à mente.

- Acho que já sei o que eu vou fazer. E vou precisar da ajuda de vocês.

- Conte sempre com a gente. – Denise aproximou-se e lhe deu um beijo no rosto – Tudo o que diz respeito a você e a Nívea, terá o nosso apoio incondicional. – e piscou para o filho – Agora com licença, vou tomar um banho para o jantar.

Denise seguiu o longo corredor até o seu quarto e com tranquilidade se despiu das roupas do trabalho, deixando-as na cama. Mais um dia cansativo na editora, porém bastante produtivo. Duas autoras fecharam contrato para a publicação de seus primeiros livros cujo gênero era a literatura erótica. Apesar de polêmico, o tema crescia entre o público leitor.

No momento em que estava apenas de roupas íntimas, tomou um susto ao ver o marido na porta do quarto.

- Simon! – ela levou a mão até o colo.

- Está tão distraída assim a ponto de se assustar? – ele questionou, aproximando-se.

- Sim... Quero dizer, mais ou menos...

- Pensando em trabalho como sempre.

- Você sabe que eu não penso em outra coisa.

- Pois deveria, você sabe disso – e suas mãos ligeiras a puxaram pela cintura – Posso contar nos dedos quantas vezes eu, você e o Frederik jantamos juntos durante a semana.

Nojo. Era o que diretoria editorial sentia quando o próprio marido a tocava. Principalmente por causa do perfume barato da amante que estava impregnado em sua blusa social. Entretanto, ela não podia demonstrar aversão ou algo parecido.

- Sabemos bem que nosso filho não se importa com isso.

- Mas eu me importo, Denise! – seus dedos apertaram a cintura como forma de se impor – Isso não é sobre o jantar em família, é sobre tudo!

Como ele pode ser tão cínico?, ela pensava enquanto o observava.

- Eu estou aqui hoje, não estou? – Suas mãos envolveram o pescoço.

- E amanhã? E depois?

- Simon, você sempre soube que a Literação é a minha vida. Se eu trabalho até tarde da noite é para proporcionar o melhor para o meu filho.

- Nosso filho! – ele a corrigiu.

- Claro. Nosso filho.

A decisão de colocar um ponto final no casamento por parte da empresária do ramo literário não tinha mais volta. Era apenas o tempo de Frederik chegar à maioridade e amadurecer o bastante para que ele não ficasse abalado com o divórcio dos pais.

Queria que tudo aquilo fosse resolvido de forma tranquila. Caso o filho fosse estudar fora do país, as coisas seriam mais fáceis.

- Por que não vem para o banho comigo? – ela o chamou lhe dando um selinho – Nós dois precisamos relaxar.

Simon ficou surpreendido e animado com o convite, esboçando um sorriso. Afrouxou e tirou sua gravata e ela o ajudou desabotoando a blusa.

- Eu vou na frente – ele a beijou apertado – vou ligar e encher a hidro.

- Vou daqui a pouco.

Observou o marido entrar na suíte e ao ouvir a movimentação junto do ruído da água caindo na banheira, limpou com força os próprios lábios segurando a vontade de gritar na tentativa de se livrar daquele casamento que em seu coração não existia mais. Sua vingança seria clássica: transar com um homem, pensando em outro.

A repulsa que sentiria ao ser tocada pelo marido não teria volta porém, ter o seu sócio e amante em seus pensamentos funcionaria como alento.

O quarto estava iluminado apenas pela luz amarela do abajur...

Sentada na cama, usando um pijama bem quente, preparada para dormir, eu estava com o meu celular em mãos, olhando para a tela e sem coragem para visualizar as notificações do WhatsApp. Se tivesse alguma mensagem dele eu não sei se iria responder. Olhei para a poltrona e vi a boneca de porcelana que havia colocado. Não iria dormir ao lado daquele presente, por mais bonito que fosse.

Respirei fundo e continuei a olhar a tela cuja foto do papel de parede estava eu com os meus pais durante um passeio em Lyon.

Não tinha outro jeito. Eu teria que enfrentar aquilo mais cedo ou mais tarde. Desbloqueei a tela e fui direto nas mensagens. Frederik, Melissa e Nicole. Ele, uma mensagem por escrito. Elas, áudios.

E nenhuma do Eric.

Um misto de sentimentos me dominou. Fiquei aliviada por não precisar respondê-lo ao mesmo tempo incomodada. Ele não estava nem aí pra mim?

“Oi Nívea, tá tudo bem?”

Era a mensagem do Frederik.

Estou com febre e ainda triste pelo que aconteceu...

Não demorou muito e veio a resposta dele:

Eu sinto mesmo, de verdade. Mas eu não vou ficar te enchendo muito o saco, vc deve tá cansada e eu só queria notícias suas. A gente pode tentar fazer alguma coisa antes de viajar.

Pode ser.

Então tá bom, boa noite e descansa tá?

Obrigada Frederik, vc é um amigo muito especial.

Vc tbm é.

Trocamos emojis carinhosos e encerramos a conversa.

O áudio da Nicole era curto. Com certeza ela havia me enviado também para saber notícias minhas.

▶️ Oi Nívea, como você está?

Ainda triste.

▶️Imagino. Eu fiquei em choque com a sua reação na sala de aula. Nunca pensei que você iria enfrentar o professor Schneider daquele jeito.

Eu fiquei com muita raiva na hora. A minha ficha só começou a cair quando a inspetora entrou na sala e me levou pra diretoria.

▶️O Frederik enviou uma mensagem no grupo da turma e tranquilizou todo mundo dizendo que você não foi punida. Mas teve que pedir desculpas ao professor.

Se eu não fosse, meu pai cancelaria a minha viagem de férias.

Que merda, hein! Mas o bom mesmo é que a Dona Jacqueline não te puniu.

Sim.

Qdo vc viaja?

De manhã cedo, no próximo sábado.

Posso ir te visitar na 6ª? 13h fica bom? Ou seu pai proibiu vc de receber visitas?

Sorri ao ler a mensagem. Nicole era um amor de menina.

Pode sim. Podemos pedir comida e almoçamos juntas. Essa semana eu vou preparar algumas coisas pra viagem e vai ser bom pq eu me distraio um pouco.

Com certeza! Então tá bom. Já sabe: se eu não puder ir te aviso antes.

Tá bom. Mto obrigada, Nicole. Vou ficar t esperando.

Vc me ajudou demais e é o mínimo que eu posso fazer pra retribuir mas só te conto sobre as minhas notas qdo eu chegar aí kkkkkkk

Tá legal 😂

Boa noite, Nívea! Fica bem, vai dar tudo certo. Um beijão.

Foi bom conversar com dois amigos e deixá-los tranquilos. Me senti um pouco melhor por receber mensagens de apoio e carinho. Porém, paralisei ao ver o longo áudio enviado pela Melissa. Engoli em seco pois sabia que não era coisa boa.

▶️Oi, Ni. Eu e o Fê já sabemos de tudo o que aconteceu. O Eric enviou pra ele dois áudios, o primeiro sobre o que rolou na escola e outro agora quando você foi se desculpar com ele. Logo depois do primeiro eu fiquei de plantão na saída de emergência e ouvi você chegando com os seus pais. Fiquei roxa de curiosidade e escutei tudo pelo corredor. O outro áudio foi ele desesperado querendo saber de você, se você melhorou da febre.

Ele devia ficar desesperado por ter acabado com as minhas chances de ir pra alguma faculdade na Europa!😡

Vc acha que a culpa é dele?

Se ele me amasse de verdade, Meli, teria mudado a minha nota de nove para nove e meio!

Mas o que foi que vc errou pra ficar abaixo da média?

