Ônibus
Capítulo 2 — O silêncio entre duas poltronas
Existe um momento em toda viagem longa em que o relógio perde importância.
Ninguém mais pergunta que horas são.
O ônibus continua avançando pela estrada, mas o tempo parece desacelerar.
Foi mais ou menos nessa parte da madrugada que comecei a perceber com mais atenção a presença dele.
Até então, éramos apenas dois desconhecidos dividindo uma fileira.
Eu ainda olhava o celular de tempos em tempos, respondia alguma mensagem, via vídeos sem realmente prestar atenção. Ele fazia o mesmo.
Às vezes nossos braços quase se encostavam por causa do espaço pequeno entre as poltronas.
Cada um recuava discretamente.
Como fazem dois estranhos educados.
Lembro do som do ar-condicionado.
Do motor constante.
Das luzes fracas refletindo nos vidros.
Lá fora era impossível distinguir a paisagem.
Tudo havia se transformado em uma longa faixa escura interrompida apenas pelos faróis dos caminhões que cruzavam a rodovia.
Dentro do ônibus, quase todos dormiam.
Algumas cabeças tombavam para o lado.
Algumas cortinas balançavam levemente sempre que o veículo fazia uma curva.
Era um daqueles momentos em que parece existir um pequeno mundo isolado do restante do planeta.
Ali dentro, nenhuma preocupação do lado de fora conseguia entrar.
Em determinado momento senti frio.
Percebi que ele também.
Ele abriu a mochila grande que carregava.
Lembro dela até hoje.
Era cheia.
Havia garrafas de água.
Alguns doces.
Pacotes de salgadinhos.
Tudo muito organizado.
Ele retirou uma blusa preta de manga comprida.
Vestiu devagar.
Depois acomodou novamente a mochila entre os pés.
Achei curioso como a memória preserva cenas tão simples.
Não lembro exatamente da roupa que muitas pessoas importantes usavam em determinados dias da minha vida.
Mas lembro daquela blusa.
Daquela mochila.
Daquela calça bege.
Do pequeno brinco preto.
Como se meu cérebro tivesse entendido que, algum dia, aqueles detalhes fariam falta.
Continuei tentando agir naturalmente.
Mas havia uma curiosidade silenciosa crescendo dentro de mim.
Quem era ele?
Para onde estava viajando?
Estava voltando para casa?
Visitando alguém?
Gostava realmente daqueles jogos ou apenas assistia por distração?
Era tímido?
Extrovertido?
Tinha irmãos?
Qual seria sua risada?
Perguntas simples.
Nenhuma delas seria respondida naquela noite.
Hoje percebo que passei horas imaginando uma pessoa sem conhecer praticamente nada sobre ela.
É curioso como fazemos isso.
Construímos pequenas histórias dentro da cabeça para preencher o espaço que o silêncio deixa.
Talvez, se tivéssemos conversado durante aquelas primeiras horas, eu descobrisse alguém completamente diferente da pessoa que imaginei.
Talvez algumas idealizações desaparecessem.
Talvez outras surgissem.
Nunca vou saber.
Naquele momento, porém, nada disso importava.
O silêncio era suficiente.
Durante algum tempo, apenas seguimos viagem.
O ônibus balançava suavemente.
A estrada parecia interminável.
E foi justamente quando eu já acreditava que nada diferente aconteceria que senti um contato muito leve.
O braço dele encostou no meu.
Foi rápido.
Talvez tivesse sido apenas consequência de uma curva.
Não tenho certeza.
Nenhum de nós se afastou imediatamente.
Permanecemos imóveis por alguns segundos.
Como se ambos estivessem esperando descobrir se aquele toque havia sido apenas um acidente ou se significava alguma outra coisa.
Meu coração acelerou.
Não de maneira explosiva.
Foi uma aceleração silenciosa.
Aquela sensação conhecida de quando percebemos que alguma coisa importante talvez esteja prestes a acontecer.
Continuei olhando para a frente.
Não tive coragem de olhar diretamente para ele.
Acho que ele também não olhou para mim.
Foi estranho.
Parecia que toda a comunicação entre nós estava acontecendo por outros caminhos.
Sem palavras.
Sem perguntas.
Sem apresentações.
Apenas pela percepção do outro.
Lembro de respirar mais devagar.
Como se qualquer movimento pudesse quebrar aquele equilíbrio delicado.
Foi então que tomei uma decisão quase imperceptível.
Movi minha mão alguns centímetros, ele deitado de costas, minha mão próxima ao seu quadril.
Nada além disso.
Um gesto pequeno.
Tímido.
Quase invisível.
Não era uma certeza.
Era uma pergunta feita sem palavras.
E fiquei esperando.
Por alguns segundos não aconteceu absolutamente nada.
O ônibus continuava atravessando a madrugada.
O motor mantinha exatamente o mesmo ritmo.
Lá fora, a estrada seguia escura.
Então senti uma resposta igualmente discreta, leves reboladas em minha direção e da minha mão.
Não havia pressa.
Não havia invasão.
Apenas um gesto que parecia dizer:
“Eu percebi você.”
Foi naquele instante que compreendi algo que nunca havia experimentado daquela forma.
Existem momentos em que duas pessoas conseguem construir uma comunicação inteira sem trocar uma única frase.
Hoje, olhando para trás, acho que aquela foi a verdadeira mudança da viagem.
Não foi a intimidade que veio depois.
Ela ainda nem existia.
Foi aquele primeiro instante de reconhecimento.
O momento em que deixamos de ser apenas dois passageiros dividindo uma fileira e passamos a reconhecer a presença um do outro.
O restante da noite nasceria desse pequeno gesto.
Um gesto tão discreto que, provavelmente, qualquer outra pessoa dentro daquele ônibus jamais teria percebido.
Mas, para mim, foi como se uma porta muito antiga tivesse começado a se abrir, lentamente, por dentro.
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Fim do Capítulo 2.