O QUARTO DAS ILUSÕES PERDIDAS
Rio de Janeiro, 1891
— Parece-me que você é uma moça bem ingênua, Juliana. Sua mãe lhe ensinou como nascem as crianças?
— Claro, Dona Lurdes. Posso dizer?
— Diga.
— O homem coloca o membro de fazer xixi dentro do da mulher e solta uma sementinha.
— Exatamente. Mas esses órgãos têm outros nomes. Não sei se você os conhece.
— Não sei, não. Posso saber?
— Entre pessoas educadas, caso seja necessário tocar no assunto, diz-se "pênis" ou o apelido, "pirulito". Pessoas fora dos círculos sociais dizem "piça" ou "pau".
— Pau de madeira?
— Não. É porque ele fica duro como um pau, entende?
— Ah! Sim.
— E a nossa genitália chama-se "vagina", com vários apelidos; "xoxota" é o mais comum em conversas informais. Quando você se casar, descobrirá que, quando pirulito e xoxota se juntam, fazem coisas extraordinárias.
— Mas por que o pênis tem nome de pirulito?
— Você sabe o que é um pirulito, não sabe?
— Sei, é um doce.
— E você gosta de chupá-lo, não é?
— Com certeza.
— Pois bem, os homens gostam que as mulheres façam o mesmo com seus pirulitos. Compreende?
— Ah! Sim. Mas que gosto tem? A senhora sabe?
— Sei porque já experimentei. Não tem gosto de nada. Algumas mulheres fazem isso por dinheiro; outras, porque gostam do homem e querem lhe dar prazer. Quando você se casar, descobrirá tudo isso.
Juliana suspirou, como uma gatinha desanimada.
— Ah, Madame! Nem sei se vou casar. Acho-me feia. Não tenho os atrativos de que os homens gostam.
— Jamais pense assim — ralhou Madame Renê. — Existem homens que preferem as gorduchas, outros as magras, e há aqueles que não se importam com a constituição física, mas sim com o jeito, o olhar, a voz e o conhecimento de mundo. A maioria não suporta mulheres fúteis ou ignorantes. Por isso é importante estudar.
— Sim, senhora. Por isso mamãe me mandou aprender boas maneiras com a senhora, que é a melhor professora da capital do Reino.
— Não temos mais Reino, menina. Esqueceu que a monarquia acabou?
— Ah, sim! O Imperador foi para o exílio. Agora é a República.
— Isso. Aliás, Dom Pedro de Alcântara me presenteou com aquele conjunto de porcelana de Paris na cristaleira.
— Ouvi dizer que a senhora era amante dele. A senhora... chupou o pirulito dele?
Madame Lurdes Renê não se perturbou. Considerava Juliana uma garota sem malícia.
— Vamos mudar de assunto.
— Madame, eu não sou inteligente nem bonita. Como vou arrumar um namorado?
— Não importa. Você tem algo muito poderoso: sua xoxota. Pode não ter uma mente privilegiada, mas tem aquilo que o homem busca: algo quente e macio.
— E todas são iguais?
— Há pouca diferença no tamanho dos lábios.
— Lábios?
— Não importa o aspecto; elas são exatamente do tamanho e forma que eles precisam. Lembre-se: sua arma secreta está aí, escondidinha, pronta para dar o recado.
— Ai, Madame! Mamãe acha que a senhora é a melhor professora de etiqueta e moral do Rio de Janeiro. Ela pensa que estou aprendendo boas maneiras para o baile de gala no fim do mês.
— Eu me empolguei. Vamos voltar à lição: regras de etiqueta à mesa.
Após a aula, Juliana foi para casa. Morava com a mãe viúva na Rua do Ouvidor, próximo ao Café Locomotiva. As moradias eram quase idênticas naquele trecho: fachadas sem balcões e portas abrindo diretamente para a calçada. A mãe saíra para a costureira e aproveitaria para visitar a irmã em Santa Teresa. Sozinha, Juliana decidiu testar seus "poderes". Escolheu como cobaia o jovem Abel, que vendia jornais. Ele descansava nas escadas da tipografia enquanto esperava a impressão. Juliana acenou, e o rapaz prontamente atendeu.
— Entre. Preciso de uma opinião importante. Dela depende todo o meu futuro e meus sonhos.
Abel entrou. Juliana fechou a porta, conduziu-o ao quarto e, sem rodeios, levantou a saia.
— O que você acha dela?
Abel estacou, surpreso. Ficou tímido, mas não recuou. "Coisas estranhas e dificuldades aparecerão na sua vida", dissera seu pai uma vez. Abel conhecia o sexo apenas por gravuras proibidas vendidas sob o balcão das bancas. Sem entender as intenções da moça, perguntou:
— O que tem ela?
— É bonita ou feia?
— Não sei. Nunca vi outra para comparar, só em desenho. Feia não é.
— A minha não tem lábios grandes, é bonitinha, não?
— É, não é esbeiçada.
— Toque, para ver como é macia e quente.
Abel hesitou, mas colocou a ponta do dedo. No mesmo instante, sentiu o membro enrijecer. A sensação era nova e inebriante.
— Coloque mais — pediu Juliana.
Ela ainda não sentia nada, mas queria descobrir o mistério. Abel pressionou mais fundo, e o contato com o clitóris disparou um choque de prazer que percorreu o corpo da jovem. Ela pensou que talvez fosse melhor se ele usasse o pênis em vez do dedo, mas lembrou-se da "sementinha". Nove meses depois, o ventre cresceria, a mãe ficaria desolada e a vizinhança teria o que fofocar. Decidiu manter-se apenas no dedo de Abel. Mas faltava uma coisa.
— Quer que eu chupe?
— Chupar o quê?
— O pirulito.
Abel tateou os bolsos das calças, confuso.
— Não tenho nenhum pirulito aqui.
Naquele instante, a porta da frente rangeu. Era a mãe. Juliana abriu a janela dos fundos e ordenou que Abel fugisse. Ele saltou para o quintal e, antes de desaparecer, sussurrou: — Da próxima vez, eu trago um pirulito!