Eu não quis saber! Meu boletim vai ficar manchado pra sempre com essa nota e saber onde eu errei é o que menos importa agora.

Entendi. Ele t enviou alguma msg agora de noite? Vcs n vão nem conversar?

Parei e pensei ao ler aquela pergunta. Viajar sem resolver esse assunto seria um buraco aberto na nossa relação mas só de pensar no Eric, tudo o que eu sentia era raiva. Poderia mentir para a Melissa e dizer que só sairia de casa direto para o aeroporto mas eu não teria coragem de fazer isso com a minha amiga.

Não enviou e eu não sei se a gente vai conversar, Meli. Eu ainda to com muita raiva.

Tudo bem. Se vc mudar de ideia, vcs podem se encontrar em Ipanema pra conversarem, na 6ª à noite.

Na sexta, eu vou receber visita. É a Nicole, aquela minha amiga de turma que ajudei em biologia, vc quer almoçar com a gente?

Minhas provas acabam na quinta, vou sim!

Vc e ela ainda não se conhecem.

Show! Mas Ni, pensa bem. Conversa com o Eric, mesmo que seja só pra vc jogar toda sua raiva em cima dele kkkkkkkk

Eu não quero pensar nisso agora.

Tá bom. Qualquer coisa, se quiser conversar, me chama. Eu to em prova mas te retorno. Beijos.

Enviei outro emoji e nos despedimos. Olhei na tela do celular e passava das onze da noite. Mesmo sentindo raiva, eu não conseguia deixar de pensar no Eric e o quanto ele me prejudicou. Porém, esse devaneio do sentimento foi rapidamente interrompido por duas batidas na porta.

- Oi, meu amor! – era a minha mãe com o seu travesseiro em mãos, indo na direção da minha cama e ajeitá-lo na cabeceira – Hoje é a noite de mãe e filha dormirem juntinhas! – falou animada.

- Tá tudo bem, mãe.

- Não está, não! – ela aproximou-se de mim, colocando as mãos no meu pescoço e na testa – Ainda está quente. Você tomou o antitérmico?

- Tomei.

- Isso mesmo. E eu vou passar a noite com você, até essa febre ir embora.

- Você não tá com raiva de mim?

Ela suspirou e continuou a me olhar nos olhos.

- Eu te disse e repito: o que você fez foi muito grave. – ela afirmou e eu engoli em seco – Mas não é da forma como o seu pai reagiu que tudo se resolve.

- Ele ainda tá com raiva de mim, não é? – perguntei e senti as lágrimas voltarem sem conseguir segurá-las.

- Ei, meu anjinho – ela me abraçou apertado – Não pensa mais nisso, vem aqui – e me pegou pela mão onde nós duas, enfim, nos deitamos na cama para dormir – Eu vou conversar com ele.

- Ele não vai me perdoar – e continuei a chorar – Ele vai achar pra sempre que eu sou uma delinquente!

- Não vai, não – ficamos deitadas e abraçadas, no que ela começou a me encher de beijos no rosto – Ele apenas não esperava que a princesa da vida dele fosse parar na diretoria! Assim como eu não esperava.

- Eu tirei uma nota horrível, por isso eu reagi daquele jeito.

- Meu amor, escuta uma coisa – ela me pegou pelo queixo - aos meus olhos, você será sempre o meu anjo, a filha perfeita, mas nunca será um ser humano cem por cento perfeito. Você ainda é muito jovem, tem uma vida inteira pela frente. Acha mesmo que não vai cometer erros?

Apenas escutava com atenção o que ela dizia.

- Se lembra do campeonato infantil de natação que o Saint Vincent organizou e você participou quando estava no primeiro ano?

- Eu pensei que vocês não iriam me ver competir. Só a Judith.

- Achou mesmo que iríamos perder? E qual foi o resultado da prova?

- Eu ganhei a medalha de prata.

- Uhum. E lembra como eu e o seu pai decidimos comemorar com você?

- Fomos para o shopping e me encheram de presentes, um monte de roupas e brinquedos... Eu escolhi todas as bonecas que quis e vocês me deram... A Judith não sabia mais onde guardar tudo. – rimos juntas.

- Exatamente, meu amor. Ver você subindo ao pódio ao lado das duas outras alunas competidoras e receber a medalha me fez ir às lágrimas de tanta alegria e emoção.

- Vocês trabalham muito porém, sempre estiveram lá comigo nestes momentos – e a bonita lembrança virou aflição - Mas mãe, agora é diferente. Esse nove que eu tirei pode me prejudicar e muito.

- Filha, a questão aqui é que você não deve se desesperar por uma nota ruim. Ainda que o Saint Vincent exija uma média alta dos alunos do último ano, se você não atingir, está tudo bem!

Era difícil dizer se as palavras de força e conforto da minha mãe teriam algum resultado sobre mim. Aquele nove seria pra sempre um nove. Uma mancha, um tropeço, um erro... O que me levava a pensar de novo no Eric e sentir raiva. Uma raiva que custaria e muito a passar.

- Pensa com calma em tudo que eu te disse, minha vida – minha mãe pediu – Alunos perfeitos vão cometer erros porque, acima de tudo, são seres humanos.

Fiquei pensativa, tentando compreender as palavras da minha mãe.

- Vamos dormir? – ela esticou o braço e desligou o abajour, vindo me abraçar e me deu um beijo no rosto – Quero que você acorde amanhã sem febre.

- Vou tentar dormir – e sorri fechado.

- Só mais uma coisa que eu acabei de lembrar. Não tem a ver com o colégio.

- O que foi?

- Os seus exames de rotina com a Doutora Márcia. Você vai marcar a consulta?

Apenas suspirei.

- Eu prefiro marcar no final do ano, tem problema?

- Problema nenhum, meu amor. Eu nunca duvidei o quanto você é responsável com isso. – e manteve o abraço junto de mais uma beijo.

- Obrigada.

O que eu mais desejava naquele momento era ficar na cama para sempre...

Não queria começar aquele dia. Embora eu tivesse dormido bem a noite inteira ao lado do aconchego da minha mãe, eu ainda estava triste e sem rumo por tudo o que aconteceu no dia anterior.

Olhei para o lado e ao pegar o meu celular, a hora na tela marcava pouco mais das sete da manhã. Sem despertador, sem pular da cama no automático para começar mais um dia de aula. Minha mãe não estava deitada junto de mim. Respirei fundo por mais de uma vez e saí da cama, indo até a cortina para olhar o dia lá fora. O Sol aos poucos mostrava-se presente.

Ainda de pijama, deixei o meu quarto e seguindo pelo corredor em direção à mesa de jantar, pude sentir o aroma do café recém preparado e também o aroma inconfundível do que eu mais gostava de comer no café da manhã: pães de queijo.

- Bom dia... – cumprimentei os meus pais no instante que os vi sentados tomando café.

- Meu amor, bom dia! – ainda de pé e paralisada, ouvir a voz doce da minha mãe aqueceu meu coração em contraste com o olhar frio do meu pai sobre mim – Não precisava levantar tão cedo! Está oficialmente de férias.

- Não consegui mais dormir.

- Vem, senta aqui do meu lado – ela me chamou e sentei como ela pediu sem esboçar nenhuma reação, olhando o pequeno prato na minha frente – Os pães de queijo saíram agora do forno e estão esperando por você – Ela pegou a minha caneca e serviu com iogurte de coco, colocando ao lado do meu pequeno prato.

- Não sei se estou fome.

- Mas precisa comer! – sua mão pegou na minha e em seguida, colocou a outra na minha testa e pescoço, me olhando com atenção – Ainda está um pouco quente...

Peguei minha caneca e bebi devagar o meu iogurte favorito. Me servi com alguns pães de queijo e peguei duas torrada, colocando requeijão por cima delas.

Senti os olhos do meu pai em mim todo o tempo mas, não conseguia encará-lo de volta. Mordi a primeira torrada e mastigava devagar.

- O que vai fazer hoje? – ela perguntou em uma clara tentativa de quebrar aquela geleira que ergueu-se entre nós dois.

- Ainda não sei... A Melissa está em prova... Vou organizar algumas coisas para a viagem... Aliás...

- O que foi?

- A Nicole, ontem de noite, me enviou uma mensagem e queria vir me visitar na sexta-feira.

- Claro que ela pode vir!

- Combinamos de almoçar juntas aqui.

- Ótimo!

Continuei a tomar meu café e o silêncio angustiante à mesa voltou a dominar o início daquela manhã. Silêncio que durou poucos minutos.

- Nívea...

Ouvir o meu nome vindo da voz do meu pai quase me fez perder o pouco da fome que eu sentia. Foi quando enfim o encarei.

- Acho que precisamos conversar, não acha? – eu apenas engoli em seco.

- Precisam sim – minha mãe confirmou, dando um último gole em seu café e levantou-se da cadeira – Vou deixá-los a sós – E me beijou no rosto, indo para o seu quarto.

- Papa, o que eu fiz ontem foi muito grave... – iniciei a conversa olhando sem seus olhos.

- Foi sim.

- Se você for cancelar a minha viagem de férias, que seja...

- Não, eu não vou fazer isso. Eu fiz o certo em repreender você mas peguei pesado nas palavras que eu usei.

Continuei a observá-lo.

- Você não é e nunca será uma delinquente. – ele afirmou e não consegui segurar a primeira lágrima que deslizou pelo meu rosto. Meu coração acelerou junto do choro – Sempre foi o meu orgulho e da sua mãe.

- Eu sinto demais pelo que aconteceu – falei enxugando o meu rosto – Eu envergonhei vocês.

Ele apenas respirou fundo.

- Uma filha com o comportamento exemplar e não posso crucificar quando comete um erro por mais grave que ele seja. Neste ponto, a Jacqueline está correta por não ter punido você. E acredito que eu preciso seguir por este mesmo caminho por mais que isso tenha me entristecido.

- Então, você me perdoa?

Ele levantou-se da cadeira e veio até mim. Pegou na minha mão e fiz o mesmo que ele. Sentir o seu abraço e um beijo no topo dos meus cabelos aliviou a angústia no meu peito.

- É claro que eu te perdoo – continuamos abraçados – Mas eu peço que não faça mais isso.

- Não sei se vou conseguir – afirmei sentindo um nó na garganta e ele afastou-se de mim ao ouvir aquilo, erguendo o meu queixo de leve.

- Nívea, ficar abaixo da média não justifica desrespeitar um professor em sala de aula! A Jacqueline afirmou isso e estou de acordo. Além disso, foi apenas em uma disciplina que você cometeu esse deslize.

- E se eu errar de novo?

- Eu e sua mãe estaremos ao seu lado! Se você não for aceita em Lyon, na Sorbonne ou em qualquer outra universidade, não significa que você não é capaz!

Não existia a menor dúvida dentro de mim de que aquela fora a pior segunda-feira da minha vida. O que era uma ironia pois o primeiro dia da semana tornaram-se os melhores desde o primeiro ano do meu ensino médio. No entanto, o meu primeiro dia de férias começou com o meu coração sendo acalentado pelo perdão do meu pai.

Continuamos abraçados e sem que eu esperasse, senti o abraço da minha mãe e permanecemos os três juntos, grudados. Eram momentos iguais a esse que eu desejava que acontecessem diante das dificuldades ao longo da minha vida.

Jacques Martin fez o que deveria fazer por causa de algo grave da minha parte e reconheceu o exagero. O que me fez pensar em como ele reagiria ao descobrir o meu maior segredo. E que me fez pensar no Eric novamente.

Cuja raiva ainda orbitava dentro de mim.

Noite de terça-feira

Frederik criou o grupo “Surpresa pra Nívea”

Frederik adicionou Melissa

Frederik adicionou Gabi

Frederik adicionou Patrick

Frederik:

Galera, atenção aqui!

Patrick:

Opa! Fala aí

Melissa:

Oi o que houve?

Gabi:

??? Surpresa?

Frederik:

@Melissa que dia vc e a Nívea viajam?

Melissa:

No sábado de manhã, bem cedo. É sair de casa na madrugada, voo marcado pras 7 da manhã sem escalas pra Roma, graças a Deus. Pq ?

Frederik:

Beleza!

Frederik:

Eu quero fazer uma surpresa pra Nívea. Bora fechar vários lanches do mc donalds e ir pra casa dela na sexta, hora do almoço?

Patrick:

Bora!

Melissa:

Quero!

Gabi:

Eu cheguei em SP hoje de manhã, tô fazendo uns trabalhos de publi e volto pro RJ na 5ª feira de noite, pra mim fica de boa.

Melissa:

A Ní gosta bastante do mc!

Frederik:

A mc oferta favorita dela é o quarterão com queijo n é? Sem picles e ela sempre coloca bacon e a batata grande pagando a mais.

Melissa:

To com medo de vc 👀

Frederik:

Medo de mim pq?

Melissa:

Tu sabe em detalhes o que ela gosta na mc oferta dela

Patrick:

Pq será? 😎😎

Gabi:

Engraçado, na nossa época de namoro tu nunca quis saber qual lanche eu gostava!

Melissa:

Kkkkkkkkkkkkkkk

Frederik:

Tu vivia fazendo dieta! Por isso eu nem perguntava nada.

Gabi:

😒

Melissa:

Como vai ser? A gente vai rachar o valor total dos lanches?

Patrick:

@Frederik eu e vc dividimos.

Frederik:

Fechou! Que horas a gente vai no MC?

Melissa:

Combinei com a Nívea de almoçar com ela uma da tarde. E ela vai receber visita. Uma colega de turma de vcs!

Gabi:

Que colega?

Melissa:

O nome dela é Nicole.

Patrick:

Ah, a Nick. Legal.

Frederik:

Então a gente compra uma mc oferta pra ela tbm. @melissa tá confirmado mesmo esse horário de vcs almoçarem?

Melissa:

tá sim!

Frederik:

Certo. Agora me passem a mc oferta que vcs vão querer! Vou montar a lista pra não ficar perdendo tempo em fila, fazer os pedidos e pagar direto no auto atendimento.

Frederik:

Depois é só esperar e retirar no balcão.

Patrick:

👍

Frederik:

Nívea - Mc oferta do quarterão. Ela não é de beber refrigerante.

Melissa:

Não muito, coloca o suco delvalle pra ela.

Frederik:

Beleza.

Frederik:

Nívea – mc oferta quarterão sem picles + bacon + batata grande com delvalle

Patrick:

Coloca suco pra todo mundo pra não dar confusão!

Melissa:

Concordo!

Frederik:

Vai querer qual mc oferta, melissa?

Melissa:

Posso pedir com batata grande tbm? 😅

Frederik:

Pode, sim!

Melissa:

Então eu quero a mc oferta triplo burger com adc queijo e Bacon!

Frederik:

Nívea – mc oferta quarterão sem picles + bacon + batata grande com delvalle

Melissa – mc oferta triplo burger batata grande + queijo + bacon com delvalle

Frederik:

To copiando e colando aqui kkkkk

Melissa:

Kkkkkkk gente, pq não adc aqui a amiga de vcs?

Patrick:

Deixa surpresa pra elas duas! Pra não perder a graça.

Melissa:

Tá, então compra uma mc oferta pra ela tbm né?

Frederik:

Pra Nicole eu vou colocar mc oferta do Bic Mac batata grande.

Patrick:

Isso aí

Frederik:

Não sei qual ela gosta.

Melissa:

Vacilo a garota ficar de fora!

Frederik:

Nívea – mc oferta quarterão sem picles + bacon + batata grande com delvalle

Melissa – mc oferta triplo Burger batata grande + queijo + bacon com delvalle

Nicole – mc oferta big mac batata grande + delvalle

Frederik:

Qual a sua mc oferta @gabi?

Gabi:

Pensei que estivessem esquecido de mim...

Patrick:

🙄

Gabi:

Coloca mc oferta do cheddar batata grande tbm. Vou chutar o balde nessas férias mesmo e foda-se.

Gabi:

Quando a gente voltar, eu pego firme na dieta até o baile de formatura.

Frederik:

Vai adc alguma coisa?

Gabi:

Não.

Frederik:

Nívea – mc oferta quarterão sem picles + bacon + batata grande com delvalle

Melissa – mc oferta triplo Burger batata grande + queijo + bacon com delvalle

Nicole – mc oferta big mac batata grande + delvalle

Gabi – Mc oferta Cheddar mc melt batata grande + delvalle

Frederik – mc oferta mc fish batata grande + del valle

Patrick:

🤨🏳️‍🌈

Frederik:

🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣

Melissa:

O mais sem graça do cardápio.

Frederik:

É zoeira pô

Frederik:

Nívea – mc oferta quarterão sem picles + bacon + batata grande com delvalle

Melissa – mc oferta triplo Burger batata grande + queijo + bacon com delvalle

Nicole – mc oferta big mac batata grande + delvalle

Gabi – Mc oferta Cheddar mcmelt batata grande + delvalle

Frederik – Mc oferta McCrispy Chicken Deluxe batata grande + delvalle

Frederik:

Falta vc, Patrick!

Patrick:

Coloca pra mim o crispy chicken igual o seu.

Melissa:

Nunca experimentei esse. É bom?

Frederik:

É sim! Quer pra vc? Eu mudo aqui!

Melissa:

Não, deixa pra próxima!

Frederik:

Nívea – mc oferta quarterão sem picles + bacon + batata grande com delvalle

Melissa – mc oferta triplo Burger batata grande + queijo + bacon com delvalle

Nicole – mc oferta big mac batata grande + delvalle

Gabi – Mc oferta Cheddar mcmelt batata grande + delvalle

Frederik – Mc oferta McCrispy Chicken Deluxe batata grande + delvalle

Patrick – Mc oferta McCrispy Chicken Deluxe batata grande + delvalle

Frederik:

Todo mundo de acordo? Alguém vai mudar alguma coisa? Vou tirar print aqui.

Gabi:

Não. Pode fechar a lista.

Melissa:

Isso aí.

Patrick:

Pode printar.

Patrick:

Ô @frederik se as garotas combinaram uma da tarde o almoço.

Patrick:

A gente vai ter que chegar cedo lá no shopping pra comprar tudo.

Melissa:

Vai mesmo.

Melissa:

Vcs viajam no sábado tbm?

Frederik:

Na sexta-feira de noite por isso quis fazer essa surpresa pra ela.

Frederik:

@patrick eu te mando uma mensagem qdo eu sair com o Evandro pra comprar tudo, pego vc e a Gabi, a gente compra e de lá direto pra Nívea, fechou?

Patrick:

Ja eh!

Gabi:

Mais alguma coisa pra combinar?

Amanhã eu acordo cedo.

Melissa:

Eu tbm. To em prova até quinta

Frederik:

Não, era só isso. Na sexta-feira a gente se vê.

Patrick:

@frederik to indo pro bar da piscina, o nosso grupo daqui do condomínio marcou lá.

Patrick:

Só de zoação mesmo.

Frederik:

Beleza, to indo pra lá então.

Patrick:

Já tem gente de férias tbm

Melissa:

Boa noite gente, até sexta 🥰😘

Gabi:

Beijos em todos 😘😘😘

Patrick:

👍

Frederik:

Beijão, meninas.

Os dias que fiquei em casa foram praticamente dedicados aos preparativos da viagem de férias.

Conversei por vídeo com a minha avó sobre a nossa viagem em família, o meu primo Henry me mandou fotos do hotel onde ficaríamos hospedados na Sardenha... A minha mala de viagem ficou no chão do meu quarto e aos poucos fui colocando o que eu precisava. Sempre tive roupas na casa do meus avós então não era necessário tanta coisa. Tudo na mais perfeita normalidade.

Menos dentro de mim.

As lembranças daquela prova insistiam em me torturar e com ela, a tristeza. Tristeza, medo... Eu nunca saberia o quanto aquela nota iria impactar no meu futuro. Eu tentava não pensar no que aconteceu mas era muito difícil. O bom é que eu não tive mais febre.

Era sexta-feira quando acordei um pouco mais tarde. Meu pai já havia saído para trabalhar e minha mãe me disse que só iria realizar atendimentos na parte da tarde.

- Então você vai almoçar comigo, a Melissa e a Nicole? – perguntei enquanto estávamos deitadas juntas no sofá vendo alguma coisa na TV.

- Bom, almoçar eu não garanto mas ficarei com vocês.

- Tá bom.

- Que horas você e a Nicole marcaram mesmo?

- Uma hora.

Recostei no sofá e não consegui prestar tanta atenção no que passava na TV. Durante todos aqueles dias, não havia uma mensagem ou ligação perdida do Eric. Com certeza ele sabia que era a última pessoa com quem eu queria falar na face da terra e talvez fosse melhor assim. Na volta às aulas nós poderíamos conversar.

Eu o amava mas jamais conseguiria perdoar o que ele me fez. Será que não poderia mudar a minha nota para a média exigida? Eu errei tanta coisa assim a ponto de ficar com um nove?

Coloquei a mesa para o almoço um pouco antes do horário combinado quando ouvi a campainha tocar. Melissa veio junto do Felipe e com ele, dois potes de sorvete: um de flocos e outro de morango.

- Por mim, teria comprado dois de flocos mas sua amiga insistiu em querer outro. – disse o mais velho.

- Não custa nada mudar um pouco! – Melissa afirmou usando seus pesados cachos ruivos nos coques no alto da cabeça. – Mas e a sua amiga?

- A Nicole me enviou uma mensagem dizendo que já estava a caminho – peguei os sorvetes, fui até a cozinha e os coloquei no congelador – Ela deve chegar daqui a pouco.

- Legal. E você?

- O quê que tem eu?

Os dois me olharam sem falar nada. Apenas respirei fundo.

- Tô melhor.

- Não teve mais febre? – Felipe perguntou.

- Não.

- Que bom, então eu vou nessa.

- Não quer almoçar com a gente?

- Dessa vez eu passo, tenho uma palestra online para assistir sobre o concurso e eu não quero perder.

Felipe se despediu com um beijo na minha testa e um rápido selinho na Melissa, saindo em seguida.

- Você tá sozinha?

- Minha mãe está se arrumando mas vai ficar com a gente e depois ir pra clínica.

- Ah...

Melissa continuou a me olhar. Eu sabia que eram muitas as perguntas naqueles olhos verdes que estavam gritando para serem respondidas.

- Nós dois não conversamos se é o que quer saber.

- E não vão?

- Vai ser melhor ter essa conversa quando a gente voltar de viagem.

- Mas Ní, pensa bem, se você...

No mesmo instante eu ouço o som do intefone tocando.

- É a Nicole!

Fui atender e felizmente aquela conversa não iria adiante.

- Ela pode subir, sim! – informei ao porteiro – Obrigada.

- Ela chegou? – minha mãe apareceu na sala pronta para o trabalho.

- Chegou, já está subindo – fui até a porta e a deixei aberta.

Não demorou muito e Nicole apareceu na porta trazendo um pequeno vaso preto com delicadas violetas brancas cumprimentando a mim e a minha mãe.

- São lindas, Nicole! Obrigada.

- Flores brancas são sinônimo de paz.

- É tudo o que eu estou precisando – coloquei o pequeno vaso no centro da mesa de jantar e me voltei para ela – Essa é a Melissa.

- Oi, prazer – Melissa a cumprimentou com um abraço amigável – Foi você que pediu ajuda pra Nívea, não é isso?

- Sim e graças a ela fiquei com nove ponto sete em biologia.

- Sério, Nicole? – não esperava uma notícia tão boa.

- Sim. Fiquei acima da média em todas as matérias.

- Que bom. – sorri sem jeito - Fico feliz por você, de verdade.

Mesmo assim, não consegui disfarçar o meu semblante de tristeza ao lembrar de algo que eu não queria.

- Meu amor, não fica triste – minha mãe me abraçou pelos ombros por trás – Eu e você já conversamos a respeito disso.

- Eu sei...

- Você tirou boas notas nas outras matérias, Nívea? – Nicole quis saber.

- Sim, fiquei acima da média exigida em tudo. Menos em literatura.

- Que pena.

- Seu pai me contou onde você errou na prova. Mas você não quer saber, não é mesmo?

- Não, mãe – neguei com a cabeça e engoli em seco.

- Você vai ficar bem, Nívea. Esse nove não vai ser nada.

- Eu espero que ele não se repita.

- Então gente, vamos mudar de assunto? – Melissa sorriu – O nosso almoço já deve estar chegando!

- Como assim? Pensei que a gente ia pedir comida.

- Eu também – Nicole não entendeu nada igual a mim.

Minha mãe e a Melissa se olharam e começaram a rir.

- O que é que vocês estão me escondendo, hein? – fechei a cara e cruzei os braços.

- Ní, calma.

- Calma, nada – continuei na mesma posição – Me fala!

- Meu anjo, tem uma surpresa chegando pra você.

- Que surpresa?

- Se a gente falar não vai mais ser surpresa, hello ow! – a ruiva ironizou.

- Vocês estão com muita fome? – minha mãe perguntou.

- Mais ou menos – Nicole respondeu – Eu tomei só o café da manhã.

- Eu vivo com fome então a resposta é óbvia.

Foi quando mais uma vez, o interfone tocou.

- Deixa que eu atendo dessa vez – minha mãe foi ligeira até o aparelho – Sim, eles podem subir. Obrigada.

E piscou pra mim junto de um sorriso.

- Eles? – meu coração acelerou.

Seria o Eric com a Luciana querendo me fazer uma surpresa?

Melissa foi até a porta e a deixou aberta. Foram poucos os minutos até o momento que ouvi os passos no corredor.

- SURPRESAAAAAA!!!

Ver os meus amigos chegando com vários pacotes de lanches do McDonald’s na companhia do Evandro me paralisou a ponto de ficar boquiaberta.

- Amigaaaaa – Gabriele foi a primeira a vir na minha direção e me abraçar apertado – A gente não podia viajar sem antes ver você.

Mantive o abraço enquanto vi os meninos colocarem todos os lanches e as bandejas de papelão com os sucos em cima da mesa de jantar.

- Ah, gente... Vocês querem me fazer chorar igual no dia que eu voltei de viagem.

- Besteira! Se entupir de batata-frita é melhor do que qualquer coisa! – Patrick brincou.

- E vocês duas sabiam, não é? – questionei minha mãe e a Melissa.

- Teve grupo no zap e tudo pra gente fazer essa surpresa pra você – Melissa enfim, revelou e minha mãe apenas sorria sendo a cúmplice.

- E aí, Nick? Beleza?

- Vou bem, Patrick. – ela ficou ao meu lado também bastante surpresa.

- Bom, como ficamos sabendo que você estaria aqui com a Nívea – Frederik pegou um dos pacotes de papel e a entregou – Te trouxemos uma mc oferta do big mac.

- Obrigada. – ela apenas abriu o pacote e olhou o que estava lá dentro – Eu posso ir ao banheiro lavar as mãos?

- Claro, pode ir na minha suíte.

Ela deixou o pacote na mesa e foi rapidamente para o meu quarto.

- Crianças, antes de comer, façam o mesmo que a Nicole. – minha mãe orientou.

Nos dividimos e os meninos foram para o banheiro social e nós três para a suíte lavarmos as mãos e em poucos minutos todos estávamos reunidos novamente na mesa de jantar.

- Você está melhor, Nívea? – Evandro perguntou sério.

- Vou ficar bem.

- Ela vai sim – minha mãe me abraçou junto de um beijo no topo dos meus cabelos – Aquela nota foi apenas um arranhão de leve nos estudos.

- Eu fiquei muito preocupado – os olhos doces do Frederik me encaravam – Você ainda está com febre?

- Não. Agora estou melhor.

- Que bom – ele sorriu – A gente vai viajar hoje de noite mas não antes de fazer essa visita pra você.

- Vocês são anjos na minha vida.

- Olha, eu não sei vocês mas daqui a pouco os sanduíches vão esfriar. – Gabriele sentou-se em uma das cadeiras e começou a abrir o seu pacote.

Todos nós fomos para a mesa de jantar e fizemos o mesmo, começando a abrir e comer as mc ofertas escolhidas por cada um. Minha mãe sentou-se na cadeira de cabeceira e me sentei no colo dela. Era incrível como eu amava essa nossa conexão ainda que eu não fosse mais um bebê.

Ao abrir o meu lanche, mais uma surpresa.

- Vocês sabiam a minha mc oferta favorita??

- Nós não – Patrick respondeu enquanto comia uma batata – Apenas um de nós.

- Nas vezes em você foi lá pra casa e íamos no shopping, era sempre a mesma coisa que você pedia quando íamos ao McDonald’s – Frederik revelou, sentado ao meu lado na primeira cadeira, pegando na minha mão de forma muito gentil.

Aquilo me deixou totalmente sem reação. Por várias vezes Frederik demonstrava que era apaixonado por mim porém, não precisava dizer eu te amo. Sua demonstração de amor estava em suas atitudes.

- Assim são os amigos, meu anjo. – recebi um beijo dela no meu rosto – Estão aqui com você em forma de carinho ainda que se eles entupam de gordura – ela revirou os olhos e todos riram. – Não quer comer nada, Evandro?

- Hã? – ele estava distraído olhando para algo outra ponta da mesa – Não Helena, obrigado. Estou sem fome. – ele recusou ficando de pé.

Foi quando percebi a Nicole também distraída e não havia tocado direito no seu lanche. Olhava para ele com olhar um pouco distante.

- Nicole, senta aqui mais perto da gente! – pedi.

- O quê? – ela me olhou, saindo do transe e ela sentou-se na cadeira ao lado da Melissa.

- Ah, claro.

- Você está sem fome?

- Não, não é isso... – ela abaixou o olhar, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha esquerda.

- Não é essa a mc oferta que você gosta? – Frederik quis saber – Putz, foi mal.

- Eu gosto do big mac, Frederik. Tá tudo bem.

- Você parece um pouco pálida – Melissa observou – Se não quiser, eu como o seu lanche!

- Meli!

- Ué, o que foi?

Aos poucos, a minha colega de turma beliscou algumas batatas mas seu olhar e expressão estavam longe dali.

A Gabriele é mesmo um incômodo pra ela... pensei.

E não demorou muito para ela tomar a palavra.

- Então gente, vamos ao que interessa – ela bebeu um pouco seu suco antes de começar a falar – Quantos dias vocês vão ficar na Itália?

- Vamos ficar uma semana. – respondi após dar uma mordida e mastigar o meu quarterão – Depois disso, uma semana em Paris no apartamento dos meus avós.

- Eu quero ver o roteiro que você montou para nós duas, Ní.

- Já sabe que vamos precisar acordar cedo pra evitar fila nos pontos turísticos lotados de turistas.

- E cuidado com as pickpockets!* – minha mãe aconselhou.

- Se alguma pickpocket vier de gracinha eu saio no soco com elas – Melissa afirmou.

- Estaremos em grupo, mãe. Não se preocupe. A minha madrinha estará com a gente o tempo todo.

- É disso que eu tenho medo.

- É uma pena a gente não ter idade para entrar nos bares e nas casas noturnas de Paris – Gabriele lamentou – Iria render tanto conteúdo pra mim.

- Gabi, eu conheço alguns restaurantes legais na cidade e você pode fazer posts de vários deles.

- É, não tem outro jeito. – ela deu de ombros – Me envia os links depois.

- Envio sim.

Foi quando ouvimos o celular do Evandro tocar.

- Com licença, gente – ele saiu em direção à varanda. Atendeu a ligação e voltou rapidamente – Era o seu pai, Frederik.

- Tá tudo bem?

- Tá sim, ele só queria saber como estão as coisas.

- Que horas vai ser o voo de vocês? – Melissa perguntou antes de comer sua última batata.

- Dez da noite – Patrick respondeu – Já está tudo pronto.

- Talvez a gente não se encontre todos os dias em Paris, mesmo assim eu quero muito que vocês conheçam os meus primos. Aliás a minha família toda.

- Por mim, vocês se encontram todos os dias. – minha mãe e eu nos levantamos juntas e voltei a me sentar – A reunião está ótima crianças mas, o trabalho me chama – ela se despediu de cada um dos meus amigos com um beijo e um abraço – Façam uma boa viagem. – E pegou sua bolsa que estava no sofá. – Comportem-se pois o Evandro vai me contar tudo depois – ela piscou e o guarda-costas riu.

- Tchau, mãe.

- Tchau, meu anjo. A gente se vê de noite – me beijou e saiu em seguida.

- Nívea, acho que eu também já vou – Nicole levantou-se da mesa, ficando de pé.

- Não quer ficar mais um pouco? – perguntei – Tem sorvete de sobremesa.

- Você nem comeu o seu big mac – Patrick observou.

- Eu vou levar o big mac e o suco pro meu irmão. Comi só as batatas, estavam ótimas.

- A gente pode te dar uma carona para casa – Frederik sugeriu – Tem algum problema, Evandro?

- Não, nenhum.

- Tudo bem, Frederik – ela deu a volta na mesa vindo na minha direção – O meu motorista ficou me esperando no hall daqui do prédio. E foi legal a surpresa – ela sorriu de leve.

- Você vai viajar, Nick? – Patrick perguntou.

- Minha mãe quer ir para Gramado. Este mês é aniversário de casamento dos meus pais então vamos em família.

- Legal.

Talvez fosse somente impressão da minha parte mas a Nicole parecia um pouco tensa. Era como se ela quisesse ir embora rapidamente. Estranho pensar que estar perto da Gabriele a incomodava tanto.

- Obrigada de verdade pela ajuda, Nívea – ela virou-se para mim – Você me salvou em biologia.

- Sempre que eu puder, podemos estudar juntas.

- Como assim, vocês estudaram juntas? – Foi a vez da Gabriele perguntar.

- Bom, agora que as provas acabaram eu posso falar. Tem problema, Nicole?

- Não, problema nenhum.

- Eu e a Nicole passamos um sábado de tarde, estudando biologia aqui em casa, antes das provas começarem.

- Ué Nicole, você podia ter falado comigo e nós três estudávamos juntas lá em casa. Eu também podia ter te ajudado.

Foi no modo automático. Eu e Nicole nos olhamos e começamos a rir.

- O que foi que eu disse de engraçado?

- Também não entendi. – a ruiva disse.

- Acontece Gabriele, que você iria fazer uma simples tarde de estudos, um evento para os seus seguidores – Nicole disparou sem filtro – E eu só queria apenas estudar para tirar uma boa nota.

- Nisso, você tem razão. – Patrick concordou.

- Mas é óbvio, meus seguimores precisam estar por dentro da minha rotina!

Nicole apenas revirou os olhos.

- Boa viagem, Nívea. A gente se vê na volta às aulas – e me deu um abraço apertado de despedida.

- Obrigada.

Ela despediu-se rapidamente dos meus amigos e saiu com o pacote da mc oferta em mãos.

- Achei ela estranha... – Frederik observou.

- Eu também achei isso.

- Não é por nada não, mas eu sempre achei a Nicole um pouco esquisita – Gabriele disse enquanto olhava o seu celular. – Gente boa, mas esquisita.

- Talvez tenha acontecido alguma coisa com ela, mas não quis dizer – Evandro analisou.

- Será?

- É bem provável.

Terminamos de lanchar e no final, Gabriele quis registrar aquele momento. Pediu ao Evandro e ele tirou várias fotos nossas na mesa de jantar que ficou uma bagunça com papéis, copos e guardanapos espalhados. Em seguida, dois potes de sorvete foram devorados.

Mais um momento divertido entre amigos que eu amava. E que, com certeza, toda essa diversão teria continuação em Paris.

Ela não esperava aquela surpresa e a fome razoável que sentia, dissipou-se por inteiro no estômago...

Não foi fácil para Nicole ver os olhos do jovem que ela tanto amava voltados para aquela que a ajudou a fazer uma boa prova. Disfarçou o quanto pôde mas seu coração não aguentou em ver as mãos dele junto às dela.

Chorou na volta para casa tendo a silenciosa compreensão do seu motorista que apenas dirigia concentrado no trânsito. E chorou mais ao chegar em casa, indo direto para o seu quarto. Jogou-se em sua cama e permitiu todas as lágrimas rolarem pelo seu rosto, soluçando sem parar. Em seu refúgio, Nicole não precisava ser forte e disfarçar seus sentimentos. Ainda chorando, ela abriu o seu notebook deixado na cama, repleto de adesivos e clicou na área de trabalho que continha uma imagem.

Uma foto dele. Do dono do seu coração.

Doía em seu peito saber que Frederik nunca teria olhos para ela. E mesmo com o coração destruído, o rancor e inveja jamais teriam espaço dentro dele, uma vez que Nívea não merecia ser alvo de sentimentos tão ruins.

Era angustiante viver este amor não correspondido e sem forças suficientes para arrancá-lo de dentro de si mesma.

Angustiante. Desesperador.

- Eu vou para Bruxelas e não volto mais – disse para si mesma, enxugando as lágrimas em seu rosto – Só preciso suportar mais alguns meses.

Fugir para longe do seu amor, seria a solução?

Minha única mala estava devidamente pronta.

Uma noite de sexta-feira normal e não havia muito o que se fazer. Se eu dormisse, seria por no máximo três horas, pois eu sairia de casa no meio da madrugada com o meu pai e a Melissa para pegarmos um dos primeiros voos daquela manhã. Em Roma, nem sairíamos do aeroporto. Iríamos nos encontrar com toda a família e embarcar direto para a Sardenha.

Sentada na minha mesa de estudos, eu estava vendo vídeos no youtube para conhecer um pouco da região da ilha italiana onde eu ficaria com a minha família.

Nesse instante, meu celular começou a vibrar na mesa e, ao olhar a tela, era a imagem do coração. O ar me faltou e me senti gelada. O aparelho vibrava de forma insistente e as únicas formas de pará-lo seria atender a ligação ou recusar. Ignorar também era uma opção. Vibrou por mais algumas vezes até parar, o que foi um alívio. Infelizmente, esse alívio não durou muito tempo.

Nívea por favor, atende o telefone!

Era a notificação de mensagem dele no WhatsApp após a ligação perdida. Continuei paralisada, sem saber o que fazer. Meu coração acelerou e esbocei um sorriso por ele voltar a falar comigo depois de dias. Mas a tristeza e a raiva estavam misturadas com as minhas reações.

Novamente o celular vibrou com a ligação dele. Vibrou, vibrou e vibrou até parar mais uma vez.

Então vai ser assim? Vc vai viajar sem nós dois conversarmos? É isso mesmo?

Era uma nova mensagem junto de mais uma ligação perdida. Desbloqueei minha tela e enviei uma mensagem pra Melissa.

Tá em Ipanema?

Não demorou muito e veio a resposta.

Não, pq?

O Eric tá me ligando e enviando mensagem. Ele quer conversar comigo.

Pqp, e agora?

Eu não sei 😭😭😭

Ní, se vc tiver que resolver as coisas com ele vai ter que ser já! Aproveita que ainda tá cedo, não são nem 7 da noite. Qr se encontrar com ele lá? A gnt dá um jeito.

Eu vou falar com os meus pais.

Tá bom.

Saí do meu quarto com o meu coração aos pulos e fui falar com o meu pai que estava no escritório conversando com a minha mãe.

- Oi, meu amor. O que foi? – minha mãe perguntou.

- Sei que está um pouco em cima mas...

- Diga, mon ange.

Engoli em seco e esfreguei minhas mãos uma na outra.

- A Melissa me chamou pra irmos pra Ipanema.

- Se vocês não voltarem muito tarde, podem ir sim. – minha mãe autorizou.

- Ela quer sair pra comer em um restaurante que ainda não foi, coisas dela mesmo – inventei uma desculpa qualquer.

- Vamos sair de casa de madrugada, filha.

- Vou voltar cedo, papa. Prometo.

- Tudo bem. Vocês tomem cuidado por lá.

- Merci.

Voltei para o meu quarto e aos olhar meu celular novamente, mais algumas ligações dele perdidas. Troquei de roupa e coloquei o primeiro vestido que vi no guarda-roupa. A raiva ainda estava dentro de mim mas não sabia dizer o tamanho dela após dias desde o surto em sala de aula.

O quarto de hóspedes estava limpo e arrumado.

Fiquei olhando pela janela, pensativa, esperando por ele. Minhas mãos estavam úmidas de suor. Enviei apenas uma única mensagem para o Eric no momento em que cheguei em Ipanema dizendo que o esperava lá. Pedi ao Felipe e à Melissa para ficar sozinha e eles ficaram na sala, também aguardando o Eric chegar.

A demora parecia não ter fim. Porém, ao mesmo tempo foi bom pois seria o tempo que eu precisava para, quem sabe, colocar meus pensamentos em ordem.

Saí da janela e sentei-me na cama de solteiro, observando um ponto qualquer do quarto. Respirava e inspirava fundo tentando me manter calma.

Foi quando a campainha tocou.

Fiquei em pé, esfregando as mãos uma na outra e ouvi as vozes abafadas.

- Cadê ela?

- Está te esperando lá no quarto. – era a voz do Felipe.

Eric abriu a porta de forma rápida e paralisou ao me ver. Por poucos segundos.

- Nívea... – ele veio ligeiro na minha direção e me abraçou desesperado. Fiquei estática, sem reagir, apenas sentindo seus braços em volta de mim – Graças a Deus! – ele pôs suas mãos no meu rosto e pescoço, me observando em cada detalhe – Você está bem, meu amor? Me diz! Ainda está com febre?

Apenas continuei como estava. Parada e com meus olhos em direção aos seus.

- Me diz, Nívea! Por favor...

- Você vai alterar a minha nota para mínima exigida? – cortei toda preocupação dele de forma seca com aquela pergunta.

Eric afastou-se de mim e sua expressão mudou. A preocupação dele transformou-se em tensão no seu lindo rosto. Engoliu em seco, cerrando os punhos.

- Nívea, eu não posso fazer isso...

Ouvir aquilo trouxe de volta a mesma raiva que senti em sala de aula. Meu sangue fervia e meu corpo estremecia de raiva.

- Ah, não pode??? – minha voz alterou-se – Então é assim que você diz me amar? Faz questão de falar que atravessou o oceano porque tinha medo de me perder e agora não pode mudar A PORCARIA DE UMA NOTA???? É ISSO???

- Nívea, por favor, me escuta...

- Eu não vou te escutar! Eu não quero saber de nada que não seja outra coisa além do meu boletim alterado para a nota mínima!

- Você está agindo feito uma garota mimada! – foi a vez dele em se alterar.

- Talvez eu seja isso mesmo! Você estava certo quando me disse isso na nossa briga no ano passado. É muito fácil você jogar isso na minha cara quando não corre o risco de rejeição por alguma universidade pública.

Minha respiração alterou-se junto das lágrimas que mais uma vez rolaram pelo rosto.

- Como você acha que eu estou me sentindo até agora desde a noite que eu terminei de corrigir a sua prova? – foi a vez dele argumentar – Eu sequer estou dormindo direito essa semana toda pensando em você! Não te liguei antes porque sabia que precisávamos de tempo, você precisava!

- O tempo que você pensou em mim poderia ter usado para melhorar a minha nota! Fez isso no meu primeiro ano, pode fazer agora também!

- Aquela situação foi diferente...

- Diferente por quê?

- Você estava com meio ponto do primeiro bimestre por ter respondido as questões do livro. E ficou com nota dez. – ele continuou a explicar – O seu nove e meio no último bimestre daquela prova já estava garantido. Foi algo totalmente simbólico.

- E agora eu fico com essa nota horrível manchada no meu boletim pra sempre??? – virei as costas para ele, em direção à janela me permitindo chorar mais.

Suas mãos pousaram nos meus ombros e começaram a acariciá-los de leve ao mesmo tempo em que senti seu rosto e sua boca deixando um beijo nos fios dos meus cabelos.

- Deixa eu te explicar uma coisa... – pediu com a voz baixa. Aquela voz que me desarmava por inteiro.

- Me explicar o quê? Alguma explicação sua vai melhorar a minha nota? Não vai!

- Por favor, Nívea... Só me escuta.

Fiquei em silêncio.

- Eu estou com a minha ética profissional jogada na lama durante todo esse tempo. Mesmo assim, em sala de aula, eu ainda sou o seu professor.

Neste momento, eu o encarei. E meu coração e olhos, mesmo tomados pela raiva, conseguiam se derreter com os traços marcantes e perfeitos do seu rosto.

- Claro que é! Ir parar na diretoria foi a prova disso!

- Exato! E teria feito com qualquer aluno que me desrespeitasse em sala de aula! Com o meu coração destruído por ter sido você, mas fiz o necessário.

- Vai mudar a minha nota? – cruzei os braços mantendo olhar no seu.

- Nívea...

- Vai mudar ou não vai, Eric? – insisti.

- Mesmo se eu pudesse, não dá mais tempo.

- O quê? Como assim?

- O sistema virtual do Saint Vincent só permite alterações de notas em um período de até vinte e quatro horas. Além disso, existem coisas que não se pode mudar pelo fato de eu e você sermos namorados. Os seus dois erros na prova, eu tentei considerar alguns pontos mas infelizmente não deu.

- Meus dois erros??? – meu coração acelerou.

- As duas questões discursivas do livro – ele, enfim, revelou – Cada uma valia meio ponto e você errou as duas.

Abaixei a cabeça totalmente tomada pela tristeza.

- Então, é isso? A minha vida universitária está acabada por causa dessa nota?

- Não está, ma petite... Eu te garanto que não está.

- Para de falar isso, Eric! Você não está na minha pele, não passou tudo o que eu passei pra ficar enchendo a minha cabeça com palavras positivas.

- Nívea, uma nota nove está longe de ser o fim do mundo! – novamente ele segurou o meu rosto com cuidado querendo minha atenção – Existe sim a questão do Saint Vincent e a cobrança maior com os alunos do terceiro ano, mas no momento em que você for aceita em Lyon ou em qualquer outra instituição, porque você vai ser aceita, essa nota será um momento de alegria e não de vergonha.

- E de que adianta? Ainda tenho duas provas antes do fim das aulas e a chance de tirar uma nota ruim em literatura sempre vai me assombrar!

Foi a vez dele ficar calado pela primeira vez sem algo para refutar.

- De todas as provas, a sua é a mais demorada, Eric! Seis folhas! – me afastei dele, indo para o meio do quarto – Você não alivia em nada!

- E por que eu faria isso? – ele cruzou os braços na altura do seu peitoral - Uma vez que o colégio exige essa cobrança maior para os futuros formandos, acha que eu vou fazer o contrário? Nunca fiz isso, sequer com os meus alunos universitários. Felizmente, todos eles sempre se saíram muito bem nas provas.

- Depois do que aconteceu com a Nicole e comigo, achei que você teria mais coração com a nossa turma. Eu já entendi. Entendi que uma nota nove na faculdade é motivo de alegria e é motivo de alerta no colégio. Mas de algum jeito, você poderia aliviar.

- Eu nunca mudei a minha metodologia de aplicação das provas, Nívea.

- Eu sei... – permaneci parada o encarando – Só nos meus sonhos que você mudaria alguma coisa pela minha turma.

Eric continuou a me observar como se estivesse processando tudo aquilo que eu havia acabado de falar. Em razão do que sentia por mim, ele poderia sim aplicar provas menos complicadas para aliviar a tensão entre os alunos.

Mas eu sabia que não podia esperar muita coisa. Eric Schneider sempre seria um carrasco quando o assunto era prova e nada iria mudar.

- Eu vou pra casa. O vôo é amanhã bem cedo. – e segui em direção à porta.

- Nívea, espera! – sua mão impediu a minha de abrir a maçaneta – Você vai viajar e nós vamos ficar com essa cicatriz aberta?

Sem que ele esperasse, eu acariciei o seu rosto barbudo que eu tanto amava, sorri de canto ficando na ponta dos pés e lhe dei um selinho apertado e demorado nos lábios.

- Eu ainda estou triste com tudo isso... – continuei a acariciar o seu rosto.

- Eu sinto muito, meu amor... De verdade.

- Vou demorar para entender que as coisas nunca vão ser do meu jeito.

Eric me pegou pela mão e fomos juntos até a cama, onde sentamos lado a lado.

- Eu preciso saber e ter a certeza de que nada vai mudar entre nós dois. – ele questionou enquanto fazia um leve carinho no meu rosto. – Só isso.

- A tristeza vai demorar a passar... Mas não o meu amor por você.

- Eu fico tranquilo em ouvir isso. – e pegou na minha mão direita, dando um beijo na palma, seguido de leves massagens nos meus dedos.

- Nunca pensei que você fosse tão obcecado pelas minhas mãos.

- Elas são pequenas, macias e delicadas... – elogiou sem tirar os olhos delas – São perfeitas – voltou a me olhar.

- Eu preciso ir pra casa, Eric...

- Fica mais um pouco – suas mãos me pegaram pela cintura, me colocando no seu colo – Eu te levo em casa.

Sua boca e língua deslizaram pelo meu pescoço em direção ao meu rosto e quando percebi já estávamos unidos em um beijo. Senti minhas coxas sendo apertadas por aquelas mãos porém ele não foi além delas.

Eric sabia que eu estava triste e melancólica e não forçou nada. Por mais que eu sempre me entregasse aos seus braços e ao seu amor, naquele momento não tinha clima. E ele entendeu isso.

Não pensei em mais nada. Apenas queria mergulhar naqueles beijos repletos de amor que significavam também a paz entre nós dois.

- Então quer dizer que vamos ficar quase um mês separados de novo? – ele perguntou em meio aos beijos no meu rosto.

- Você nunca se acostuma...

- Não – e continuou a me beijar pelo pescoço – É triste ficar batendo punheta pensando nessa boceta gostosa. – falou baixinho na ponta da minha orelha me causando um arrepio.

- Eu vou te enviar fotos lá da Itália.

- Só se for pelada.

- Você sabe que eu não curto isso.

- Eu sei, ma petite... – e me beijou no rosto – Na verdade, prefiro tudo isso ao vivo.

Apenas me deixei sentir pelos beijos que o Eric deixava pelo meu ombro, pescoço e o rosto.

- Eu te amo, Nívea. – declarou-se olhando nos meus olhos - Só peço que você nunca duvide.

- Eu também te amo, Eric. E eu não duvido.

Só quero mais do que nunca que esse ano termine.

- Vai terminar e você será a mais linda naquele baile de formatura.

Trocamos um último beijo. Um beijo para ficar em nossas lembranças pois os dias longe do um do outro seriam muitos.

Um beijo que serviria para eliminar toda tensão que eu vivi naquela semana. Que não iria dar espaço para dúvidas e incertezas sobre o nosso amor.

Continua...

Nota da autora:

Ufa! Custo a acreditar que este semestre letivo finalmente terminou! Foi uma verdadeira saga narrativa para fechar de forma consistente essa reta final do segundo bimestre.

Para vocês terem uma noção, foram cinco capítulos necessários para desenvolver todo o mês de junho. Imagino que poderia ter soado bastante prolixo para alguns leitores mas eu não poderia deixar pontas soltas, principalmente agora pelo fato de que, como eu disse no Instagram, a história ganharia narrações em terceira pessoa configurando uma quase novela.

E sim, não teve as cenas que vocês tanto aguardam mas no meu ponto de vista, a Nívea passou por situações muito delicadas nessa reta final e julguei inverossímil ela e o Eric acertarem seus pontos na cama, rs.

Se decepcionei vocês com isso, minhas mais sinceras desculpas. Fiquem sossegados pois elas não serão eliminadas da história.

Espero de verdade que vocês tenham gostado deste capítulo e para aqueles não me seguem no Instagram, a novidade do momento é que em setembro eu entrarei de férias do meu trabalho. Com isso, tentarei todos os dias escrever um pouco e quem sabe lançar um capítulo.

*Range tes affaires et suis-moi = Arrume suas coisas e venha comigo

**La proviseure t’attend. Entre. = A diretora está te esperando. Entre.

Pickpockets = é uma palavra em inglês que significa batedores de carteira ou punguistas.

Trata-se de criminosos especializados em furtar pertences — como carteiras, celulares, dinheiro e passaportes — diretamente dos bolsos ou bolsas das pessoas sem que elas percebam no momento.

Contato:

a_escritora@outlook.com

/aescritora_ (Instagram)

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